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(pt) Histórias classistas do anarquismo no Brasil e RGS - PAR TE 02

Date Sat, 20 May 2006 23:48:01 +0200 (CEST)


>FAG - Federação Anarquista Gaúcha
>secretariafag@vermelhoenegro.org
>
>A Guerra dos Braços Cruzados
>
>No Rio Grande do Sul os primeiros incidentes se dão quando em Santa Maria
um grupo de ferroviários da Viação Férrea do RS se apossa de uma
>locomotiva e percorre a linha de Marcelino Ramos propagandeando a greve.
No dia 29 de julho circularia amplamente um protesto que denunciava a
exploração dos trabalhadores pela administração da ferrovia.
>
>Em Porto Alegre, a greve é deflagrada em 31 de julho e termina em 4 de
agosto, posteriormente às greves nos outros estados. Sua principal
motivação é a carestia, especialmente dos gêneros alimentícios.
>
>A atuação dos anarquistas na greve começa um mês antes pela busca de
revigoração da União Operária Internacional, que consta que em algum
momento entre 1915 e 17 havia deixado de existir. Em Porto Alegre os
anarquistas não agiam conjuntamente com os sindicatos existentes, mas em
seu interior. A UOI, reorganizada com elementos de todas as categorias
começou a agir no interior de cada sindicato e da própria FORGS para
convocar uma mobilização popular contra a carestia.
>
>No dia 29 de julho se convoca uma reunião da FORGS, com a presença de
mais de 500 pessoas. A reunião não é aberta pelo então presidente da
FORGS, o tipógrafo Ezequiel Oliveira, mas pelo delegado da UOI, o
pedreiro Luiz Derivi, passando então a palavra a Cecílio Vilar. Ambos os
discursos combatiam uma posição, provavelmente a que ocupava os cargos da
>administração de então da FORGS, contrária a greve. Nessa reunião é
nomeada a Liga de Defesa Popular, que iria organizar toda a mobilização.
São nomeados Cecílio Vilar, Luiz Derivi e Salvador Rios, que escolheriam
dois membros de cada associação filiada para compor a Liga.
>
>A pauta de reivindicações inclui, de modo geral, medidas para diminuição
dos preços dos alimentos e artigos de primeira necessidade, da água,
aluguel e bondes; aumento dos salários, jornada de 8 horas de trabalho e
de 6 horas para mulheres e crianças.
>
>No dia 30 boletins da FORGS e do Sindicato dos Pedreiros, Carpinteiros e
Classes Anexas, distribuídos e afixados em postes no Campo do Bomfim,
convocam os trabalhadores para uma concentração pública na Praça da
Alfândega para o dia seguinte. A LDP havia preparado um comício para
publicizar a greve no dia 31 de julho.
>
>Ao meio-dia os ferroviários do RS se declaram em greve, o que já
>condicionou a paralisação do alto comércio neste dia. Na tarde do dia 31
já estavam em greve as estações de PoA, Santa Maria, Rio Grande, Bagé,
Gravataí, Passo Fundo, Couto, Cacequi e Rio Pardo. O inspetor da Viação
Férrea promete despedir todos os grevistas, passa a admitir funcionários
não especializados e solicita a imediata intervenção das tropas
militares.
>
>Uma hora antes do comício já era intenso o movimento de populares na
praça da Alfândega, em PoA. Meia hora depois chegava o policiamento, com
mais de 120 homens da BM, Piquete da Chefatura de Polícia, Escolta
Presidencial, Polícias Administrativa e Judiciária.
>
>O comício foi aberto por Luiz Derivi e contava com a participação de
cerca de 4000 a 5000 pessoas e forte reforço policial. O orador mais
saliente foi Cecílio Vilar, falando sobre os motivos da convocação do
meeting e as causas da carestia: ?o momento não é para conciliações, e de
luta. A luta mais justificável, a luta pela vida. Os operários devem se
erguer como um só homem, para sair as ruas e conquistar o pão que nos
está sendo roubado e a fim de protestar contra a exploração de que é
vítima a classe trabalhadora?.
>
>Entre 31 e 4 de agosto a vida urbana em Porto Alegre foi completamente
alterada. Participaram da greve pedreiros, padeiros, trapicheiros e
estivadores, trabalhadores da Cia Força e Luz, operários têxteis,
carroceiros, caixeiros, choferes, tipógrafos, entre outros. Estimativas
apontam para cerca de 30.000 grevistas em PoA.
>
>No dia da deflagração da greve se reuniu a União dos Condutores de
Veículos, decidindo a aderência da categoria. Estes trabalhadores
passariam a controlar o tráfego na capital. No dia 1º de agosto o diretor
da Santa Casa dirige-se à FORGS para solicitar providências no sentido de
manter o fornecimento de gêneros à casa de saúde. Foram fornecidos ao
diretor dois salvo-condutos, assim como ao Hospício São Pedro e Asilo da
mendicidade, e estaria livre a venda de gêneros as residências onde
houvesse doentes. No salvo-conduto, em cujo topo lia-se ?Justiça? em
vermelho, constava também que ?O portador do presente tem plena
>autorização da Liga de Defesa Popular para conduzir carne verde e outros
artigos destinados aos doentes da Santa Casa?. Sem o documento não havia
circulação de carroças.
>
>No dia 2 de agosto se dá uma ocupação militar da estação de Santa Maria.
Em represália, os grevistas arrancam trilhos, derrubam pontes e bloqueiam
a via com dormentes e postes telegráficos em vários pontos do estado.
Alguns trens passam a circular guarnecidos por tropas. Em Passo Fundo há
violentos choques entre ferroviários e forças militares.
>
>Neste mesmo dia é convocada uma manifestação pública para pressionar o
governo, cujos locais de concentração seriam a FORGS e a Praça dos
Navegantes. A manifestação se dirigiu ao palácio do governo estadual,
onde uma comissão da LDP, composta por Luiz Derivi, Cecílio Vilar e Zenon
de Almeida é recebida pelas autoridades. Borges de Medeiros declara que
decretaria medidas de controle da exportação e atenderia a questão de
horas de trabalho e salários para os empregados do estado. A comissão
saiu do palácio e comunicou aos já estimados 5000 manifestantes os
intentos do governo estadual e municipal. Após as promessas de Borges a
greve não declinou e tampouco tornou-se mais ?pacífica?.
>
>A partir daí aumenta a pressão pelo fim da greve tanto pela imprensa como
pela polícia. No dia 3 o Chefe de Polícia ameaçou proibir os meetings e
as reuniões em praças públicas, e a partir da tarde são proibidos os
?ajuntamentos?. A cidade se assemelhava à uma praça de guerra, em todos
os recantos suspeitos haviam pelotões de infantaria e patrulhas de
cavalaria cruzavam com freqüência. Nessas condições, sem possibilidade de
>manifestações, a greve se reduziria ao confronto patrão-empregado.
Durante todo o dia 4 são feitas reuniões na sede da FORGS avaliando a
situação, e às 23h a LDP publica um boletim anunciando o fim da greve e
>comprometendo-se a apoiar as categorias que ainda se mantivessem
>paralisadas. Se manterão ainda paralisados estivadores, padeiros,
alfaiates, sapateiros, chapeleiros, pedreiros e carpinteiros, calceteiros
e canteiros, operários de fábricas de móveis e operários de fábricas de
meias.
>
>No dia 5 de agosto chega ao fim a greve dos ferroviários, diante da
violenta intervenção das tropas federais, e sem nenhuma reivindicação
conquistada devido a intransigência da direção da Viação Férrea,
controlada na época por uma concessionária belga.
>
>Em relação a totalidade das reivindicações, pode-se dizer que houve
vitória parcial dos trabalhadores.
>
>Muitos militantes anarquistas tiveram que sair de Porto Alegre devido às
perseguições resultantes de sua atuação na greve. Isso, mais o fato de
alguns terem encarado a atitude de Borges de Medeiros durante a greve
como ?paternalista? fez com que ganhasse influência na FORGS um grupo
pró-PRR, que ganha a direção da entidade em 1918. Nessa época Francisco
Xavier da Costa já era conselheiro municipal pelo partido. Os sindicatos
de influência libertária se afastam ou são afastados da FORGS e
constituem a União Geral dos Trabalhadores. Mas essa direção se afastaria
já em julho de 1918.
>Greves no interior do estado
>Em Pelotas a greve geral é deflagrada em 4 de agosto e não obtêm tantas
conquistas. Entre as reivindicações estavam medidas contra a carestia,
regulamentação da jornada de trabalho de 8 horas, 6 horas para mulheres e
menores e proibição do trabalho de menores de 14 anos. Nos moldes da LDP,
funda-se um Comitê de Defesa Popular.
>
>Uma passeata realizada no centro da cidade culmina com um comício na
Praça 7 de julho. Durante o comício ocorre violenta intervenção policial,
provocando tiroteios entre grevistas e polícia municipal A seguir,
intervêm o Regimento de Cavalaria e o conflito vira uma verdadeira
batalha campal, que terá como resultado vários feridos de ambas as
partes.
>
>Em protesto, os operários se concentram, à noite, na Sede da Liga
Operária. Novamente a polícia intervêm. Os operários resistem e o chefe
de polícia tem seu cavalo abatido a tiros. Um funcionário da Intendência
Municipal é mortalmente ferido. Após muita luta, os grevistas são
desalojados do prédio da Liga Operária. A radicalização política das
lideranças operárias era bem maior que a que ocorrera em PoA. Um dos
boletins do Comitê chega a proclamar: ?Se tendes brio, sabeis repelir com
asco aqueles que vos bajulam, quando de vós precisam e que vos maltratam
quando servidos. Nada de voto; nada de urna!?.
>
>As forças da BM e o próprio Chefe de Polícia deslocam-se para a cidade
para tentar mediar as negociações, não só entre patrões e empregados, mas
principalmente entre o Comitê de Defesa Popular e a Intendência
Municipal. A greve terminaria no dia 15 de agosto com a baixa dos preços
de primeira necessidade.
>
>Também haveria greves importantes em Rio Grande, Passo Fundo, Santa
Cruz, Montenegro, Bagé e outros centros.
>
>Devido ao não atendimento de suas reivindicações na greve anterior, em
outubro de 1917 é deflagrada nova greve dos ferroviários, que utilizam-se
de sabotagens e outras formas de ação direta. Em 20 de outubro soldados
do Exército alvejam ferroviários em Santa Maria, provocando grandes
protestos dos operários de Porto Alegre.
>Greve Geral de 1918
>No dia 21 de julho é deflagrada a greve geral pelas três entidades ? UGT,
FORGS e União Metalúrgica. As cinco reivindicações envolvem a ação do
Estado: diminuição do preço dos gêneros de primeira necessidade e da
passagem de bonde, regulamentação das 8 horas de trabalho, liberdade aos
operários canteiros que estavam presos, criação de lei de proteção à
acidentes no trabalho.
>
>A imprensa ataca a greve dizendo ser um intento de ?sedição anarquista?.
Aderiram imediatamente motorneiros e condutores da Força e Luz, os
carroceiros e os choferes, paralisando totalmente o transporte urbano.
Calculou-se cerca de 1500 grevistas. São colocadas pedras e dinamites
sobre os trilhos de bonde. A greve foi rapidamente reprimida pelo
governo, com prisão de lideranças (mais de 15, inclusive da FORGS),
proibição de ?ajuntamentos? em locais públicos, fechamento de entidades
operárias, ocupação militar da usina e dos bondes da Força e Luz. Após
tais medidas repressivas, começam a explodir bombas, nenhuma com grande
potência. Se a greve fracassara nos seus propósitos, por outro lado os
anarquistas recuperavam sua influência. Depois de mais ou menos dois
meses de negociações, se concretizou a fusão da FORGS com a UGT,
adotando-se os estatutos da última.
>
>Em 1919 acontece outra greve generalizada em Porto Alegre onde ocorrem
muitos conflitos entre operários e forças repressivas.
>
>Em outubro do mesmo ano haveria uma outra greve, dessa vez na cidade de
Rio Grande. No dia 1º os trabalhadores da Cia Francesa do porto,
>encarregados da carga e descarga se declaram em greve. Reivindicam as 8h
e o aumento de 25% dos salários, e desejavam receber por dia e não mais
por hora. A greve se alastrou rapidamente, com adesão dos trabalhadores
dos bondes, oficinas e Usina Elétrica, deixando a cidade completamente
sem luz e sem bonde. O policiamento da cidade ia aumentando cada vez que
novas categorias entravam em greve, contando com praças das cidades
vizinhas.
>
>A repressão começou no dia 3 de outubro, quando a BM invadiu a sede da
União Operária, impedindo a realização de uma reunião. Os operários
enviaram um telegrama à Borges de Medeiros, cuja posição foi de que o
intendente municipal agisse de forma a sufocá-la. Em seguida foram presos
dois operários. No dia 5, a Cia Francesa cede aumento de salários para os
grevistas, e a greve se encaminha para o seu fim quando são libertados os
operários presos.
>A insurreição de 1918 no Rio de Janeiro
>Em janeiro de 1918 se organiza no Rio a Aliança Anarquista, organização
específica dedicada à propaganda. Em março é fundada a União Geral dos
Trabalhadores, em substituição à FORJ que havia sido fechada em 1917. Sob
estado de sítio a UGT organiza as comemorações do 1º de maio que ocorre
dentro de um Teatro devido à proibição de comícios e manifestações
públicas. Desde então ocorrem greves de várias categorias. Em agosto
ocorre greve da Cia Cantareira e da Viação Fluminense, por aumento
salarial, que paralisa os transportes de barcas entre Rio e Niterói e os
bondes, e a qual é sucedida pela greve de outras categorias ligadas ao
transporte, em solidariedade. Um conflito entre populares e a Força
Pública na Rua da Conceição em Niterói, com a adesão de alguns soldados,
abre perspectivas para uma insurreição.
>
>Em Petrópolis a população faminta promove saques. Em setembro, a epidemia
da greve espanhola toma conta da cidade piorando a situação do
operariado. Em novembro a epidemia decai mas a população segue padecendo
de fome.
>
>No dia 18 de novembro os tecelões declararam greve simultânea nas
fábricas do Rio, Niterói, Petrópolis, Magé e Santo Aleixo. Também aderem
>metalúrgicos e operários da construção civil. Este era o dia marcado para
uma insurreição que derrubaria o Estado, substituindo-o por um conselho
(soviet) de operários e soldados. No meio da tarde os trabalhadores
começaram a convergir para o Campo de São Cristóvão, onde a polícia dá
ordens para dispersar. Os trabalhadores reagem e segue um tiroteio. Duas
bombas explodem na delegacia e a multidão a invade. Pouco depois soldados
do Exército intervêm, desocupando a delegacia e dispersando os
>trabalhadores, que pretendiam invadir a Intendência do Exército. O
conflito se estendeu às ruas vizinhas. Segundo Edgar Rodrigues, os
operários souberam que o levante havia sido traído e assim evitaram
atitudes extremas. Um militar havia se infiltrado no movimento,
>participando de todas as reuniões e inclusive ficando responsável pela
estratégia militar do levante. O plano era que, após a tomada da
>Intendência, os operários e militares revoltosos rumariam para o Centro e
atacariam a Prefeitura, o Palácio da Polícia, o Quartel da Brigada
Policial; enquanto na Zona Sul se atacaria o Palácio do Catete e a Câmara
dos Deputados.
>
>No início da tarde haviam sido presos todos os ?cabeças? do movimento:
José Oiticica, Manuel Campos, Astrojildo Pereira, Carlos Dias, Álvaro
Palmeira, José Elias da Silva, João da Costa Pimenta e Agripino Nazaré,
que seriam deportados ou expulsos para outros estados do país. Cerca de
200 pessoas são detidas. Até o dia 21 seriam presos ao todo 78
militantes. Na porta de uma fábrica a polícia mata o tecelão Manoel
Martins e fere outro operário, que viria falecer dias depois. O cortejo
fúnebre, apesar de proibido, é acompanhado por centenas de operários.
Prosseguiria por mais duas semanas a greve dos tecelões, metalúrgicos e
da construção civil. Dia 20 a sede destes sindicatos é fechada e a UGT é
dissolvida por decreto federal.
>Greve em Rio Grande
>Em 1919 acontece em Rio Grande uma greve de grande importância. Sua
principal reivindicação é a jornada de 8h sem redução de salário e
acréscimo de 50% na hora extra. A greve começou devido a troca do meio de
transporte para os trabalhadores da Cia Francesa, responsável pelo Porto
Novo. No dia 5 de maio, o bonde que iria para Cia. Swift foi para União
Geral dos Trabalhadores. Os trabalhadores tiveram o gosto de verem
conduzidos de bonde até sua sede, a despeito do patrão.
>
>A greve generalizou-se, levando as autoridades a reforçar a polícia com
praças de outros lugares. Mesmo sendo importante a adesão de mais
categorias, o comitê central dispensou o apoio do pessoal da Usina de
Eletricidade, vendo que isto atrapalharia a população.
>
>Os estivadores aderiram, no dia 6, mantendo a sua tradição combativa,
?sempre como um só homem disposto para o que der e vier?, conforme o
jornal rio-grandino O Nosso Verbo, de orientação libertária. No dia 7 foi
a Italo-Brasileira, oficinas mecânicas e a Viação Férrea. A greve agora é
quase geral.
>
>Logo após começa a repressão através da censura dos serviços
telegráficos, impedindo a comunicação da UGT com associações de outras
cidades. A polícia começa com ações violentas contra um movimento que até
então era pacífico, quando atentou contra operárias que estavam em
frente da Rheingantz e da União Fabril, tentando dispersa-las a pata de
cavalo no momento em que estes declaravam greve. As mulheres reagiram e a
?polícia, só porque estava armada, massacrou as operárias; caso o
contrário teriam apanhado?, segundo O Nosso Verbo. Também houve uma
invasão à sede da UGT por parte da polícia.
>
>Outras categorias vão aderindo. No dia 8 acontece uma passeata com 3000
operários, entre mulheres e crianças. Ao passarem pela praça Tamandaré,
um sargento dá ordem para a dispersão, isso não ocorrendo, a BM põe-se em
posição de avanço sobre as operárias, e toma a bandeira da UGT. Não
contentes, os soldados descarregaram as armas na população. O resultado
foi um pedreiro(que estava apenas de passagem pelo local), que foi morto
e vários ferido. Dessa forma os operários se dispersaram, e parte deles
se reagrupou na sede da UGT e lá recomeçam os conflitos com a polícia,
que termina por lacrar a sede da entidade. Também sede da Sociedade dos
Marinheiros e Remadores, entre outras associações, foram fechadas. A
polícia vigiava os edifícios públicos federais, o Novo Porto, as estações
da Viação Férrea e a Usina Elétrica. Os operários contavam com o apoio
dos bombeiros que, ao serem intimados a vigiar a população, aderiram ao
movimento. O efetivo policial já contava com cerca de 90 praças e um
navio de guerra da Marinha.
>
>O clima de tensão estava aumentando a cada momento, as autoridades
distribuíram um comunicado dizendo para a população não tomar parte de
nenhuma manifestação, e que qualquer manifestação será reprimida. Por
outro lado os grevistas pediam para que se mantivesse a luta: ?A polícia
semeou o vento que colheu a tempestade. É preciso ir até o fim. Não
recuar covardemente. Ninguém volte ao trabalho, que a vitória será certa.
E que cada uma faça o que puder e julgar conveniente para o triunfo de
nossa causa. Se a constituição é um farrapo e a liberdade de reunião uma
mentira, que se reúnam os grupos e ajam como puderem?.
>
>Apenas no dia 14 algumas categorias começaram a voltar ao trabalho.
Muitos operários voltaram a trabalhar mas não mais no local onde
trabalhava, pois foram demitidos.
>
>No dia 17 a imprensa noticia o fim da greve, e foram libertados operários
presos durante a greve. As chaves das associações operárias foram
devolvidas, bem como a bandeira da UGT que havia sido tomada durante a
passeata do dia 8. A greve trouxe o atendimento das reivindicações de
algumas categorias.
>O 2º Congresso Operário do Rio Grande do Sul
>Realizado nos dias 21 a 25 de março de 1920, o Congresso conta com a
participação de 30 associações operárias das cidades de Porto Alegre,
Santa Maria, Caxias do Sul, Rio Grande, Pelotas, Bagé e Santana do
Livramento. O Congresso aprova entre outras coisas a Declaração de
Princípios da FORGS, com forte conteúdo anti-capitalista e anti-estatal.
O 3º Congresso Operário Brasileiro
>O 3º Congresso acontece nos dias 23 a 30 de abril de 1920. Ratificando as
teses do 1º e 2º Congressos, entre outras resoluções, cria-se uma
Comissão Executiva com cinco seções regionais e cinco secretários
excursionistas, com objetivo de avançar a reorganização do movimento
operário. Neste Congresso se aperfeiçoam as orientações para a
organização sindical trabalhadas desde o 1º Congresso. (Ver nos anexos)
>
>Participam associações do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais,
Paraná, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Pernambuco, Pará, Mato Grosso
e Amazonas.
>
>Também estava na pauta do movimento operário a questão que alguns vinham
propondo de formação de uma partido operário, contra o que a COB se
opunha veementemente. São interessantes as colocações de Neno Vasco, no
Boletim da Comissão Executiva do 3º Congresso Operário:
>?(...) evidentemente o nome de ?partido operário? é usurpado e abusivo.
Só pode haver um partido operário: aquele que possa admitir em seu seio
todos os operários e só os operários, baseando-se sobre os interesses
comuns a todos e por todos compreendidos ou sentidos. para isso é
preciso achar-lhe um sólido terreno de acordo.
>A base de acordo não pode achar-se nos interesses e idéias indecisos,
contraditórios e pouco compreensíveis da política e da religião. É um
fato que o acordo não existe nesses pontos, nem teria uma base segura
sobre que assentar-se.
>A política parlamentar, por exemplo, divide os operários, que de política
se ocupam, em duas facções bem distintas: a dos partidários e a dos
inimigos da ação eleitoral e parlamentar. E entre os primeiros produz
ainda rivalidades de partido, de candidatos, de pessoas, as mesquinhas
intrigas que formigam na feira eleitoral.?
>
>Colocando que um verdadeiro partido do trabalho, que realmente
>representasse os interesses operários é o próprio sindicato e suas
respectivas federações e confederações, complementa que este ?é uma
grande e sólido partido, com base firme, formando-se de baixo para cima,
do simples para o composto. Não há comitês diretivos, não há cabeças ?
facilmente decapitáveis.. (...) Faz-se a educação mútua no sentido de
evitar que os indivíduos possam admitir chefes e depositar neles a sua
confiança, a sua iniciativa, ficando desorientados quando esses chefes
são empolgados pelo adversário.?
>Crescimento das divisões no Movimento Operário e o 3º Congresso
>As eleições estaduais de 1922 e a Revolução Assisista de 1923 tenderam a
criar mais divisões no movimento operário no RS. Há manifestos operário
contra e a favor dos candidatos Borges de Medeiros e Assis Brasil. Os
sindicalistas suspendem o funcionamento de alguns sindicatos para evitar
que sua atividade fosse apropriada por alguma das correntes em guerra
civil.
>
>Os comunistas, que haviam fundado seu partido em 1922 mantinham colunas
nos jornais do PRR e da Liga dos Operários Republicanos. No entanto não
eram estes ainda os maiores concorrentes dos anarquistas, ao menos em
Porto Alegre, e sim os operários pró- PRR.
>
>Em outros estados do Brasil essa disputa era intensa. Elvira Boni relata
que desde a fundação do PCB não se realizava assembléia que não acabasse
em discussão estéril, e muitas vezes em violência. O ponto de discórdia
girava quase sempre em torno dos rumos da revolução russa, das prisões
naquela país e de operários fuzilados.
>
>Em 1925 se realiza o 3º Congresso Operário do Rio Grande do Sul expondo
ainda mais as divisões políticas. As atas registram pelo menos dois
incidentes em que há discussão com operários que queriam participar do
Congresso mas por serem ligados à partidos políticos são impedidos de
fazê-lo. Depois seguiam-se críticas à ditadura do proletariado e à
repressão sofrida pelos trabalhadores na Rússia. Neste Congresso também
ocorre a adesão à AIT, se constitui um Comitê pró- Presos Sociais, que na
época já constituem 1500 em todo o país, se discute a organização dos
trabalhadores rurais e a situação da mulher operária.
>Aumento da repressão e a Colônia Penal da Clevelândia
>A repressão policial iria atingir principalmente o movimento em São Paulo
e Rio de Janeiro. Prisões, deportações, torturas e assassinatos iriam ser
cometidos contra os operários, além de fechamento das sedes das
>associações e até das escolas. Em Santos, os presos ficavam em
solitárias nus e sem alimentos e água por vários dias. Espancamentos,
invasões de moradia e outras violências eram freqüentes em São Paulo. A
polícia também montava as famosas ?bernardas?, que eram planos
conspirativos que esta mesmo inventava para poder envolver os militantes.
>
>Sob o governo de Artur Bernardes (1922-1926) é criado uma espécie de
campo de concentração na Clevelêndia, localizada no extremo norte
brasileiro junto à Guiana Francesa, para onde eram mandados presos
políticos e sociais. Para lá foram mandados mais de 1000 ativos
militantes operários, sendo que mais de 500 não sobreviveram.
>
>Um outro relato, escrito por Domingo Braz em setembro de 1925 dá mais
detalhes à situação à que estavam submetidos os deportados da
Clevelândia. (ver em anexo)
>O 4º Congresso Operário do Rio Grande do Sul
>Dizia-se que ?os libertários do Brasil estão entrincheirados no Sul?.
Isto porque o estado era o mesmo atingido pela repressão bernardista. No
resto do Brasil, especialmente em São Paulo e Rio de Janeiro, a maioria
das associações operárias estavam fechadas e muitos dos militantes mais
ativos haviam sido presos ou deportados. Por isso busca-se a partir deste
Congresso um processo de reorganização da COB, e participam deste
associações e grupos libertários de São Paulo e Pará. Entre os temas do
Congresso há um informe sobre a campanha pela Libertação de Sacco e
Vanzetti que tinha feito a Federação Operária de Porto Alegre, realizando
trinta reuniões públicas.
>O anarquismo pós-30
>Getúlio Vargas reclamará para si a paternidade de todas as conquistas
obtidas pelos trabalhadores. ?Praticamente todas as conquistas hoje
condensadas na legislação trabalhista, e que o Estado, de forma
>paternalista, diz ter concedido ao trabalhador, foram arrancadas uma a
uma, a custa de muito sangue e sacrifício, na luta cotidiana dos
>operários?, diz Edgar Leuenroth, dando o exemplo das oito horas de
trabalho que fora conquistada pelos trabalhadores da construção civil
desde 1908.
>
>Em 1934 os anarquistas ainda tem presença marcante na campanha
>anti-fascista, protagonizando a Batalha da Praça da Sé em São Paulo
contra os integralistas e frustrando sua intenção de imitar a Marcha
Fascista sobre Roma. Com ousadia e astúcia revolucionária o russo Simón
Radowitzky e o espanhol Juan Pérez, ao perceberem a tocaia armada pelos
?galinhas verdes? e as forças oficiosas contra a oposição popular tomam o
controle da situação ao se apropriar de uma arma posicionada
estrategicamente pelos integralistas.
>
>Neste ano ainda se busca reorganizar a COB em um ato de 1º de maio
realizado na FOSP. O ato tem por oradores os ativos militantes Edgar
Leuenroth e Florentino de Carvalho.
>
>Em 1935 após a intentona comunista, desencadeia-se uma feroz repressão
com muitas prisões. O golpe getulista de 1937, instalando a ditadura,
coloca a esquerda na clandestinidade e o anarquismo que só ressurge em
1945, com uma atuação muito reduzida e predominantemente na área
cultural.
>Descenso do sindicalismo combativo e da incidência anarquista
>Vários fatores contribuíram para que acontecesse o refluxo da organização
operária combativa que se conheceu naqueles anos. A forte repressão,
principalmente a partir de 1922, a ascensão do fascismo, a cooptação das
conquistas operárias e a hábil formação de lideranças pelegas pelo
Estado, as práticas comunistas no sentido de destruir toda organização
operária que não estivesse subordinada ao partido, entre outras.
>
>Intimamente ligado a isso está o refluxo da incidência anarquista no
Brasil. Tendo a organização operária praticamente como seu único espaço
de atuação, com o seu desmantelamento a militância anarquista termina por
se dispersar e se enfraquecer. A falta de uma organização específica de
anarquistas, que pudesse permanecer no tempo independente do refluxo do
movimento operário e resguardar aquele saber adquirido em tantos anos de
luta é um fator de peso a se agregar a outros que contribuíram para o
descenso do anarquismo no Brasil.
>
>FONTES PARA CONSULTA:
>
>Literatura
>
>- A GREVE DE 1917 ? AS ORIGENS DO TRABALHISMO GAÚCHO ? Miguel Bodea. LPM.
Porto Alegre, 1978. Embora o enfoque seja buscar as origens do
trabalhismo a partir de Borges de Medeiros, traz bastante informações
sobre a Greve de 1917 em Porto Alegre e no interior e a greve nas
ferrovias, além de dar uma noção do panorama da política burguesa da
época.
>- PRIMEIRAS LUTAS OPERÁRIAS NO RIO GRANDE DO SUL ? João Batista Marçal.
Livraria do Globo. Porto Alegre, 1985. Retoma a história de várias
associações operárias.
>- ANTOLOGIA DO MOVIMENTO OPERÁRIO GAÚCHO ? Sílvia Petersen e Maria
Elizabeth Lucas. Editora da Universidade. Porto Alegre, 1992. Faz um
apanhado do período de 1870 a 1937, trazendo vários documentos e artigos
da época.
>- POVO! TRABALHADORES! TUMULTOS E MOVIMENTO OPERÁRIO ? Adhemar Lourenço
da Silva Jr. UFRGS-IFCH, dissertação de mestrado. Porto Alegre, 1994.
Relata em detalhes a Greve de 1917 em Porto Alegre, entre outros
acontecimentos. É uma obra bastante extensa.
>- ESTUDOS IBERO-AMERICANOS ? vários autores. PUCRS, revista do
>Departamento de História. Porto Alegre, 1996. Diversos artigos sobre
diferentes aspetos do movimento operário, como relação com os partidos
políticos burgueses, o movimento em Pelotas e Rio Grande, participação
das mulheres, o anarquismo na família de Zenon de Almeida e Eulina
Martins, etc.
>- OS ANARQUISTAS NO RIO GRANDE DO SUL ? João Batista Marçal. Unidade
Editorial Porto Alegre. Porto Alegre, 1995. Traz uma breve biografia
sobre vários anarquistas militantes do período de final do século XIX e
início do século XX.
>- RIVALIDADES E SOLIDARIEDADES NO MOVIMENTO OPERÁRIO ? Isabel Bilhão.
EDIPUCRS. Porto Alegre, 1999. Fala especialmente das divergências entre
anarquistas e sociais democratas em Porto Alegre no período de 1906 a
1911.
>- BREVE CONSIDERAÇÕES SOBRE A GREVE DE 1919 ? Francisco Vargas. Texto
sobre esta greve em Rio Grande
>- O SONHAR LIBERTÁRIO ? Cristina Hebling Campos. Editora da UNICAMP.
Campinas, 1988. Fala do movimento operário no período de 1917 a 1921 em
São Paulo e no Rio de Janeiro.
>- A SEMANA TRÁGICA ? Christina da Silva Roquette Lopreato. Museu da
Imigração. São Paulo, 1997. Fala da Greve de 1917 em São Paulo.
>- MORAL PÚBLICA E MARTÍRIO PRIVADO ? Alexandre Samis. Editora Achiamé,
FERLAGOS e CELIP. Rio de Janeiro, 1999. Se refere à colônia penal de
Clevelândia, para onde foram levados vários anarquistas no governo de
Artur Bernardes.
>
>VÍDEO
>
>- LIBERTÁRIOS ? documentário que fala da participação de imigrantes
italianos anarquistas no movimento operário de São Paulo.
>- ESTRUTURA SINDICAL NO BRASIL (1985) ? documentário bem interessante
produzido pelo Sintel que retrata a trajetória do sindicalismo no Brasil
desde metade do século XIX até os anos 80. Dividido em 4 partes.
>Infelizmente a cópia que temos na Videoteca possui uma qualidade bastante
precária.
>- PATAGÔNIA REBELDE ? relata o trágico acontecimento na Patagônia
(Argentina) a partir do desenrolar de uma greve dos peões das estâncias
da localidade de Rio Galegos. Dá um retrato de como eram as organizações
operárias na época e suas dificuldades.
>
>http://www.anarkismo.net/newswire.php?story_id=3033

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