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(pt) A BATALHA, N.214: A BALADA DE JOE HILL

Date Sat, 21 Jan 2006 12:42:12 +0100 (CET)


por Fernando J. Almeida

Em Novembro de 1915, era executado, por um crime que não cometeu, Joe
Hill, um activista sindical dos IWW (Industrial Workers of the World), que
também foi autor e intérprete de cantos de intervenção político-social, em
prol do proletariado norte-americano.

JOE HILL VISTO POR JOHN DOS PASSOS

John dos Passos, o grande escritor norte-americano, escreveu a trilogia
?USA?, onde retratou os EUA, na sua face menos sorridente. Foi o retrato
de uma América dominado por monopólios e trusts, por organizações de
gangsters e sindicatos infiltrados pela corrupção. As personagens de ?USA?
são anti-heróis amargurados, uns idealistas e lutadores, outros cépticos e
cínicos. Numa constante alternância entre a ficção e a vida real, Dos
Passos apresenta, em curtos ?flashes? quase cinematográficos, uma galeria
de figuras ímpares da História americana, não alinhadas no imenso rebanho,
que fazia dos EUA ?(?) uma colecção de funcionários gabarolas com contas
de Banco a mais? (palavras do Autor). Uma das figuras retratadas é a do
sueco imigrado Joseph Hillstrom, popularmente conhecido por Joe Hill.
Transcrevemos, de seguida, algumas das linhas dedicadas ao
cantor-sindicalista, patentes no 2º volume de ?USA?.

?Um jovem sueco chamado Hillstrom meteu-se ao mar, calejou as mãos em
veleiros e velhos cargueiros vagabundos, aprendeu Inglês no castelo da
proa dos vapores que faziam a ligação entre Estocolmo e Hull, e como todos
os suecos sonhava com o Oeste; quando se instalou na América, deram-lhe um
emprego: limpar escarradores num bar de Bowery. Mudou-se para Chicago e
trabalhou numa firma de máquinas.
Continuando a sua marcha para o Oeste, alugou os braços aos senhores das
colheitas, arrastou-se pelas agências de empregos, pagou muitos dólares de
comissão para conseguir trabalho numa empresa qualquer de construção
civil, andou muitas milhas quando a comida era demasiado má, o capataz
demasiado brutal ou os percevejos demasiado agressivos no barracão? (?)
Participou numa greve, na Califórnia (?), costumava tocar concertina à
porta do barracão, à noite, depois da ceia (?), tinha um condão peculiar
para transformar em rimas os brados de revolta (?)?.

(As canções de Joe Hill foram cantadas nas cadeias distritais e nas
pensões rascas, por desempregados itinerantes, por trabalhadores das
jornas. Em todo o lado, onde um proletário se sentisse perseguido,
explorado, marginalizado, soava uma canção de Joe Hill. Damos, novamente,
a palavra a John dos Passos)

?Em Bingham, Utah, Joe Hill organizou os trabalhadores da Utah
Construction Company num único grande sindicato, conseguiu-lhes salários
mais elevados, menos horas de trabalho, melhor comida (?).?

(Joe Hill vivia no Utah, estado dominado pelo fundamentalismo religioso da
seita Mormon. Foi acusado, injustamente, de ter assassinado um merceeiro,
de nome Morrison. A sua condenação à morte provocou vastas movimentações,
como Dos Passos descreve).

?O cônsul da Suécia e o Presidente Wilson tentaram obter um novo
julgamento, mas (?) o Supremo Tribunal do Estado de Utah (?) manteve o
veredicto. Joe Hill continuou a escrever as suas canções, no ano em que
permaneceu na cadeia. Em Novembro de 1915, encostaram-no contra a parede
da penitenciária de Salt Lake City. NÃO CHOREM A MINHA MORTE, ORGANIZEM-SE
foram as últimas palavras que enviou para os seus camaradas (?). Joe Hill
aprumou-se diante da parede do pátio da penitenciária, olhou para os canos
das espingardas e deu a voz de fogo?.

O LEGADO DE JOE HILL

No princípio do século XX, as lutas sindicais fizeram alinhar inúmeros
cantores e músicos nas fileiras da intervenção político-social. A temática
sindicalista era, então, a mais expressiva e premente atitude, frente à
insana luta de classes, desenrolada nos EUA. O Sindicalismo
Revolucionário, seguido pelos IWW, foi divulgado através de numerosas
canções populares, que seriam compiladas por Mac Clintock, no ?Pequeno
Cancioneiro Vermelho?. Muitas dessas canções foram compostas e cantadas
por Joe Hill que era o mais lúcido, coerente e inconveniente (para o poder
estabelecido) dos cantores sindicalistas americanos. Quando aguardava a
sua execução, em 1915, Joe Hill endereçou um derradeiro apelo ao seu
camarada e amigo ?Big Bill? Haywood:
?Adeus Bill. Morro como um rebelde. Não percam tempo a chorar-me.
Organizem-se!?

A tradição da canção de protesto é tão antiga como a própria nação
Americana. São melodias e poemas feitos, sentidos, entoados pelos
operários mal remunerados, pelos pioneiros do Far-West em busca de fortuna
rápida; são canções ?de actualidade?, ?topical songs? cantadas por
operários nómadas, por ?hobos? (vagabundos) que percorrem os estados da
União, viajando clandestinamente em vagões de mercadorias, buscando
trabalhos ocasionais; são o lamento dos brancos pobres, tão bem descritos
nos livros de John Steinbeck ou Erskine Caldwell. São canções de denúncia
e combate contra a escravatura, o racismo, o militarismo, que falam da
Igualdade de Direitos e defendem a Paz e a Liberdade.
O sindicalismo Revolucionário, de raiz ?wobblie? (dos IWW) traz uma
componente mais, veiculando ideais anarco-sindicalistas e marxistas.
Surgem, assim, ?Canções para atiçar as chamas do descontentamento?, como
reza o título de uma Antologia, compilada em memória de Joe Hill.
A ?Folk-Song? continuaria, como arma de combate, nas vozes de Woody
Guthrie e de Leadbelly. Woody até chamava à sua guitarra ?arma para matar
Fascistas?. Editaram-se os ?Almanacs?, uma edição discos, opúsculos e
livros de ?topical songs?, editou-se, por acção de Pete Seeger e amigos, a
?People?s Song (1945). A realidade político-social norte-americana
continuou a fornecer elementos para a criação de novas Canções e o
aparcimento de novos autores, cantores, músicos, cantautores. Surgiram
baladas a relembrar e honrar os nomes das vítimas da (in)Justiça ?Yankee?,
como Joe Hill (voz de Joan Baez), Sacco e Vanzetti (por Joan Baez ou Woody
Guthrie), os Rosenberg (W. Guthrie. Mas também para condenar a Guerra do
Vietname, lutar pelos Direitos Civis, exaltar os humilhados e ofendidos.
Perseguidos pelo macarthysmo, ontem; ignorados (salvo excepções) pelo
?star system?, hoje proliferam nomes de grandes intérpretes, como Bob
Dylan, Pete Seeger, Joan Baez, Judy Collins, Tom Paxton, Ritchie Evans,
Malvina Reynolds, Arlo Guthrie, Mimi Farina, Buffy Sainte-Marie, Phil
Ochs, Odetta e tutti quanti. São vozes que herdaram o legado de Joe Hill,
que honram a memória do sindicalista-cantor, sucumbido às balas do
terrorismo de estado.

POST-SCRIPTUM

No decorrer das linhas acabadas de redigir, citámos, amiúde a trilogia
?USA? de John Dos Passos e a central sindical IWW. Sobre essas
referências, queremos escrever algo:
1 ? A trilogia ?USA?, de autoria de John Dos Passos (1896-1970) narra a
História social dos EUA, decorrente entre 1900 e 1936, e compõe-se dos
seguintes volumes:
I ? PARALELO 42, escrito em 1920
II ? 1919, escrito em 1932
III ? DINHEIRO GRAÚDO, escrito em 1936.

A trilogia foi editada, em Portugal, pela ?Portugália Editora?, nos anos
60 do século passado, na sua colecção ?Os Romances Universais?. ?Paralelo
42? (volume 30) foi traduzido por Helder de Macedo. ?1919 e ?Dinheiro
Graúdo? (respectivamente volumes 37 e 38) foram traduzidos por Daniel
Gonçalves.

2 ? Os IWW, fundados em 1905, tiveram a adesão maciça dos Anarquistas,
interessados na luta sindical. No entanto, o anarco-sindicalismo não foi a
única corrente ideológica a adrir à Central Sindical. Os IWW não eram uma
organização puramente anarco-sindicalista, mas sim um movimento
sindicalista revolucionário, com uma acção paralela, nem sempre
coincidente com o Anarquismo. Era uma organização composta por
Anarquistas, mas também por Marxistas (dos Partidos Socialista e Comunista
Americanos), que tinham uma concepção totalmente oposta ao sindicalismo
propugnado pelos Libertários. Para os marxistas os IWW deveriam ser o
embrião de ?One Big Union? (Um Sindicato Único Gigante), inconciliável com
as ideias anarquistas de Federalismo e Descentralização.


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