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(pt) [Portugal , Algustrel] entrevista a Samuel Melro do Centro de Cult ura Anarquista Gonçalves Correia

Date Wed, 20 Dec 2006 19:07:58 +0100 (CET)


?Pensar o mundo. Pensar a nossa vida e lutar para que se transforme?
?Reside ainda hoje em Aljustrel uma memória de reivindicação que não
surgiu unicamente das lutas laborais. Surgiu ligada à idéia de um novo
mundo?, diz Samuel Melro, um dos impulsionadores do Centro de Cultura
Anarquista Gonçalves Correia, na cidade rural de Aljustrel, em Portugal.
Na entrevista a seguir, ele fala sobre este centro cultural, ecologia e um
pouco do anarquismo em Portugal.


Agência de Notícias Anarquistas > Tem tradição histórica o anarquismo em
Ajustrel?

Samuel Melro < Sim. À semelhança de todo o movimento operário e social do
início do século XX, também em Aljustrel o emancipar social e do movimento
sindicalista esteve ligada às idéias libertárias. Aljustrel, no meio de um
sul de Portugal rural e agrícola, constituía a par de S. Domingos e Lousal
um centro mineiro. A grande exploração iniciada nos finais do séc. XIX
marcou para sempre esta vila como vila mineira. Nunca mais o deixou de
ser. A memória social das várias gerações até aos nossos dias é esboçada
pela Mina, pelos bairros mineiros, pelas gerações de pais e de filhos que
trabalharam na mina [e agora que pretendem retomar a sua laboração a isso
aspiram]. Foi nesse âmbito, nas 3 primeiras décadas do século passado, que
o anarco-sindicalismo da CGT naturalmente surge na crescente tomada de
consciência social que se observava. Um processo guiado, sobretudo, mais
do que pela ação deste ou daquele sindicalista [ainda que importantes],
pela sociabilidade que estava na base da organização informal dos
trabalhadores. É, sobretudo esse aspecto de ?sociabilidade operária?, que
Paulo Guimarães retrata nos estudos que fez sobre o movimento social de
Aljustel [companheiro acadêmico, colaborador do jornal A Batalha], que
caracterizava o anarquismo em Aljustrel. As greves de 1922, tendo
resultando numa campanha de solidariedade nacional notável [por exemplo,
os filhos dos grevistas eram enviados para famílias de acolhimento de
companheiros anarco-sindicalistas em todo o país?], são geralmente
apontadas como o grande exemplo desse período, ao qual podemos traçar
afirmativamente a tradição histórica de que perguntas. Dos anos 30 para a
frente, pela longa ditadura, o movimento de oposição resulta já dirigido
pelo Partido Comunista que soube beber inicialmente na fonte anarquista a
sua força de ação. Resumindo, reside ainda hoje em Aljustrel uma memória
de reivindicação que não surgiu unicamente das lutas laborais. Surgiu
ligada à idéia de um novo mundo [por exemplo, Aljustrel por outra via teve
uma forte implantação e difusão do esperanto?] onde a solidariedade e a
afinidade desempenharam papel fundamental numa perspectiva mais coletiva
das aspirações das pessoas, coisa que findo o longo período de resistência
se conseguiu esbater tremendamente em coisa de 30 anos após o 25 de Abril.
Foi por respeito a esta memória [e à tradição que questionavas] que num
texto de apresentação do CCA citamos uma afirmação de 1913 do Sindicato
Mineiro em que diziam que, ?se fossemos vaidosos enfileiraríamos ao lado
dos políticos socialistas ou republicanos, campo aberto a todos os
ambiciosos. Somos, porém, humildes porque somos operários, aspirando
somente a juntar o nosso insignificante esforço aos dos que sinceramente
lutam pela emancipação de todos os filhos do Trabalho. Temos pouca
instrução, é certo, mas somos sinceros, sabendo apenas dizer o que
sentimos, o que sofremos?. Cem anos depois, mantemos como ponto de partida
o mesmo posicionamento.

ANA > E quais as atividades do Centro de Cultura Anarquista Gonçalves
Correia? Desde quando vocês tocam este projeto?

Samuel < Sob essa designação, apenas desde setembro deste ano. Porém nada
seria possível senão fosse o anarko punk ter entrado pelas cabeças adentro
de uma série de malta em Aljustrel e Ferreira do Alentejo. Na primeira
vila obrigatoriamente falando da banda Dissidentes do Projeto Estatal,
alma punk da terra que, por exemplo, veio a gerar algumas fanzines, como a
Saltareguinga que persiste e resiste ainda hoje? Estes vêem a cruzar-se
com outros revoltados em Ferreira do Alentejo [hoje com a banda Disgraça]
a quem se deve a iniciativa de em 2003 fundarem aí uma associação
libertária, que conseguiu reunir e juntar uma série de companheiros que
andavam dispersos pela zona. Aí por exemplo entro eu de forma mais
regular. Porém a perca do espaço físico onde fazíamos as nossas atividades
levou à sua estagnação. Como já havíamos previsto o espaço de encontro
passou a concentrar-se em Aljustrel, onde o Anarko Punk se mantinha vivo
numa série de concertos numa sala do Sindicato Mineiro e desde há um ano
para cá no Clube Aljustrelense. Acabamos todos por vir ir a dinamizar esse
espaço recreativo ? verdade seja dita parece-me que é o único, ou dos
poucos [visto que acabou a Zaragata em Setúbal], espaços que mantêm o
verdadeiro espírito anarko punk por estes lados.
Fazemos questão, porém em separar as águas. Isto é, por um lado está o
Clube Aljustrelense [sociedade recreativa que por uma ironia fenomenal foi
fundado há cem anos atrás pelos monárquicos, oligarcas e freqüentada pelos
fascistas salazarentos, e hoje leva conosco em cima!] e por outro lado o
CCA. No fundo somos o mesmo coletivo, vindo da associação de Ferreira, que
agora arranjou um espaço onde colocar a sua biblioteca em formação [junto
a uma sala de ensaios] e onde realizar as suas atividades. Os nossos
objetivos, julgo que para já, não deixam de ser os mais simples, por
necessidade de terem de ser os mais realistas. Em primeiro lugar construir
ou consolidar a nossa afinidade interna, sem a qual nada poderemos esboçar
com pés e cabeça daqui para a frente. Este processo faz-se paralelo à
divulgação e promoção de uma série de iniciativas que visam a divulgação
do ideal ácrata e de um sem números de pontos de contato com várias lutas
sociais, ecológicas etc., e que obedecem a duas preocupações/objetivos
constantes ? e cientes a qualquer um de nós: em não nos fecharmos num
clube, numa tribo, numa tertúlia ou no quer que seja, e ainda em conseguir
que novas pessoas venham a formar parte do projeto e lhe dêem
continuidade. Esta é de momento a nossa maior luta. Desafio acrescido, uma
vez que, como não podia deixar de ser o Clube é visto por muita gente de
Aljustrel como antro de drogados, pela diferença que o punk traz consigo.
Mas conscientes disso, e sem abdicar da nossa ?alma?, estamos certos que o
caminho far-se-á em mostrar que a única droga verdadeira está na mente
subjugada das pessoas que nos olham, sem querer reconhecer que em mais
nenhum lugar das redondezas surgiu um grupo de jovens com uma idéia, essa
sim esquisita aos olhos de hoje: pensar o mundo. Pensar a nossa vida e
lutar para que se transforme.

ANA > Li alguma coisa sobre Gonçalves Correia, e parece que ele era
vegetariano, não? Sabe dizer se houve experiências naturistas libertárias
em Portugal, como colônias?

Samuel < Em primeiro lugar talvez seja importante referir porque assumimos
um nome tão pomposo e à século passado como este de aportar o nome de uma
personagem. Isso é tão simples quanto ao fato de se hoje falares com
alguém de meia idade para cima, e sem que necessariamente tenha grande
cultura política, nos vários conselhos do Baixo Alentejo, imediatamente
estas reconhecerem a figura humana que foi António Gonçalves Correia [1886
? 1967]. Nenhum de nós o conheceu, mas a sua memória foi resgatada
essencialmente por uma iniciativa da Câmara Municipal de Castro Verde
[conselho vizinho de Aljustrel onde nasceu] no CD ?No Paraíso Real?
[testemunhos orais da ?revolta e utopia no sul de Portugal?] e, sobretudo
pela biografia da autoria de Alberto Franco ?A Revolução é a Minha
Namorada. Memória de António Gonçalves Correia, anarquista alentejano?.
Foi como encontrar esse elo de ligação que nos permitia apresentar sem
olhares de esguelha, esse parente afastado de quem podíamos finalmente
falar e captar a atenção de um sem número de pessoas que nunca haviam
feito a ligação entre o que nos unia? É fascinante falar de um caixeiro
viajante que levou a sua vida num compromisso individual impar. Como um
homem só tanta marca deixou. A sua ?excentricidade? ainda hoje recordada
passava pela sua faceta de vegetariano e tolstoiano, num ambiente das
lutas sociais da primeira metade do século XX: as lutas
anarco-sindicalistas das minas de Aljustrel ou São Domingos ou Lousal das
lutas dos camponeses do Alto ao Baixo Alentejo. Agora convêm frisar que
esse seu vegetarianismo, a luta dos direitos dos animais e do naturismo
que tanto foram sua marca não são um caso isolado na época. Como saberás a
par das idéias anarquistas movia-se e crescia o movimento naturista que
também por aqui teve o seu percurso, mas infelizmente a sua história está
ainda por ser posta cá fora. Digo cá fora, pois felizmente um companheiro
[José Tavares] me referiu há uns tempos atrás que estava precisamente
fazendo um historial e análise sobre essa matéria com vista a publicação,
pelo que há que aguardar, podendo assim de forma completa se poder
responder à tua questão se houve experiências naturistas libertárias em
Portugal. Gonçalves Correia foi nesse campo fundador em dois momentos da
sua vida de duas comunidades, sendo a Comuna da Luz, a que se situou na
sua vivência alentejana. O importante de referir ainda hoje é o elo de
ligação que essas comunas estabeleciam com o meio social e humano
envolvente, coisa que, por exemplo, não acontece com a maioria das ditas
comunidades alternativas que aparecem aqui ou ali nos nossos dias. E mais
importante, acho eu, é exatamente esse ponto de ligação que o naturismo, o
amor livre, o vegetarianismo etc., devia estabelecer com as demais
questões sociais. Essa ligação é essencial e por isso o anarquismo se viu
sempre unido a esses modos de vida. Hoje em dia esses modos de vida
viraram modas de vidas?

ANA > Referente à ecologia, essa é uma discussão e luta recorrente no
dia-a-dia de vocês? Há alguma luta específica que levam a cabo, por
exemplo, contra instalações de centrais nucleares? Ou algo mais local na
região onde moram?

Samuel < Não tem sido algo que nos apliquemos de forma constante, mas é
verdade que acaba por ser necessariamente muito recorrente. Talvez nesse
aspecto a faceta que tem sido alvo de maior insistência da nossa parte tem
sido a luta e campanha sobre os organismos geneticamente modificados.
Desde há uns anos para cá temos estado em contacto mais de perto com algum
pessoal e companheiros que estão trabalhando e produzindo na agricultura
biológica à nossa volta, e através deles fomos nos aproximando das
campanhas de informação que tem sido promovidas pela Plataforma
Transgênicos Fora do Prato, ou mais recentemente pela associação Colher
Para Semear [rede Portuguesa de Variedades Tradicionais], que visa a
salvaguarda das espécies de sementes autóctones. Temos feito, sobretudo
sessões de divulgação e algum material de divulgação
[http://pt.indymedia.org/cidades/c1/imgpublico/1160141717020a8faca3.pdf].
Numa altura em que se pretende lançar cada vez mais sementes geneticamente
modificadas à terra, é preocupante a falta de informação sobre o que são
estas novas plantas, que tanto dano irão trazer aos já frágeis sistemas
produtivos da nossa região, à sua dependência ao sistema financeiro e a
fatores de produção exteriores, como o sistema de patentes, as empresas
que os produzem etc. São assustadores os riscos ambientais para todos nós.
Para além desta questão vemos que com o CCA temos oportunidade de nos
aproximar de muito mais gente que na região está desenvolvendo projetos e
campanhas referentes de modos diversos à ecologia, como é o caso do Centro
de Convergência, projeto levado a cabo pelo GAIA, grupo ecológico que se
fixou recentemente aqui pela zona num projeto contra a desertificação [na
sua componente natural e social] e que fez, com muito interesse nosso, uma
ponte entre as questões de preservação ambiental e as questões de
preservação dos laços sociais e culturais das comunidades.

ANA > Recentemente vocês organizaram uma atividade com o pessoal da ?Tour
informativa Anti-G8?, que acontecerá em junho de 2007, em Heiligendamm,
Alemanha. Vocês pretendem ir até lá? O que estão programando?

Samuel < Essa sessão de informação aconteceu pela oportunidade de uma
companheira da Alemanha incluir na sua tour Portugal [esteve também em
Lisboa e Porto]. O nosso interesse era saber não apenas o que se está
preparando, mas poder discutir um pouco toda as estratégias que hoje
formam esses eventos anti-globalização. Reagir um pouco e questionar sobre
o que se estão transformando estas ações desde Seattle, desde o final dos
anos noventa. Como todos sabemos, esses eventos [?Genova, Praga,
Gotemburgo, Escócia o ano passado etc.] colocaram na agenda do dia de novo
a critica ao capitalismo. Até aí, por efeito também da evolução do leste
europeu, aqui na Europa, soava datado falar de anti-capitalismo nos meios
comuns da mídia e, claro, na sociedade em geral. Hoje por força das forças
que a anti-globalização moveu, despoletada sobretudo pelos Black Blocks
[quer se queira ou não os motores dos protestos, e mesmo da visibilidade
daqueles que os criticam] a crítica ao capitalismo está aí e com cada vez
maior força. Agora para aonde a vamos levar? Não creio que a linguagem de
Porto Alegre tenha dado a resposta ainda, pelo contrário? Do mesmo modo,
questionamos se as contra-cúpulas não serão agora puro circo, agradável é
certo, mas circo à mesma, e com cada vez maiores e elevados riscos
[veja-se este último em São Petersburgo na Rússia] para os ativistas. Daí
que a questão chave que em Aljustrel se levantou na conversa é a
pertinência dessas ações grandes, versus a proliferação de ações mais
localizadas e locais. A questão dura ainda e é certo que obviamente uma
não anula necessariamente a outra. As cúpulas anti-G8, como a que vai
suceder são sobretudo importantes campos de aprendizagem e fortalecimento
de saber e poder trabalhar em Rede. Daí que com um ano de antecedência as
coisas se vão preparando. Houve já um acampamento de verão e em fevereiro
um encontro internacional na Polônia vai se seguir. Depois a plataforma de
ação na Alemanha reúne diferentes setores, isto é da igreja aos
anarquistas, entre um sem número já de iniciativas previstas e em
preparação para Heiligendendamn [e que não se resumirão a esses dias].
Para saber delas o melhor é ver nos sites de coordenação da luta. Na
seqüência do debate fizemos um pequeno folheto [Informa e Resiste nº1]
sobre o assunto com alguma informação relevante e contatos que podes ter
acesso pelo nosso blog [goncalvescorreia.blogspot.com].

ANA > E como vai o anarquismo em Portugal?

Samuel < Pergunta óbvia, mas infelizmente ainda incomoda em responder.
Quando por um lado temos um cenário cada vez mais favorável às idéias
anarquistas, ou visto por outro lado, uma altura que por força da
violência dos estados, do capital e desta sociedade veio a demonstrar cada
vez mais a pertinência da crítica e da luta anarquista, a resposta lamento
não é muito animadora. Há dois anos atrás houve ocasião de se fazer um
balanço da situação com a promoção, já em si atribulada, da Conferência
Libertária em Setúbal, que pretendeu juntar um grande número de grupos e
indivíduos. O encontro aconteceu e com bastante participação, mas
descambou num confronto de egos e protagonismos que, sobretudo confirmou a
desilusão em muita gente. Pelo que uma conclusão chave foi a necessidade
de se constituírem afinidades mais solidamente. Esse processo está em
curso lentamente, e iniciativas como a Caixa de Resistência Anarquista ou
a maior colaboração entre espaços libertários apontam, assim espero, nesse
sentido. A todos pesa, porém a necessidade de se poder alcançar uma maior
organização, pelo que a meta não caiu. Por enquanto no balanço geral, a
atividade anarquista resulta ainda movida por um círculo reduzido, embora
claramente com campo para crescer. Onde estou, vejo possibilidades para
isso, espero que em Lisboa, Porto e noutros grandes locais, o mesmo venha
a acontecer?

ANA > ?Caixa de Resistência Anarquista?? Exatamente qual é o objetivo
desta iniciativa?

Samuel < A CRA surgiu há cerca de um, dois anos atrás pela tal intenção de
aproximação e colaboração de alguns grupos anarquistas depois da
Conferência Libertária em Setúbal. A idéia surgiu em juntar não apenas as
vontades, mas os esforços e o vil metal, de forma a poder pagar e
conseguir pôr cá fora muitas daquelas idéias que não passam disso mesmo,
porque falta o suporte financeiro. Como resultado disso foram já feitos
alguns milhares de autocolantes diversos e um cartaz genérico de
propaganda anarquista, sempre remetendo para um blog que redireciona o
interessado para os vários grupos. O projeto reúne assim de momento já em
afinidade alguns grupos, entre os quais nós, e prevemos que o mesmo se
venha a alargar no futuro. Para além de querer garantir o financiamento
maldito, onde cada grupo aporta os seus donativos através do ganho de
edições conjuntas, de concertos, jantares etc., a idéia é também ter um
fundo que possa vir a servir [como já o fez para o caso do António
Ferreira de Jesus] para custas judiciais quando a situação e a repressão
apertam.

ANA > António Ferreira é aquele preso anarquista?

Samuel < Sim, e muito facilmente se diz exatamente que é o ?último preso
político? ou ?anarquista? nos cárceres portuguesas. Porém julgo que essa
perspectiva não só é demasiado redutora para com o próprio António, como é
extremamente redutora para a perspectiva que ele tem e nós partilhamos
acerca do sistema penal e prisional. A nossa perspectiva abolicionista
reside exatamente em afrontar as prisões no seu todo, pois se lutamos por
novas condições de vida e de sociedade, a nossa solidariedade não se deve
restringir apenas aos jogadores do nosso clube. Obviamente à cabeça da
solidariedade surgem exatamente as pessoas como o António, que nesse
aspecto é figura principal em Portugal, que resistem com todas as letras
nas prisões. E estamos a falar de uma resistência de vida, de quem já
passou mais tempo lá dentro do que cá fora. Essa frente de batalha tem que
ter necessariamente um outro lado cá fora, e o ?movimento? anarquista
nunca se desligou disso mesmo. Atualmente os grupos de apoio a presos e/ou
sobre as prisões estão a nível dos anarquistas reduzidos a uma ação de
menor intensidade, uma vez que se foram desfazendo os coletivos da Cruz
Negra Anarquista que existiam por Lisboa e Almada, mantendo-se apenas o do
Porto. Prossegue, porém, mais ou menos através do coletivo Corta Correntes
de Setúbal, o apoio ao António, e eles melhor que eu podem desenvolver o
seu caso [resumidamente o António prossegue envolvido em querelas com os
serviços prisionais por denuncias da realidade envolvente e por outro lado
prossegue a luta para que seja posto cá fora face aos atropelos que a
justiça tem vindo a fazer negando a sua saída que o cúmulo jurídico assim
determinava há muito]. Por outro lado, nesta matéria de prisões há que
referir para Portugal o ótimo trabalho que a ACED tem feito. Trata-se de
uma associação [Associação Contra a Exclusão e pelo Desenvolvimento] que
evoluiu de uma posição de reforma para mais abolicionista, e que sobretudo
está ?dentro? das prisões e é a voz de protesto que ainda subsiste por cá.

ANA > Existe relação dos anarquistas portugueses com as questões dos
imigrantes que chegam no país? Algum trabalho em conjunto?

Samuel < Relação é claro que existe a nível das preocupações e das lutas
inerentes. Porém, do que sei apenas no Porto se tem desenvolvido com maior
regularidade um esforço nesse sentido através da Assembléia Libertária do
Porto, mais concretamente pelo espaço Musas e pelo Terra Viva. É, aliás,
um tema recorrente no Indymedia português, onde as questões da imigração e
da fortaleza européia que nos acossa a todos [de fora e de dentro]
constituem obrigatoriamente uma chamada de atenção. O trabalho, no entanto
de maior destaque que se tem feito em Portugal ultimamente cabe à
Associação Solidariedade Imigrante, como seja o seu Grupo Pelo Direito à
Habitação [em várias frentes de luta contra o desalojo de bairros de
imigrantes], no qual obviamente colaboram alguns companheiros.

ANA > Que livro anarquista recém lançado em Portugal mais te apreciou? Por
quê?

Samuel < Não tanto um livro, mas a nova publicação [vão com dois números]
do Centro de Cultura Libertária de Almada. Estes nossos companheiros de
estreita colaboração com o CCA de Aljustrel, puseram cá fora a HÚMUS uma
publicação de que só tenho pena ser ainda somente em formato de fanzine e
fotocópia. Pela qualidade dos textos e gráfica merecia ser uma edição em
maior escala e difusão. São, sobretudo textos de reflexões, mas sinal dos
bons tempos que podem vir desde o Ateneu de Almada. Fora isso o panorama
de edições em Portugal é ainda muito pobre, resistindo nas margens do
anarquismo e da literatura alternativa apenas algumas editoras. Faltam
algumas mais comprometidas que completem esse campo tão necessitado.

ANA > Além de Brasil e Portugal, tem conhecimento da presença anarquista
em outros países de fala lusa? Um tempo atrás fiquei sabendo de pequenas
movimentações em Moçambique...

Samuel < Desconheço por completo, e fico ansioso para que possas dar mais
novidades nesse ponto!

ANA > Imagino que algumas histórias curiosas, engraçadas já tenham se
passado no CCA. Poderia contar uma? [risos]

Samuel < Mais do que uma ou outra história, julgo que o bizarro mesmo é
quando já noite adentro e a festa avançada se misturam punks com os mais
castiços personagens de Aljustrel, que é recorda-te uma pequena vila do
interior rural no Alentejo, pelo que esse cruzar cria sem dúvida alguma um
cenário muito próprio [e que faria uns belos filmes?].

ANA > Considerações finais... Obrigado!

Samuel < Bom, somos nós que agradecemos a oportunidade de dar conta
resumidamente do que aqui se vai fazendo, esperando que isso signifique
que nos cheguem contatos de mais pessoal aí do Brasil. Sendo a comunidade
brasileira tão grande por aqui, certamente haverá ocasião de alguns
companheiros daí e de cá poderem trabalhar juntos, e o CCA está aberto a
isso. As nossas portas estão abertas, apareçam. Por isso um grande
obrigado a ti Moésio pela oportunidade.

Contato: goncalvescorreia@hotmail.com
Blog: http://goncalvescorreia.blogspot.com



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