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(pt) Especifismo: A Práxis Anarquista de Desenvolver Movimentos Sociais e deOrganização Revolucionária

Date Tue, 18 Jul 2006 12:53:50 +0200 (CEST)


ADAM WEAVER
Tradução de Pedro Ribeiro


Ao redor do mundo, o envolvimento anarquista ns movimentos sociais assim
como o desenvolvimento de organizações especificamente anarquistas
experimento um crescimento. Esse movimento está ajudando o anarquismo a
reganhar sua legitimidade como uma força política dinâmica dentro dos
movimentos sociais e, nessa luz, Especifismo, um conceito nascido de quase
cinqüenta anos de experiências anarquistas na América do Sul, está
ganhando influência no mundo todo. Apesar de muitos anarquistas serem
familiares com muitas das idéias especifistas, elas devem ser definidas
como uma contribuição original à pratica e pensamento anarquistas.

A primeira organização a promover o conceito do Especifismo ? então mais
uma prática do que uma ideologia definida ? foi a Federacción Anarquista
Uruguaya (FAU), fundada em 1956 por militantes que abraçaram a idéia de
uma organização especificamente anarquista. Sobrevivendo a ditadura no
Uruguai, a FAU emergiu no meio da década dos oitentas para estabelecer
contato e influenciar outros anarquistas revolucionários sul-americanos. O
trabalho da FAU influenciou e ajudou a fundação da Federação Anarquista
Gaúcha (FAG), a Federação Anarquista Cabocla (FACA) e a Federação
Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), em suas respectivas regiões
brasileiras, e a argentina Auca (Rebelde).

Apesar de que os conceitos-chave serão explicados em profundidade mais
tarde nesse texto, eles podem ser sumarizados em três pontos sucintos:
1. A necessidade de uma organização especificamente anarquista construída
ao redor de uma unidade de teoria e práxis.
2. O uso da organização especificamente anarquista para teorizar e
desenvolver trabalho político e popular estratégico.
3. Participação ativa e a construção de movimentos sociais populares e
autônomos, descrito como o processo de ?inserção social?.

UMA CURTA PERSPECTIVA HISTÓRICA

Apesar deste só aparecer no cenário do anarquismo Latino-Americano apenas
nas últimas décadas, as idéias inerentes ao especifismo tocam numa
corrente histórica que ocorre internacionalmente no movimento anarquista.
A mais famosa é a corrente Plataformista, que começou com a publicação da
?Plataforma Organizacional dos Comunistas Libertários?. Esse documento foi
escrito em 1926 por Nestor Makhno, ex-líder de um exército camponês, Ida
Mett e outros militantes do grupo Dielo Trouda (Causa Operária), que
publicava um jornal de mesmo nome [Skirda 123-213]. Exilados da Revolução
Russa, o grupo baseado em Paris Dielo Trouda criticou o movimento
anarquista por sua falta de organização, o que impediu uma resposta
coordenada às maquinações bolcheviques para tornar os sovietes dos
trabalhadores em instrumentos de governo do partido único. A alternativa
por eles proposta foi a ?União Geral de Anarquistas? baseado no Comunismo
Anarquista, quês buscaria ?unidade de teoria e prática? e se focalizaria
na luta de classes e os sindicatos trabalhistas.

Outras ocorrências de idéias similares incluem o ?Dualismo Organizacional?
que era mencionado em documentos históricos do movimento anarquista
italiano da década dos anos vintes. Anarquistas italianos usam esse termo
para descrever o envolvimento de anarquistas tanto como membros de uma
organização política anarquista, quanto como militantes do movimento
trabalhista [FdCA]. Na Espanha, o grupo Amigos de Durruti emergiu para
opor a reversão gradual da Revolução Espanha de 1936 (Guillamon). Em ?Rumo
à Uma Nova Revolução?, eles emularam algumas idéias da Plataforma,
criticando o gradual reformismo e colaboração com o governo republicano
por parte da CNT-FAI, que, segundo seus argumentos, contribuiu para a
derrota das forças antifascistas e revolucionárias. Organizações com
influência no movimento anarquista chinês da década de 1910, tais como a
Wuzhengfu-Gongchan Zhuyi Tongshi Che (Sociedade de Companheiros Comunistas
Anarquistas) pregava idéias similares [Krebs]. Apesar de todas as
diferentes correntes terem características específicas que se
desenvolveram dos movimentos e países de onde eles se originaram, eles
todos compartilham uma idéia comum que cruza movimentos, eras e
continentes.

ESPECIFISMO ELABORADO

Os especifistas apresentam três pontos principais para sua política, com
dois deles sendo no nível de organização. Ao invocar a necessidade de uma
organização especificamente anarquista criada com certa unidade de idéias
e práxis, os especifistas se opõe inerentemente à idéia de uma organização
síntese de revolucionários ou múltiplas correntes de anarquistas unidas de
maneira tênue. Eles caracterizam essa forma de organização como criando
uma:

"Busca exacerbada pela necessária união dos anarquistas, a ponto de que
união é preferida a qualquer custo, com medo de arriscar-se posições,
idéias e propostas às vezes irreconciliáveis. Os resultados deste tipo de
união são coletivos libertários sem muito em comum exceto se considerarem
anarquistas [En La Calle]."

Enquanto essas críticas foram elaboradas pelos especifistas
sul-americanos, anarquistas norte-americanos também descreveram suas
experiências de organizações de síntese como umas em que faltavam qualquer
coerência devido a tendências políticas múltiplas e contraditórias.
Geralmente a concordância básica do grupo é reduzida à vaga política
definida pelo mínimo denominador comum, deixando pouco espaço para ação
unida ou discussão política desenvolvida entre companheiros.

Sem uma estratégia que surja de um acordo político mútuo, organizações
revolucionárias estão condenadas a ser um negócio de reativismo contra as
contínuas manifestações de opressão e injustiça e um ciclo de ações
infrutíferas s serem repetidas vez e outra, com muito pouca análise ou
entendimento de suas conseqüências [Featherstone et al]. Além disso, os
especifistas criticam essas tendências por não levarem ao trabalho sério e
sistemático necessário para se construir movimentos revolucionários. Os
revolucionários dizem que as organizações que não tem um programa,:

"Que resistem qualquer disciplina entre militantes, que se recusam a ?se
definir?, a ?se encaixar?, ... são um descendente direto do liberalismo
burguês, que reage apenas a ao estímulo forte, se juntando à luta apenas
nos seus momentos elevados, se negando a trabalhar continuamente,
especialmente nos momentos de relativa calma entre as lutas. [En La Calle]
"

Uma ênfase especial da práxis especifista é o papel da organização
anarquista, formada em base de política compartilhada, como espaço de
desenvolvimento de uma estratégia comum e reflexão no trabalho popular do
grupo. Sustido pela responsabilidade coletiva aos planos e trabalho da
organização, um ímpeto é criado dentro dos membros e grupos da mesma que
permite uma discussão de suas ações profunda e de alto nível. Isso permite
que a organização crie uma análise coletiva, desenvolva objetivos
imediatos e de longo prazo, e reflita e mude seu trabalho baseado nas
lições ganhas e em circunstâncias específicas.

Dessas práticas e com base em seus princípios ideológicos, organizações
revolucionárias devem procurar criar um programa que defina seus objetivos
de curto e longo prazo e deve trabalhar rumo a seus objetivos de
longo-prazo.

"O programa deve vir de uma análise rigorosa da sociedade e a correlação
de forças que são parte dela. Deve ter como fundação a experiência da luta
dos oprimidos e suas aspirações, e destes elementos deve criar os
objetivos e tarefas a serem feitas pela organização revolucionária não
apenas em seus objetivos finais, mas também em seus mais imediatos [En La
Calle]."

O último ponto, mas um que é chave dentro da prática do especifismo, é a
idéia da ?inserção social ?. Essa prática se origina as idéia que os
oprimidos são a camada mais revolucionária da sociedade, e que a semente
da futura transformação revolucionária desta sociedade já está nessas
classes e grupos sociais. A inserção social quer dizer o envolvimento
anarquista nas lutas diárias dos oprimidos e das classes trabalhadoras.
Não quer dizer agir dentro de campanhas de advocacia de um problema só
baseada na participação já esperada dos tradicionais ativistas políticos,
mas sim dentro dos movimentos do povo lutando pela melhora de sua própria
condição, que se une nem sempre em base de necessidades materiais, mas
também em necessidades sociais e históricas de resistir os ataques do
Estado e do capitalismo. Isso inclui movimentos trabalhistas de base,
movimentos de comunidades de imigrantes demandando status legal,
organizações de bairro resistindo a brutalidade e matança pela polícia,
estudantes de classe operária resistindo a cortes no ensino público, e os
pobres e desempregados opondo despejos e cortes nos serviços públicos.

Através de suas lutas diárias, os oprimidos se transformam numa força
consciente. A classe-em-si-mesma, ou melhor, classes-nelas-mesmas
(definidas além da visão reducionista de classe do proletariado industrial
para incluir todos os grupos oprimidos que tem algo concreto a ganhar na
nova sociedade) são temperadas, testadas e recriadas através dessas lutas
diárias sobre necessidades imediatas, transformando-se em
classes-para-si-mesmas. Ou seja, elas mudam de classes e grupos sociais
que existem objetivamente pelo fato de relações sociais, em forças
sociais. Unidas de modo orgânico e muitas vezes por sua própria coesão
auto-organizacional, eles se tornam atores conscientes de seu próprio
poder, voz e nêmesis intrínseco: as elites governantes que mantém o
controle sobre as estruturas de poder da ordem social vigente.

Exemplos da inserção social que a FAG cita são seu trabalho com os Comitês
de Resistência Popular em favelas e bairros, aliança com membros de base
do MST e o trabalho com os catadores de materiais recicláveis. Devido ao
alto nível de emprego temporário e de contingente, subemprego e desemprego
no Brasil, parte significante da classe trabalhadora não sobrevive de
trabalho assalariado, mas sim de trabalho de subsistência e da economia
informal tais como pedreiros casuais, camelôs ou catadores de recicláveis.
Através de anos de trabalho, a FAG construiu uma relação forte com os
catadores urbanos. Membros da FAG os ajudaram na formação de sua própria
organização que trabalha que trabalha em mobilizar os catadores em nível
nacional e levantar dinheiro para a construção de sua própria operação de
reciclagem coletiva .

A concepção de Especifismo sobre a relação das idéias aos movimentos
populares é que elas não devem ser impostas por líderes, através de
?linhas de massa? ou por intelectuais. Militantes anarquistas não devem
tentar mover os movimentos a assumirem uma posição ?anarquista?, mas sim
trabalhar para manter seu ímpeto anarquista; isso é, sua tendência natural
à autogestão e pela luta militante por seus próprios interesses. Isso
assume a perspective de que os movimentos sociais atingirão sua própria
lógica de fazer revolução, não quando todos necessariamente atingirem o
ponto de serem auto-identificados ?anarquistas?, mas quando todos (ou a
grande maioria) atingirem a consciência de seu poder próprio e exercitar
esse poder em suas vidas, de certa maneira adotando conscientemente as
idéias do anarquismo. Um papel adicional dos militantes anarquistas dentro
dos movimentos sociais. de acordo com os especifistas, é adereçar as
múltiplas correntes políticas que existirão dentro dos movimentos e
combater ativamente os elementos oportunistas do vanguardismo e da
política eleitorais.

ESPECIFISMO NO CONTEXTO DO ANARQUISMO NORTE-AMERICANO E OCIDENTAL

Dentro das correntes atuais do anarquismo organizado e revolucionário
norte-americanos e ocidental, números indicadores apontam para a
influência e inspiração da Plataforma como tendo o maior impacto no
recente despertar de organizações do anarquismo de luta de classe ao redor
do mundo. Muitos vêem a Plataforma como um documento histórico que
responde às falhas organizacionais do anarquismo dentro dos movimentos
revolucionários globais do século passado, e se definem como agindo dentro
da ?tradição plataformista?. Assim sendo, as correntes do Especifismo e do
Plataformismo merecem comparação e contraste.

Os autores da Plataforma foram participantes veteranos da Revolução Russa.
Eles ajudaram a liderar uma guerrilha camponesa contra exércitos da Europa
Ocidental e mais tarde contra os Bolcheviques na Ucrânia, cujo povo tinha
história independente do Império Russo. Então os autores da Plataforma com
certeza falavam de um mundo de experiência e ao contexto histórico de uma
das lutas pivô de sua era. Mas o documento fez ouço progresso em suas
propostas de união dos anarquistas revolucionários, e é notoriamente
silencioso em análise e compreensão num número de questões que encaram os
revolucionários em seu tempo, como a opressão das mulheres e o
colonialismo.

Apesar de que organizações de orientação Comunista Anarquista hoje invocam
influência da Plataforma, esta pode ser vista como uma análise precisa que
refletia sobre apatia que desceu sobre o movimento anarquista depois da
Revolução Russa. Como um projeto histórico, as idéias e propostas básicas
foram largamente rejeitadas pelas tendências do movimento anarquista,
foram mal-entendidas devido a barreiras de língua como dizem alguns
[Skirda, 186], ou nunca alcançaram os elementos e organizações
simpatéticas que teriam se unido ao redor do documento. Em 1927, o Grupo
Dielo Trouda criou uma pequena conferência internacional na França para
pessoas interessadas, mas esta foi logo interrompida pelas autoridades.

Em comparação, a práxis do Especifismo é prática viva e desenvolvida, e
sem dúvida muito mais relevante à teoria e prática contemporânea,
emergindo como fez de cinqüenta anos de organização anarquista. Surgindo
no cone sul da América Latina, mas expandindo-se através desta, as idéias
do Especifismo não vem de um único documento, mas foram criadas
organicamente dos movimento do Sul Global que lidera a luta contra o
capitalismo internacional e que cria exemplos para os movimentos do mundo
todo. Em organização, os especifistas falam de uma base para a organização
anarquista muito mais profunda do que a ?unidade de teoria e prática? da
Plataforma, mas sim um programa estratégico baseado na análise que guia as
ações dos revolucionários. Eles nos dão um exemplo vivo de organizações
revolucionárias baseadas na necessidade de análise comum, estratégia
compartilhada e raízes firmes nos movimentos sociais.

Eu acredito que existe muito de que se tomar inspiração da tradição
especifista, não apenas numa escala global, mas particularmente para
anarquistas de luta de classe e revolucionários multi-raciais na América
do Norte. Enquanto a Plataforma pose facilmente ser lida como vendo o
papel dos anarquistas focalizado de maneira estreita dentro dos sindicatos
trabalhistas, Especifismo nos dá um exemplo vivo que podemos ver e que nos
fala de maneira mais significativa ao nosso trabalho em construir um
movimento revolucionário hoje em dia. Levando tudo isso em consideração,
eu também espero que esse texto nos ajude a refletir mais concretamente
como nós como um movimento definimos e moldamos nossas tradições e
influências.


Apesar de ?inserção social? venha direto dos textos de organizações
inspiradas pelo especifismo, companheiros meus tem problema com este
termo. Então, antes de abraçarmos não-criticamente qualquer coisa, talvez
deva haver uma discussão sobre esse termo
Eduardo, então Secretário de Relações de Relações da FAG. ?RE: Saudações
Libertárias dos E.U.A.? E-mail a Pedro Ribeiro. 25 de Junho de 2004.

Bibliografia:

En La Calle (texto anônimo). "La Necesidad de Un Proyecto Propio, Acerca
de la importancia del programa en la organizacion polilitica libertaria?
or ?The Necessity of Our Own Project, On the importance of a program in
the libertarian political organization." En La Calle, published by the
Argeninian OSL (Organización Socialista Libertaria) Jun 2001. 22 Dec 2005.
Tradução para o inglês por Pedro Ribeiro.

Featherstone, Liza, Doug Henwood e Christian Parenti."Left-Wing
Anti-intellectualism and its discontents" Lip Magazine 11 Nov 2004. 22 Dec
2005 .

Guillamon, Agustin. The Friends of Durruti Group: 1937-1939. San
Francisco: AK Press, 1996.

Krebs, Edward S. Shifu, the Soul of Chinese Anarchism. Landham, MD: Rowman
& Littlefield, 1998.

Northeastern Anarchist. The Global Influence of Platformism Today by The
Federation of Northeastern Anarchist Communists (Johannesburg, South
Africa: Zabalaza Books, 2003), 24. Entrevista com Italian Federazione dei
Comunisti Anarchici (FdCA).


Skirda, Alexandre. Facing the Enemy, A History of Anarchist Organization
from Proudhon to May 1968. Oakland, CA: AK Press 2002.


Adam Weaver é um Comunista Anarquista de San Jose, CA.


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