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(pt) A BATALHA N. 215: A VI , A CGT E MOVIMENTO LIBERTÁRIO

Date Sat, 11 Mar 2006 09:32:01 +0100 (CET)


por José Maria Olaizola
A decisão do EZLN, zapatista, de ampliar o seu campo de
actuação intervindo mais directamente na política nacional
(?a outra campanha?) e internacional, é uma boa notícia
para as organizações e movimentos de transformação radical,
de resistência, altermundialistas, libertários, que
repudiam o neoliberalismo, a globalização económica, o
pensamento único e propõem alternativa claramente oposta
à actual, imposta pelo capitalismo.

É uma decisão que nos convida a reflectir de sobre a
prática quotidiana, de como nos organizarmos para além
das nossas próprias organizações, actuando local e
globalmente, em interrelação, dando passos em frente,
ganhando terreno na luta contra o capital transnacional
apoiado pelos poderes políticos, com poder mais absoluto,
atentando perigosamente contra a liberdade e os direitos
humanos, de cidadãos e trabalhadores. Poder que actua
criminosamente na utilização dos recursos naturais e
na abusiva acumulação de riqueza, criando desequilíbrios
de tal monta que poucos segundos morre um ser humano de
fome, doenças curáveis, etc. Tudo fruto da injusta
repartição da riqueza.

O zapatismo, percorridas várias etapas na construção da
autonomia indígena em Chiapas (preparação e constituição
do EZLN durante dez anos, aparecimento público,
constituição dos municípios autónomos rebeldes e dos
caracoles) num processo de luta e construção complexo,
difícil, reforçando a autonomia, o autogoverno, com base
na organização comunitária, na solidariedade, na igualdade,
na participação da mulher e de todos os membros da
comunidade, visando aumentar progressivamente o peso
político em detrimento do militar, até fazê-lo
desaparecer.

O desenvolvimento deste processo permite-lhes intervir
agora mais claramente a nível nacional e internacional
e responder a duas questões: a) ideológicas, b) à
necessidade de alargar a luta para preservar e desenvolver
as suas conquistas, já que qualquer realidade e processo
de luta como o zapatismo ou similar não pode sobreviver
sem a generalização desses mesmos processos.

Este novo passo resulta da sua dinâmica revolucionária,
transformadora, surgindo quando o processo local adquiriu
capacidade suficiente para prosseguir por si só, actuando
primeiro a nível nacional, mais próximo e acessível,
onde é mais fácil a coincidência de interesses e
objectivos, para depois, com passo diferente, abordar
o terreno internacional, cuja primeira etapa é a
nomeação da Comissão Intergaláctica, tendo posto em
marcha, a partir de 1 de Dezembro e até 30 de Junho,
uma ronda de reuniões com organizações internacionais
para preparar o encontro intergaláctico.
Nas últimas décadas os valores de esquerda, socialistas,
libertários, alteraram-se, desapareceram ou foram
substituídos pelos propugnados pelo capital e pelo
neoliberalismo, A solidariedade deixou de ser arma de
luta para se converter em caridade e negócio para alguns e
do apoio mútuo e de interesses igualitários de classe,
passou-se ao mais feroz individualismo, num mundo onde o
dinheiro, a aparência, a ascenção a qualquer preço na
escala social, se converteram na primeira e quase única
aspiração da maioria. Neste contexto, o discurso e a
prática zapatistas, claramente interrelacionadas e
auto-sustentadas, surgem como linguagem nova, poética,
mas sem ocultar a situação dura e difícil, da qual se
deve estar consciente.

Isto é uma esperança para os que estamos na luta. O
zapatismo é um projecto e uma realidade atraente para
os que aspiramos à mudança radical da sociedade, a
outra forma de fazer política. O projecto zapatista,
exceptuadas algumas particularidades, corresponde aos
desejos transformadores de quantos aspiram à autogestão
e a uma efectiva revolução libertária.

Movimento que soube manejar o mundo mediático, ainda que
num primeiro momento o interesse fosse também o da
imprensa, devido às expectativas criadas em amplos sectores
da sociedade e no mundo intelectual e político dito
progressista.

No movimento zapatista o importante é a sua realidade e
a luta travada para chegar a ela, a sua manutenção no
tempo e na mesma direcção, aprofundando posições e
propostas. Realidade baseada na construção e manutenção
da autonomia, no funcionamento comunitário, no repúdio
da intervenção do Governo e dos seus subsídios, na
horizontalidade, nos esforços para a igualdade entre
homem e mulher, no autogoverno assente na participação,
e rotatividade dos cargos, no respeito e defesa acérrima
da natureza. Alternatividade radicalmente oposta aos
valores imperantes, mantendo os de sempre, o
internacionalismo do movimento operário revolucionário,
em oposição à globalização económica, ao neoliberalismo,
ao capital e ao poder, responsáveis pelas actuais e
sangrentas desigualdades planetárias.

Zapatismo e movimento altermundialista desenvolveram-se
concomitantemente, intervindo a nível local e global
contra o neoliberalismo e a mundialização, nas manifestações
quando das reuniões do FMI, do Banco Mundial, do G-7, da
CEE, logrando mobilizações extraordinariamente participadas.
Coincidem quase totalmente nos discursos, alternativas e
objectivos. As diferenças entre eles são de dois níveis:
? O movimento altermundialista não tem a coerência do
zapatista. Este não aspira ao poder e não participa em
eleições políticas, pelo menos até hoje, enquanto no
altermundialismo estão grupos como os partidos comunistas,
o Partido do Trabalho do Brasil, os grupos em torno de
José Bové (candidato às próximas eleições presidenciais
francesas), ATTAC, etc., cuja alternativa passa por
eleições políticas. É falso atribuir aos altermundialistas
a vitória do não francês ao actual projecto de Constituição
Europeia. Esse não resultou de diversas coincidências:
desde a extrema direita (Le Pen), de parte dos socialistas,
com Laurent Fabius ? que nos seus tempos de ministro da
economia se situava na ala direita do PS executando as
políticas neoliberais ?, dos que estavam contra a
Constituição Europeia tal como era proposta, porém com
uma estratégia que passa pelo jogo eleitoral terminando
pelos adeptos do não rotundo por aspirarem a mudança
radical da sociedade. A vitória do não francês não
provocou mudança de Governo nem de política, que, pelo
contrário, continua a aprofundar-se no mesmo sentido.
Aprovaram-se de imediato os polos de desenvolvimento e
os novos contratos de trabalho (?novas contratações?)
para combater o desemprego, permitindo às empresas com
menos de 20 trabalhadores utilizar este tipo de contrato
para poder despedir sem justificação o novo trabalhador
durante os seus dois primeiros anos.
? Outro aspecto fundamental é a prática e a construção
da alternativa: enquanto o zapatismo intervém, se
manifesta, organiza marchas e consultas, negoceia,
modifica a realidade, constrói alternativa num território
com uma população determinada, o altermundialismo realiza
essencialmente manifestações, porém não cria
alternatividade visível num espaço determinado, amplo e
com peso suficiente.
O zapatismo teve e continuará provavelmente a ter,
intuitos e propostas de ?integração? a partir de posições
diferentes, não tendo feito até à data qualquer cedência
aos cantos de sereia governamentais, de diversos intelectuais
e organizações políticas e sociais, tanto mexicanas como
europeias. O delegado zero só sairá da selva para levar
a cabo a palavra e a tarefa assinaladas, organizar-se com
os de baixo e à esquerda, não para a tomada do poder, nem
para participar em eleições, mas para fazer outra política.

Entretanto, o movimento altermundialista atravessa uma fase
difícil no contexto europeu e espanhol. Em Espanha podemos
dizer que tal movimento desapareceu, que organizações que
em determinado momento desempenharam papel relevante já não
existem. E outras prosseguem o seu trabalho, porém
isoladamente, tendo perdido a coordenação existente em
momentos pontuais. Além de ser um movimento que se manifesta
ocasionalmente, mas não constrói uma realidade alternativa
(embora haja pequenos grupos que o fazem, geralmente isolados),
movimento contraditório, que alguns aproveitam para os seus
interesses políticos, concretizáveis em eleições, como no
caso de Bové ou do PT brasileiro. Lula, uma vez no poder,
aplica políticas económicas neoliberais, talvez com alguns
matizes, mescladas de corrupção clara e total.

Antes de prosseguir quero assinalar que a minha avaliação
positiva do zapatismo se refere à realidade colectiva
produto do seu desenvolvimento, realidade social organizada
segundo o seu critério, autónoma e independente, mas que de
modo algum pretendo mitificar. Como qualquer movimento vivo,
dinâmico, balizado por um mundo onde a capacidade de
integração do capital é enorme e as desigualdades terríveis,
um movimento que tem por centro o ser humano, logo sujeito
a paixões humanas, tem os seus problemas e contradições, que
é preciso ter em conta. Porém valorizo o seu resultado, a
sua evolução, a sua forma de superar esses problemas, o seu
crescimento. Seria ingenuidade, acreditar num mundo perfeito
dentro dum mundo imperfeito, tão desigual e cruel que a
todos, em maior ou menor medida, influencia.

Há críticas oriundas do movimento libertário e a crítica
é saudável e necessária. Criticar o que os outros fazem é
simples, não custa nada. A crítica tem maior, menor ou
nenhuma validade consoante os que criticam são capazes de
se autocriticar e são, mesmo tempo, capazes de demonstrar
com a prática e os factos a validade dessa crítica. Porque
se pode dar o caso da crítica ser só ideológica, de livro,
de quem está instalado na verdade e tem as ?tábuas da lei?.
Ora a verdade costuma ser relativa. Às vezes serve para
justificar tudo, na esfera pessoal como na colectiva (ainda
que a prática demonstre o contrário) e ao mesmo tempo serve
de patente, para sentenciar sobre a actuação dos outros.

Algumas críticas como, por exemplo, a existência de um
Exército, com tudo o que significa de comando, etc. são
críticas que eles mesmos assumem, dizendo claramente: somos
um exército que quer desaparecer. Além de saber se o EZLN
poderia estar estruturado de forma mais libertária, o que
poderíamos debater, certo é que sempre o faríamos de fora.
Os anarquistas espanhóis, pelo menos parte importante deles,
decidiram em plena guerra civil que era necessário um
Exército com tudo o que supunha de comando, disciplina, etc?
e temos aí os Durruti, etc., anarquistas ?venerados? que
foram generais? E, logicamente, também podemos criticá-los,
já que nada tem a ver essa atitude com a ortodoxia
anarquista? Porém fá-lo-íamos de fora, doutra perspectiva
e não na das circunstâncias em que então se vivia, de
guerra civil, e não no conforto em que normalmente estamos
instalados.


Sem analisar o tema da violência, problema mais complexo
do que o simples repúdio, o zapatismo existe tal qual,
como realidade, porque existe o EZLN, e para isso se
preparou durante 10 anos, se tornou público, se manteve
e mantém, para garantir o processo zapatista, do qual faz
parte como força intimamente ligada ao resto. Temos também
consciência que, apesar da sua estrutura militar, não é um
exército habitual.

Concordamos em que não são libertários, já que não se
definem como tal, nem tão pouco os que formaram o núcleo
organizador inicial, oriundos do marxismo e das tendências
esquerdistas. Não compartilhamos algumas das suas análises
sobre política internacional, Cuba, Euskadi e outros
temas. Nem são comparáveis as situações, nem as
circunstâncias e, consequentemente, não podemos trasladar
mimeticamente o zapatismo para a nossa realidade. Porém
isso não é o essencial nem o determinante no zapatismo.
Essencial é o seu processo, a evolução, a relação entre
teoria e prática, o comunitarismo, o discurso e a palavra
dada que sempre se cumpre?uma realidade com evidente
conteúdo libertário, tanto teórico como prático.

É uma atitude e uma acção, quiçá mais fácil de aplicar
e dar resultados no seu meio e circunstâncias, porém que
pode comparar-se em termos gerais com a levada a cabo em
qualquer outro meio e circunstância. O zapatismo é uma
atitude que, ao caminhar, conforme vai avançando nas suas
propostas se vai equivocando, acertando, reconhecendo os
erros, rectificando, construindo o discurso com base na
prática?que se reflecte na sua acção construindo autonomia
e alternativa. Desejável seria que no caminhar da CGT, do
movimento libertário, se passasse o mesmo ou similar
(reconhecermos erros e limitações, cumprirmos a palavra
dada, tornarmos a prática coerente com o nosso discurso?),
e desta forma, no nosso caminhar conjunto com o zapatismo
e muitos outros, irmos aprendendo uns com os outros,
avançando para maiores graus de liberdade, justiça e
igualdade.

Poderíamos falar da figura de Marcos e do seu protagonismo,
mas seria demagogia, já que em todos os grupos, qualquer
que seja o seu tipo, mesmo nos mais pequenos que dizem
tudo fazer entre todos, não nomeando ninguém para qualquer
responsabilidade, sempre existem Marcos com maior ou menor
relevância.

O zapatismo vai confrontar-se agora com uma nova realidade.
A despeito das enormes dificuldades para construir o
zapatismo em Chiapas, vai ser diferente abrir-se a todo o
México, encontrar-se com diferentes culturas, todas com
suas especificidades, e com uma sociedade em circunstâncias
diferentes da indígena. De facto, encontrava-se aí a FZLN,
organização irmã do EZLN, constituída por proposta deste e
com os mesmos fins com que o zapatismo se lança agora na
?outra campanha?. Era quem nos últimos dez anos devia ter
feito o trabalho que neste momento o EZLN vai enfrentar
directamente. Com tudo o que significa de acertos e
fracassos, consoante as perspectivas.

Quanto ao FZLN já dissolvido, é notável a capacidade de
autocrítica do zapatismo (quiçá, insuficiente, dependendo
de quem a faz). Notável porque não é habitual nas
organizações políticas, inclusivé as de esquerda, nem nas anarquistas.
?Houve, é certo, quem usasse a FZLN e a sua
proximidade ao EZLN para proveito próprio, para prejudicar
outro(a)s, para se isolar e isolar-nos, para ganhar força
com rivalidades pessoais e pugnas inúteis, plataforma para
protagonismo de individuos ou grupos, para simular
compromissos onde só havia posições cómodas. Além dos erros
que lhe cabem, o EZLN assume como seus os que, com a
bandeira do zapatismo civil, a FZLN tenha cometido. Por
estes erros pede desculpas públicas a todos os homens e
mulheres que se sentiram prejudicados por acções, palavras
e desatenções?.

Enfim o zapatismo, através da VI e do processo desenvolvido
nas consultas iniciadas em Agosto dá-nos:
- Uma crítica clara do modo actual de fazer política e de
governar. A mesma contundência para com os partidos
políticos institucionais e políticos sem excepção.
Denunciando a mentira das campanhas eleitorais, operada
através da televisão e do marketing.
- Uma análise das consequências do neoliberalismo, das
desigualdades, injustiças, da falta de liberdade?Duma
situação do mundo claramente coincidente com as nossas
análises.
- Uma verificação dos limites da sua acção, evidente num
mundo globalizado onde a fragmentação das organizações
e lutas sociais é trágico sem sentido e glória para o
capitalismo. Consequentemente, pretende impulsionar a
conjugação das lutas, a nível regional, nacional e
planetário, num processo organizativo permanente, não
conjuntural, não sujeito a tempos eleitorais, nem a outros
que não sejam os da justiça, igualdade e liberdade.
Conjugação que deve excluir a homogeneidade e a hegemonia,
onde, pelo contrário, cada cor e forma deve ter o seu
espaço.
- Processo organizativo cuja primeira etapa será construir
um espaço para ouvir, propor, deliberar e ir caminhando
para uma identidade colectiva que não dependa de
intelectuais iluminados, mas da participação, com vista
a fortalecer as redes e formas de comunicação horizontais,
promovendo autonomia e autodeterminação.
- Um processo partindo de baixo para cima, com e para os
de baixo e à esquerda, para se converter num movimento
de transformação profunda e radical, claramente
anticapitalista. Cuja saúde mental se baseie no intercâmbio
de crítica e autocrítica, sem esquecer o passado, os nossos
mortos, os nossos presos. Já que construir o futuro
esquecendo donde vimos faz com que apareçam os alibis, a
sensatez, a prudência, o medo, a rendição e a traição a
nós mesmos.

Enfim, nada com que estejamos em desacordo, nada que não
digamos nos nossos escritos. Apelo a alargar o espaço de
intervenção, de coordenaão das lutas, das propostas, dos
objectivos contra o capital, o neoliberalismo, o poder,
com a sã intenção de construir horizontalmente
organização, estrutura e identidade colectiva, capazes de
resistir, transformar radicalmente e construir
alternatividade, imprescindível para fazer frente à
sem-razão e dominação quase total do capitalismo.
Indubitavel e infelizmente, tudo pode ficar pelo caminho.

A questão é se estamos, libertários e anarco-sindicalistas,
decididos a participar num processo atraente, concordante
com o nosso pensamento e necessário para a luta, em que se
vão colocar todas as perguntas. Se também queremos auscultar,
opinar, decidir e acordar, ou se, pelo contrário, estamos
além do que se nos coloca, permanecendo ancorados na nossa
razão. Ou até em desacordo, pensando que as intenções não
são as declaradas, que adivinhamos que não nos vai agradar
o que se prefigura, que não coincidirá com as nossas ideias,
que vai ser de antemão um fracasso e, portanto, não merece a
pena embarcar nele, ou talvez não nos agrade só porque não
fomos nós quem fez a proposta (ainda que não seja
politicamente correcto dizê-lo).
O que os zapatistas propõem mais não é, noutro contexto
histórico, que o internacionalismo de sempre, assumido
pelos defensores da liberdade, da justiça, da igualdade,
das ideias socialistas.Internacionalismo que sofreu muitas
e terríveis perseguições, mortes, prisões? mais necessário
que nunca face às estruturas de poder que existem a nível
mundial, à globalização? Como muito bem entendeu o injuriado
sindicalismo institucional, que há tempo vem trabalhando
para preparar as condições (já muito avançadas) para uma
única internacional sindical mundial no decurso do próximo
ano. Entretanto, os que devíamos ser os máximos defensores
do sindicalismo, na teoria como na prática, carecemos duma
estrutura com que possamos, não só identificar-nos, como
actuar dentro e a partir dela. Salvo os que se sentem
identificados com algumas internacionais partidárias,
como acontece com a ?inexistente? AIT, de que apenas
resta o nome e se mantém na sua ?imaculada? bola de
cristal. Ou o medo infantil de criar estruturas, quando
temos pela frente uma superestrutura que cada vez mais
nos domina e anula como seres humanos.

Colocando o tema em concreto, como membro da Comissão
Confederal de Chiapas da CGT, portanto da CGT, recordo
primeiramente os acordos do Pleno Confederal (máximo
órgão de decisão entre Congressos) celebrado em Madrid,
nos dias 28, 29 e 30 de Novembro de 2003, sobre
Internacionalismo, Solidariedade e Movimento Zapatista,
que por si mesmos se explicam: o compromisso e vinculação
com o zapatismo, o seu reconhecimento?Enfim, tão simples
como tornar realidade a palavra escrita e acordada.

Em segundo lugar, como internacionalistas, reivindicarmos
aqueles militantes da CNT que pertenceram à AIT histórica,
que a potenciaram, impulsionaram e sofreram terrível
repressão em sua defesa, que são parte da nossa história.
Haveria que juntar-lhes o trabalho que há anos desenvolve
a Comissão Confederal de Chiapas, e por conseguinte a
CGT, à qual tem faltado, de certo modo, a oportunidade
que agora se coloca do debate a todos os niveis e da
construção de algo para além da solidariedade exercida.
A CGT deve participar na proposta colocada pelo EZLN
com todas as consequências. Não só da observação do que
faz um punhado de militantes, mas a partir do compromisso
com o projecto do conjunto da Organização, com o
compromisso real do seu Secretariado Permanente e Comité
Confederal, empenhando-se nos recursos humanos e materiais
para levar a cabo o trabalho, com vista a coordenar lutas,
resistências, projectos alternativos, para a construção
de uma Internacional com que estejamos identificados.

Falta-nos descer ao concreto. Aí está a iniciativa de 14
de Dezembro de 2005, convidando os grupos de apoio a
Chiapas e ao zapatismo que trabalham em Madrid. Esse é
o caminho que se deve ir concretizando, tendo em conta
que este apelo se não circunscreve aos grupos zapatistas,
mas se dirige a quantos desenvolvem trabalho social,
político, sindical, de resistência com delineamentos
antagonistas. Centenas de grupos, milhares de indivíduos
?Seria bom partir duma declaração que servisse de
chamamento e de vínculo, que poderia ser redigida por
mais de um grupo, já que ninguém aqui tem a capacidade
de convocatória do EZLN no México, e até a nível
internacional.

A CGT tem certa experiência nesta prática, por exemplo,
as marchas contra o desemprego, a exclusão, a
marginalização, a nível nacional e europeu, que em certa
altura também foram contra a guerra (Sérvia?nesses
momentos). Esse é o trabalho. Porém com mais ambição,
mais global, não abarcando só um problema parcial como
o desemprego ou a exclusão, mas todos os problemas a
nível planetário. Daí a importância do repto e do
compromisso.

Isto supõe pôr em marcha uma comissão mais numerosa, com
diferentes funções, parte da qual em dedicação exclusiva,
o que implica contactar grupo por grupo toda a geografia
espanhola, falar, ouvir, propor, acordar. Ir criando
comissões por localidades, províncias, comunidades,
processo que em linhas gerais se deveria produzir a nível
europeu, até decidir em que momento se devem realizar as
reuniões de nível superior.

Não seria correcto celebrar agora ou a curto prazo uma
reunião europeia e ainda menos galáctica, sem ter feito
antes o trabalho prévio necessário para que as reuniões
a nível mais amplo sirvam para algo mais que mera troca
de informações e opiniões.

Creio que não há mistério ou fórmula mágica que substitua
o trabalho sistemático e bem organizado, com a mente e
coração abertos, capazes de ouvir, deixando pelo caminho
sectarismos e vaidades pessoais, olvidando protagonismos
e patrimonialismos. Sermos capazes de nos empenharmos
ante a grave situação em que se encontra o mundo: perda
de liberdades, injustiça, grave agressão à terra, guerras
bestiais, pondo de lado a verdade de cada um, esquecendo
quão satisfeitos estamos com a nossa pequena organização
e a nossa actividade particular, conscientes de que a
situação exige muita humildade e generosidade para com os
deserdados da terra. E essa generosidade significa
acumular suficiente força para avançar no processo
revolucionário e, para isso, é necessária a unidade com
todos os matizes que desejarmos. Ou o fazemos juntos ou
continuaremos perdendo, prestando um fraco serviço à
Humanidade. Nada disto exige qualquer dissolução, nem é
esse o problema; o primeiro problema é de atitude.

Para finalizar, esta deveria ser a aposta do conjunto do
movimento libertário, de forma decidida, sem medos, sem
receios, com entrega plena. Deveria ser uma das suas
apostas estratégicas. O que não impede o dito movimento
de coordenar mais eficazmente do que no presente, dado
que está abaixo dos mínimos.

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