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(pt) [A BATALHA N. 216] PORQUE É A INTERNET MÁ PARA A DEMOCRACIA? [en,ca]

Date Tue, 2 May 2006 17:22:43 +0200 (CEST)


Por Eli M. Noam
Trata-se da tradução para português da tradução castelhana de Julio Rubio
para Libre Pensamiento (n.º 50, Inverno 2006) do artigo original publicado
na revista Communications of the Association for the Computing Machinery
(vol. 48, n.º 10, Out.º 2005), órgão daquela reputada associação
internacional. A visão crítica do autor tem, para além do seu interesse
essencial, certa oportunidade política neste momento em que assistimos
quase diariamente a insistentes e algo primários apelos às novas
tecnologias como panaceia para todos os problemas, nomeadamente a nível da
educação. Conforme regista Julio Rubio em nota introdutória ?parece-me
significativo que alguns profissionais de informática (pelo menos nos
EUA?) tenham uma visão muito menos ingénua, mais crítica e avisada dos
seus objectos de estudo e trabalho que outros profissionais dedicados à
crítica cultural e social (?) No mesmo número da revista há artigos
dedicados à organização e difusão de boicotes por meios electrónicos,
influência no rendimento académico do aumento de investimento em
computadores nas escolas (influência claramente negativa como se demonstra
com dados no artigo) (s.n.) (?) Sirva este artigo simplesmente como
anúncio para os não iniciados: nem toda a inovação informática é positiva
(neutral) e alguns profissionais da informática estão conscientes disso.?


O cepticismo quanto ao carácter pró-democrático da Internet não se baseia
no desigual acesso à rede. Tem uma base mais sistémica. Ao confrontar-se
com a Internet os observadores cometem com frequência o chamado erro de
composição. Observam o comportamento ?micro? e saltam para uma conclusão
?macro?. Pensam que se algo é vantajoso para um indivíduo ou grupo, o
efeito será similar para a sociedade em geral, quando toda a gente o usar.
Uma analogia exemplificativa: é mais rápido para um indivíduo ir no seu
automóvel para o trabalho, de manhã; porém, se toda a gente fizesse o
mesmo, todos chegariam tarde ao trabalho, e o ambiente ficaria mais
poluído devido à motorização maciça.
Um segundo erro é o da inferência. Só porque a Internet é boa para a
democracia em países como a Coreia do Norte, Irão ou Líbia, não se pode
deduzir que o seja para a Alemanha, Dinamarca ou EUA. Porque se ter 10
canais de televisão é melhor do que ter só 3 não se pode deduzir que ter
3000 seja ainda melhor.
Consideremos as razões principais pelas quais se afirma que a Internet
fortalece a democracia.

?A Internet facilita a acção participativa na política?
É certo que torna mais fáceis e baratas algumas actividades políticas.
Porém fá-lo para toda a gente. E se toda a gente fala, quem escuta? Assim
a efectividade dos utilizadores iniciais será rapidamente igualada pelos
seus rivais e levará simplesmente a uma cara e mutuamente paralisante
?corrida aos armamentos?, para investir em técnicas de personalização e em
tecnologias de marketing adaptadas aos novos meios de comunicação.

Os primeiros utilizadores da Internet experimentaram uma melhoria da sua
efectividade, e extrapolaram-na messianicamente para a sociedade no seu
conjunto. Essa melhoria foi anunciada com fanfarras como um fortalecimento
do indivíduo frente ao Grande Governo e às Grandes Multinacionais, mas
tudo ficou por um fortalecimento inicial de indivíduos e grupos com
perícia no mundo dos computadores e das redes (que têm habitualmente
investimentos e nível educativo acima da média) e um relativo
debilitamento relativamente às pessoas sem tais recursos.
Acima de tudo, o baixo custo é certo principalmente para a Internet de
banda estreita, baseada sobretudo na comunicação de texto. Porém a banda
larga permitirá primeiro e exigirá pouco depois, fantasiosas mensagens de
vídeo e multimedia. A política ?em rede? terá que ser personalizada, para
ser mais efectiva. O que requer grandes bases de dados. Nada disto é
barato.

?A Internet eleva o nível do diálogo político?

Só porque a quantidade de informação aumenta não se pode deduzir que
melhore a sua qualidade média. Antes pelo contrário: como a Internet
conduz a mais ruído informativo, é necessário gritar mais alto em cada
mensagem. Portanto, muita da informação política estará distorcida, será
ruidosa e simplista.
Uma das características da Internet é a ?desintermediação?. Em política, a
?desintermediação? da informação é uma arma de dois gumes. É certo que a
censura é indesejável, porém também o é a desinformação. Joeirar e marcar
a informação ajuda a audiência. Quando a informação chega sem filtros
poderá criar meios de comunicação colectivos, porém também poderá dar
lugar a maledicências e emboscadas políticas de última hora.

?Torna possível o acesso directo aos representantes políticos?

Sim, cada um de nós pode enviar correios electrónicos aos representantes
políticos, e talvez possa até obter uma resposta automática,
proporcionando uma ilusão de acessibilidade. Porém a atenção desses
representantes é um recurso limitado que continuará a escassear. Só umas
poucas mensagens serão atendidas. Uma maior torrente de mensagens tornará
a acção dos intermediários, que podem facilitar o acesso aos poderosos,
mais importante que nunca. Para não mencionar o facto de se poderem
produzir ostensivas manipulações em massa da opinião pública.
Ironicamente, o meio de comunicação mais efectivo com um representante
eleito ? se excluirmos o cheque para financiar a sua campanha ? continua a
ser a carta manuscrita.

?A Internet proporciona mais informação, o que é bom para a democracia?

O acesso à informação é vantajoso, e é a razão pela qual socava o
totalitarismo. Porém socava também muitas outras coisas, incluindo os
partidos políticos e a estabilidade. Também cria novas ferramentas para a
vigilância electrónica do Grande Irmão. O valor da informação para a
promoção da paz e da harmonia é sobrestimado. As situações de guerra civil
não estão caracterizadas tipicamente por falta de informação. A democracia
requer estabilidade e a estabilidade requer um pouco de inércia. As
democracias mais estáveis caracterizam-se por certa resistência à mudança.
Podem citar-se como exemplos a Grã-Bretanha e a Suíça.

É fácil interpretar romanticamente o passado da democracia, com os seus
debates atenienses ante uma cidadania comprometida, e acreditar no seu
regresso graças aos meios electrónicos. Uma rápida mirada ao retrovisor ?
pensando na rádio e na televisão ? põe as coisas no seu sítio. Os então
novos meios também foram saudados como arautos dum novo e melhorado
diálogo político. Porém a realidade foi a produção de cacofonia, a
fragmentação, o aumento de custos e o declínio do valor da informação
?dura??

A Internet pode certamente mobilizar grupos difíceis de alcançar por
outros meios, e ajudar pessoas e grupos a exprimirem-se por si mesmos.
Libertou muita energia e criatividade. Amplos segmentos da sociedade estão
desencantados com um sistema político que muitas vezes não responde, que
está frequentemente influenciado pelos financiadores das campanhas, e que
amiúde é lento; muitos encaram a Internet como a bola mágica que mudará
tudo isso. Outros aferram-se à imagem da Internet nos seus princípios ?
aberta e livre ? que criou uma nova forma de comunidade. Todos eles foram
defraudados.

A Internet não cria uma democracia ?Jeffersoniana?. Não é Atenas, nem o
cantão suíço de Appenzell, nem um sítio para o debate à Lincoln-Douglas.
Significa, em todo ocaso, menos democracia do que nesses lugares, cujo
nível tecnológico era muito menor. Porém, tão pouco existiu realmente em
algum desses lugares, excepto como um ideal, uma meta ou uma inspiração. E
neste sentido, as expectativas postas na Internet são um novo elo numa
cadeia de esperança. Quiçá de modo ingénuo, porém certamente enobrecedor.


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