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(pt) Retirado de «Combate Anarquista»: Militância e Ativismo - Porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa

Date Thu, 16 Nov 2006 19:03:02 +0100 (CET)


Textos como este é sempre bom relembrar ,ainda mais com o esporádico
ascenso de algumas jovens expressões do ativismo.
Texto publicado no antigo "Combate Anarquista", hoje incorporado ao jornal
"Socialismo Libertário" da Organização Socialista Libertária (OSL) e
grupos Fórum do Anarquismo Organizado (FAO)

No meio libertário é grande a confusão que se faz em torno do conceito de
militância. Chega-se inclusive ao absurdo de tratá-lo como algo próprio do
que é ou de quem é militar, ou na melhor das hipóteses, como se fosse algo
dogmático, padronizado, típico de um militante comunista ortodoxo.
Caracterizações como essas evidenciam um infeliz e desesperado esforço de
aproximar a militância de algo autoritário e hierárquico, supervalorizando
um vocabulário institucionalizado, e aí sim militar, em detrimento de toda
uma infinidade de conceitos produzidos a partir da luta real e histórica
de organizações populares e específicas anarquistas em busca de uma
sociedade mais justa. Evidenciam também um claro desrespeito ao histórico
de lutas do trabalhador, que forjou cada um desses conceitos com seu
próprio sangue e dedicação ao longo dos tempos e em diversos lugares.
Geralmente os críticos da militância opõem a ela e propõem como forma de
atuação política o ativismo. Mas será que militância e ativismo podem ser
comparados e substituídos um pelo outro? Muito mais do que termos,
palavras diferentes, ambos são conceitos diferentes e como tais têm
conteúdos diferentes que em nosso ponto de vista, mais do que se
distinguirem, se opõem muitos aspectos.
Militância, por exemplo, pressupõe um grau de entrega, seriedade e
compromisso que geralmente não está presente no ativismo, assim como o
desenvolvimento de um trabalho regular que busque envolver na luta
revolucionária os mais diversos setores explorados e oprimidos da
sociedade. Militância também pressupõe um trabalho de longo prazo onde o
militante verdadeiramente comprometido vê-se obrigado a reorganizar sua
própria vida, abrir mão de muita coisa, enfim transformar sua própria vida
em prática militante.
Enquanto na militância ela própria passa a ser a vida do militante, no
ativismo acontece a relação oposta e a própria vida é que passa a ser a
prática ativista. No primeiro caso, a vida pessoal se adapta às
necessidades da luta, no segundo caso, é a militância que deve caber na
vida pessoal do indivíduo. Dessa maneira cria-se um estilo diferenciado,
que inclui o modo de se vestir e adornar o corpo, de se alimentar, a
maneira de morar e decorar a casa, de se manter economicamente e se
desenvolve o gosto cultural pelo que é supostamente ?consciente?, entre
outras coisas. Criam-se variações, atuações criativas e esporádicas onde
?tudo é anarquismo?. Enfim opta-se por um estilo de vida excêntrico que
passa a ser a própria atuação política, possibilitando assim, que não se
precise abrir mão de nenhum prazer e diversão em prol da ?revolução?, pois
ela já foi feita por ele (o ativista) consigo mesmo. É como se a revolução
fosse algo meramente individual, existente no comportamento, e não um
processo social.
Tudo isso faz com que a partir do ativismo o cara não se veja mais como um
trabalhador, explorado pelo capitalismo e oprimido pelo Estado, mas
unicamente como ativista, afastando-se dos meios sociais ?normais e
alienados?, identificando-se apenas com outros ativistas e criando um
isolamento do campo popular incompatível com a militância. Muitas vezes
reproduzindo preconceitos de classe sociais intermediárias da sociedade,
onde têm origem muitos jovens que se aproximam do ativismo, segundo a
autocrítica do próprio Reclaim the Streets ? grupo inglês que foi um dos
maiores incentivadores da dinâmica ativista no final da década de 90.

O ativismo em relação aos movimentos sociais
e à população em geral

Esse isolamento dá origem a um grupo social peculiar que tem certas normas
de conduta e que se opõe a outros grupos devido a sua visão diferenciada
de mundo, opondo-se inclusive ao próprio trabalhador enquanto
representante das classes oprimidas, que passa a ser visto como uma
?pessoa comum? ou alguém que ?não tem nada a ver?. Este tipo de ativista
constitui um novo gueto social, com seus próprios valores e no final das
contas tem grandes dificuldades de dialogar com todo aquele que seja
diferente dele. É interessante notar que quando se encontram alguns destes
ativistas em meio a um público mais amplo eles conversam apenas entre
eles, apenas sobre os sons, os lugares, as coisas que interessam a eles,
um tipo de papo que simplesmente impede o contato de quem seja diferente,
não nenhum esforço para conhecer, se integrar, dialogar.
Ironicamente o ativista se propõe a lutar contra o capitalismo, e fica
implícito que luta contra os efeitos perversos deste sistema. Ora quem
mais sofre com este sistema são as classes trabalhadoras e exploradas. Mas
o irônico é que os ativistas não lutam nunca com elas e sim por elas,
dando origem a uma verdadeira elite dirigente, por mais que esperneiem
contra o autoritarismo, o dirigismo, o vanguardismo, refutando isso com
palavras, na prática a postura leva justamente a isso. Este ponto é
polêmico, pois os próprios defensores do ativismo acusam os militantes
mais regulares, pertencentes a grupos políticos e movimentos sociais de
serem dirigentes e manipularem as massas. Na verdade essa é uma falsa pois
o militante em geral faz parte da massa; mesmo que esteja organizado
politicamente com pessoas de afinidade política similares; não deixa de
ser parte das massas, que sofrem com as mazelas do capitalismo e por isso
mesmo se organiza socialmente em movimentos sem feição ideológica,
religiosa, etc., que pelo seu perfil Bakunin chamou de movimentos de
massa.
O militante só pode ser entendido como dirigente se for no sentido de que
o seu dever é o de garantir o caráter revolucionário, e libertário no caso
do anarquismo, dos movimentos sociais e isso se faz não por decreto, mas
de igual para igual através de discussão e prática política. Mesmo assim
seu papel se resume a isso, cuidar para que o movimento não caia no
reformismo e avance cada vez mais e por si mesmo rumo à radicalização e
futuramente a uma ruptura revolucionária, sendo essa a única direção para
qual ele aponta. O militante anarquista nada mais é do que um fomentador
da revolução social nos meios apáticos ou acorrentados pelo reformismo.
Ironicamente é o ativismo que assume um caráter tipicamente dirigente. Uma
das atividades mais comuns, e talvez o ponto alto da dinâmica ativista, é
mobilizar os que já estão engajados ideologicamente para atos de rua
quantitativamente expressivos, festivos e/ou violentos contra o
capitalismo e a globalização, nos moldes dos atos promovidos pela AGP ao
redor do mundo, sempre em nome da população pobre e explorada, já que é
ela quem mais sofre com o capitalismo e a globalização da economia. Atos
esses que se tornaram grandes devido ao fenômeno do turismo político (que
atrai ativistas de outras regiões e até países), mas que raramente contam
com a participação do pivô da história, o trabalhador e suas entidades de
luta. Nesse tipo de ato ao trabalhador lamentavelmente fica reservado ao
papel de expectador que apenas observa indiferente pela janela do ônibus
que o leva a caminho do trabalho.
Mesmo que houvesse alguma participação popular, organizada ou não, num ato
desse tipo, ela facilmente seria arrastada pelo ativismo dirigente que
pensa, organiza e ideologiza o ato sozinho. Nesse caso existe um muro que
separa o ativista, que não atua socialmente, e o militante social, que
busca no seu dia a dia envolver cada vez mais gente na luta: o primeiro
organiza e o segundo vai na maré. Os papéis são bem claros, enquanto ao
militante social cabe toda a tarefa regular e diária, ao ativista resta o
trabalho profissional de organizar um ato de vez em quando. É como se o
ativista, ou a elite ativista, fosse uma ponte pela qual o trabalhador
teria obrigatoriamente que passar rumo à liberdade. Nós como anarquistas
sempre reivindicamos o trabalhador como protagonista da transformação
social. ?A emancipação do trabalhador será obra do próprio trabalhador?,
?Façamos nós por nossas mãos tudo que a nós nos diz respeito?. De que
serve a letra da Internacional e o próprio anarquismo se for para atuar
isolado do povo ou, o que é pior, em nome dele?


Os dirigentes ?invisíveis? e a hierarquia informal

Mas o dirigismo ativista se manifesta é no interior do próprio movimento
ativista. Sob o argumento do anti-autoritarismo, abre-se mão de qualquer
organicidade, método decisório e principalmente da unidade na ação em prol
do espontaneísmo. Porém, freqüentemente o único espontaneísmo que se
manifesta é o de uma pequena fração de pessoas que, por serem mais
experientes, terem mais tempo livre, possuírem os ?contatos?, dominarem
melhor as palavras, serem mais desinibidas, terem um tom de voz mais alto
e uma infinidade de outros fatores, acabam impondo sua vontade à maioria,
que terá que segui-la se quiser ?fazer alguma coisa?, segundo a própria
lógica ativista de fazer algo em tudo sem centrar forças em nada.
Posteriormente o grupo dirigente e engajado arroga-se no direito de cobrar
e pôr o dedo na cara de qualquer um que deixar de fazer algo (o que
deveria ser um direito já que na dinâmica ativista ninguém é obrigado a
fazer o que não queira) e com isso ganhar mais respeito e autoridade
ainda, afinal de contas eles foram os que fizeram. Não importa quais foram
os resultados, eles fizeram sua parte e sentem-se no direito de cobrar dos
que não fizeram. São legítimos líderes.
Para quem tem dúvidas sobre isso, basta fazer um esforço de memória e se
perguntar quem decide o destino das verbas arrecadadas em nome do
movimento? Quem decide o que deve ser ou não notícia de destaque? Que
alguém decide todos sabemos, mas como, quem, com que critérios, tudo isso
permanece envolto numa nuvem de fumaça. Por detrás dela estão dirigentes
auto-elegidos que fazem e desfazem em nome do coletivo, que de fato
dirigem tal como os dirigentes das centrais sindicais e partidos que tanto
criticam.
A organicidade e a existência de mecanismos de impeçam a reprodução da
autoridade são necessários. O federalismo é uma ferramenta importante onde
a democracia direta é exercida nos grupos e a decisão final é tomada numa
instância maior entre os delegados dos grupos, mas tanto nesse caso como
no caso de grupos menores onde a delegação ainda não é necessária, a
unidade na ação é muito importante, pois é ela que permite a realização de
qualquer atividade e depois sua avaliação coletiva. Em grupos menores,
mais integrados devido à prática diária, a democracia direta é uma
realidade, mas em reuniões mais amplas e com pessoas que mal se conhecem,
mecanismos como inscrição e tempo de fala são garantias contra a
centralização e estimulam a participação coletiva nos debates. Os
verdadeiros autoritários, não gostam disso. No caos eles reinam e se
impõem, com regras coletivas e igualdade são obrigados a respeitar os
demais, já não podem ganhar no grito, o seu personalismo fica melindrado.
(Para o desespero de alguns continua no próximo número)

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