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(pt) UM MODO DE CARTA ABERTA AOS/ÀS LIBERTÁRIOS/AS: REFLEXÕES SOBRE O MOVIMENTO LIBERTÁRIO EM SÃO PAULLIBERTÁRIO EM SÃO PAULO

Date Tue, 8 Nov 2005 23:46:40 +0100 (CET)


[de www.anarcopunk.org ]

Sábado, dia 5 de novembro de 2005, ocorreu em São Paulo uma manifestação
na Av. Paulista, em decorrência da visita do presidente estado-unidense
George W. Bush ao Brasil, que esteve em Brasília de passagem após estar
presente na IV Cúpula das Américas, em Mar del Plata (Argentina). Alguns
fatos ocorridos neste dia me despertaram a necessidade de escrever este
artigo, que reúne alguns pensamentos que já estavam em minha mente, mas
decidiram saltar definitivamente para estas linhas.


A quase ausência do movimento libertário na manifestação desperta,
obviamente, uma série de questionamentos. Dentre eles, o mais urgente é: o
que levou a isso? Seria uma falta de interesse pela causa do protesto? Uma
falta de planejamento dos grupos?

É bastante óbvio que a primeira das hipóteses é totalmente inválida, já
que a questão da luta contra o imperialismo (como ampliação da luta contra
qualquer poder) e, mais especificamente, contra a ALCA, sempre foi motivo
de grande atenção do movimento anticapitalista em nível global. Não é à
toa que, desde a primeira Cúpula das Américas (evento que foi criado
praticamente com a finalidade de implantar a ALCA), os donos do continente
americano enfrentaram manifestações enormes em todos os lugares onde
colocaram suas garras de fora (recordemos Miami, Quebec, Monterrey, dentre
outros). E não é à toa que a Argentina estremeceu diante das mobilizações
que ocorreram há poucos dias em todas as grandes cidades do país. Mesmo
com a cooptação populista e oportunista de ícones "esquerdistas" como Hugo
Chávez sobre um amplo leque de movimentos, houve um grande empenho de
setores antiautoritários e autônomos no sentido de preparar-se para esta
ocasião, tanto na luta cotidiana pela construção de bases revolucionárias
em suas localidades como nas manifestações da semana da Cúpula
propriamente dita. E foi assim que as ruas das grandes cidades de nossa
América foram tomadas por libertários/as: Buenos Aires, Santiago,
Montevidéu, São P... não, São Paulo não... Que estranho, o que terá
acontecido com a nossa cidade?

É importante recordar que a luta contra a ALCA já gerou uma grande
mobilização do movimento libertário em São Paulo. A última grande
manifestação que tivemos por aqui, que ficou conhecida como A20, ocorrida
em 2001, foi movida por esta questão. Naquela época ocorreu o auge da AGP,
que (francamente) foi a organização mais representativa do movimento
libertário por aqui nos últimos tempos, pois conseguiu agrupar o maior
número de grupos que já se viu, direta ou indiretamente. Além disso, essa
representatividade gerava também uma legitimidade da agrupação, sob a
órbita da qual circulava uma grande quantidade de indivíduos (que mais
tarde formaram novos grupos ou se afastaram de vez). Esse fluxo de gente
gerou uma época muito produtiva, em que ocorriam eventos, surgiam novas
propostas, inquietudes e mobilizações.

E então, já sabemos o que aconteceu naquele dia fatídico de 20 de abril de
2001: repressão brutal da polícia, perseguições, detenções. A partir daí,
declínio da AGP e de parte significativa da efervescência
político-cultural que havia. A tendência (que ocorreu em todo o mundo
anticapitalista pós-Seattle, diga-se de passagem) foi um maior
distanciamento dos grupos revolucionários (muitos deles surgidos dessas
mobilizações recentes). O que por um lado foi positivo, pois contribuiu
para o amadurecimento da crítica e da luta libertárias; por outro foi
extremamente prejudicial, pois foi acompanhado de um agravamento das
divergências existentes entre os grupos e indivíduos (sem contar com o
grande afastamento de pessoas que se haviam acercado recentemente).

Fato é que, depois da desmobilização da AGP, o bloco libertário nos dias
de protesto já não é o mesmo. Manifestação após manifestação, nota-se a
diminuição de suas colunas. Seria a repressão policial um fator
responsável por isso? Absolutamente, não - aliás, só coloco aqui esta
questão para desmentir o que se tem falado na imprensa burguesa e nos
demais meios alheios à luta anticapitalista, que procuram encarar
manifestações coletivas como fatos isolados, sem muita importância e
conteúdo social profundo. As manifestações refletem diretamente o estado
de ânimo do movimento libertário? Sim, lógico! Quanto mais ativo,
mobilizado e unido, maior e melhor a manifestação na rua, afinal de contas
o que se vê nos dias de protesto é somente uma expressão da luta cotidiana
e organizada de incontáveis almas pela mudança radical do estado das
coisas.

Depois dessa época, a desunião da luta cotidiana dos grupos e pessoas tem
crescido cada vez mais. Leitor/a, não me entenda mal: não procuro aqui
colocar a questão da AGP como único fator gerador desse fenômeno, nem como
organização totalmente representativa, pois não o é - trata-se somente de
um exemplo, o melhor que encontrei. Isso representa um grão de areia na
imensidão do mar (de lama). Sabemos das cisões internas que o movimento
anarquista enfrenta desde há muito tempo, e que há pessoas/grupos que
levam isso consigo há décadas. Sabemos do que veio depois, e de fatos que
não têm nada a ver com a AGP. Sabemos também que houve uma tendência
global semelhante (coincidência ou não, mas é verdade), de distanciamento,
crescimento de novas tendências, dentre muitos etcéteras. Contudo, sejamos
factuais: o mais preocupante, na verdade, é que há hoje em São Paulo
incontáveis núcleos libertários atuando isoladamente, uns mantendo contato
com outros, segundo afinidade ideológica/pessoal/etc, outros que se
manifestam abertamente como opositores de uns. São Paulo é hoje um grande
mundo heterogêneo de grupos, pessoas, tendências (o que não é por si só
ruim). Qualquer convocatória para formar uma unidade no movimento
anarquista é encarada como algo parcial, que será atendida segundo o grupo
que se empenhe em fazê-la. Parece que nenhuma causa pode nos unir, por
mais comum que seja. O rancor, a divergência e a falta de diálogo e
interesse imperam por aqui, ao que parece.

Fico pensando, como é possível que construamos uma sociedade baseada na
livre associação de indivíduos, segundo seus interesses, possibilidades e
afinidades, se não conseguimos nem mesmo dialogar entre nós? Não falo de
criar um movimento homogêneo, isto é impossível e indesejado; senão de um
mínimo de diálogo e mobilização comuns. Afinal de contas, por mais
diferentes que sejamos, somos muito mais afins do que qualquer coisa.

Outra questão interessante é a da convivência com demais setores sociais
nas manifestações. Provocações, violência e desentendimento não são
novidade em São Paulo. Lembro-me de um fato ocorrido em maio deste ano, em
que alguns indivíduos punks entraram em confronto com militantes do PSTU
numa marcha - depois disso, a culpa foi jogada em cima do MAP-SP, que é um
coletivo que nem sequer estava presente nesta ocasião (esses punks não
participavam do MAP-SP). Bom, enfim, este é apenas um exemplo de conflito
que houve por aqui.

Ouvi neste mesmo sábado, dia 05/11, de alguns punks/anarcopunks, que não
iriam à marcha porque era convocada por partidos e porque haveria presença
quase totalmente homogênea de membros dessas organizações. Sobre isso,
digo: a marcha não era por um motivo comum a todos/as? Por que a ausência
do movimento anarquista em sua organização/mobilização? E, principalmente:
será que não podemos dividir o mesmo espaço que outros grupos nem mesmo
para fazer uma manifestação? Isso mais uma vez me faz pensar: como é
possível que construamos uma sociedade plural se não conseguimos nem mesmo
integrar uma mesma marcha com outros grupos? E mais uma vez, não falo de
depender de instituições alheias, de confiar em agrupações autoritárias
(pois conhecemos muito bem a História), nem de dividir o mesmo bloco;
senão de compartir a mesma manifestação, com bloco, bandeiras, gritos e
pessoas próprias; de maneira completamente autônoma. Porque o motivo da
manifestação é o mesmo - apesar do diferente enfoque que possamos dar.

Mesmo com a fraca presença de indivíduos libertários, tive a oportunidade
de encontrar e conversar com alguns, e de conhecer outros novos; e posso
dizer que essa reunião informal foi muito produtiva. Esta oportunidade foi
única, pois do contrário alguns projetos, contatos e intercâmbio de idéias
nunca teriam sido possíveis. O que me leva a concluir que, além de todos
os motivos que já coloquei sobre a nocividade de não estarmos presentes e
mobilizados enquanto setor social - levando aos olhos da sociedade uma
alternativa real contra o capitalismo, dizendo que estamos aqui -, a
ausência de oportunidades de encontro da coletividade anticapitalista nos
prejudica pela coisa mais simples disso tudo: o simples fato de não nos
vermos, de não nos falarmos, não nos reconhecermos neste imenso espaço
urbano que isola as pessoas. As maiores iniciativas e idéias surgem em
lugares e espaços casuais, em situações como uma festa, uma conversa de
bar ou de manifestação (sem tirar a importância de reuniões e encontros,
obviamente!).

É por todas essas coisas que penso que é urgente que armemos uma estrutura
mínima de diálogo e mobilização comuns. A situação em que nos encontramos
só nos desmotiva, e quanto mais isolados estivermos, mais fracos seremos.
O momento atual é um dos mais propícios das últimas décadas para a
organização autogestionária e autônoma, diante da grande decepção da
sociedade com as instituições de representação burguesa corruptas,
ineficientes e que só fazem aumentar a diferença social, a miséria e a
violência. Nosso dever é mostrar que cada voz é extremamente valiosa, que
a auto-organização é não só possível, como urgente; romper os muros de
isolamento individual da sociedade da televisão e do consumo; fazer da
Assembléia um local de encontro e convergência sociais. O primeiro passo
é, portanto, arrumar a nossa própria casa, limpando a poeira, e não a
escondendo debaixo do tapete.

Para não cair no ?denuncismo vazio? ? utilizando expressão em voga em
nossos tempos de crise -, termino este artigo com pensamentos pessoais
sobre possíveis soluções. A questão é: como poderíamos começar? Penso que
baseados num critério comum e latente. A campanha pelo voto nulo, ano que
vem, seria um excelente motivo; pois é algo do qual não divergimos, e com
o qual poderíamos armar mobilizações comuns e conjuntas (pois cada grupo
já faz a sua, geralmente). Visto que o voto nulo é acompanhado da proposta
de auto-organização popular, este seria um bom meio de nos rearticularmos.
Se estivermos unidos e baseados no princípio fundamental do anarquismo de
cooperação segundo nossas afinidades, as coisas darão mais certo do que
possamos imaginar.

Espero, com isso, estimular um pouco de análise das agrupações libertárias
de São Paulo. Se conseguirmos colocar um band-aid em algumas feridas que
ainda sangram às vezes, esta cidade pode ter cura.



Saudações libertárias,

Karina Lima.

* E-mail para trocar idéias, receber críticas (construtivas), sugestões ou
simplesmente manter contato: karina@anarcopunk.org

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