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(pt) «A BATALHA» N. 217: Guerra civil e revolução soci al na Espanha (I)

Date Thu, 13 Jul 2006 09:31:36 +0200 (CEST)


Por Júlio Palma

Há setenta anos a Espanha tornava-se palco onde a representação da peça
não tinha tido combinação prévia entre os diferentes actores ? o enredo
desenrolava-se nas oposições da própria acção.
Vale a pena reler alguns livros porque setenta anos volvidos a última
palavra ainda não foi dita.
Comecemos por Los Problemas de la Revolución Española, de Andrés Nin (Ed.
Ruedo Ibérico, 1971, 230 pp.) O livro é composto por um conjunto de
artigos escritos entre 1931 e 1937, compilados por Juan Andrade, que
escreve também o prefácio.
Nin analisa a situação concreta espanhola tomando por base os ensinamentos
de Lenine e Trotsky. Isto está bem expresso na perspectiva traçada para «a
táctica dos comunistas» depois da instauração da República em 1931.
Escreve Nin: «A linha estratégica é clara: só a classe operária pode
resolver os problemas colocados à revolução espanhola, só a instauração da
ditadura do proletariado pode significar o coroamento do processo
revolucionário que atravessa o nosso país. (...) No momento actual
predominam no proletariado e nas massas populares do país as ilusões
democráticas. A nossa missão deve consistir em desvanecer essas ilusões,
demonstrando, pela crítica constante dos factos, a impossibilidade para a
burguesia de satisfazer as aspirações das massas e impulsionar estas para
a acção enérgica e constante, a fim de conseguir que a revolução
democrática seja levada às últimas consequências.» Nin sabia que precisava
da alavanca, por isso escrevia: «As tarefas que temos de realizar são
imensas. A mais urgente é a criação do partido. Sem partido a classe
trabalhadora não poderá emancipar-se e o processo revolucionário será
contido pela reacção burguesa.»
Andrés Nin manteve-se coerente na defesa desta posição. Mesmo depois da
vitória da coligação «operário-republicana» nas eleições de Fevereiro de
1936, Nin apontava como «dever do momento» a «independência do movimento
operário perante os partidos republicanos, organização, unidade sindical,
aliança operária, formação rápida do partido revolucionário». E à medida
que as greves alastravam Nin dizia que a «missão essencial» do
proletariado consistia em «fustigar constante e incansavelmente a
burguesia, confiar apenas nas próprias forças, criar desde já os
instrumentos adequados para a insurreição e para o exercício do poder ?
aliança operária, partido revolucionário ? e impulsionar vigorosa e
decididamente o movimento para a revolução social».
Quando se deu o levantamento militar de 19 de Julho de 1936, já existia o
Partido Operário de Unificação Marxista, que havia sido fundado em
Setembro de 1935 como resultado da fusão do Bloco Operário e Camponês e da
Esquerda Comunista Espanhola. Só que, como diz Juan Andrade no prefácio,
«desgraçadamente, a guerra civil estalou antes que se estivesse
estabelecido a soldadura interna na concepção dos problemas das duas
organizações fundidas».
Mesmo assim, Andrés Nin não vira a cara à luta e num discurso em Barcelona
em Setembro de 1936 diz: «Todo o futuro da revolução depende, em grande
parte, da atitude que adoptem a CNT e a FAI. A CNT e a FAI são duas
grandes organizações que contam com uma imensa simpatia entre a classe
trabalhadora. Temos com estas organizações profundas discrepâncias
ideológicas, mas afirmamos que, no momento presente, a CNT e a FAI
demonstram, além de um claro sentido revolucionário, uma consciência mais
clara da realidade proletária actual.» E um pouco mais à frente: «Os
anarquistas falavam sempre em caminhar para a instauração imediata do
comunismo libertário. Hoje, a CNT e a FAI, de facto, compreendem que a
instauração imediata do comunismo libertário não é possível, que a
situação actual nos obriga a passar por certas formas transitórias e neste
sentido, hoje, de facto, a CNT e a FAI reconhecem a necessidade do poder
político. Creio, companheiros anarquistas, que é perfeitamente possível
que nos cheguemos a entender sobre esta questão.»
A dinâmica histórica não o iria permitir. De facto, tanto Andrés Nin como
elementos da CNT e da FAI acabariam por participar em organismos
governamentais (Nin foi conselheiro da Justiça no governo da Generalidad).
Como escreveu Juan Andrade «quase um ano depois de começada a guerra
civil, no dia 16 de Junho de 1937, desencadeou-se a feroz repressão contra
o partido: Andrés Nin foi assassinado». Um fim trágico e um descalabro
como resultado.
Passemos a Guerre de classes en Espagne et textes libertaires, de Camillo
Berneri (Ed. Spartacus, 1977, 95 pp.), com prefácio e biografia de Frank
Mintz.
Berneri chegou a Espanha a 29 de Julho de 1936, participou na coluna
italiana Giustizia e Libertà e fixou-se em Barcelona a partir de Outubro
de 1936 com a saída da revista Guerra di Classe.
Logo no número um Berneri escreve: «Observadores atentos do que se passa à
nossa volta, críticos independentes se necessário, não podemos deixar de
ser entusiastas da Espanha, considerando as grandes linhas e não os
detalhes. (...) É preciso pensar que a claridade do incêndio espanhol
atrai os espíritos e os corações de todos os revolucionários do mundo,
porque aqui se está comprometido numa luta mundial pelas repercussões que
terá no futuro. É na Espanha que o anarquismo terá pela primeira vez a
medida das suas capacidades construtivas.» (9-10-1936.)
Berneri tem uma percepção clara do que está em jogo. Sobre a propalada
«não intervenção» escreve que «isso permite à Itália, à Alemanha e a
Portugal de se prepararem melhor para a guerra e às forças espanholas
fascistas de se abastecerem de armas e de munições» (n.º 3, 24-10-1936).
No número a seguir ele chamava a atenção para a «viragem perigosa» que
estava ocorrendo: «A situação militar não melhorou. (...) É preciso passar
da guerra de posições a uma guerra de movimento. (...) O tempo está
doravante contra nós. (...) Há algum tempo que a CNT e a FAI adoptaram em
relação à ?normalização? da revolução espanhola uma atitude de renúncia.
(...) É preciso deplorar um desenvolvimento de bolchevização no seio da
CNT caracterizado pela cada vez menor possibilidade da parte dos elementos
da base de poderem exercer um controlo vigilante, activo, directo, sobre a
obra realizada pelos representantes da organização no seio dos comités e
conselhos governamentais. (...) O problema consiste em conciliar as
?necessidades? da guerra, ?a vontade? da revolução e as ?aspirações? do
anarquismo. É preciso que o problema seja resolvido. É dele que dependem a
vitória militar do antifascismo, a criação duma nova economia, a
libertação social da Espanha, a valorização do pensamento e da acção dos
anarquistas.» (5-11-1936.)
No número seis Berneri via a correlação de forças em mudança: «A força do
movimento anarco-sindicalista espanhol não nos deve ofuscar. No dia em que
corpos do exército francês, inglês e russo intervierem depois de um
esgotante conflito entre as forças revolucionárias e a coligação fascista
hispano-italiano-alemã, nesse dia a revolução social seria refreada e a
via aberta à revolução burguesa.» (16-12-1936.) E no número sete
completa-se: «Devido à intervenção aberta do fascismo ítalo-alemão de um
lado e do outro do bolchevismo russo» entrou-se na fase internacional. «De
agora em diante, o desenvolvimento da situação interna está submetido
principalmente a factores estrangeiros. (...) As relações de força estão
em vias de mudar, militar e politicamente. A guerra civil está em vias de
adquirir um ritmo mais rápido, um quadro de acção cada vez mais vasto, um
carácter mais decidido, ao passo que a intervenção russa assegura a
hegemonia das forças sociais comunistas, que estavam, até agora,
completamente dominadas pelas forças anarquistas.» (18-1-1937.)
Camillo Berneri via muita coisa e não gostava nada do que via. Na «Carta
aberta à camarada Federica Montseny», que na altura era ministra, Berneri
diz: «Não pude aceitar calmamente a identidade afirmada por ti entre o
anarquismo bakuninista e o republicanismo federalista de Pi y Margall. Não
te perdoo por teres escrito ?que na Rússia não foi Lenine o verdadeiro
construtor da Rússia, mas sim Estaline, espírito realizador, etc.?. E
aplaudi a resposta de Voline na Terra Livre às tuas afirmações
completamente inexactas sobre o movimento anarquista russo. (...) No
discurso de 3 de Janeiro tu dizias: ?Os anarquistas entraram no governo
para impedir que a revolução se desviasse e para a continuar além da
guerra e ainda para se oporem a toda a eventualidade de tentativa
ditatorial, donde quer que venha.?
Ora bem camarada, em Abril, depois de três meses de experiência
colaboracionista, estamos perante uma situação no decurso da qual se
produzem factos graves, enquanto se desenham já outros piores ainda. (...)
O governo está em Valência e é daí que partem os guardas de assalto
destinados a desarmar os núcleos revolucionários formados para a defesa.
(...)
Assistimos ao facto novo, e que pode levar a consequências desastrosas,
segundo o qual batalhões inteiros são comandados por oficiais que não têm
a estima e a afeição dos milicianos. Este facto é grave porque o valor da
maioria dos milicianos espanhóis é directamente proporcional à confiança
que tem o seu comandante. É por isso necessário restabelecer a
elegibilidade directa e o direito de destituição pelos da base.
(...) Chegou a hora de explicar se os anarquistas estão no governo para
serem vestais dum fogo que se está extinguindo ou se aí estão doravante
para servirem de barrete frígio a políticos cortejando o inimigo ou as
forças de restauração da ?República de todas as classes?. O problema está
posto pela existência duma crise que ultrapassa os homens que são
personagens representativas.» (N.º 12, 14-4-1937.)
As forças contra-revolucionárias avançavam. Um mês depois Camillo Berneri
estava morto.

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