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(pt) A BATALHA N.214: FALANDO DE ESPANHA: A CONFUSÃO ENTRE ANARCO-SINDICALISMO E POLÍTICA

Date Wed, 18 Jan 2006 21:12:29 +0100 (CET)


(comentário ao artigo de P.F.Zarcone no número anterior deste jornal)

por Luís Garcia e Silva

Emídio Santana recusava-se a criticar os rumos seguidos pelo movimento
anarco-sindicalista espanhol, e suas diversas correntes, durante a Guerra
Civil de 1936-39. Porque a situação então vivida era extraordinariamente
grave e complexa.
É fácil criticar a posteriori qualquer decisão, uma vez conhecidos os
eventos posteriores, que dela hajam resultado ou sejam efeito doutras
causas. Porém, convém não esquecer que as deliberações foram tomadas sem
esse conhecimento. E faz pouco sentido criticar em termos meramente
ideológicos, sem ter em conta a situação concreta.
Pareceu-me assim justificado chamar a atenção para as circunstâncias em
que as decisões foram tomadas.
Em primeiro lugar, do ponto de vista internacional. Em 1936, as
democracias parlamentares estavam em regressão e os regimes autoritários
em expansão. A Rússia de 1917 transitara já para o Estalinismo; Mussolini
subira ao poder em Itália em 1922; Portugal iniciara em 1926 a sua
ditadura de 48 anos; Hitler ascendera ao poder na Alemanha em 1933;
Dolfuss instalara uma ditadura fascista na Áustria em 1934. Na
Grã-Bretanha o partido conservador substituíra o governo trabalhista de
Ramsay Mac Donald em 1935. A Frente Popular venceu as eleições francesas
em 1936, mas em termos de defesa perante uma Alemanha ameaçadora a França
dependia estreitamente da Grã-Bretanha.
Qual a situação do movimento libertário europeu? O grande movimento
espanhol não tinha paralelo em qualquer outro país europeu. Na Rússia,
Itália, Alemanha e Portugal os movimentos libertários, sindicais e
específicos, haviam sido liquidados. Em França, depois das cisões e
reunificações sindicais restava uma CGT-SR muito enfraquecida. Com algum
significado só a confederação sueca (SAC) com os seus 30.000 filiados. Os
companheiros espanhóis tinham clara noção que desses pequenos movimentos
pouco mais se poderia esperar do que simpatia e alguns voluntários.
De início a República espanhola contava essencialmente com a França da
Frente Popular, a quem havia feito encomendas de material de guerra.
Proclamar a independência do Marrocos espanhol era impelir o Marrocos
francês à rebelião, logo hostilizar abertamente a França. A República
espanhola não se podia dar a esse luxo. Quem poderia calcular nessa altura
que o governo francês se atrelaria à Inglaterra no pacto de
não-intervenção, abandonando a Espanha à intervenção conjunta da Itália,
Alemanha, Portugal e? da União Soviética?
Além de cônscios da situação internacional desfavorável, os libertários
espanhóis sabiam que a implantação da CNT-FAI era regionalmente muito
desigual. Dominante na Catalunha, forte no País Valenciano e na Andaluzia,
era minoritária na Estremadura, em Castela, Leão, Galiza, Astúrias e País
Basco. A hostilização das forças políticas e sindicais minoritárias nas
regiões onde era preponderante poderia custar caro à CNT fora dos seus
bastiões tradicionais. Daí a necessidade - que vinha a ser sentida desde a
revolução das Astúrias (1934) - duma aliança CNT-UGT, aliança que
funcionou de maneira algo precária e conforme os sítios. Tal pacto
sindical implicava um programa comum, isto é, reforma e não revolução.
Ainda que alguns pensassem que o maior dinamismo da CNT arrastaria consigo
as bases da UGT.
A entrada da CNT para o Conselho da Generalitat só se verificou a 29 de
Setembro (dois meses e meio sobre o golpe fascista) e para o governo da
República a 4 de Novembro (três meses e meio depois). Isto teve sobretudo
a ver com a progressiva deterioração da situação militar, face ao
imparável avanço das forças nacionalistas. Badajoz caiu a 14 de Agosto,
Irun a 7 de Setembro, a 26 deste mês Varela cortou a estrada
Toledo-Madrid, a 15 de Outubro iniciou-se a ofensiva sobre Madrid, a 29
começaram os bombardeamentos aéreos e, a partir de 30, combate-se na
periferia da capital; a 4 caiu o aeródromo de Getafe, no próprio dia em
que a CNT entrou para o governo. De resto já havia sido o agravamento da
situação militar que levara à queda do governo Giral (coligação
republicana) e sua substituição pelo governo de Frente Popular de Largo
Caballero em 4 de Setembro. Acresce a considerável desorganização
económica e administrativa. A situação militar aflitiva e a falta de apoio
internacional explicam a violação dos princípios libertários em nome da
sobrevivência. Tal como os esforços conciliatórios nos dias de Maio.
Era impossível prever à partida o papel que o PC viria a desempenhar. Uma
organização pequena em número de militantes, de deputados e de ministros.
A sua influência cresceu imprevista e rapidamente em função da total
dependência do auxílio militar soviético. Tornou-se o instrumento cego da
política externa da URSS no sentido de forçar uma aliança defensiva com a
Inglaterra e França que mantivesse cercada a Alemanha. Para lograr as boas
graças da França e, principalmente, da Inglaterra urgia liquidar a
revolução. O que foi feito. Quando se desvaneceu a esperança de lograr
essa aliança Estaline abandonou a República espanhola à sua sorte e
assinou o célebre pacto germano-soviético.
Suponho impossível dissociar a Espanha de 36-39 da Europa e do Mundo de
então. Ninguém estava preparado para enfrentar militarmente o
nazi-fascismo no continente europeu. A Espanha foi apenas o primeiro dos
países a cair. Outros caíram bem mais depressa.
No que respeita à incongruência de ser a CNT e não FAI a participar no
governo, por ser a FAI a organização política, creio que se parte de
postulados erróneos. A FAI era a organização específica, não sei se mais
?política? que a CNT, mas mesmo aceitando como certa tal feição não era um
partido político. Pelo contrário, era anti-partidária, anti-parlamentar e
anti-governamental. E foi por respeito formal a esses princípios, mais
explícitos na FAI que na CNT, que fosse esta a integrar o gabinete
Caballero. Quem se viria a aproximar dum partido político ? mas já numa
fase mais tardia - foi o Movimento Libertário Espanhol (MLE), que
congregava a CNT, A FAI e as JJLL.. De resto a distinção entre FAI e CNT é
um tanto artificial, porque os membros da FAI eram, na sua esmagadora
maioria, membros da CNT e nela recrutados. E alguns indivíduos muito
conotados com o Faísmo, real ou suposto (nomeadamente do grupo Nosotros),
não pertenciam à FAI, segundo Peirats, que foi secretário-geral da FAI
catalã.
As razões que motivaram a entrada dos anarquistas no governo eram
diferentes para estes e para os partidos governamentais. Os anarquistas
queriam ter acesso a armamento e munições (de que careciam agudamente),
apoio técnico, financiamento e o reconhecimento oficial em áreas onde eram
minoritários. Os partidos governamentais tinham outros objectivos em
vista: o primeiro e mais urgente era obter a caução dos anarquistas para a
impopularíssima fuga do governo para Valência (um dos logros em que os
ministros libertários prontamente perceberam ter caído) pois a CNT
ingressou no governo a 4 de Novembro e o abandono de Madrid teve lugar a
6; o segundo era obter a integração das milícias no exército popular
sujeitando-as ao controlo hierárquico dos militares de carreira (ou não)
nomeados pelo ministro da guerra. Este foi em parte um logro, porque nunca
obtiveram tratamento idêntico às unidades controladas pelo PC, mas a
coordenação das operações militares era um imperativo iniludível.
Creio que a atitude dos anarquistas impediu a rápida vitória de Franco mas
não podia evitar essa vitória, determinada pela conjuntura internacional.
Se tivessem assumido atitude diversa, abrindo uma segunda frente no
interior do campo republicano (espécie de antecipação do golpe Casado)
talvez a derrota tivesse sido mais rápida e mais curta a duração da guerra
civil. Vá lá saber-se! Saramago escreveu um romance ? O Cerco de Lisboa ?
a partir duma hipotética recusa dos cruzados em apoiar Afonso Henriques na
conquista da cidade. Mas se não pretendermos escrever um romance com base
num comportamento imaginário dos anarquistas espanhóis em 1936-39
resta-nos talvez compreender as razões das atitudes que adoptaram,
sopesando com o devido cuidado as terríveis e prementes circunstâncias em
que o fizeram.
Quanto à CNT no exílio, talvez o regresso à ?ortodoxia? fosse sobretudo
um cómodo e conveniente imobilismo: não agir, não ter problemas com as
autoridades francesas, pressionadas por Franco. E após a instalação de
bases americanas em Espanha, abrir hostilidades contra o ditador teria
provavelmente ?efeitos colaterais?, como agora se diz. Continuava a ser
impossível dissociar a Espanha da situação internacional. Grande parte
dos exilados, depois dos anos de guerra civil, dos campos de concentração
franceses, da ocupação nazi e da resistência, do reconhecimento aliado do
regime franquista, das dissidências internas, estavam exaustos e sem
esperança. A idade começava a pesar. Haviam-se integrado, sobretudo os
filhos, no país de residência. ?Ortodoxia? e imobilismo casavam bem entre
si e com a impotência. Mas poder-se-ia exigir mais ainda depois de tanto
que já haviam dado?

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