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(pt) "Falar de um despertar anarquista não quer dizer que estejamos na

Date Wed, 22 Jun 2005 23:37:53 +0200 (CEST)


Conversa Libertária - Parte I
Quem diz isso, e muito mais, é o anarquista uruguaio Daniel Barret. Leia a
seguir a entrevista que ele concedeu à ANA.

Agência de Notícias Anarquista > Como poucas pessoas te conhecem aqui no
Brasil, peço que fale um pouco de você, de sua trajetória anarquista, o
que está fazendo na atualidade...

Daniel Barret < A princípio, é necessário esclarecer que Daniel Barret não
é mais que um pseudônimo de uso relativamente recente. Com essa assinatura
publiquei um folheto em 2001 sobre as mobilizações de Gênova nas quais foi
assassinado Carlo Giuliani, e continuei usando-a em trabalhos sucessivos:
sobre a invasão ao Afeganistão, o levantamento popular na Argentina, a
situação do movimento anarquista internacional, Cuba etc. Naquele julho de
2001 já estava convencido de que o movimento anarquista começava a
enfrentar um novo tempo e, posto que nós não acumulamos méritos para
nenhum currículo, quis enfrentá-lo com minha própria renovação pessoal, da
qual o nome não é mais que sua expressão simbólica; a expressão nominal e
menor desse anseio libertário de criar-nos e recriar-nos permanentemente,
não só fora, mas, além disso, contra os espaços hierarquicamente
institucionalizados. Entretanto, uso-o somente nos trabalhos escritos e
nas relações fora do Uruguai que realizei dessa data em diante.

Enquanto isso, visto que nunca rompemos inteiramente com nossa história
nem convém fazê-lo, cabe dizer que meu alter ego é um militante menos
jovem. Reconheci-me como anarquista pela primeira vez aos 15 anos, nos
idos de 1967, e pode-se dizer que, em termos geracionais, me formei nesse
território no qual se combinavam, de forma não totalmente coerente, as
influências da eclosão juvenil do final dos anos 60 e a experiência das
guerrilhas latino-americanas com a admiração pelos feitos revolucionários
do anarco-sindicalismo espanhol. Durante todo este tempo desenvolvi
atividades militantes em organizações sociais - estudantis, de bairros,
sindicais etc. - e simultaneamente em distintos agrupamentos
especificamente anarquistas; algo que seria longo e tedioso enumerar.

Hoje já não posso desenvolver, por razões óbvias, atividades estudantis;
ainda que a idéia não me desagrade absolutamente. Desenvolvo uma minguada
atividade sindical num contexto burocrático que não me permite albergar
muitas expectativas, e mantenho também uma presença mais entusiasta onde
vivo; o mais antigo de meus amores, o Cerro, um bairro operário de
Montevidéu de extensa, forte e reconhecida tradição libertária. Por outro
lado, atualmente não pertenço plenamente a nenhum dos nucleamentos
anarquistas que existem no Uruguai, apesar de participar de atividades
pontuais de alguns deles; e, naturalmente, também das atividades comuns e
coordenadas. Isto porque penso que é mais proveitoso dedicar tempo,
energias e reflexões e a tender pontes entre as diferentes alternativas
que a fortalecer uma delas em particular. Admito que isto é muito
discutível, mas para mim constitui um ponto definitório nas atuais
circunstâncias e espero poder desenvolvê-lo mais extensamente no
transcurso desta conversa.

ANA > Você está otimista com o anarquismo, ou anarquismos?

Barret < Rotundamente, sim; ainda que valha a pena esclarecer que o
otimismo neste caso é muito mais que um estado de ânimo. Quando antes
falava de um tempo novo para o movimento anarquista, queria referir-me
fundamentalmente a um cenário internacional que de um tempo para cá tem
estendido as possibilidades de desenvolvimento das correntes libertárias.
Os primeiros anos 90 do século passado foram os tempos de uma reação
galopante e a caída do "socialismo real" derivou uma cavalgada absurda e
sem escrúpulos do liberalismo; que, em seus momentos de maior delírio,
chegou a falar inclusive do "fim da história". Porém, a extensão das
políticas inauguradas pelo dueto Thatcher-Reagan nos anos 80 enfrentou
rapidamente um fracasso após o outro: na Europa Oriental, no sudeste
asiático, na América Latina e, inclusive, menos espetacularmente, nos
próprios países centrais. Nos anos 60 e 70 uma crise dessa magnitude seria
canalizada e capitalizada, não exclusivamente, mas sim em grande medida,
pelas distintas correntes marxista-leninistas. Entretanto, em finais do
século passado isso já não era possível porque o colapso do "socialismo
real" não só privava os movimentos revolucionários do paternalismo
protetor da União Soviética, mas também do marxismo-leninismo enquanto
concepção pseudo-científica e medianamente sedutora. Estas coisas
delimitam duas tendências bem marcadas e ambas confluem finalmente -
também com outras tendências menos exuberantes, naturalmente - e deixam
atrás e adiante delas um enorme vazio que o anarquismo se propõe a
preencher de seu modo e dentro de suas possibilidades. Esquematicamente,
pode-se dizer que tudo isso adquire reconhecimento simbólico internacional
em Seattle, em dezembro de 1999, e se constitui no pano de fundo do atual
despertar anarquista.

Mas esta constatação otimista impõe algumas precisões. Em primeiro lugar,
falar de um despertar anarquista não quer dizer que estejamos na iminência
de uma revolução de signo libertário e nem sequer duma rápida conversão do
movimento social nesse sentido, apenas ante um cenário propício ao
desenvolvimento e à existência de minorias ativas capazes de estender o
raio de influência de nossas propostas e de nossas práticas. Em segundo
termo, abriu-se um campo de oportunidades, mas estas não se transformam em
realizações por geração espontânea, senão que esperam por um movimento
anarquista em condições de assumi-las como sua tarefa própria. Por último,
este jubiloso despertar não deveria empenhar a percepção de nossas
debilidades e carências senão que, ao contrário, teria que estimular uma
visualização adequada das mesmas e um trabalho conseqüente sobre elas.
Assumir ou não estas coisas coletivamente é, talvez, a diferença entre
reforçar o otimismo ou fazê-lo desembocar numa nova decepção.

ANA > Concordo quando fala deste despertar anarquista à nível planetário,
claro, sem cair em ufanismos. E esse crescimento pode ser constatado de
diversas formas, desde o aumento a cada ano de atividades anarquistas,
surgimento de grupos em lugares sem nenhuma tradição anarquista,
lançamentos de livros, manifestações, e, curiosamente, até mesmo pelo
aumento de presos anarquistas. Não sei ao certo, mas acho que nos últimos
30 anos nunca teve tanto anarquista preso pelo mundo. Mas percebo que o
anarquismo poderia estar numa situação muito melhor, uma é se tivesse mais
recursos, outra, a qualidade das pessoas que se assumem anarquista, outra
o grau de comprometimento, entrega... Um exemplo que sempre cito são os
punks. Eles existem aos milhares, em todos os lugares, mas efetivamente,
por falta de conteúdo, não tem nenhum peso na sociedade, são "só números".
Esse apontamento não falo em relação à todos punks, mas ao grosso deles.
Sobre o grau de comprometimento, falo das pessoas que se dizem
anarquistas, mas efetivamente não ousam lutar no seu cotidiano, em nenhum
aspecto da vida, só "em quatro paredes". Acho incrível como pode existir
anarquista que vê um problema "embaixo do seu nariz", mas não mexe um dedo
para tentar transformar esse problema, mudar, pelo contrário, alguns vão é
escrever teses, artigos ou livros em relação a tudo isso. (risos) O que
você pensa sobre isso?

Barret < Dividamos os comentários em duas partes. A princípio, parece que
não há muita discussão com relação ao despertar anarquista e que este pode
constatar-se em ao menos seis planos diferentes: as presenças nas grandes
concentrações do movimento internacional anti-globalizador ou
alter-mundialista; a proliferação de grupos de composição basicamente
juvenil; a relativa recuperação de influências em espaços mais ou menos
"tradicionais" de atuação social; a multiplicação de atividades editoriais
clássicas e em formato web; a floração de encontros de discussão e
intercâmbio de todo tipo; e, claro, a renovada preocupação dos organismos
repressivos, que já não vêem no movimento anarquista uma vertente
pitoresca e pouco preocupante, e sim um fator real de "perturbação". Nada
disto ocorria nesta escala em âmbito mundial há 10, 15 ou 20 anos atrás e
é por isso que podemos falar de um despertar libertário e entender o mesmo
como um fenômeno historicamente recente.

Pois bem; acho que a maneira mais adequada e menos traumática de processar
o que você corretamente assinala é do seguinte modo: sendo o despertar
anarquista um fenômeno recente, o movimento que o encarna não pode menos
que ser basicamente juvenil, ainda carente de experiência histórica
prolongada e da temperança ou agitação que se derivam da mesma. Em
circunstâncias desse tipo, o movimento resultante não pode menos que ser
aluvional e variado, onde se combinam os compromissos mais profundos com
as meras concessões à moda. Aceitando-o desse modo - ainda que com má
vontade e sem aplaudi-lo ou auspiciá-lo -, os anarquistas que o são
somente entre as quatro paredes de sua casa são preferíveis aos inimigos
declarados.

Concordo com você que aí há um problema que deveríamos resolver, mas
devemos fazê-lo adotando uma perspectiva histórica. Um movimento
anarquista aguerrido e capaz de ser ouvido em todas as ocasiões que o
requeiram não surge de um dia para o outro, nem de um ano para o seguinte.
Observemos as experiências disponíveis em nossa própria história. A
resposta que o anarco-sindicalismo espanhol deu em julho de 1936 não
começou a gestar-se nem em julho nem em maio do mesmo ano, mas em 1868,
quando da formação do primeiro núcleo internacionalista. Entre uma data e
a outra houve insurreições, prisões, mortes, sofrimentos, decisões
insubornáveis e uma interminável sucessão de heroicidades. A história
nunca se repete textualmente, mas igualmente podemos sentir e dizer que
estamos num novo e parecido começo e que o movimento que hoje temos diante
de nossos olhos também tem que pagar o preço correspondente. Seja como
seja, eu acho (e espero) que será assim.

ANA > Ainda seguindo o raciocínio da última pergunta, você concorda com a
idéia de que alguns "anarquistas" são mais perigosos que os nossos
adversários, o sistema em geral, já que para eles é melhor destruir um
anarquista, que o inimigo? Falo isso em relação às brigas intestinais que
acontecem no universo anarquista, que, queiramos ou não, é fator também de
não sermos tão efetivos no conjunto da sociedade.

Barret < Não, não penso que alguns anarquistas sejam mais perigosos que
nossos adversários, mas também não subestimo a incidência dos problemas
internos. Esses problemas são muitas vezes lamentáveis, mas também devem
ser encarados na perspectiva histórica de que falávamos antes. Um dos
traços mais notórios do atual despertar anarquista é que o movimento não
conta com um paradigma de organização e ação amplamente estendido e aceito
como os que houveram algumas vezes na nossa história. É um momento de
buscas e de confusão que deu lugar também a alguns encontros e a alguns
re-descobrimentos. Então, toda vez que quem realizou esses encontros e
estes re-descobrimentos se afirma nos mesmos, como se se tratasse da
solução definitiva a nossas carências, desenvolve um discurso sectário e
uma prática do mesmo tem com relação a outros núcleos anarquistas, o qual
não faz mais que reforçar um clima geral internamente turbulento; ainda
que não se manifeste com a mesma intensidade em todos os países.

Acho que estas coisas são colocadas dessa forma como contrapartida
libertária da própria fragmentação da sociedade e também porque nos
encontramos num momento especialmente efervescente. Também penso que
algumas das diferenças internas ao movimento anarquista estão
artificialmente amplificadas e não sobreviverão ao atual momento
histórico. Penso que a linha de fuga deste conflito reside no trabalho de
renovação teórico-ideológica e político-prática que recoloque o movimento
anarquista não num tempo e numas sociedades que já não existem, e que não
voltarão senão aqui e agora. Mas, claro, uma coisa é dizê-lo e outra coisa
é fazê-lo; e fazê-lo já não depende de uma ou várias mentes inspiradas,
senão de um movimento que forme parte das lutas que distinguem esta época
na que vivemos.

ANA > Um outro termômetro que podemos destacar nesse ?despertar
anarquista? são as citações nos grandes jornais das palavras ?anarquia?,
?anarquistas?, ?anarquismo?, ?libertário?. Claro, muitas vezes são
comentários pejorativos, mas outros nem tanto, pelo contrário, são até
simpáticos. Nos últimos anos tem acompanhado diariamente o maior jornal do
Brasil, a Folha de S. Paulo, e tenho percebido que é muito comum citarem a
palavra ?anarquia?, ?anarquista?, ?libertário?... principalmente nos
cadernos de cultura. Você percebe isso em outros lugares, no Uruguai,
Argentina...

Barret < Sim, sem dúvida. Façamos nossas uma frase de Oscar Wilde: "É ruim
que falem mal de mim, mas é muito mais ruim que não digam nada".
Conseqüentemente, celebremos as campanhas contra a gente que podem desatar
os grandes meios de comunicação. Não importa que geralmente exagerem e nos
atribua uma influência que, todavia não temos, e tampouco interessa
demasiado que muitas das afirmações contidas lá não revelem mais do que
uma ignorância extraordinária. O certo é que começaram a falar com maior
freqüência e maior energia do anarquismo e do movimento que o encarna.
Isso é sintomático e nos coloca no interior de controvérsias das quais até
poucos anos éramos excluídos. E o mesmo acontece não mais só com os
grandes meios, mas também com as publicações da esquerda marxista. Já
começaram a falar nesses espaços de uma corrente libertaria
latino-americana como alternativa "extraviada" dos movimentos sociais, que
se recusam a adotar a "ciência do proletariado" ou a construir o "partido
da vanguarda". Que falem da gente! É muito melhor isso que ao invés do que
acontecia até alguns anos atrás, onde simplesmente nos viam como flores
exóticas ou como peças de museu.

Se não for demasiado longo ou demasiado aborrecido, vou te dar mais um
indicador. Quando as universidades latino-americanas estavam hegemonizadas
em ciências sociais pelo pensamento marxista, o anarquismo era um assunto
que só se aceitava nos cursos de história ou de literatura; como se os
anarquistas não pudessem se dedicar a uma outra coisa que as mitografias.
Hoje isso está mudando lentamente, e já é possível encontrar experiências
como as do Núcleo de Sociabilidade Libertária na PUC de São Paulo ou o
curso de "Introdução ao Pensamento Anarquista Contemporâneo", que começou
a ser ministrado neste ano no curso de sociologia da Universidade Mayor de
San Simon, em Cochabamba, ou a receptividade que se encontra na UCV de
Caracas. Acredito que isso é também um sinal dos novos tempos e uma parte
mais de nosso campo de oportunidades.

ANA > Talvez, o Brasil seja o país latino-americano que tenha o maior
número de professores e professoras anarquistas, tanto em universidades
como em escolas secundárias. Há também centenas de universitários
anarquistas. Mas como a contradição faz parte da vida, e do anarquismo,
não temos nenhuma organização ou rede de professores anarquistas, nem de
universitários à nível nacional.

Barret < Você não deveria se ater demasiado por isso, Moésio, e sim te
carregar de paciência. O movimento anarquista atravessa um momento
inaugural e augural que, todavia ainda não tem resolvido algumas questões
que, em outras circunstâncias, não requereriam mais de dois minutos de
dedicação. Por outra parte, o Brasil é um país que tem dimensões
continentais, e não pode ser simples que pessoas que vivem a milhares de
quilômetros de distância entre si imediatamente se coordenem. Acredito que
em países como Brasil - e o mesmo vale para Argentina e México, pelo menos
- teria que começar de agrupamentos locais, que mais cedo ou mais tarde se
encontrarão; sempre e quando têm razões e necessidades para o fazer. No
momento, é bom saber que hoje há centenas de militantes anarquistas nesses
meios, visto que há certos anos atrás não havia. Que esses militantes
convirjam é parte de nossos desejos e, principalmente, parte de um
trabalho ainda a se fazer.

Continuará...

Colaborou na tradução Karina Lima

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agência de notícias anarquistas-ana

Quem vê essa florista

retornando ao trabalho

nem nota que uma borborleta lhe segue...

Rosa Clement

retirado site: http://www.anarquismo.org/noticias

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