A - I n f o s
a multi-lingual news service by, for, and about anarchists **

News in all languages
Last 40 posts (Homepage) Last two weeks' posts

The last 100 posts, according to language
Castellano_ Deutsch_ Nederlands_ English_ Français_ Italiano_ Polski_ Português_ Russkyi_ Suomi_ Svenska_ Türkçe_ The.Supplement
First few lines of all posts of last 24 hours || of past 30 days | of 2002 | of 2003 | of 2004 | of 2005 | of 2006

Syndication Of A-Infos - including RDF | How to Syndicate A-Infos
Subscribe to the a-infos newsgroups
{Info on A-Infos}

(pt) A BATALHA N.216: Bolonha, Bolonha e mais Bolonha

Date Thu, 20 Apr 2006 18:56:29 +0200 (CEST)


Começou com uma declaração

Estava-se em 1999 e os ministros da Educação/Ensino Superior ?dos 15? (o
nosso era Marçal Grilo) quiseram com esta declaração aplicar a lógica
comunitária ao Ensino Superior, guiada por princípios como os da
qualificação, da equiparação, da mobilidade, da integração. E, não
esquecendo, o princípio da competição (interna e externa).

E como? Estabelecendo um denominador comum a todas as universidades de
toda a União Europeia. No essencial, trata-se de normalizar a formação
superior num só modelo geral, incentivando-se em todos a integração de
semestres, módulos, visitas laboratoriais, etc., a realizar noutras
instituições de ensino superior europeias.

Ambiciosa e radical em muitos aspectos, esta reforma já vinha pré-figurada
em vários diplomas, programas ou práticas informais. Por exemplo, desde
inícios dos anos 90 que se idealizou um diploma europeu para os biólogos,
em que os mesmos 8 anos do actual paradigma (ver adiante) estavam
subdivididos em 3 ?ciclos?, dos quais o último era preenchido por um
número mínimo de anos de exercício da profissão; o programa Sócrates
(ainda em vigor) concede bolsas para que estudantes, pré-licenciados ou
licenciados, realizem parte da sua formação em instituições de ensino
doutros países da União Europeia; e é prática corrente, no decurso duma
investigação para mestrado ou doutoramento, frequentarem-se cursos,
laboratórios ou bibliotecas doutras instituições. Mas tudo se tem
organizado ad-hoc (protocolos entre as instituições) ou sectorialmente ? a
declaração de Bolonha visa dar um horizonte mais generalizado, e uma
estrutura jurídica a condizer. Em troca, as universidades (e, se entendo
bem, institutos politécnicos) têm de ajustar-se ao figurino comum.

Tornou-se um paradigma

A declaração inicial concebia diversas possibilidades, e só em 2001 começa
a prevalecer o paradigma de três graus, conclusão de outros tantos
?ciclos?, os dois primeiros abrangendo os cinco primeiros anos como a
generalidade das licenciaturas actuais, e o terceiro ocupando mais três
anos O segundo e o terceiro graus são herdeiros do mestrado e do
doutoramento, respectivamente. As diferenças que incidem neles são, no
essencial, duas: o facto de, na prática, serem indispensáveis para uma
qualificação profissional, mesmo que ninguém agora o queira admitir; e o
seu enquadramento financeiro (quanto se paga, se há subsídios ou bolsas e
quem os concede, o que num Portugal cronicamente desleixado nas políticas
de Educação bem nos pode deixar apreensivos). Ambas se reflectem nas
acusações que se vão ouvindo de elitização do ensino superior, mas a
verdade é que não se sabe se são fundadas. Talvez o sejam, talvez.

O primeiro grau, que aparentemente é uma contracção da licenciatura para
ficar em 3 ou 4 anos (segundo os casos) sem ?parecer? que é um
bacharelato, é onde incidem as grandes transformações, a começar por não
conferir qualificação profissional alguma, mesmo que com o discurso das
?competências? (ver adiante), e de ?ter relevância para o mercado de
trabalho europeu? (o que na prática não esclarece nada ? nem compromete),
se tente dar a impressão contrária. Do ponto de vista dos estudantes, o
massificado primeiro ciclo vai ser apenas o passo, obrigatório, para
aceder aos ciclos que realmente conferem essa qualificação; do ponto de
vista dos docentes, vai ser a transposição para as instituições de ensino
superior das lógicas do ano propedêutico/12º ano. Por outras palavras, em
lugar da aparente antecipação de 1 ou 2 anos na obtenção dum grau
superior, a contracção para 3 ou 4 anos redefine o primeiro ciclo com uma
fase de triagem dos candidatos às carreiras de elite.

De facto, a situação das décadas mais recentes gerou desequilíbrios, dos
quais o excedente de médicos espanhóis, ou os exércitos de doutores &
engenheiros empregados em tarefas onde a sua formação académica é
irrelevante, são apenas dois exemplos. A dita redefinição permite assim,
apenas com semântica, que se varram das estatísticas os números negros do
subemprego dos licenciados, pois não têm "licença" nenhuma. As gerações
formadas em muitas das licenciaturas actuais são automaticamente
englobadas, e prevejo que essas só muito tarde compreendam que têm de
voltar a frequentar a universidade para pelo menos completarem o segundo
grau e (re)conquistarem uma qualificação profissional.

É o resultado lógico da massificação que se deu no ensino superior, ao
qual por enquanto ainda resistem licenciaturas com relevância social
melhor estabelecida, como sejam o Direito, as Arquitecturas, algumas
Engenharias, as Medicinas, a Farmácia, algumas de Ensino. Mas mesmo essas
terão de ajustar-se ao paradigma de Bolonha, por exemplo concedendo
através das respectivas Ordens equivalências entre os antigos licenciados
e, claro, o segundo grau. Em troca, o regime de apoio financeiro dado pelo
governo ao 1º ciclo vai estender-se ao 2º nessas áreas, mas só nessas!

Como dizia o Leopardo, é preciso mudar uma ou duas coisas para que fique
tudo na mesma.

Só que a envolvente não é a mesma, de todo.

Entretanto, vive-se um processo

São incontáveis as reuniões por essa Europa fora a tentarem enfiar o
Rossio na rua da Betesga, isto é, compactar 5 anos de ensino superior, que
é em quase todas as licenciaturas intenso e exigente, em 3 ou 4. Mesmo
aparando as redundâncias que existem em todas, é um exercício fútil; mais
valia assumir-se de vez o carácter não-qualificante do primeiro ciclo, mas
como em todas as "guerras", os "generais" só sabem as regras das
anteriores. Quem se antecipa com novas tácticas é que sairá a ganhar.

O paradigma de Bolonha, para iludir os docentes sobre a validade de tal
exercício, formulou duas falácias: orientar para a aquisição de
"competências", e transferir a ênfase do "ensino" para a "aprendizagem".
Isto, porque convém salvar as aparências garantindo aos futuros
licenciados (1º grau) alguma ilusão de terem a mesma qualificação em menos
tempo. Visto de maneira benevolente, trata-se então de "revolucionar" a
formação universitária extirpando tudo o que se considere supérfluo para
as competências profissionais, e aumentar a eficiência da aprendizagem
incentivando nos docentes e alunos uma cultura de acompanhamento destes
por aqueles.

Basta analisar com alguma atenção esta retórica para que nos apercebamos
da confusão em que se anda. A caracterização do "ensino" vigente como uma
mera transmissão de conhecimentos centrada no docente, e dos alunos como
meros receptáculos para esse ensino, é uma caricatura justificativa da
ênfase na "aprendizagem" como conquista de conhecimentos centrada em cada
estudante, onde os docentes servem como orientadores mais ou menos
impessoais. A caricatura vai passando, à força de ser tantas vezes
repetida, e a liberdade de interpretação sobre como realizar a nova
ênfase, (des)orientada pelas mais díspares definições que irão produzir-se
sobre as competências a atingir no 1º grau, não tardará a desencadear
processos de avaliação e consequentes "purgas" no sistema. Como em todas
as revoluções, muitos ficarão pelo caminho.

Os métodos de aprendizagem preconizados, podendo ser os mais diversos,
praticamente não podem prescindir da implementação de interfaces
informáticas de ensino à distância, promovidas por todo o lado como meio
particularmente eficaz. Basta apenas que haja suficientes computadores e
redes informáticas de suporte, e os alunos até podem nunca precisar de
conhecerem pessoalmente os seus professores. Dito sem quaisquer rodeios, a
mudança de ênfase substitui as aulas por explicações.

E sai mais barato, o que até se justifica pelo menor valor social que o 1º
grau vai ter em comparação com a licenciatura. Ao desinvestimento em
estruturas e em recursos humanos acrescenta-se a esterilização humanística
do ensino universitário. A revolução já não pode morar aqui, e o gérmen da
criatividade fica quando muito para os ciclos seguintes, onde a
qualificação profissional se efectiva, mas entre docentes e estudantes
que:
- pela mobilidade, não têm passado em comum;
- pela modularidade dos programas, se dispersam por inúmeros docentes
restritos a "tópicos" muito estreitos;
- pela precariedade do financiamento (de uns e doutros), são ferozmente
competitivos.

Já vai longo, este texto. Resta homenagear-se a capacidade de antecipação
dos arquitectos do novo paradigma, eminências pardas que souberam
harmonizar uma concepção de ensino superior com a concepção duma Europa
federal, neoliberal e neoimperialista. Se se gosta desta é uma outra
questão, mas como se sabe não é hábito de "Bruxelas" querer saber da nossa
opinião.

Paulo de Oliveira

Documentação
http://www.uevora.pt/info/show_doc.php?oid=104
http://www.ualg.pt/npfcma/documentos.htm

_______________________________________________
A-infos-pt mailing list
A-infos-pt@ainfos.ca
http://ainfos.ca/cgi-bin/mailman/listinfo/a-infos-pt


A-Infos Information Center