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(ca) "A BATALHA" N. 212: RESCALDO?

Date Thu, 15 Sep 2005 18:10:52 +0200 (CEST)


por Luís Garcia e Silva
Como já vem sendo hábito, tivemos este ano, mais uma vez, o país em
chamas. Sem que, também mais uma vez, nada tivesse sido feito para o
prevenir ou, não o tendo prevenido, para o combater eficazmente. Nem por
parte dos indivíduos, nem por parte das autarquias, nem por parte do poder
central. Cada qual espera que sejam os outros a assumir as suas
responsabilidades e fica, ipso facto, isento das suas. É uma atitude
tipicamente portuguesa, que toca a todos, irmanando governados e
governantes, e que se aplica nas mais variadas áreas e circunstâncias. Com
os lastimáveis resultados de todos conhecidos e sem que ninguém daí retire
a óbvia lição.
Quando a chuva vier e o tempo refrescar o tema dos fogos ditos florestais
regressará ao dossier e prateleira onde havia estado, para nos ocuparmos
das eleições autárquicas e presidenciais. Da prateleira sairá de novo em
2006, quando o calor apertar e os incêndios recomeçarem. E assim
continuaremos até ao total desaparecimento do revestimento arbóreo, que
não será decerto em futuro muito distante, pois não queremos deixar a
solução definitiva para os idos do Juízo Final.
Ao falar em rescaldo estamos a pôr o carro adiante dos bois. Nada nos
garante que o tempo continue a arrefecer e a chuva esteja para chegar. E
se esta não chegar rapidamente o auto-de-fé poderá continuar por alguns
dias ou semanas mais.
Figurões da alta política aproveitam o holocausto para discretear sobre
florestas com à vontade e imprecisão. Fica-se com a noção de que para
eles qualquer grupo numericamente importante de árvores é uma floresta, de
que floresta é o substantivo comum de árvore. E assim uma plantação de
eucaliptos, pinheiros ou seja lá de que árvore for, nativa ou importada,
para produção de madeira com fins industriais é uma ?floresta?. E esta é
até a ?floresta? que mais tem ardido e que mais lhes interessa, porque dá
dinheiro e ajuda a reduzir o défice da nossa balança comercial com o
exterior. Que é o que mais importa, agora e sempre, sobrelevando o já
despiciendo património ambiental. Há contudo uma confusão que felizmente
ainda não fazem. Não confundem ?floresta? com pomar. Pomar é substantivo
comum de árvore de fruto, ?floresta? diz respeito às outras árvores,
aquelas que dão apenas madeira para pasta de papel ou vigas e tábuas para
a construção civil.
Embora na realidade a floresta seja algo mais complexo e mais interessante
também. Floresta é uma comunidade vegetal integrada que contém árvores (de
uma ou mais espécies) e outras plantas (arbustivas, subarbustivas e
outras). Estas últimas constituem aquilo que habitualmente se designa por
sub-bosque. Sub-bosque que é indispensável para a definição mesma de
floresta, que é imprescindível à boa saúde do estrato arbóreo. Além do
sub-bosque existe ainda a chamada ?manta morta?, camada de detritos
vegetais (folhas secas, casca, ramos partidos, plantas mortas) que cobre o
solo e que, a despeito da designação de morta, é um estracto
biologicamente activo. A manta morta é habitada por pequenos mamíferos,
répteis, vermes, insectos, fungos e bactérias que a transformam em
?composto?. Além de proteger o solo contra a erosão, contra a exposição
solar e a evaporação de água, a ?manta morta? em decomposição vai fornecer
às árvores e outras plantas os nutrientes de que carecem para sobreviver,
crescer e multiplicar-se. A ?manta morta? está para a floresta como a
adubação orgânica para a agricultura. Insistimos neste ponto porque
se está sempre a falar em ?limpeza? da floresta, isto é, na eliminação do
sub-bosque e da ?manta morta?, como um dos métodos mais eficazes para a
prevenção dos fogos florestais.
Como é óbvio a floresta suporta a remoção parcial de uma proliferação
exuberante do sub-bosque ou de uma acumulação excessiva de detritos
vegetais, mas a depradação que por vezes nos mostram na TV é um erro em
termos ecológicos. Sendo igualmente evidente que uma ?limpeza?
parcimoniosa tem menor eficácia em termos de prevenção.
É claro que a verdadeira floresta é rara e se acha praticamente confinada
a alguns parques e reservas naturais, ainda que nalgumas plantações
artificiais por vezes designadas ?florestas de produção?, sobretudo nas de
maior duração como o pinhal, se verifiquem tentativas mais ou menos bem
conseguidas de formação de sub-bosque e ?manta morta?, cuja natureza varia
em função da monocultura arbórea e de outros factores.
Dadas as limitações que devem presidir às operações de ?limpeza? é
indispensável lançar mão doutros métodos de prevenção, entre os quais se
contam a preservação das espécies nativas e da biodiversidade ? em
oposição à monocultura do eucalipto ou do pinheiro ?, a interpolação de
culturas arvenses entre as áreas arborizadas, uma rede viária que permita
o acesso fácil às zonas de risco, reservas de água ao alcance de
residentes e bombeiros, e, por último, um adequado sistema de vigilância
regular articulado com uma boa capacidade de resposta por parte da
protecção civil.
Parece indispensável que a vigilância permanente profissionalizada, seja
reforçada nos meses de risco por equipas de residentes que assegurem
voluntária e rotativamente o patrulhamento das áreas florestais.
Não deixa de ser curioso que comunidades capazes de se organizar para
boicotar o sacerdote indesejado, segregar comunidades ciganas, perseguir
toxicodependentes ou larápios contumazes, chegando a arremedar milícias
populares, se não consiga organizar no seu próprio interesse para levar a
cabo uma acção regular de vigilância, não só para detectar fogos
incipientes como também para denunciar abusos e vícios no plantio e
conservação dos espaços arborizados.
Uma actividade que deveria ser desenvolvida em cooperação com as
autarquias e órgãos locais da protecção civil, mas que dificilmente se
concretizará se não for impulsionada pelos próprios interessados.
A grande dificuldade reside, a nosso ver, na falta de consciência cívica,
na extrema dificuldade em enraizar uma cultura de cidadania activa. É
trabalho para muitos anos e exige grande perseverança. Quem julgava o 25
de Abril capaz de efectuar o milagre, enganou-se redondamente. Também que
nos conste não terá havido qualquer acodo a esse respeito entre o MFA e o
santuário de Fátima.

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