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(pt) [Brasil] Coletivo Pró-Organização Popular de Goiás em entrevista con cedida a ANA

Date Mon, 30 May 2005 22:11:34 +0200 (CEST)


"Muitos desses "dirigentes" não têm um compromisso com as bases do próprio
movimento!"

Quem tem a cara de pau, e a mais dura, o prefeito de Goiânia, Íris
Rezende, latifundiário e cúmplice dos assassinatos de sem-tetos na
desocupação da ocupação Sonho Real, ou a direção do MST que convidou-o
para a manifestação do 1º de Maio?

Leia a seguir mais sobre essa história, a ocupação/desocupação Sonho Real,
a última Marcha do MST à Brasília e um pouco das atividades do Coletivo
Pró-Organização Popular de Goiás em entrevista concedida a ANA.

Agência de Notícias Anarquistas > O Coletivo Pró-Organização Anarquista em
Goiás conta com ex-ativistas da Resistência Popular Goiânia? Falem um
pouco de vocês...

Coletivo Pró-Organização Anarquista < O Coletivo Pró-Organização
Anarquista conta com indivíduos que militavam na União Popular, além de
outros indivíduos anarquistas e anarco-punk, mas o grupo não está fechado,
estamos tendo discussões com outros indivíduos que se interessaram pelo
coletivo e provavelmente estarão adentrando assim que estiverem cientes e
de acordo com as decisões já tomadas anteriormente pelo coletivo.

Temos nossas reuniões semanais e na formação política, buscamos avaliar a
história, teoria e prática anarquistas, para a construção de um programa
anarquista para a conjuntura atual. Produzimos também um material sobre o
anarco-coletivismo (bakuninismo), e temos a intenção de lançar um livro
com este material.

Na propaganda, promovemos debates nas escolas e universidades sobre o
anarquismo e os/as anarquistas, além das divulgações de nossas atividades,
e no próximo mês estaremos soltando nosso informativo.

Estamos estruturando nossa sede, que por enquanto comporta nossas reuniões
e encontros, e dois projetos em construção: a biblioteca e a serigrafia.

Priorizamos a luta junto às classes oprimidas, então quanto à atuação
social, estamos no momento com a frente estudantil e a frente comunitária.
A frente estudantil está se articulando agora e a comunitária vem de um
trabalho que já tem cinco anos em bairros da periferia de Goiânia.

ANA > A sede que você fala é um centro de cultura anarquista? Já está
funcionando?

CPOA < A sede tem por objetivo servir como um ponto de referência sobre o
anarquismo classista e organizado em Goiás, além de comportar nossas
reuniões e de grupos afins, organizar e disponibilizar materiais
anarquistas para consulta (livros e outras produções em geral) e
estruturar a serigrafia. Em breve será feito um evento de inauguração.

ANA > Qual foi a participação de vocês na ocupação (e desocupação) "Sonho
Real"?

CPOA < Alguns militantes do nosso coletivo estiveram presentes antes,
durante e depois da desocupação, firmados na nossa posição de
solidariedade de classe, lado a lado com os sem-teto, resistindo as
operações "inquietação" e "triunfo" promovidas pela polícia. Inclusive um
dos militantes foi preso pela polícia depois da desocupação.

ANA > A participação foi mais no nível de solidariedade ativa, certo?

CPOA < Sim, uma solidariedade de classe.

ANA > E o compa ficou preso quanto tempo? Ele sofreu algum tipo de acosso
na prisão?

CPOA < Ele foi preso e enviado para a Polícia Federal, e sofreu sim
violência policial durante a desocupação. Ficou ali por um dia inteiro.

ANA > E sobrou alguma bronca jurídica para ele?

CPOA < Ele foi fichado na delegacia, e depois liberado, por enquanto nada
de mais, a polícia estava com medo de fazer algo com os/as presos/as
depois da desastrosa operação “triunfo”.

ANA > Quase três meses depois daquela fatídica desocupação do Sonho Real,
qual a situação dos sem tetos hoje? Foram parar aonde?

CPOA < O governo (do estado e a prefeitura) que inicialmente prometeram
que eles não iriam sair da área ocupada, desocupou a área. Depois o
governo prometeu uma solução de no máximo 15 dias, enquanto os/as sem-teto
estavam alojados nos ginásios, e onde devido às condições precárias destes
ginásios, morreram mais três sem-teto, então depois de mais de dois meses
da desocupação, o governo prometeu que iriam ser assentados os sem-tetos
em uma área provisória de 22 alqueires que não suporta todas as famílias,
numa clara tentativa de dividir a luta pelo Sonho Real. Todos os prazos
estipulados pelos governantes não foram cumpridos.

Os sem-teto continuam na luta pela federalização da CPI (Comissão
Parlamentar de Inquérito), e pelo assentamento de todas as famílias.
Enquanto isso... o terreno antes ocupado, voltou ao descaso, servindo para
acumulação de entulhos, especulação imobiliária e desova de corpos e
chacis de carros.

ANA > Mudando um pouco de foco, vocês sabem dizer se as “estrelas” do MST,
Stedille, Gilmar Mauro, José Rainha, e outros mais, percorreram os 233
quilômetros e 16 dias de caminhada da Marcha Nacional pela Reforma Agrária
de Goiânia a Brasília, de 1 a 17 de maio, ou ficaram em Brasília
“conchavando” com o poder executivo e legislativo?

CPOA < Nossa atuação enquanto militantes do coletivo foi junto às bases,
participando dos atos em Goiânia e Brasília.

ANA > Falem mais um pouco dessa atuação...

CPOA < No ato em Goiânia estivemos presentes na manifestação para
demonstrarmos nosso repudio ao tratamento do governo em relação à reforma
agrária e em solidariedade a luta dos/das trabalhadores/as e oprimidos/as
de todo mundo. Em Brasília alguns militantes acompanharam a marcha pela
cidade junto aos sem-terra.

ANA > Então vocês participaram da Marcha Nacional pela Reforma Agrária que
partiu de Goiânia no último dia 2 de maio, organizada pelo MST?

CPOA < Fomos no 1º de maio para o ato promovido pelo MST, mais não foi
muito bom o que vimos, enquanto a grande maioria da base realmente tinha
um sentimento de luta, a direção do movimento convidou deputados de
Goiânia para subir no palco, até como forma de estreitar os laços de seus
apoios políticos no sistema de parcerias que eles exercem com o governo,
mas o que me deixou mais indignado foi quando subiu o atual prefeito de
Goiânia para falar, e enquanto muitos da base do MST, sem-tetos do "Sonho
Real", anarquistas e outros/as vaiavam, os diretores pediam desculpas ao
prefeito, afirmando que aquela não era a posição deles. Muitos desses
"dirigentes" não têm um compromisso com as bases do próprio movimento!

ANA > Então é mesmo verdade que o prefeito que desalojou os sem tetos na
ocupação Sonho Real, estava na abertura desta marcha?

CPOA < Sim. A presença do prefeito de Goiânia, Íris Rezende, causou
espanto e indignação em várias pessoas presentes no ato. O espanto foi
devido ao fato dele ser um grande latifundiário no Estado de Goiás e já
ter feito administrações passadas cheias de irregularidades e desrespeito
com o povo de Goiás; a indignação devido ao fato de alguns meses antes
este mesmo prefeito ter sido cúmplice da ação assassina da Policia Militar
do Estado de Goiás na desocupação dos/as sem-teto do Sonho Real. Uma
verdadeira falta de respeito com todos/as os/as sem-teto e sem-terra de
todo país. Mas a sua presença não passou em branco, quando tomou a palavra
em cima do palanque cada palavra do prefeito foi acompanhada por vaias e
gritos de “Massacre”! “Parque Oeste, Parque Oeste”!

E foi embora escoltado pela policia enquanto várias pessoas gritavam
“ASSASSINO! ASSASSINO!”.

ANA > Depois de vários dias de Marcha, não é estranho os próprios
integrantes do MST presentearem, e ver o presidente Lula com o boné do
MST? A mesma coisa aconteceu com o presidente do senado, Renan Calheiros,
e o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti. Não é muito arroz de festa,
ou até mesmo humilhação?

CPOA < Esta prática é feita por alguns para tentar mostrar uma suposta
ligação entre o MST e o governo, talvez até como forma de “pressão”; mais
na minha opinião o caráter é muito mais de humilhação mesmo, já que se o
governo estivesse realmente interessado no MST não estaria usando boné, e
sim fazendo a reforma agrária, agora acho sacanagem caminhar 16 dias a pé
como forma de protesto e de pressionar o governo, e quando chega lá o
presidente coloca o boné na cabeça e continua sem fazer nada... A marcha
não foi para o Lula colocar um boné, mais sim pela reforma agrária!

ANA > Vocês acham que existe uma atitude manipuladora, e até oportunista,
da direção do MST sobre às bases? Antes do Lula assumir o poder, um dos
slogans do MST era Fora "FHC e FMI", e, hoje, percebemos que o presidente
Lula, e seu governo, é tão parecido, ou pior (pelas expectativas criadas
antes da eleição), que FHC e seu governo. Enfim, ao invés de destruir o
trono, radicalizar a luta e aumentar às ocupações, a direção do MST não
está muito mais preocupada em conservar o rei, o Lula?

CPOA < Grande parte do MST, assim como muitos/as brasileiros/as tinham
esperança que com a eleição de Lula e com o PT no poder a desigualdade
social fosse diminuir. O tempo nos mostrou o contrário e o governo de
Lula/PT segue firme no projeto neoliberal iniciado pelo governo FHC. A
forte influência do PT em alguns movimentos sociais que contam com uma
base grande, como o MST, por exemplo, faz com que esses movimentos não
causem muitos problemas ao governo federal e adotem muitas vezes uma
política de parcerias com o Estado.

ANA > Para finalizar, nos últimos tempos o anarquismo no Brasil cresceu
bastante, mas majoritariamente cresceu para o nada, ou seja, o anarquismo
se transformou em “estilo de vida”, academicismo, culturalismo,
pós-modernismo, de viés democrático, visto que muitos confundem militância
anarquista com voluntariado típico de ONG's, longe de sentirem que o
anarquismo é uma ferramenta de luta real, de ousadia no cotidiano... O que
pensam sobre isso?

CPOA < Acreditamos que não basta apenas se rotular anarquista e ter uma
prática totalmente contraditória com a sua teoria. Para nós o anarquismo
não se resume ao academicismo (inútil ao anarquismo quando se encontra
isolado da realidade) ou algum tipo de roupa, muito menos ao voluntarismo
ongueiro; o anarquismo tem que ser uma prática diária, existem muitas
coisas a serem feitas para que algo comece a mudar, por isso não basta
fazermos um ato esporádico ou lançarmos um jornal quando estivermos afim.
Acreditamos que é necessário que os/as anarquistas procurem sempre estarem
inseridos nas lutas populares para a partir da realidade concreta
elaborarem um programa anarquista que realmente esteja de acordo com nossa
realidade local e com as reivindicações populares. Também acreditamos que
os/as anarquistas devam estar organizados/as para poderem atuar de forma
coletiva, para fazerem a propaganda anarquista, se articular com outros
grupos e organizações anarquistas do Brasil e do mundo e também para
colocar em prática o apoio mútuo entre os/as anarquistas.

ANA > As últimas palavras são de vocês...

CPOA < Esperamos que com essa entrevista possamos ter passado um pouco do
que somos, e esperamos que sigam sempre na luta... Qualquer dúvida ou
simplesmente interesse escreva para nós.

Contato: proorganarquista_go@riseup.net ou Caixa Postal 92, Goiânia/GO,
74003-901

Nota: A ocupação do Sonho Real (região oeste de Goiânia), surgiu em maio
de 2004. Numa área abandonada que servia para desova de corpos, assaltos e
estupros, de propriedade de uma família milionária de Goiás. No dia 16 de
fevereiro de 2005, a polícia invadiu a área e desocupou os sem-tetos.
Vários moradores foram assassinados cruelmente, fuzilados após já estarem
dominados. Dentre os mortos, apenas dois corpos apareceram. Mais de 20
mortes foram presenciadas e os corpos desapareceram, 30 sem-tetos sumiram,
800 foram presos, dentre eles companheiros anarquistas, e centenas ficaram
feridos.


agência de notícias anarquistas-ana

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