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(pt) Entrevista à "comandante dos microfones" na insurreição de Oaxa ca [ca]

Date Sun, 19 Nov 2006 11:57:13 +0100 (CET)


[de CMI Brasil]
"Apenas dissemos pela rádio 'vão nos atacar' e ninguém sabe de onde veio
tanta gente".

Ninguém sabe como funciona o plantão da Rádio Universidade, emissora que
mantém vivo o movimento popular com suas transmissões diárias. Ninguém
consegue explicar de onde saiu a multidão que se somou às mobilizações.
Não há analista que possa descrever como se estruturou essa massa que se
move hoje, a Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO). "Mas que
funciona, funciona. Como as leis do universo", diz a doutora Berta Muñoz.
Com o seu eterno cigarro e um copo de café, afirma, "agora vivo aqui,
estou entrincheirada, já não me permitem sair". Faz duas semanas, a Rádio
Cidadania pró-governamental, faz ameaças, inclusive de morte contra a quem
chamam de "doutora metralhadora". São as mesmas mensagens que recebe em
seu telefone celular. A reportagem é do jornal mexicano La Jornada,
16-11-06.

Você sabe se o seu nome consta da lista de mandatos de prisão que estão em
andamento?

"Como vou saber. Se sim ou não, não me preocupa. O que podem fazer? Eu não
vou me esconder, não vou para outro país e nem vou me meter em uma
Igreja".

Do anonimato em que vivia antes do surgimento do conflito, dedicada à
cátedra de medicina, com sua figura delgada e cabelos cinza, hoje é quase
um ícone do movimento. Por um lado, a ameaçam e por outro, a identificam
como a "voz do povo". Ela prefere ficar fora da polêmica, recusa o
protagonismo de sua pessoa e deixa tudo nas mãos do coletivo a que se
integrou como uma a mais, faz seis meses. "Aqui responsáveis somos todos",
afirma.

O espaço que ocupa na Rádio Universidade, no centro do Campus da
Universidade Autônoma Benito Juarez de Oaxaca (UABJO) se transformou em um
pequeno forte. As ruas e avenidas próximas estão bloqueadas por
barricadas. Todos os dias passam centenas de pessoas por essa porta: uma
professora aposentada que leva bolinhos, uma enfermeira com medicamentos,
um camponês que leva uma carta para a doutora Berta, um vizinho com um
enorme frasco de maionese e queijo, jornalistas que passam apenas para
olhar, músicos e jovens que vem saudá-la.

"As pessoas não têm deixado de nos apoiar em nenhum momento. Vêm
professores, pessoas de classe média, gente humilde, famílias. Todos,
menos a alta sociedade", diz a doutora. "O dia 2 de novembro foi coisa de
minutos. Estávamos meio sozinhos nesta noite. Apenas dissemos pela rádio
'vão nos atacar' e ninguém sabe de onde veio tanta gente". "Este fenômeno
de participação popular em Oaxaca terá que ser estudado por sociólogos e
politólogos por muito tempo".

Como você explica esse movimento?

"Creio que é o cansaço de anos. As pessoas tiveram que agüentar durante
muitos anos governos abusivos, autoridades que mentem, além da miséria, o
esquecimento e o desprezo. O governo errou. Pensou que mais uma vez
obrigariam aos dirigentes do sindicato dos professores ao retorno às aulas
e tudo ia terminar. Mas não foi assim".

Berta Muñoz começou cooperando com o movimento estudantil organizando um
posto de saúde e colocando uma ambulância a serviço das pessoas.
Participou da caravana que 'marchou' até a Cidade do México no começo de
outubro. Depois começou a ajudar os estudantes que não conseguiam cobrir
todos os turnos frente aos microfones com transmissões de até 20 horas por
dia. A Rádio Universidade foi a primeira rádio, depois da Rádio Pacheco, a
integrar a inédita experiência de rádios populares que teve Oaxaca durante
várias semanas. Quando as rádios comercias, tomadas pelos professores da
APPO, saíram do ar ou foram entregues, a Rádio Universidade, acabou sendo
a única voz de denúncia e de comunicação para contra-informar as
distorções dos outros meios eletrônicos.

Sete horas de cabine

De 2 de novembro, a doutora recorda ter passado sete horas seguidas dentro
da sufocante cabine no qual se infiltrava o cheiro do gás lacrimogêneo.
Frente ao microfone, com sua inconfundível voz de fumante empedernida,
chamava à defesa e à mobilização.

Doutora Berta? Perguntam duas professoras que acabam de chegar. São Maria
del Carmen Altamirano e Clara Sánchez, da greve de fome que se instalou
junto ao monumento a Juarez.

"Para servi-las".

"A comandante dos microfones"!

Abraçam-se efusivamente. Contam-lhe sobre as horas de angústia que viveram
os grevistas no acampamento no dia em que se deu o conflito de rua, de
como sintonizaram a Rádio Universidade. "Obrigado, tua voz nos deu tanta
paz".

Quando a Universidade voltar à normalidade, como vê a Rádio Universidade
no futuro?

"Com uma programação mais de acordo com o povo que a escuta. Temos que
aproveitar essa grande experiência. Os universitários têm que assumir um
papel ao lado do povo, mas antes teremos uma batalha muito forte aqui
porque há 'vendidos' incrustados na universidade desde o que vivemos em
1976. mas creio que a Rádio Universidade jamais voltará a ser o que era
antes.

E a sua história doutora? De onde vem?

- "Sou filha de 1968. Sempre tive professores que me ensinaram a ser
crítica".

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