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(pt) «A BATALHA» N. 217: No 120º aniversário do seu nas cimento , ÁNGEL PESTAÑA (1886-1937)

Date Thu, 13 Jul 2006 09:17:46 +0200 (CEST)


Por Fernando J. Almeida

Perfaz-se, neste ano de 2006, o 120º aniversário do nascimento de Ángel
Pestaña, o sucessor de Salvador Seguí, ?el Noi del Sucre?, à frente dos
destinos da CNT, e que tanta controvérsia gerou, devido às suas posições
acerca do movimento sindical espanhol, nos anos 20-30 do século XX.


Com Pestaña, consumou-se a latente e desgastante antinomia
Anarquismo/Sindicalismo, que vinha minando a CNT e que o levou a enveredar
por um activismo que admitia todos os meios possíveis ? incluindo a
Política ? para conseguir para os sindicatos maior eficácia na luta
anticapitalista. O possibilismo e reformismo, adoptados de forma
pragmática por Ángel Pestaña, mereceram forte contestação por parte dos
sectores mais ortodoxos da CNT, que nunca aceitaram e compreenderam as
posições de ?el Ángel? (o Anjo), como era, carinhosamente, tratado pela
sua companheira, Maria Esprés, e seus amigos. Para além das divergências
ideológicas, os opositores de Pestaña recorreram à injustiça, inveja,
rancor e calúnia para denegrir a imagem de um homem bom e íntegro.
Paradoxalmente, muitos daqueles que combateram Pestaña, por se ter tornado
um ?político?, com toda a carga pejorativa que a palavra encerrava para os
Anarquistas, seriam os mesmos que, durante os anos da Guerra, aceitariam
os cargos governamentais, mais simbólicos que decisivos, oferecidos pelos
Ministérios da República.

UMA JUVENTUDE ATRIBULADA

Ángel Pestaña Nuñez nasceu, em 1886, na cidade mineira de Ponferrada
(León). De origem humilde, pertencia a uma família de mineiros e ele
próprio trabalhou, duramente, nas minas, desde os dez anos de idade.
Iniciou o seu labor sindicalista em Viscaya, onde participou nas lutas
pelas oito horas de trabalho, o que lhe valeu a sua primeira detenção e
fuga para o estrangeiro, onde viveu entre 1905 e 1914.
Teve uma infância atribulado: a mãe abandonaria o lar, quando tinha apenas
dois anos, ficando entregue ao pai, um mineiro rude e analfabeto, que não
lhe facultaria qualquer tipo de instrução. A sua ânsia de saber fez de
Pestaña um autodidacta e um orador claro, directo e convincente, cuja
paixão pela leitura abarcava toda a espécie de conhecimentos, como
História, Economia, Literatura, Geografia, Marxismo, Gramática,
Fisiologia?
Aos 14 anos, falecia-lhe o pai. Despedido do seu trabalho nas minas,
devido à actividade reivindicativa, Pestaña mendigou trabalho de fábrica
em fábrica, foi relojoeiro em Bilbao, sapateiro em Argel, camponês em
Bordéus, trabalhador numa fábrica de espelhos, em Sen Sebastián; embarcou
em navios que o levaram à Grã-Bretanha, França, Argélia. Emigrante
clandestino, adoptou os falsos nomes de Ismael Nadal e Ángel Nuñez, mas
acabou por ser expulso de Paris, em 1906. Para ganhar a vida, chegou a
integrar um conjunto musical, que animava feiras e cafés, vencendo, deste
modo, o seu carácter taciturno e introvertido.
Foi desde muito jovem que Pestaña se dedicou, completamente, à defesa da
causa operária, seguindo as ideias anarco-comunistas de Kropotkin. Num
comício realizado em Sestao (País Basco), sofreria a sua primeira
detenção, mas, ao ficar em liberdade condicional, fugiria de Espanha,
conhecendo o exílio em França e na Argélia. Com o rebentar da 1ª Guerra
Mundial regressaria, desembarcando em Barcelona, em Agosto de 1914. Nesta
cidade, torna-se redactor de ?Tierra y Libertad? e de ?Solidaridad
Obrera?, de que seria administrador, quando esta publicação passou a
diária. Em 1915, está em El Ferrol (Galiza), onde faz parte do Ateneu
Sindicalista e participa no Congresso Internacional da Paz, proibido pelo
governo de Dato.

O DIFÍCIL SINDICALISMO

Ángel Pestaña tornou-se um destacado dirigente da CNT, participando
activamente na preparação da greve revolucionária de 13 de Agosto de 1917,
que uniu a CNT e UGT, numa jornada de intensa luta sindical.
Depois do Congresso da CNT de 1919, viajou para a Rússia Soviética, a fim
de colher informações sobre a III Internacional (Komintern), em que a CNT
se inscreveria, provisoriamente. As suas impressões sobre a realidade
Russa ficariam descritas no ?Informe de mi estancia en la Unión
Sovietica?, que só seria publicado em 1921, um atraso provocado por mais
uma das muitas prisões sofridas por Pestaña. Este informe levaria à
ruptura da CNT com o Komintern, e posterior adesão à AIT, em 1922.
Em Agosto de 1922, Pestaña sofre um atentado em Manresa, ficando
gravemente ferido. O atentado é obra do ?Sindicato Livre?, organização de
pistoleiros ao serviço do patronato, que actuava na cintura industrial de
Barcelona; as suas sequelas minariam, para sempre, a saúde de ?el Ángel?,
causando-lhe a morte prematura.
Em 15 de Setembro de 1922, o general Primo de Rivera deu o golpe-de-estado
que instaurava a Ditadura Militar, o que forçaria a passagem da CNT à
clandestinidade e à formação da FAI, em 1927. O período da Ditadura foi
uma fase de apagamento da CNT e a ascensão da UGT, tolerada pelo novo
regime, que admite o dirigente Socialista e leader da UGT, Largo
Caballero, como Conselheiro de Estado. É nesta altura que se patenteiam as
divergências entre Pestaña (e outros dirigentes da CNT) e o núcleo duro da
FAI. Ao aperceber-se das vantagens que a UGT usufruia, por ser uma
organização legal, Pestaña começou a defender teses possibilistas para o
Sindicalismo Confederal, como sejam a aceitação dos Comités Paritários,
que resolviam os diferendos entre Sindicados e Patronato, implantados por
Primo de Rivera. Estas teses, publicadas na ?Solidaridad Proletaria? e
?Vida Sindical? provocam a ira dos sectores faístas da CNT, que iniciam
uma campanha que levará à expulsão de Pestaña, em 1932.
Livre de compromissos, Pestaña adquire a liberdade de acção para lutar por
uma aliança com a Esquerda Republicana e Socialista, e tornar o
Sindicalismo mais participativo e actuante. Esta acção ditaria a profunda
inimizade que o núcleo duro da CNT passaria a votar a Ángel Pestaña.

A RUPTURA

Em 14 de Abril de 1931, era proclamada a II República, e Pestaña surgia
como uma das figuras mais prestigiadas do novo panorama político espanhol.
Por isso, foi alvo de convites para ocupar altos cargos públicos do regime
republicano. Francesc Maciá, presidente da recém-proclamada República
Catalã (depois transformada em Generalitat) convidou-o para integrar o seu
governo. Admirado por vários sectores do leque partidário espanhol,
Pestaña chegou a ser contactado por José Antonio Primo de Rivera, Chefe da
Falange, para se tornar o dirigente da Revolução Nacional-Sindicalista
(por sugestão de Mussolini, diz-se...).
Coerente com as suas ideias libertárias, Pestaña rejeitou, de igual modo,
as propostas do separatista Maciá e do fascista José Antonio. A mesma
coerência com que, mais tarde, recusará cargos políticos no governo da
República.
Em 10 de Junho de 1931, celebrou-se, em Madrid, o Congresso da CNT, onde
se produziu o enfrentamento entre os moderados, onde sobressaíam Pestaña e
Peiró, e os Faístas Durruti, Garcia Oliver, Ascaso, Montseny. Em Agosto do
mesmo ano, surgia o ?Manifesto dos Trinta?, subscrito, entre outros, por
Pestaña, que propugnava ?(?) não se podia confiar a Revolução às minorias
audazes, mas sim a um movimento envolvente das massas populares.?
Em 1932, Ángel Pestaña era demitido da Scretaria Nacional da CNT; em
Dezembro desse ano, era expulso do Sindicato Metalúrgico de Barcelona.
Formará então, com Joan Peiró, Os Sindicatos da Oposição ou ?treintistas?
e, mais tarde, a Federação Sindicalista Libertária (FSL).

O PARTIDO SINDICALISTA

Em 1933, era fundado o Partido Sindicalista Espanhol, como emanação
política da FSL. O partido não teria um grande êxito, e a sua escassa
actividade militante ficaria reduzida à Andaluzia, Levante, Catalunha,
Madrid, Astúrias, Galiza e León, e a dois deputados nas Cortes da
República, nas eleições de 1936.
Nesse ano de 1933, o novel Partido lança a ideia da formação de uma
Aliança Operária Antifascista, que seria constituída pelo Partido
Socialista (PSOE), UGT, CNT, BOC (Bloco Operário e Camponês), FAI, FSL e
Sindicatos da Oposição. Recusada pela CNT-FAI, a Aliança viria a
consolidar-se, com a adesão do PCE, da CNT de León-Palência e das Astúrias
e dos trotskistas da Esquerda Comunista, e protagonizaria a greve
insurreccional, a constituição da Comuna das Astúrias e a revolta da
Catalunha, em 1934.
O Partido Sindicalista ou ?pestañistas?, como era mais conhecido, aderiria
à Frente Popular, vencedora das eleições gerais de 16 de Fevereiro de
1936, e Pestaña teria o lugar de deputado por Cádiz, nas Cortes
Espanholas. O partido definia-se como espanhol não espanholista, nacional
não nacionalista, amarxista não anti-marxista; era aconfessional,
anti-ditatorial, pacifista, democrático, humanista, liberal, pluralista,
pragmático, ético, defensor do Anarquismo e do Sindicalismo, respeitador
da consciência e sentimentos individuais. Era um partido que se baseava
nas ideias federalistas de Pi y Margall (séc. XIX) e defendia, para
Espanha, a instauração de uma sociedade, cujo núcleo formativo seria o
Município, seguido da Região, em que o Estado seria substituído por uma
Confederação Nacional de Municípios.
Nesta nova organização político-social, o Parlamento seria substituído por
uma Câmara Nacional do Trabalho, constituída pelos representantes dos
Sindicatos, Cooperativas, Municípios e organizações profissionais, eleitos
democraticamente em Assembleias de Base.

O FIM DA CAMINHADA

Em 18 de Julho de 1936, rebentava a Guerra Civil. Pestaña, perante esta
nova realidade, decide regressar para junto dos seus antigos camaradas da
CNT, onde vai ocupar o cargo de Sub-Comissário Geral de Guerra.
Em Novembro de 1936, a CNT-FAI integra o governo da República e Horácio
Martínez Prieto, Secretário Nacional da CNT, propõe uma pasta ministerial
para Pestaña, na condição de o Partido Sindicalista ser dissolvido.
Pestaña recusa-se a tal, e comenta a participação Anarquista, no Governo
da República:
?Que pode fazer Garcia Oliver na Justiça? E o quê Federica num Ministério
da Saúde, que não existe? Que Indústria irá dirigir Peiró, se a que há é
de guerra e está tutelada por Largo Caballero? Aparte isso, Juan Lopez
nada sabe de Comércio; a verdade é que mesmo não sabendo muito do ramo,
tão pouco poderia fazer grande coisa, porque todas as compras ao
estrangeiro, material de guerra mais do que nada, estão também a cargo do
Chefe do Governo e do Ministério da Fazenda. A não ser que se dedique a
vender navalhas aos Ingleses??
Convidado por Indalécio Prieto a aceitar a pasta da Governação, Pestaña
recusou uma vez mais, pois já se encontrava gravemente enfermo e bastante
debilitado. Em 31 de Dezembro de 1936, pronuncia na Unión Radio, o
comunicado ?Dulce Palabra de la Victoria?. Tossia muito, perdera as
carnes, a viveza do olhar e a energia dos gestos, embora ganhasse em
transparência e cordialidade. Regressa a Barcelona, nessa altura capital
da República, onde falece em 11 de Dezembro de 1937, às cinco horas da
manhã, nos braços dos seus camaradas de partido Marín Civera, do diário
"Mañana",?e de Josep Robusté.
O corpo de ?el Ángel? é colocado em cãmara ardente na sede do Partido
Sindicalista, na Rambla de los Estúdios de Barcelona e, junto do ataúde,
toda a gente chorava, a começar pelo ministro Indalécio Prieto. Em 12 de
Dezembro de 1937, uma multidão de trabalhadores aguardava, silenciosa,
debaixo das varandas da sede do Partido, adornadas com a bandeira da
República a meia-haste e com crepes pretos. O funeral seria presidido por
Prieto, ministro da Defesa Nacional, em representação do Governo, por
representantes do Partido Sindicalista, ERC (Esquerda Republicana de
Catalunha), AC (Acção Catalã), UGT, CNT,PSOE, entidades culturais e
desportivas. Todo o povo de Barcelona prestava a última homenagem a um
homem que, apesar de todos os seus erros políticos, sempre havia defendido
a justiça e a liberdade, sempre tivera uma conduta exemplar e actuara
desinteressadamente e de boa fé.
No funeral, todas as forças político-partidárias da República estavam
representadas à excepção do Partido Comunista (PCE/PSUC), ostensivamente
faltoso. No eloio fúnebre, Indalécio Prieto afirmou: ?perdemos um grande
homem, quando mais falta fazia"?


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