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(pt) «A BATALHA» N.219: OS ATAQUES DO PCC

Date Tue, 21 Nov 2006 19:21:55 +0100 (CET)


Consequências Contemporâneas da Exclusão Social no Brasil

por Felipe Corrêa

?Porque a opressão do Estado e a exploração capitalista
são as formas típicas da violência organizada.?
Eduardo Colombo

Entre os dias 12 e 16 do mês de maio, a cidade de São Paulo ? terceira
maior metrópole do mundo ? no Brasil, assistiu uma série de atentados
orquestrados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). A explosão dos
ataques deu-se na 6ª feira dia 12, quando 765 presos ligados ao PCC foram
transferidos de presídio; foi então que a onda de ataques começou e durou
por mais alguns dias, encerrando-se na 3ª feira dia 16. Neste período,
dezenas de policiais foram metralhados e mortos, ônibus foram queimados
pela cidade, presídios entraram em rebelião com vários presos sendo
mantidos como reféns e a cidade vivenciou uma onda de pânico jamais vista.
A rebelião foi articulada de dentro dos presídios, por meio de telefones
celulares e estabeleceu uma onda de medo jamais presenciada pelos
paulistanos. Ao mesmo tempo, houve resposta da polícia matando outras
dezenas de civis que, segundo seu discurso, teriam morrido em confronto ou
possuíam envolvimento direto com o PCC. Na 2ª feira dia 15, a cidade de
São Paulo parou: o comércio fechou, as escolas cancelaram as aulas, as
ruas estavam desertas às 20h. O povo impôs-se um toque de recolher,
alimentado pelo temor dos acontecimentos e dos boatos que corriam. O
conflito somente se encerrou após uma negociação entre governo e PCC ?
cujo conteúdo está escondido a sete chaves ? mas que é comprovada por uma
série de fatores como, por exemplo, o envio da advogada do PCC em um avião
da Polícia Militar cedido pelo governo do estado até o presídio de
Presidente Bernardes, onde está preso Marcola, um dos grandes líderes do
PCC. Em menos de um dia depois da ?visita?, os ataques haviam acabado.

Raízes do conflito
As raízes desse conflito expõem a cara de um Brasil que grande parte dos
estrangeiros não conhece. Alguns poucos dados estatísticos do Brasil
ajudam-nos a compreender a questão. De acordo com uma pesquisa divulgada
recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
mais de 14 milhões de brasileiros passaram fome em 2004. O mesmo órgão
divulgou, algum tempo antes, outras pesquisas que mostram que mais de 25%
das famílias brasileiras vivem abaixo da linha de pobreza (IBGE, 1996),
que mais de 13% da população são analfabetos ? e 26% analfabetos
funcionais ? (IBGE, 2000-2002); além disso, mostra que mais de 30% da
população não têm acesso regular a serviços de saúde (IBGE, 1998). Uma
situação que expõe a falta de perspectiva daqueles que estão sofrendo as
conseqüências da violência propagada pelo capitalismo globalizado.
A pobreza que acomete grande parte do país provoca uma inversão de valores
no povo explorado, que já não preconiza a solidariedade e a valorização da
vida. Para ele, tudo o que pode conseguir está ligado às satisfações
imediatas de consumo, estimuladas pela desigualdade social ? o Brasil tem
a segunda pior distribuição de renda do mundo. O crime organizado no
Brasil, hoje, aproveita-se disso, oferecendo uma ?perspectiva? aos
marginalizados da sociedade, constituindo-se como uma triste e concreta
proposta de se conseguir dinheiro, poder e status. Os relatos feitos pelo
rapper MV Bill em seu livro Cabeça de Porco, quando estuda os jovens e o
tráfico de drogas nas favelas brasileiras, mostram justamente isso: uma
sociedade massacrada pela miséria e cujas vítimas, já sem qualquer
perspectiva de melhorar de vida por meio de uma tentativa ?digna?, se
interessam pelo crime organizado e pelo tráfico de drogas, formando um
verdadeiro exército de reserva que entra para o crime à medida que os
atuais ?soldados? vão morrendo. Imagine você o que passa na cabeça de um
garoto que cresceu em um local de extrema pobreza, sem qualquer
oportunidade para a educação ou a saúde, com a família em dificuldades
extremas, a polícia matando seus parentes, a dificuldade do desemprego,
etc, etc. O que acontece é que o crime organizado, para este jovem, passa
a ser a única possibilidade concreta de ascensão social, de reconhecimento
na comunidade ? mesmo que seja pelo medo ?, e a possibilidade de ser morto
ou preso, simplesmente não o afeta, pois seus valores com relação à vida
são outros. Da mesma forma que presencia membros da comunidade mortos
quase que diariamente e pensa na vida mais como um sofrimento do que algo
prazeroso, a violência torna-se mais parte do cotidiano do que ameaça. Ao
ser perguntado sobre o medo da morte, um jovem traficante disse
simplesmente: ?se eu morrer, colocam outro no meu lugar e pronto?.

Análise dos factos pela sociedade
Interessante como a sociedade alienada, tende a analisar e julgar com todo
seu ímpeto as conseqüências das coisas, mas é incapaz de questionar-se
sobre as causas. Todos têm uma opinião formada sobre os ladrões, mas
ninguém raciocina por que existem ladrões. Todos têm opinião formada sobre
os presos, mas ninguém questiona por que existem presos. Todos têm opinião
sobre a corrupção parlamentar, mas ninguém questiona por que isso
acontece. Todos têm opinião sobre o Movimento Sem Terra, mas ninguém se
questiona por que os sem-terra existem. Além disso, o maniqueísmo que
divide tudo em certo e errado, correto e incorreto, bom e mau, mocinho e
bandido, e que atualmente é muito defendido pela classe média e pelos
maiores veículos da imprensa brasileira, acabam ressaltando elementos
reacionários do Estado, que no fundo sustentam o status-quo que produz
diariamente esta situação. Quando questionado sobre o ?exagero? da polícia
na repressão dos ataques feitos pelo PCC, por exemplo, o rabino Henry
Sobel admitiu que aconteceu um exagero, mas justificou, dizendo ao jornal
Folha de São Paulo que ?numa batalha entre o bem e o mal, um pouco de
exagero por parte daqueles que defendem o bem é melhor que uma possível
omissão?. ?O bem e o mal?? ?Aqueles que defendem o bem??

No caso da repressão aos crimes do PCC, a polícia paulistana foi
responsável pela morte de dezenas de civis, muitos deles mortos com tiros
a curta distância na cabeça, alguns inclusive na parte de trás, o que nos
dá sinais de execução. Outras situações foram comuns: os atingidos não
morriam no local, sendo colocados nos carros da polícia (e a cena do crime
era desarrumada) e com freqüência, chegavam ao hospital mortos. Não há
como afirmar que não aconteceram execuções no caminho para o hospital. Os
policiais aproveitaram ainda o caos gerado pelos ataques do PCC e
iniciaram uma série de ?acerto de contas? com seus desafetos e, como muito
se relatou na imprensa brasileira, acabaram responsáveis pelas mortes de
vários inocentes. Além disso, sabe-se que grande parte da polícia do país
está ligada ao crime organizado, atuando em diversas frentes que vão desde
a venda de armas e a extorsão por meio de subornos, até a plena integração
de polícia e crime organizado, em determinadas regiões.
Apesar disso, ganham espaço os argumentos da direita que preconizam
repressão mais dura aos criminosos, a discriminação dos pobres, o fim dos
direitos humanos e o recrudescimento no tratamento de presos. Ouviu-se
nesses dias, com freqüência, argumentos como: ?a polícia deveria colocar
fogo nos presídios?, ?esse povo favelado tem que morrer? ou ?os direitos
humanos são para os humanos direitos?. Repugnante como a classe média, em
grande medida, endossou esse discurso reacionário e que beira o fascismo.
É importante ressaltar que o PCC não possui elementos ideológicos que
possam ser valorizados por qualquer um que preconize valores libertários,
que busque democracia ou justiça social. As tiranias do PCC, assim como
das outras organizações do crime organizado no país, como o Comando
Vermelho do Rio de Janeiro, dependem completamente do Estado e do Capital;
buscam dinheiro, domínio e poder, reproduzindo por trás de seu discurso
contra a opressão e a administração penitenciária, uma forma de ?governo?
altamente centralizado, hierárquico e autoritário. Dessa forma,
constitui-se em um ?micro-Estado? que explora seus ?cidadãos?, que têm de
pagar em torno de R$ 7 mil por ano (aproximadamente 2400 Euros), em troca
de proteção na cadeia e apoio à família. No discurso do PCC nunca se
encontra uma critica ao capitalismo, ao sistema de distribuição de renda,
à desigualdade ou à pobreza. Se podemos classificá-lo de alguma forma, ele
está muito mais para uma organização mafiosa do que para uma organização
revolucionária ou um movimento social.

Que solução?
Mais triste do que esses reflexos ? que colocam à mostra as vísceras mais
bizarras do capitalismo ? é ver que não há qualquer perspectiva de solução
a curto ou médio prazo. Na seqüência desses acontecimentos, já que é ano
de eleições, o PT (responsável pelo governo federal do país e que tem Lula
como candidato à reeleição) acusava a administração do PSDB (que teve em
Alckmin o governador do estado de São Paulo e que agora deixou o cargo
para concorrer à presidência da República) pelo acontecido, já que detém a
responsabilidade pela administração dos presídios. O PSDB, ao mesmo tempo,
dizia que responsável pelo acontecido era o governo do PT, pois havia
cortado investimentos na área de segurança. Acusações mútuas cujo objetivo
não era resolver o problema, mas sim preparar terreno para as eleições de
outubro, utilizando o acontecido como arma política.
Após o acordo feito entre governo e PCC, tudo voltou ao ?normal?. Talvez
se faça algum investimento na área de segurança, talvez se consiga uma
verba ou outra para diminuição da pobreza, mas nada que dê uma perspectiva
para a solução desse problema. Mesmo com esses acontecimentos, que
colocaram uma série de questões na ordem do dia, poucos foram aqueles que
refletiram minimamente, e tentaram buscar as raízes do conflito, pensando
o problema social de hoje. Poucos foram aqueles que, além das políticas
que visam enxugar o gelo, puderam refletir sobre como resolver a questão.
Enfim, a essa altura dos acontecimentos não sei como é possível as pessoas
considerarem ?o bem? um Estado reacionário, opressor, burocrático e
corrupto que aliena o povo a cada dia, e um capitalismo que aumenta a
exploração, a desigualdade e que não oferece qualquer perspectiva de
solução para essas questões. Isso sim é que é violência; contra o
bom-senso.


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