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(pt) FARJ , Federação Anarquista do Rio de Janeiro: Assim fala um semeador

Date Mon, 7 Nov 2005 18:50:50 +0100 (CET)


Entrevista com o companheiro Marco Augusto da Cruz da ocupação de Vila da
Conquista
O Anarquismo originou-se do povo e só conservará a vitalidade e a força
criadora que lhe são inerentes enquanto se mantiver com a sua
peculiaridade de movimento popular.
Kropotkin
Libera ? Marco, gostaríamos que você falasse um pouco sobre sua vida, de
onde você é , onde você nasceu...

Marco - Nasci no RJ, sou filho de uma mãe camponesa, natural da cidade de
Campos e de um pai que era filho de imigrantes italianos e espanhóis. Só
que não vivi com meu pai, vivi com minha mãe. Estou com 38 anos. Por volta
daquela época a ditadura militar ainda imperava muito no Brasil,
principalmente no RJ e também os emigrantes tinham um certo preconceito na
questão de raça e por minha mãe ser uma índia, ou melhor, cabocla, filha
de índio o preconceito de cor pesou e as famílias não aceitaram a união
dos dois. Aí foi que minha mãe me criou praticamente sozinha. Mas conheci
um pouco da família dele. Meu pai era um anarquista chamado Carlos Kasiso
e faleceu há cerca de 8 anos. Minha avó paterna veio da Europa como
refugiada em um momento em que lá havia revolução, guerra.

Libera ? E como foi a sua infância ?

Marco ? Minha mãe viveu na Praia do Pinto, uma favela que existiu no Rio
bem no coração do Jockey e que foi incendiada pelo sistema da ditadura
militar para que se pudesse construir naquela área para o pessoal da
classe burguesa. Ali morreram muitas pessoas. Minha mãe, que foi uma das
sobreviventes, mudou-se para o Morro do Vidigal, que estava surgindo, e de
lá foi morar na Cidade Deus de que foi uma das fundadoras e a primeira a
ganhar uma casa quando inauguraram o conjunto. De lá saiu para Tinguá,
município do Estado do Rio, e agora está novamente em Jacarepaguá em um
bairro próximo à Cidade de Deus. Nestes lugares cresci sem ter a
oportunidade de estudar, como queria. Só consegui cursar até a quarta
série em vista de muitas dificuldades e até mesmo por conta da
desorganização do governo que não consegue moradia fixa para as famílias
que são obrigadas a se mudar constantemente. Isto atrapalhou muito minha
vida na questão de estudo. Mas levei minha vida. Cedo comecei a trabalhar.
Exerci a profissão de sapateiro.que é uma das profissões que os
anarquistas exerciam muito. Depois trabalhei com pintura de carros, obra,
jardinagem, vários trabalhos eu sei fazer.

Libera ? E como começou a sua participação nas lutas da Vila da Conquista
em Jacarepaguá ?

Marco ? Por volta de 1996 foi que eu conheci a Vila da Conquista, que
ainda não era Vila da Conquista, mas simplesmente algumas famílias que
compraram alguns lotes de terra na mão de um especulador. Eu também
comprei um pedacinho de terra. Pensávamos que estávamos comprando terras,
mas fomos lesados por este cidadão. Como não tínhamos formação política,
apenas alguns conhecimentos libertários que não sabíamos como encaminhar,
pensávamos que o Estado era aquela certeza, o pai de todos, mas não era.
Depois de quatro anos o poder do município veio ao nosso encontro para
falar que não podíamos ficar naquela região, que era rica e pertencia a
empresários, e que nós teríamos que ser expulsos dali. Então eu e o outro
senhor, que é o ?seu? Ademar, que até hoje é morador da Vila da Conquista
resolvemos resistir. Fomos procurar nossos direitos e encontramos algumas
pessoas que nos indicaram vári os setores onde poderíamos buscar recursos
e abrigo. Mas todos os abrigos que nós procuramos como partidos
,empresários, etc se recusaram a vir em nossa ajuda. Aí foi que conhecemos
uma pessoa que morava em Jacarepaguá e que encaminhou a gente para os
sindicatos onde começamos a receber o apoio dos trabalhadores.

Libera ? Você chegou a se aproximar de algum movimento político ?

Marco ? Dali fomos conhecendo socialistas , anarquistas. Quando começamos
a ter contato com os sindicatos os marxistas se aproximaram da Vila da
Conquista, fizeram palestras e alguns trabalhos para a gente. Tentaram me
levar para o partido e realmente acabei indo para o partidão. Fiquei um
ano participando da militância, mas depois reparei que havia muitas
questões contraditórias. Eles falavam de defesa dos trabalhadores,
pregavam sobre a frente das passseatas, pressão sobre o governo, mas logo
faziam negociação com o próprio governo. Como eu já tinha pensamentos
libertários comecei a ver aquilo de uma maneira contestatória. Cheguei
para eles e falei: ?poxa, vocês estão dentro da ocupação, dando até um
certo apoio à gente, me levaram para o partidão, o PCB, dizem que defendem
as ocupações, mas o que acontece na verdade é o contrário, vocês usam a
massa como massa de manobra e os repres entantes das ocupações como pau
mandado. Vocês usam a gente para fazer pressão contra o governo dizendo
que é para reivindicar nossos direitos, mas só que nessa reivindicação o
que vocês ficam querendo é algum tipo de benfeitoria para vocês, não para
os trabalhadores, negociando nossos direitos e nos usando como massa de
manobra?.

Libera ? E o que aconteceu, então ?

Marco ? Eu contestei, não aceitei essas questões dentro do partido. Uma
militante do partido que se chama Valmíria criticou minha posição e aí é
que eu vi realmente o que era marxismo e o que era anarquismo. Desse dia
em diante pedi meu afastamento. Para se ter uma idéia de como estavam as
coisas, participei de um congresso municipal há uns três anos, onde nós,
do partido, massacramos o PC do B e colocamos uma junta de representantes
do partido dentro da FAMERJ. Seis meses depois o partido fez novamente uma
aliança com a própria Jandira Fegalli. Eles estavam querendo fazer aliança
e levando a campanha dela para dentro das ocupações. Eu falei ?aqui na
Vila da Conquista não vão entrar porque como é que você pode brigar com um
inimigo hoje e amanhã estar negociando com eles ? E dizendo às populações
a quem vocês falavam que eram inimigos para apoiá-los ? Isto é complicado
para minha idéia .?.Nesta época foi que pedi a renúncia do partido.

Libera ? E como foi seu contato com o anarquismo ?

Marco - Me trouxeram algumas vezes ao CCS e me apresentaram a diversas
pessoas. Mas eu ainda ficava na dúvida se eu era mesmo anarquista, porque
meu único contato com eles até então, como já disse, tinha sido com meu
pai com quem, apesar de conversar muito, convivi pouco. Conversando com
vários anarquistas nesta fase agora, é que começaram a despertar algumas
coisas que estavam ocultas na minha memória, e que me ajudaram a desvendar
a parte do anarquismo que ainda me faltava descobrir. Hoje estou aqui
participando desta luta e vejo que é uma luta que sempre procurei, mas que
eu não sabia onde encontrar, quais seriam os caminhos. Acredito que haja
muitos companheiros que estão nessa mesma situação, aí pelo Brasil afora,
apesar do anarquismo ter uma certa divulgação.

Libera ? Haveria simpatizantes do anarquismo nas ocupações ?

Marcos ? Há pessoas dentro das ocupações que contestam o sistema, não
querem ser dominadas por uma ordem que vem de cima, acham que a justiça
tem que começar de baixo, só que não sabem como explicar, por onde trilhar
essa situação. Vejo que dentro de cada ser humano, tanto daqueles menos
merecidos, os miseráveis quanto dos que vivem em berço de ouro existe um
espírito libertário. Até mesmo porque sabemos que existe um semeador que
diz em suas histórias que o homem nasceu para ser livre, sem divisão ou
limitação como existe atualmente. Tiramos o exemplo disso pelo ar que
respiramos, que está em toda parte, no Brasil, na América, na Ásia, no
Ocidente no Oriente, na Europa ou na Rússia, porque ele é uma forma de
livre criação, não há ninguém que o impeça, ele é livre. Então acho que
toda a Natureza é anarquista, só que a sociedade não entende isso, tenta
fazer o ser humano irracional. O s emeador diz que o homem é feito à
imagem e semelhança dele e também que o homem possui o livre arbítrio, que
ele nunca criou lei nenhuma para que o ser humano fosse limitado.Então são
coisas que me eram inerentes. Era algo que eu via, e ficava analisando. Se
na palavra do semeador não tem uma palavra que ponha hierarquia de poder
sobre o ser humano, é sinal de que o homem é livre, ele não foi feito para
ser preso nem dominado. Então por que se criou uma razão de que um é
melhor do que outro, um é doutor, outro é ?seu? fulano e vai se criando
uma hierarquia, vai se formando o rei, o príncipe, o governo. Acho que
isto é algo muito ruim, porque nós temos os direitos que a própria
natureza nos deu, mas o homem oculta isto,. Então descobri que minha
natureza já era anarquista e que muitos já nascem com esta natureza. E
dentro da ocupação o que vejo acontecer é que com alguns é o que acontecia
comigo: querem descobrir, mas ainda estão em um pro cesso de
transformação.

Libera ? Podemos dizer que na Vila da Conquista existe um anarquismo ?na
prática?, no dia a dia?

Marco - O Anarquismo na Vila da Conquista é trabalhado de uma certam
maneira, procurando aplicar seus princípios na prática. Temos a horta
comunitária, criada de maneira autogestionária, para poder ser uma horta
matriz, no sentido de distribuir para as famílias o aprendizado de como
fazer uma horta e ao mesmo tempo fazer com que os moradores levem mudas
para suas casas e as plantem ali, para que não sejam mais dependentes do
sacolão nem do mercado, e muito menos da horta comunitária. Outro trabalho
é o de reforço escolar que é feito com o grupo estudantil libertário em
que são passados ensinamentos libertários para crianças e adultos. Há
ainda um trabalho de reciclagem que envolve uma autogestão igualitária
para todos e também que venha a criar uma certa educação ambiental para o
indivíduo, através da aprendizagem de um ofício e para que, através
daquele ofício, ele venha a ser seu pró prio patrão e empregado. Este
trabalho de reciclagem com garrafas pretendemos levar a outras ocupações.

Libera ? Como você vê o papel a ser desempenhado pelo anarquista ?

Marco - A questão em relação especificamente à nossa frente de trabalho é
a de se envolver não só com a Vila da Conquista mas também com outras
ocupações, porque acho que todo trabalho do anarquismo é um passo da
revolução. Em tudo o que contestamos contra os sistemas estamos sendo
revolucionários libertários. Se estamos contestando é porque não aceitamos
aquelas imposições que o sistema tenta impor sobre nós, seres humanos, é
porque estamos sendo uma ferramenta da revolução. Acho que cada anarquista
tem que tomar isso com prazer, com honra, com dignidade. Não é preciso ir
a muitos anos atrás, basta ir até os anos 10 para ver como começou a luta
no Brasil dos trabalhadores, como é que os anarquistas se envolveram com a
classe operária. Hoje o anarquismo está dando um passo à frente. Mas nós
temos que prestar muita atenção no que o semeador fala, de que o homem sai
para trabalhar em sua lavoura, arar a terra, plantar, jogar a semente, mas
só que o homem não deve deitar e cochilar depois que a semente foi
lançada, porque então ela brota e se ele estiver cochilando os corvos vêm
e devoram as sementes. Então quando lançamos a semente ao campo parece que
acabou o trabalho mas ele está apenas começando. O próprio semeador diz
que quando conheceu o agricultor ele era frio, depois que o conheceu ele
se tornou morno. E então diz o semeador: ?pois saiba que estou a ponto de
vomitar-te de minha boca, porque antes te preferia que fosses frio ou
quente do que morno?.

Libera ? E quem seria o semeador ?

Marco ? O próprio movimento anarquista. Os agricultores somos nós, os
militantes. O morno é aquela pessoa que diz ?hoje eu conheço o anarquismo,
conheço a luta, então posso deitar na rede e descansar?. Esse é o perigo,
o homem que se torna morno quando descansa está prestes a ser derrotado.
Então temos que ter estas palavras como cautela e bússola. Permaneçamos
sempre quentes, porque nosso trabalho não tem fim, não tem
acabamento.Quando hoje você planta uma semente em um campo ela brota hoje
para amanhã brotarem, 30, 60, 100. Ela vai se multiplicando, como o nosso
trabalho Se somos representantes dessa luta, não devemos esmorecer de
maneira alguma e sempre casar a teoria com a prática. Diz novamante o
semeador: não há fé sem obra, a fé sem obra é morta. Hoje estou fazendo um
trabalho junto com o pessoal da FARJ, no CCS, trabalho de reciclagem,
estamos dando início a um projeto de frald as, estamos fazendo um projeto
também de ajudar nos bolinhos para que possamos ter meios de
verdadeiramente aproveitar este espaço onde já se desenvolvem vários
trabalhos e ampliá-los. Temos que aproveitá-lo, porque é um espaço muito
bom que nós anarquistas temos que aproveitar. Em muitos estados e países
não há a oportunidade que temos aqui, então temos que segurar isto com
toda garra, porque podemos ajudar não só ao movimento como a muitos
anarquistas que já existem por aí, desenvolvendo vários projetos de
trabalho para favorecê-los.

http://farj.entodaspartes.org/


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