A - I n f o s
a multi-lingual news service by, for, and about anarchists **

News in all languages
Last 40 posts (Homepage) Last two weeks' posts

The last 100 posts, according to language
Castellano_ Deutsch_ Nederlands_ English_ Français_ Italiano_ Polski_ Português_ Russkyi_ Suomi_ Svenska_ Türkçe_ The.Supplement
First few lines of all posts of last 24 hours || of past 30 days | of 2002 | of 2003 | of 2004 | of 2005 | of 2006

Syndication Of A-Infos - including RDF | How to Syndicate A-Infos
Subscribe to the a-infos newsgroups
{Info on A-Infos}

(pt) Tango e anarquia: "O desafio é que estes dois produtos tão genuínos voltem a ter sentido aos olhos do povo" [ca]

Date Tue, 14 Nov 2006 13:24:11 +0100 (CET)


À primeira vista falar de tango e anarquismo parece um absurdo, mas, na
verdade, não é. E isso podemos constatar na entrevista a seguir com o
libertário argentino Lautaro Kaller. Confira!

Agência de Notícias Anarquistas > Conte-me um pouco quem é Lautaro Kaller...
Lautaro Kaller < Nasci no dia 20 de março de 1973 em Bouquet (Santa Fé).
Terminado o colégio secundário me mudei para Rosário, aonde cursei estudos
de Licenciatura em Análises Políticas (que não finalizei). Paralelamente,
comecei a realizar pesquisas relativas ao tango e a trabalhar em
diferentes emissoras de rádio da cidade. Atualmente dirijo um programa
semanal na LT2 (AM 1230) e realizo participações em outro programa diário
transmitido pela mesma emissora. Por outro lado, finalizei este ano um
trabalho sobre o tango em Rosário, que recorre as distintas épocas do
gênero na cidade, assim como os personagens e diretores de orquestras mais
importantes. O mesmo será editado pela Editora Municipal de Rosário.

ANA > E quando começou a se interessar por esses temas, tango e
anarquismo? Como se dá na prática essa conexão, o que tem em comum?
Lautaro < Sempre tive fixação pelo tango e pelo anarquismo. Desde pequeno
freqüentei leituras e outros elementos sobre ambos temas. E quanto da
conexão, é algo que foi amadurecendo em mim. Quando encontrava algum
ingrediente no tango que tivesse algo a ver com o anarquismo (e
vice-versa) procurava um tratamento mais que especial. Assim, pude ir
compilando uma série de dados.
De todas as formas, cabe esclarecer que esta aproximação entre tango e
anarquismo não quer significar que estejam ligados indissoluvelmente,
senão que através dela, tento destacar pontos de proximidade (e
distanciamento) entre ambos.
Quanto aos pontos em comum, devo assinalar, em primeiro lugar, o contexto
social e o momento histórico em que se gestam (em Argentina) e se
desenvolvem o tango e o anarquismo.
Estamos falando de fins do século XIX e princípios do XX. Ambos produtos
da imigração aluvial e valendo-se da população crioula, sobretudo do
gaúcho. O caso do tango é que dos diferentes gêneros musicais estrangeiros
(habanera, romanza, ritmos negros) se somou ao canto do payador. De tudo
isto, e em relação dialética no sentido marxista (aonde a síntese supera
seus anteriores), é de onde vêm o tango. Enquanto ao anarquismo,
conhecemos que também provêm intelectualmente de grupos estrangeiros,
principalmente europeus, e que chega em nossa região, tal como o afirmou
em mais de uma oportunidade Rodolfo González Pacheco, a calar fundo no
espírito de liberdade do gaúcho, e por fim ao canto do payador.
Não seria loucura dizer, então, que em um fragmento de tempo, o mesmo
grupo social criou os dois espaços, de tanta transcendência na Argentina
(creio que, além disso, é importante citar o auge que chegou o anarquismo
neste país).
Agora bem, o desafio é fazer uma perseguição de ambos desenvolvimentos e
tratar de desentranhar os pontos de proximidade e distância. Na realidade,
se os postulados que esse mesmo setor social promulgou para a ideologia
anarquista, foram também realizados no tango. E por que não, se a essência
mesma do tango se mudou para o anarquismo.
Desde aqui tudo parece indicar que o anarquismo é uma produção totalmente
revolucionária e proletária e o tango uma produção pequeno burguesa, com
tudo o que isso implica. Sem dúvida, creio que essa visão é falsa, ou ao
menos incompleta, e que se deve a posterior adaptação que o mercado fez do
tango. É indubitável que a indústria discográfica, aproveitando sua real e
enorme popularidade, se apossou sobre o tango com o já sabido resultado.
Sem dúvida, considero que esse gênero musical teve uma importância
decisiva, enquanto criação artística popular.
Por outra parte, teimo nos ingredientes anarquistas na produção tangueira
(algo um pouco mais enraizado) e por último, os atores que se moveram na
cozinha mesma do tango e que foram anarquistas.

ANA > E quais seriam esses ingredientes?
Lautaro < Os ingredientes podem ser, entre outros: uma demonstração de
ateísmo, como em "Como abrazao a un rencor" (Rafael Rossi-Antonio
Podestá); alusão a Lei de Residência 4144, tão preocupante para o
movimento anarquista, como em "Al pie de la Santa Cruz" (Enrique
Delfino-Mario Battistella); o protesto contra a desigualdade social, como
em "Pan" (Eduardo Pereyra-Celedonio Flores); ou algumas celeumas diretas
contra a burguesia, como em tangos anônimos de princípios do século.

ANA > O tango efetivamente fazia parte dos ambientes anarquistas na
Argentina?
Lautaro < O tango não forma parte de ambientes anarquistas, senão que, do
mesmo segmento social se desenvolveram em nosso país o anarquismo e o
tango.

ANA > Mas no auge do movimento anarquista argentino, o tango não era um
elemento das festas, lazer dos espaços anarquistas, anarco-sindicalistas?
Lautaro < Para muitos anarquistas sim. Existem, inclusive, alguns tangos
que eram interpretados nos piqueniques da Ilha Maciel, tipicamente
anarquistas. Outros ácratas, mais preocupados com a militância, tiveram
que "afastar-se" dos bailongos e do tango porque lhes tirava tempo de suas
funções de militante, tal como, por exemplo, conta Jacinto Cimazo.

ANA > Parece que era comum encontrar letras de tango com um fundo
anarquista, não?
Lautaro < Não é comum encontrar letras de tango com um fundo anarquista.
Na realidade, é necessário distinguir entre o que é o repertório conhecido
(o que se foi levado ao disco), da grande quantidade de obras que tem
ficado no esquecimento. Nestas últimas somente encontrará letras com forte
conteúdo social. Nas primeiras se torna muito mais difícil.

ANA > Muito tempo atrás li um artigo numa revista brasileira que dizia que
as melhores composições de tango foram feitas pelo argentino Virgilio
Expósito, que era filho de anarquistas. Concorda?
Lautaro < Virgilio Expósito foi um ótimo compositor de tango, mas não a
ponto de ser reconhecido como o melhor melodista do gênero. Suas obras
destacadas têm letras de seu irmão Homero, quem sim é considerado um
letrista fundamental do tango. Com o qual, podemos dizer que Virgilio
realizou verdadeiras criações ("Farol", "Naranjo en flor", "Maquillaje",
"Absurdo" -vals-, "Chau, no va más", "Tu casa ya no está" -vals-, "Siempre
París", entre as mais importantes), mas ninguém acha que é o realizador
das melhores composições (há melodistas quantitativa e qualitativamente
mais importantes como Aníbal Troilo, Lucio Demare, Sebastián Piana,
Armando Pontier etc). Por outro lado, há muitos que consideram a Homero
Expósito como o letrista mais importante; considerando que, além das obras
com seu irmão, escreveu com Pontier, Enrique Mario Francini, Domingo
Federico, Troilo etc (compartilha o pódio da letrística tangueira com
Homero Manzi, Enrique Santos Discépolo, Celedonio Flores, Enrique Cadícamo
e Cátulo Castillo).
E quanto a sua ascendência, eram filhos de um anarquista chamado Manuel
Juan Expósito, pedreiro de profissão e poeta de vocação, que chegou a
dominar quatro idiomas e que havia nascido na Casa de Niños Expósitos
(órfãos) da rua Montes de Oca, em Buenos Aires. Sua mãe, Rafaela del
Giúdice Cafaro, também era anarquista e era conhecida pelo seu pseudônimo
de Luta.

ANA > E as novas gerações de anarquistas argentinos mantêm essa relação
com o tango, ou é algo distante deles e delas?
Lautaro < A nova geração de anarquistas argentinos está muito dispersa e,
temo, totalmente distante do tango (percebo que o punk atrai a muitos
jovens). Presumo que nem sequer sabem o que é o tango. Na realidade, a
sociedade argentina está longe do gênero. A comercialização da música em
níveis incríveis fez estragos nos gêneros populares argentinos. Por outra
parte, conhecemos a problemática e as controvérsias sobre as novas
vertentes anarquistas.

ANA > Costuma-se definir o tango como machista. Qual é sua opinião?
Lautaro < Em geral, creio que o tango suporta, lamentavelmente, uma grande
dose de machismo. Há frases em alguns tangos clássicos que demonstram isso
claramente: "las mujeres siempre son las que matan la ilusión" (de "La
casita de mis viejos" -E.Cadícamo-), "mulher pa' ser falluta" (de "Las
vueltas de la vida" -Manuel Romero-, etc). Isto se deve, segundo acredito,
a sua condição de produto artístico reflexo de uma época.
Sem dúvida, os grandes poetas românticos do tango, como Homero Manzi ou
José María Contursi, mostram um trato sumamente respeitoso a mulher.

ANA > Mas houve muitas compositoras e cantoras mulheres, sim?
Lautaro < Por certo, houve muitas cantoras no tango, algumas das quais,
alcançaram grande esplendor (Libertad Lamarque, Azucena Maizani, Rosita
Quiroga, Mercedes Simone, Adhelma Falcón etc).Também algumas compositoras
como Herminia Velich ou Rosita Melo, mas isto não contradiz o espírito
machista que se apresentava na sociedade argentina, e por conseqüência, no
tango.

ANA > Nas suas pesquisas conseguiu descobrir alguma mulher anarquista?
Compositora ou cantora?
Lautaro < Libertad Lamarque (tal qual o nome indica) vinha de uma família
anarquista de Rosário. Seu pai, Lorenzo Lamarque era um ativo militante da
cidade. Ela não mostrou durante sua carreira artística inclinações
ideológicas ou políticas. Só aquela cacetada que deu em Eva Perón, pela
qual teve que se exilar no México.

ANA > É verdade que na origem do tango, era muito comum encontrar dois
homens dançando juntos?
Lautaro < É verdade que, em suas origens, era comum encontrar dois homens
bailando juntos. Isto se devia, principalmente, por que se praticava em
lugares em que as únicas mulheres que entravam eram prostitutas, muitas
vezes escassas para tantos homens sós (recordemos o aluvião migratório que
recebeu Argentina em fins do século XIX e princípios do XX).

ANA > A igreja já censurou o tango?
Lautaro < O tango foi censurado continuamente pelos poderes de turno.
Durante muitíssimos anos foi mal visto pela oligarquia e, obviamente, pela
igreja católica. Foi proibido pelo Papa, e na Argentina, por exemplo,
Monseñor Franceschi, orou para que a gente não fosse ao enterro de Carlos
Gardel. Por outro lado, continuamente foi censurado o uso do lunfardo,
pelo que se obrigavam a mudar palavras com seu lógico prejuízo. A nós,
estimado Moésio, nos estorva o idioma, pelo qual não lhe transcrevo
algumas barbaridades que foram realizadas com nosso tango.

ANA > Essa censura se devia ao fato do tango carregar muitos elementos
eróticos, fazer parte de ambientes boêmios, como prostíbulos?
Lautaro < Essa censura da linguagem prostibulária ocorreu nos começos do
tango (fins do século XIX e princípios do XX), onde, efetivamente, se
colocavam letras de alto conteúdo erótico (o tango "Cara sucia", por
exemplo, se denominava "Concha sucia", e no estribilho se fazia constante
referência ao título).

ANA > Que filme você destacaria sobre tango, algum especial?
Lautaro < O cinema argentino esteve desde seus inícios, intimamente
relacionado com o tango. Basta assinalar que a primeira película sonora de
nosso país se chamou "Tango" (dirigida por Moglia Barth), aonde desfilam
grande quantidade de intérpretes. Logo, em muitos filmes se têm sido
recriados, acordadamente, ambientes tangueiros, ou seja, se tem narrado
histórias de tangos ou de seus personagens. Isto, especialmente na época
peronista e, por fim, atravessado de populismo. Advirto-lhe que não
encontrará aí um grande espírito libertário.

ANA > Para finalizar a nossa entrevista, você dança tango? [risos]
Lautaro < Não, estimado Moésio, não danço tango. Muitas vezes me perguntam
como pode ser isso, mas é assim.

ANA > Gostaria de deixar algum recado, mensagem final? Obrigado!
Lautaro < Creio que, o espírito criativo libertário, que tanto proclamam
os críticos ácratas, se desenvolveu na gênesis do tango. Logo, a indústria
comercial aproveitou sua popularidade e o tango teve que mudar alguns de
seus aspectos.
De toda maneira, esse grito de rebeldia, essa legítima expressão popular
não se foi de toda perdida. Está, indubitavelmente, na mão esquerda de
Aníbal Troilo, na "mugre" da orquestra de Alfredo Gobbi ou nesse tom
retozón e "compadre" do idioma portenho.
Do surgimento da anarquia não há nada que agregar. Seu desenvolvimento na
Argentina foi uma história de solidariedade, entrega, heroísmo e canto a
liberdade.
Pessoalmente, iria gostar que o tango tivesse um pouco mais de anarquismo
e, por que não? Que o movimento anarquista argentino tivesse um pouco mais
de tango.
O desafio é que estes dois produtos tão genuínos voltem a ter sentido aos
olhos do povo.

Contato: Lautaro Kaller > lautaro_k@yahoo.com.ar

Tradução: Juvei
_______________________________________________
A-infos-pt mailing list
A-infos-pt@ainfos.ca
http://ainfos.ca/cgi-bin/mailman/listinfo/a-infos-pt
http://ainfos.ca/pt


A-Infos Information Center