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(pt) [ROJO Y NEGRO] Horst Stowasser: "O Projeto A pretende ser revolucionário" [ca]

Date Thu, 9 Nov 2006 22:08:29 +0100 (CET)


por Ángel Bosqued - 25 de outubro de 2006 - Rojo y Negro

Horst Stowasser é escritor alemão, militante da FAU e um dos máximos
impulsionadores do Projeto A, uma iniciativa revolucionária para
?reconquistar a cotidianidade em um bairro ou em uma cidade mediante um
modelo de anarquia vivida através do exemplo?.

A: Horst nos explique um pouco o que é o Projeto A?
H: O que é ou o que será?

A: O que será. Qual era a primeira parte: a origem, em que noite de
luxúria e boemia lhes ocorreu montar isto.
H: Foi menos boemia e mais frustração com o movimento anarco. A meta do
Projeto A é a de todos os anarcos: a revolução mundial, sem dúvida: a
mudança profunda da vida, mas vamos... Trata-se basicamente de encontrar
um caminho adequado à situação de hoje em dia, como transformar a
sociedade sem barricadas nem petardos - e isto simplesmente porque não
estamos precisamente em uma situação de barricadas e petardos, ou seja,
uma situação revolucionária como, por exemplo, a de 36. Por outra parte
era desenhado como um projeto que pretende ser revolucionário no sentido
radical da palavra, sem cair nas armadilhas do reformismo. Portanto,
arranca dos pontos básicos que a todos nos afetam, que são a economia, ou
seja, de que vivemos, logo a situação política, laboral e cultural que
vivemos e finalmente ócio e a vida ?privada? - setores que normalmente
estão completamente separados. Isto é, um pouco abstrato, o ponto de
arranque.
Concretamente se trata, pois de uma tentativa de reconquistar a
cotidianidade em um bairro ou em uma cidade mediante um modelo de
?anarquia? não teórica, senão vivida através do exemplo. Em nosso caso
concreto temos projetado a união de empresas autogestionadas com
iniciativas políticas e culturais. Ali um somente não trabalha de forma
diferente, senão também vive de outra forma, por exemplo em comunidades
que abarcam todas as gerações. Assim demostramos palpavelmente e sem muita
retórica anarquista uma vida sem chefes, baseada no livre acordo e no
apoio mútuo. A estratégia era a seguinte: se isto funciona cotidianamente,
o povo acabará dizendo ?isto está foda, isto eu gosto, e se isso se chama
?anarquia?, de acordo...? A intenção era, pois, romper um pouco o gueto
anarquista.

A: Então, o que chegou aqui a nós em Espanha do Projeto A nos soou
basicamente pelo livro que havias escrito e pelas idéias ali expressas.
Por outro lado, também nos chamou a atenção que já havia funcionado na
vida cotidiana com seus ?duplos projetos?, e muitos têm ido a Neustadt
para ver se a coisa funcionava. Conte-nos um pouquinho o concreto que tens
dentro do Projeto A.
H: Bom, era uma idéia muito singela: unem-se dois ou mais projetos, um que
seja mais de caráter econômico aonde se tira dinheiro e com o qual se
subvenciona um projeto mais político ou cultural que necessita dinheiro.
Temos começado faz uns 15 anos em uma cidade média alemã de uns 40.000
habitantes, e em síntese pode se dizer que o projeto segue existindo, não
fracassou, mas tão pouco deu o impacto político como havíamos imaginado.
De uma dezena de empresas, pouco mais da metade tem sobrevivido como tal,
ou seja como empresas libertárias e autogestionadas. Se tem colocado bem
no mercado, tem feito uma boa trajetória e são muito reconhecidas pela
população. Também há uns projetos culturais e, por exemplo, um
bar-restaurante, estão bem implantados, mas não passou para a segunda
fase. A segunda fase, que era a de intervir politicamente na cidade,
praticamente se abortou antes de começá-la em função de conflitos internos
e intermináveis debates puristas sobre o ?comportamento anarquista
correto?. Depois de uma decaída e de uma fase de resignação que durou 8, 9
anos estamos agora precisamente esperando que se dê a segunda fase.
Parece, que a situação é mais favorável.

A: Podes explicar um pouco os motivos da crise?
H: São um tanto complexos. Em um primeiro período, o Projeto A era um
êxito retundante, era um tempo de muita agitação. Para muitos companheiros
na Alemanha foi um atrativo muito grande e muitos acudiam a Neustadt como
se fosse a Meca da Anarquia, coisa que não estava planejada assim. E
muitos vinham no plano purista, para criticar e não para participar. Para
estes era puro reformismo e tudo se deveria estruturar de outra forma
muito mais radical e muito mais ?correta?. Enfim, estes ?anarcoturistas?
nos comiam a cabeça discutindo e disputando a tal grau que provocavam
lutas internas até chegar a um ponto em que muitos se retiraram
amargurados. Sobretudo aqueles que haviam aderido ao projeto sem ser
anarquistas inatos. Logo, os super anarcos, depois de provocar esta crise,
se retiraram dizendo: ?Vês? Tínhamos razão, isto não podia funcionar
jamais!? O segundo problema que também nos afetou era que nós propusemos o
projeto em um momento em que o assim chamado ?movimento alternativo? já
estava em um certo declive. Já não estava tão na moda o fato das empresas
autogestionadas, assim que praticamente a segunda geração nos fez falta.
Assim sendo, criamos postos de trabalho, mas resultava que a geração jovem
já não estava interessada em assumir todas essas responsabilidades. Assim,
muitos coletivos estavam forçados a ter empregados contra sua vontade.
Recentemente isto está mudando um pouco, simplesmente pela precarização do
trabalho assalariado que volta a aumentar o atrativo do trabalho
autogestionado.

A: Então agora estão envolvidos em outra fase e continua o Projeto A como
tal porque há um coletivo de gente que assim o trabalha. Você está ali
também, mas tens outro projeto nas mãos - a criação de algum lugar de
atenção às pessoas da terceira idade.
H: Sim, sem dúvida queria precisar primeiro que o Projeto A, tanto como
idéia, como livro e como experiência social no povo aonde eu vivo, tem
produzido certo eco no mundo libertário. Em várias cidades da Alemanha e
no estrangeiro há projetos que fazem como base o Projeto A. Não se trata
de uma organização formal, mas de uma adesão à idéia. Assim, o projeto tem
sobrevivido em muitos rincões do mundo e, portanto, tem dado um impulso ao
movimento anarquista.
O que estou montando neste momento o chamamos com um pouco de ironia de
?Projeto A, fase B?, e isso corresponde um pouco a nossa idade. O que se
passa é que somos cada dia um pouco mais velhos e nos demos conta de que
quase todos os projetos anarquistas estão desenhados para gente jovem ou
de idade mediana, gente que trabalha e tem filhos. Até agora, nunca
havíamos pensado em entender a anarquia, também, como um ?projeto de
envelhecer dignamente?, como diria a expressão. Assim a chamada ?terceira
idade? não a entendemos somente como um discurso de um subsídio
suficiente, senão como um discurso de qualidade e dignidade de vida.
Temos por exemplo em vista a geração de nossos pais. Não queremos que
morram desamparados, isolados e sós em algum asilo anônimo. E sem dúvida,
logo, nós mesmos. Também vamos avançando de idade e uma enfermidade pode
tocar a qualquer um e a qualquer momento. Em tal circunstância te
encontras só em sua casa, se tens sorte com teu companheiro ou
companheira, e nada mais. O que estamos montando, já em fase de
concretização, é um novo projeto adicional aos que já existem, outra
experiência de convivência que poderia chamar-se uma ?casa das gerações?.
Não queremos criar um asilo para anciões, senão uma convivência vital em
um grande edifício de posse coletiva, em um terreno adequado aonde possam
viver diferentes gerações. Cada um elege livremente seus parentescos, que
não tem por que ser biológicos, de forma que cada um, cada família, cada
grupo de afinidade e cada grupinho tenha sua moradia ?privada? aonde possa
retirar-se. Mas ao mesmo tempo ali possa dispor de muitos espaços comuns,
como sala de jantar, cozinha, biblioteca, sala de atos, espaço para
menores e para anciões - inclusive com um projeto de assistência
sanitária, de cura e de cuidados. Este Projeto não só se dirige a seus
participantes, senão também a gente do bairro, oferecendo-lhes seus
diferentes serviços. Queremos comprovar assim que as estruturas solidárias
e libertárias servem também para uma vida digna na terceira idade - e de
forma mais eficaz que as estatais. Surge outra vez a mesma filosofia do
Projeto A e sem dar-lhe muita etiqueta. Se desta maneira o apoio mútuo, a
solidariedade e a vida em livre acordo - que são temas anarquistas de
todos os tempos - chegam às pessoas não pela teoria senão que pela
prática, isso provavelmente dará mais impacto que ler três livros de
Kropotkin.
Na Alemanha já existem mais de trinta e cinco projetos parecidos com uns
700 participantes, não todos com a integração de anciões, organizados no
?Mietshäusersyndikat?, de cuja larga experiência podemos participar. Nós o
integramos em nossa estratégia, implantando-lo no que resta do Projeto A.
Nesta conjuntura encaixa muito bem no fato que ainda há pouco surgiu uma
nova geração de anarcos, libertários jovens que não são da geração do
Projeto A, mas que desde cedo o conhecem porque estão ali. Esperamos que
estes agora façam um pouco de ?cosquinhas políticas? aos ?veteranos? do
Projeto. Já nos tem dado certo empurrão e a coisa começa a andar. Está
sendo criada uma nova relação entre os jovens e os velhos e os mais
velhos. Parece que aqueles militantes dentro do Projeto A que tinham se
retirado um pouco em si mesmos lhes encanta que haja gente jovem que segue
suas idéias, e penso que assim talvez possamos resolver o problema da
?segunda geração? que tanto nos faltava.

A: Esperemos que essa parte chegue a tempo para que possas desfrutar. Nos
chamou atualmente aqui muito a atenção essas formulações do Projeto A,
justamente a parte em que dizia que não poderia ser que alguém que fora
muito anarquista em sua vida sindical ou em sua vida política e depois
acabava que em sua vida pessoal não tinha nenhum nível de coerência com
isto o que, bom, ainda que o pretendia não o conseguia. Que haveria que
existir portanto de que essas três partes da vida de cada um, além da vida
pessoal, a parte de vida social e da vida política tivessem uma lógica
entre elas, e que quando se propunha portanto a atividade coletiva da
gente se propunha que tudo encaixava na melhor medida possível. Coisa que,
ou estavas no sindicato ou estavas no grupo autônomo, ou não estavas em
nada e pessoalmente era mais anarquista que ninguém - mas não juntávamos
nunca as três facetas... Gostaria que comentasse como juntava essas três
facetas.
H: A idéia era e segue sendo que queremos chegar a tal ponto em que você,
no contexto de um projeto assim, estás realizando uma tarefa qualquer e já
não podes dizer: ?bom, o que estou fazendo neste momento, não sei se é
trabalho produtivo ou se é ócio ou se é agitação política?. Porque as
coisas se encaixam conjuntamente. Se por exemplo simplesmente trabalhas
como trabalhador em uma empresa autogestionada e sem chefes, e se esta
empresa diariamente demonstra ao público que é possível viver e trabalhar
assim, eu creio que tens feito muito mais pela anarquia que repartir cem
folhetos. Porque é um exemplo palpável e compreensível que não necessita
explicação. E portanto fazes uma tarefa laboral e política ao mesmo tempo.
Volto ao exemplo de meu próprio pai que nunca foi anarquista senão social
demócrata frustrado. Ele aprendeu o ofício de astillero, um homem pois,
que trabalhava com suas mãos. Eu lhe podia falar tudo o que queria da
anarquia e inclusive dar-lhe leitura em abundância - sem jamais lhe
convencer de que isso poderia funcionar. Recentemente quando teve a
ocasião de ver em uma carpintaria nossa que as pessoas sabiam trabalhar
com suas mãos, mas sem chefes e que as portas do armário se abriam e
fechavam sem problemas admitiu que ?isso da anarquia, quem sabe?, talvez
funcione de verdade?. Da mesma forma convencer as pessoas: se podem ver
que a vida em uma comunidade te traz de brinde muitas vantagens, até certo
?luxo?, que uma família trabalhadora só não se pode prestar muito. Se em
tal circunstância, por exemplo, te encontras com as crianças e outros
companheiros no jardim de tua comunidade, acompanhado por um bom livro e
uma taça de vinho - certo que é ócio. Mas pode ser também agitação
política. Darás-te conta ao ver certa inveja nesta forma de vida nas caras
dos vizinhos... Não foi casualidade que o Projeto A pode atrair muita
gente ?apolítica?. Eu disse em certa ocasião, que o Projeto A em sua
estrutura - e também no discurso libertário que produz - têm muita
similaridade com a idéia anarcosindicalista. A partir de 1907, quando se
começou a discutir a idéia de formar sindicatos anarquistas, também foi
taxado de ?reformista? pelos puristas daquele tempo. Uma vez metendo-te em
sindicatos, argumentavam, já terás cometido um pecado: o movimento fará
parte do sistema e nunca chegará a ser revolucionário. Em contrapartida, o
anarcosindicalismo foi à única forma histórica do anarquismo que chegou a
revolução, por quê? Pelo simples fato de que o anarcosindicalismo
conseguiu tirar o anarquismo do gueto de meros pensadores e filósofos para
a vida cotidiana e palpável. Qualquer um ainda sendo analfabeto podia ver
e sentir na vida real o que significava ?anarquismo?. E alguém que se
filiava ou a um sindicato como trabalhador ou a uma iniciativa social de
seu bairro, a um ateneo ou a um economato ou a uma escola livre não tinha
que ser necessariamente anarquista para participar nestas estruturas
libertárias. O sindicato em sí era apolítico, um instrumento de luta dos
trabalhadores em suas próprias mãos. Para mim, a força deste movimento
surgiu daí - porque já não era seita, porque chegou a ser popular. A idéia
do Projeto A atira por esse caminho - e se me permites essa comparação
histórica com o anarcosindicalismo, penso que mais ou menos temos já
passado essa fase polêmica que o anarcosindicalismo viveu em 1907. Já nos
aceitam como uma idéia que passou sua primeira crise e que segue de pé.
Para mim já é algo haver observado que seis ou sete empresas têm
sobrevivido, têm crescido, estão criando postos de trabalho e seguem sendo
libertárias. Claro que é um processo longo e ainda estamos distantes da
fase borbulhante.Temos criado nada mais que uma base. Mas hoje em dia se
pode discutir a idéia do Projeto A entre os libertários alemães e a
maioria sabe do que se trata. O livro está difundido pela internet em
todas partes, há gerações adeptas que quase o sabem de cor. Para mim foi
um grande prazer ver hoje aqui, no bairro de Sants, uma segunda geração
inspirada pelo Projeto A, filhos daqueles que nos visitaram na Alemanha
faz quinze anos. Estão montando algo parecido e entre eles circulam
fotocópias de fotocópias de textos sobre o Projeto A em castelhano. Tenho
a impressão de que o projeto é como um vírus que marcha por si só. Não faz
falta que eu meta a mão para que ele siga. Eu me ocupo de minha vida em
meu contexto social e ali faço o que posso.

A: E para acabar, a pergunta fácil que sempre é a mais difícil, quem é Horst?
H: Um sonhador realista. Eu gosto da vida e creio que sou hedonista por
convicção, já que penso, que o champanhe deveria ser para todos... Sou
papai, tenho companheira e três filhos. De profissão me considero
escritor, libertário por suposto, mas como de escritor não se pode viver e
de libertário menos ainda, o pão eu ganho trabalhando em publicidade. É um
pouco como a prostituição, já que as vezes te vendes ao mundo do consumo,
mas tento sujar as mãos o menos possível. Sou mochileiro e cruzei os cinco
continentes com a mochila ao ombro. Milito no movimento anarquista desde
os anos sessenta e participei em muitas organizações até chegar a
conclusão de que com tanto congresso, com tanta organização e tantas
siglas e selos seria difícil mudar o mundo. Não me retirei de tudo das
organizações, mas prefiro dedicar maior força àqueles pequenos ensaios
práticos que impactam diretamente na vida cotidiana das pessoas. Minha
obra mais querida, sem dúvida, é o ?Anarchiv?, que é uma biblioteca com
centro de documentação anarquista na Alemanha que venho organizando faz
trinta e cinco anos. Creio que quando me chame a hora eu gostaria de
morrer na poltrona do Anarchiv lendo algum bom livro anarquista.

Tradução: Juvei


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