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(pt) A BATALHA N. 216 . Visto da parvónia

Date Sun, 23 Apr 2006 21:21:54 +0200 (CEST)


As aventuras do Napoleão do colunismo

Eduardo Prado Coelho esteve doente e teve de ir ao hospital. Mal sabia ele
as peripécias que lhe iam acontecer. «Um ser que pertencia a uma empresa
de segurança disse-me que tinha de sair do edifício...», «O homem, que era
daquele estilo do idiota...», «o aranhiço eléctrico...», «comecei a
empurrá-lo e estava disposto a dar-lhe um merecidíssimo murro...».
(Público, 28-12-2005.)
Podemos imaginar o segurança a magicar «ai que eu esta noite tenho de cear
ensopado de coelho». E podemos imaginar o professor universitário à
procura do diálogo «Meu amigo, tem aqui uma introdução a um pensamento
cruel, que estruturas é que aí faltam?». Ou então: «Aqui tem os universos
da crítica, qual é a crítica que aí está representada como conjunto
vazio?» Ou ainda: «Estas são as hipóteses de Abril, descubra aí porque é
que eu hoje estou pr?aqui ideologicamente sem tecto, entre ruínas.»
Nada disto se passou. A carta dirigida ao ministro da Saúde não aguça o
engenho para descobrir o mistério nos corredores do Hospital de Santa
Maria. Porquê tanta agressividade interiorizada? Não teria sido preferível
escrever ao ministro da Defesa? Talvez que este conseguisse que alguma
companhia antes de se dirigir para o Afeganistão ao serviço da NATO (que
se saiba o Afeganistão não fica no Atlântico Norte!) fosse capaz de tratar
da saúde aos doentes utilizando o friendly fire. Não se sabe é se os
doentes gostariam... ? não significa, naturalmente, alinhamento com as
esquerdas no poder na América Latina. Os anteriores governos aproveitaram
a ?limpeza? da ditadura de Pinochet, a sua herança militar e judiciária,
contra os mapuches (baptizados terroristas) ? povo autóctone no território
araucano. Um espaço multissecular, que se encontra assim prisioneiro do
sistema económico estabelecido por essa ditadura. A seguir ao co-bre, as
exportações de madeira constituem a segunda fonte de rendimentos do país.
Ao reivin-dicarem direitos, os mapuches levantam obstáculos ao
investimento, ameaçando a exploração desenfreada dos recursos naturais:
madeiras, minas ou pesca.
Entretanto, ao centro do continente, a Missão de Estabilização das Nações
Unidas tem como coordenador adjunto um general chileno que pertenceu à
Direcção Nacional de Informações (DINA), polícia do regime da besta, que
esteve na origem de 3000 execuções extrajudiciárias, 1200 desaparecimentos
e 30000 encarceramentos de prisioneiros políticos.


A banca acima de qualquer suspeita

O sector bancário vai de vento em popa. Uns dizem-nos que em 2005 a
economia praticamente estagnou, outros que desacelerou ou que entrou em
crise. A grande excepção parece ter sido o capital bancário (ou capital
industrial? ou capital financeiro?). Dados aparecidos no Público (3 e
6-2-2006) e no Jornal de Negócios (3-2-2006) dizem-nos só isto: os três
maiores bancos portugueses tiveram lucros de 1300 milhões de euros. E
esta, hem! Uma parte destes lucros foi gerada cá, outra no exterior. A
concorrência monopolista dá nisto, cada centro vai criando a sua
periferia. Uns para leste (Polónia), outros para sul (Angola). Esta antiga
colónia portuguesa já representa 28% dos lucros do BPI, que quer abrir em
2006 mais 27 balcões, atingindo os 70. Angola foi campo de guerra durante
14 anos contra os colonialistas portugueses, teve mais de duas décadas de
guerra civil e agora está nesta...
Será que o Bono sabe disto, ele que está sempre a fazer finca-pé contra a
fome em África? Talvez que ele possa ou saiba desmantelar uma bomba
atómica, mas duvidamos que seja capaz de apagar esta bicha-de-rabear do
capital financeiro.

A liberdade de expressão

A tempestade gerada pela publicação das caricaturas de Maomé por um jornal
dinamarquês é interessante a vários níveis. Vê-se que é um temporal que
levou algum tempo a formar-se. Como todas as zonas de baixas pressões e
altas pressões os seus efeitos nunca podem ser rigorosamente determinados
com antecipação. Há sempre muito de aleatório. Dizem que o jornal
pretendeu «desafiar, blasfemar e humilhar», tendo como alvo os muçulmanos.
À primeira vista parece pretensioso que um caricaturista queira fazer isso
tudo e a tanta gente espalhada por esse mundo. E todavia conseguiu criar
uma onda de aversão à Dinamarca que também parecia inimaginável. E isto já
é um factor extremamente interessante.
Um jornal hoje é uma mercadoria que tem um valor de uso e um valor de
troca. Quando o leitor-consumidor o adquire fá-lo por milhentos motivos.
Mas até chegar ali há um longo processo de preparação daquele produto com
muito trabalho incorporado. Desde a propriedade do título até à estrutura
da redacção há todo um enquadramento que tem de ser bem compreendido. Como
a redacção tem um director será ele a dar o tom. Pode ser mais
participativo, querer verificar tudo ou dar autonomia às diferentes
secções. É dele também que depende o leque de colaboradores mais ou menos
aberto. Tudo com o objecti vo de realizar a máxima «Os factos são
sagrados, os comentários são livres». Claro que há aqui subjectividade, as
palavras não são neutras, o que se escreve não é inocente. Isto quer dizer
que o texto, a fotografia ou a caricatura que aparecem numa página podem
ser lidos, vistos ou observados de maneira totalmente diferente daquela
que o jornalista, o fotógrafo ou o caricaturista esperam.
Mas esse risco deve ser sempre corrido, porque não havendo censura prévia,
isto é, não havendo corpos estranhos à empresa jornalística, em geral, e à
redacção, em particular, que decidam arbitrariamente o que deve ser
publicado, outro jornal pode dar sempre outra perspectiva. É isto a
liberdade de imprensa. E é aqui que entram as caricaturas do jornal
dinamarquês. A detonação ao retardador não foi de certeza o efeito
esperado. A deriva que se seguiu também não admira. A leitura de La
violence et le sacré, de René Girard, talvez pudesse ajudar nalguns
aspectos, embora o fundo seja outro.
Do lado islamita não foi acertada a escolha do alvo, a que se juntou um
erro de cálculo. O mundo muçulmano está cheio de tensões internas (xiitas
contra sunitas) e nos últimos anos tem sido vítima tanto dos seus próprios
governos como da cupidez dos estranhos que só vêem o petróleo. Mas o islão
tem um problema que já não é de agora: não aceita o debate que o ponha em
jogo. Há quem diga que ainda não saiu da Idade Média. Não nos parece,
porque quem ler La philosophie médiévale, de Alain de Libera, editado pela
PUF, aí pode encontrar ao longo de mais de cem páginas as contribuições
tanto do islão oriental como do islão ocidental. Não nos parece é que
tenha capacidade de encaixe na discussão. O caso de Maimónides é típico.
Maimónides, judeu nascido em Córdova, contemporâneo de Averróis, estudara
a Metafísica de Aristóteles, traduzida pelos árabes, tinha lido Avicena,
conhecia bem o Talmude. A sua preocupação era fornecer aos judeus na terra
do islão pontos de referência para que não ficassem perplexos perante o
que estava acontecendo. Pois bem, quando os Almóadas chegaram a Córdova,
Maimónides teve de fugir porque eles eram berberes e tinham uma
interpretação extremamente restritiva da prática islâmica. Aliás, o
próprio Averróis, que era islamita, foi acusado de ser herético e caiu em
desgraça. Isto passou-se no século XII. Outro caso semelhante é o de
Sabbatai Zevi, também judeu nascido em Esmirna, no século XVII, que
conseguiu criar um movimento de características messiânicas, tendo por
fulcro Jerusalém. Acabou por ser julgado pelos turcos ? ou te convertes ao
islão ou morres. Converteu-se. Jerusalém na altura estava sob o domínio do
islão.
Por estes dois exemplos se vê que o islão reage mal a quem o põe em jogo.
Os jornalistas e os caricaturistas têm de saber isto. Como nas redacções
não há tanques, não se devem arvorar em quarto poder. Não podem é ceder
naquilo que é essencial ? o comentário é livre. Isto quer dizer que também
não há nada a esperar dos chamados «governos democráticos». Estes acabam
por forjar sempre um artigo qualquer dum código esquisito ou arranjar uma
entidade reguladora que pode descobrir que a pátria está em perigo porque
precisa de petróleo ou de gás, o que pode implicar que não se pode ferir
as susceptibilidades dos governos dos países que os têm no subsolo. Para
tais governos a liberdade de imprensa está sempre adiada.

«Tirem as mãos dos teclados»

Ao ouvirem estas palavras o que terão pensado os jornalistas em pleno
trabalho na redacção do 24 Horas? Será que pensaram que era o Bin Laden
que passeava pela Avenida? Será que pensaram que aquilo ia tudo explodir?
Será que pensaram que era a PT que queria os jornais de volta para obrigar
a Sonae a pagar mais? Será que pensaram que era um golpe publicitário tipo
up against the wall motherfucker?
Não, aquilo era a maneira como elementos da Polícia Judiciária pretenderam
imobilizar a redacção para dar início a uma diligência. «Tirem as mãos dos
teclados e desliguem os telefones.» (Público, 16-2-2006.) Cá está o tal
problema da liberdade de imprensa. Baptista-Bastos escreveu com clareza no
Jornal de Negócios (3-3-2006): «O assalto à Redacção do 24 Horas configura
o estilo de uma intimidação cuja natureza e origens têm de ser reveladas e
combatidas com tenacidade. E demonstra, igualmente, as fragilidades de uma
democracia, e o inacabamento ou, até, a liquidação das propostas de Abril.
(...) O caso do 24 Horas é um braço-de-ferro entre a liberdade e ausência
dela. Porém, a consciência moral da jovem Redacção vai, certamente, sair
vencedora sobre a força da perversidade. De contrário, seríamos todos os
derrotados.»
Não haja dúvidas ? contra a máquina infernal dos diferentes órgãos de
soberania opta-se pela liberdade imprensa. Os jornalistas não podem
desanimar. Encore un effort!

Júlio Palma

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