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(pt) «A Batalha» N.216: PERSPECTIVAS DA GUERRA DE ESPAN HA (Rojos e Nacionales no Contexto Europeu) [fr]

Date Thu, 27 Apr 2006 22:02:31 +0200 (CEST)


por Fernando J. Almeida
Ao desencadear-se a Guerra Civil (1936-39), a Espanha entrou, de pleno
direito, na História política europeia do século XX, embora não o fizesse
pela sua porta mais pacífica.
A guerra de Espanha teve, tanto para os seus participantes como para os
posteriores historiadores e estudiosos, diversas justificações e
interpretações, tantas quantas as múltiplas ideologias de quem viveu e/ou
estudou o sangrento conflito Ibérico.

As ?Guerras? de Espanha

Para os adeptos das forças que desencadearam o conflito, que não eram tão
homogéneas como, numa primeira leitura, se poderia conceber, a guerra foi
uma Cruzada quase-religiosa contra o Comunismo. Nesta perspectiva, a
guerra teria sido, grosso modo, o verdadeiro antecedente da guerra fria
que viria a opor o Ocidente ?livre? ao leste ?socialista?. A
internacionalização do conflito foi, nesta visão, a ampliação de uma
questão local que recebeu o auxílio de vários governos estrangeiros, uns
para apoiar a implantação do marxismo em Espanha, outros para apoiar
aqueles que se haviam levantado, em armas, para frustrar essa
possibilidade. A política de não-intervenção internacional não passou de
uma farsa que não impediu o apoio à República Espanhola.
Para os apoiantes da República, a guerra foi uma luta contra o Fascismo,
num campo de batalha que não se tornaria perigoso para a paz mundial, se o
conflito se pudesse limitar às fronteiras do Estado Espanhol. Para os
pró-Republicanos, a Guerra de Espanha foi um dos antecedentes da 2ª Guerra
Mundial, onde os apoiantes de ambos os lados em confronto se voltariam a
enfrentar, de 1939 a 1945. Para estes, a não-intervenção foi, igualmente,
uma farsa que não evitou o apoio descarado de Hitler, Salazar e Mussolini
aos rebeldes nacionalistas.
Uma outra visão do conflito consiste em situá-lo no mesmo contexto dos
acontecimentos políticos dos anos 30, causados pelos Tratados de
Versalhes, que tinham posto termo à 1ª Guerra Mundial de 14-18. Eram esses
acontecimentos a conquista da Abissínia pelos Italianos (1936), a
militarização da Renânia pelos Alemães (1936), o Anchluss (anexação) da
Áustria pelo III Reich (1938) e, num contexto extra-europeu, a invasão da
Manchúria pelos Japoneses (1932). A culminar as demissões e cedências das
potências democráticas, inseriu-se a Conferência de Munique (1938) que
levaria ao desaparecimento da Checoslováquia e à formação de uma colónia
Alemã em pleno espaço europeu: o Protectorado de Boémia-Morávia (1939).
Nesta perspectiva, a não-intervenção foi, também, uma farsa resultante da
ansiedade britânica em apaziguar os Ditadores nazi-fascistas para
salvaguardar a paz na Europa. Atitude que nada resolveu, só fez adiar o
embate final? Apesar de todas as pseudo-neutralidades, a Guerra Civil de
Espanha não abrandou, e a Guerra Mundial rebentaria em 1 de Setembro de
1939, ou seja, cinco meses após o final do conflito espanhol.
Noutra análise, o conflito não passou de um golpe de estado provocado por
uma situação de instabilidade político-social. Ao fracassar a rebelião, o
putsch transformou-se numa guerra que assolou a Espanha durante quase três
anos. Tudo o que se passou no País foi um fenómeno típico espanhol, num
determinado momento histórico e numa determinada conjuntura social. O
interesse que a guerra despertou no Mundo inteiro foi puramente
sentimental, encarado com desagrado pelos governos europeus, que a
tentaram confinar à Península Ibérica, numa tentativa de evitar que os
seus efeitos se fizessem sentir nos respectivos países.

Uma Visão Global

Uma tese, que podemos considerar como global, é a que encara a Guerra
Civil de Espanha como um conflito puramente interno, com motivações
exclusivamente espanholas, em que os resultados afectaram preferentemente
os Espanhóis, mas?
No entanto, o conflito evoluiu para se converter num incidente
intrinsecamente europeu dos anos 30 do século XX, a juntar-se a uma série
de outros acontecimentos, característicos de toda uma época. Por um lado,
a Itália fascista e a Alemanha nazi ?tingiram? de Fascismo um conflito
puramente interno; por outro lado, o apoio prestado a ambos os campos em
confronto permitiu que os rivais localizados se transformassem em
beligerantes internacionais.
As motivações, as batalhas, as revoluções e as consequências da guerra
foram, em grau nitidamente superior puramente espanholas; mas a
perigosidade da situação pôs em relevo as tensões continentais, e alguns
dos parceiros, em especial a Grã-Bretanha, intentaram isolar o conflito
para não degenerar numa Guerra Mundial. A política de não-intervenção só
evitou que a Guerra Civil se tornasse causa directa de uma conflagração
total e só retardou o conflito mundial nuns escassos cinco meses,
decorrentes entre 1 de Abril e 1 de Setembro de 1939.
Em Julho de 1936, quando rebentou a Guerra Civil, para o cidadão médio
europeu, para muitos observadores e muitos governantes, o conflito
espanhol constituiu uma autêntica luta da Democracia contra o
Nazi-Fascismo. A instalação da Direita totalitária na Itália, Portugal e
Alemanha preocupava os governos da Europa, dos EUA e da URSS: eram
viragens à direita, encaradas como uma clara ameaça à Paz, que muitos
pretendiam preservar. Uma Paz assente no frágil equilíbrio de Poder das
Democracias Ocidentais e URSS frente à ameaça de uma Alemanha revanchista
e militarista.

A Espanha e a Europa

Quando se enquadra a Guerra Civil de Espanha no seu contexto europeu,
podem-se estabelecer algumas teorias.
A primeira dessas teorias é de que foi uma Cruzada contra o Comunismo. Na
perspectiva da clique que desencadeou o alzamiento de 18 de Julho de 1936,
Comunistas ou ?rojos? (vermelhos) eram todos os partidos da Frente
Popular, vencedora das eleições de 1936, a que se juntavam os Anarquistas
que, em Espanha, ocupavam o lugar que os Comunistas desempenhavam noutros
países europeus.
Os ?nacionales? lutam contra o marxismo e o anarco-sindicalismo, da mesma
forma como o fizeram contra o próprio significado da existência de uma
República e seus elementos constitutivos: partidos políticos, sistema
parlamentar, democracia-burguesa, revolucionarismo e, fundamentalmente,
contra a mera ideia da existência de um governo democrático e pluralista,
como o que for a instaurado em 1931.
A Cruzada anticomunista não passava de uma falácia, porque a maioria dos
agrupamentos favoráveis à República não era Comunista. Além do mais,
Stalin, apesar de todo o apoio, nunca se comprometeu demasiado. Em 1936, a
URSS era uma potência de segunda ordem, sem força para fazer de Espanha um
seu satélite, e a política do PCE foi absolutamente conservadora, ao
apoiar os sectores mais moderados da República contra Anarquistas,
Comunistas dissidentes e tendências mais radicais do Socialismo..
A teoria oposta à da Cruzada é a de que a Guerra Civil foi uma luta contra
o Fascismo. A luta de classes que caracterizou a Revolução Espanhola
evoluiu para uma luta antifascista, quando a Alemanha e a Itália
intervieram directamente no conflito. É preciso não esquecer que os
?nacionales? não eram, propriamente, uma força fascista, mas sim militares
tipicamente espanhóis: monárquicos, apoiantes da velha aristocracia
incapaz de se europeizar, profissionais históricos de alzamientos,
levantamientos e pronunciamientos. Entre os seguidores de Francisco Franco
contavam-se os Católicos da CEDA (Confederação Espanhola de Direitas
Autónomas), Monárquicos Afonsinos (Renovación Española) e Carlistas
(Comunión Tradicionalista), Republicanos (Liberais-Democratas de Melqíades
Alvarez, Radicais de Alejandro Lerroux, militares como Ramón Franco ou
Queipo de Llano), Regionalistas Catalães e Valencianos, das respectivas
Lligas. Genuinamente Fascista só era a Falange de José António Primo de
Rivera, formação que só ficaria empolada, quando se tornou o partido único
do Regime totalitário, em 1937.
O que movia os militares era a reacção contra uma República instável, um
governo débil, a sensação de insegurança, a insatisfação de parte da
população que não se revia na vitória eleitoral da Frente Popular. A
maioria dos estrangeiros das Brigadas Internacionais, que lutavam em solo
espanhol, não o fez para defender o triunfo do Marxismo, mas sim para
defender a Liberdade, a Democracia e os Direitos Humanos, e evitar que
Nazi-Fascismo conquistasse mais um país democrático.
Aqueles que consideraram o conflito como um antecedente directo da 2ª
Guerra Mundial basearam-se no facto de que os antagonistas eram os mesmos
em ambas as guerras. No entanto, existiam diferenças: a Grã-Bretanha não
esteve imiscuída na Guerra Civil e o seu governo Conservador tentou
isolá-la, convencido de que, em Espanha havia um claro perigo de subversão
comunista, tentando igualmente favorecer os ?nacionales? para apaziguar e
atrair a amizade de Hitler e Mussolini. Aliás, em 1933, já Churchil havia
afirmado: ?o génio romano, personificado por Mussolini, o maior legislador
que existe, demonstrou a muitas nações que se pode resistir à pressão do
Socialismo?.
Além do mais, a guerra passou-se num sítio periférico e marginal, pouco
importante para a Europa, tornando-se mais uma questão sentimental do que
política.
Para quem considerou que o conflito era puramente espanhol, a guerra só se
desenvolveu, graças à intervenção e assistência externa: sem armas e
homens estrangeiros, o golpe de estado militar teria terminado, vitorioso
ou não, ao fim de poucas semanas. Para esses analistas, a Guerra Civil não
passou de um incidente na política europeia, um incidente que provocou
cerca de um milhão de mortos, um incidente inoportuno que identificou, de
modo claro, um dos campos em confronto na 2ª Guerra Mundial, ficando
demonstrado que no lado nazi-fascista não havia fissuras, o que não se
passava no lado oposto, onde as fissuras existiam e bastante graves.

A República e a Ditadura

A República Espanhola contou, nas suas fileiras da luta contra a agressão
militarista, com uma amálgama de forças políticas nada coesas, rivais e
até inimigas entre si.
No campo antifranquista acharam-se Republicanos de todas as cores,
Socialistas de todas as tendências, Comunistas estalinistas e
anti-estalinistas; Libertários da CNT-FAI e do Partido Sindicalista de
Pestaña; Nacionalistas Catalães, Bascos e Galegos. Puderam-se encontrar,
inclusive, os Católicos conservadores do Partido Nacionalista Basco e os
ultranacionalistas do Estat Catalá. Todo este leque ideológico, contra si
próprio dividido, sucumbiria ao embate vitorioso do monolitismo militar e
ultramontano.
A Espanha sobrevivente da terrível Guerra que a enlutou, enfrentou uma
trágica realidade: dois milhões de prisioneiros, 183 cidades devastadas,
um milhão de mortos, 500 mil exilados. Panorama dominado por uma religião
de Estado (o Catolicismo), por um exército de 600.000 homens, por um
partido único de cariz clerical-fascista (a FET y de las JONS), pela
repressão aos anseios autonómicos de catalães, bascos e galegos, pela
instauração de uma língua oficial e obrigatória (o Castelhano). No cimo da
pirâmide, um Chefe totalitário: o Caudillo Francisco Franco. Para trás
ficavam a República democrática e pluralista; a emancipação política,
social, cultural e económica dos trabalhadores; a esperança de realização
de uma sociedade revolucionária. Tudo isto esmagado pela pesada bota do
militarism o conservador e ultramontano.


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