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(pt) A BATALHA N.211: PALESTRAS DO CÍRCULO JOAQUINA DORADO E LIBERTO SARRAU

Date Wed, 20 Jul 2005 22:17:36 +0200 (CEST)


CÍRCULO JOAQUINA DORADO E LIBERTO SARRAU
Sessão Inaugural
ABERTURA
Boas tardes a todos e obrigado pela vossa presença. Quero apenas expressar
um agradecimento muito especial a Joaquina Dorado e ao filho de Liberto,
Suno Sarrau, bem como aos familiares e amigos de Joaquina e de Liberto que
se encontram entre nós e, entre estes amigos, à companheira Antonina
Rodrigo, que se disponibilizou a proferir a conferência inaugural das
actividades do Círculo. Não poderia encerrar este agradecimento sem
referir o presidente do Conselho Executivo da Escola Prof.Herculano de
Carvalho, Dr. António Guedes Ferreira, que muito amavelmente nos concedeu
este espaço para a realização desta série de três sessões, cedência para
que foi decisiva a diligência efectuada pelo companheiro Jorge Guimarães.
Gostaria de dar uma breve informação sobre o recém-criado Círculo Joaquina
Dorado e Liberto Sarrau, para quem não conheça as razões da sua criação.
Joaquina Dorado e Liberto Sarrau são militantes históricos da CNT de
Espanha, com relevante actuação durante a Guerra Civil e na acção
clandestina que se lhe seguiu durante o franquismo, tendo sofrido graves
danos pessoais ? prisões, tortura e doenças graves. Tendo logrado escapar
para França prosseguiram a sua militância na CNT-F. Após a morte de
Franco, Liberto acalentou a ideia de restaurar, em moldes próximos dos
iniciais a escola ?Natura? da sua infância. Para o efeito constituiu, com
Joaquina e outros companheiros, a Asociación Cultural y Ecologica Natura
(ACEN) que empreendeu a colecta de fundos destinada à aquisição do terreno
para o campo de férias da Escola. Com o desaparecimento de Liberto, o
falecimento, invalidez ou escassa disponibilidade de muitos associados a
ACEN deliberou a sua dissolução e a entrega dos fundos acumulados, nos
termos estatutários, a duas organizações afins: o Centro de Estudos
Libertários de Lisboa e a Association Germinal, de Paris. À escolha do CEL
presidiram certamente as relações de amizade e colaboração de longa data,
com particular destaque para Lígia de Oliveira, já falecida.
Como manifestação de amizade, admiração e reconhecimento pela colaboração
de sempre e pela confiança em nós depositada para prosseguir objectivos
afins dos da ACEN, a assembleia geral do CEL deliberou criar no seu seio o
Círculo Joaquina Dorado e Liberto Sarrau com vista a realizar anualmente
um ciclo de actividades com vista a melhorar os nossos conhecimentos quer
no âmbito das ideias quer no dos movimentos libertários a nivel
internacional. O Círculo não é um grupo específico dentro do C.E.L. mas
uma estrutura funcional, que se constitui com um número variado de sócios
e não sócios, a convite da Comissão Administrativa em função da sua
disponibilidade e do interesse pelo tema ou temas a tratar em cada ciclo.
Este colectivo funcionará em estreita colaboração e acordo com a Comissão
Administrativa que lhe prestará todo o apoio, inclusivé financeiro, dentro
das suas possibilidades.
Este hoje é o Ciclo inaugural e para a sua Conferência inaugural foi
convidada a companheira, grande amiga de Joaquina e distinta escritora e
conferencista Antonina Rodrigo. Antonina Rodrigo vive em Barcelona desde a
década de 70 mas nasceu e viveu a sua juventude em Granada. Seria
impróprio dizer o ano em que nasceu, mas posso afirmar que foi um ano
?vintage? em termos culturais, nomeadamente no que respeita ao teatro
lírico. Nesse mesmo ano nasceram, por exemplo, Mirella Freni, Fiorenza
Cossoto e Luciano Pavaroti. Antonina Rodrigo tem uma extensa obra
literária, sobretudo no campo da biografia, com uma focagem muito
particular em figuras da sua Granada natal, figuras femininas e do
movimento libertário, como podem ver pela listagem projectada. Tem em
curso uma biografia de Joaquina Dorado. E temos tanto mais de agradecer a
sua presença hoje entre nós, que sendo uma das participantes no colóquio
que está desde ontem a decorrer em Madrid sobre ?Mujeres Libres, Mujeres
Libertarias?, transferiu para amanhã a sua intervenção principal para
estar aqui conosco, seguindo ainda hoje para Madrid.
Obrigado Antonina!

LIBERTO E JOAQUINA, PELA LIBERDADE
por Antonina Rodrigo

Não se pode dar, no tempo duma conferência, uma ideia exaustiva de vidas
como as de Joaquina e Liberto, vidas cheias de actividade, solidariedade,
sonhos, lutas, detenções e fugas, vidas enriquecidas pela sua dedicação à
humanidade. Vai ser uma sombra do que foram realmente as suas vidas, até
que se publique o livro que há-de sair sobre eles.
Vêm de lugares afastados de Espanha, começaremos por Joaquina, galega, de
La Coruña, que vem hoje aqui acompanhada de familiares seus, de amigas do
Ateneu Republicano de La Coruña e de companheiros da CNT de Santiago de
Compostela, o que denota a grande solidariedade do povo galego.
Joaquina nasceu em 1917, no bairro operário de Santa Lucía Monelas, de pai
ateu, caixeiro viajante, e mãe católica, doméstica. Todavia, esta última
preocupava-se muito com as greves das cigarreiras, duma fábrica de La
Coruña cujo pessoal era essencialmente feminino. A mulher galega é uma
mulher imprescindível quando se fizer a história do mundo feminino em
Espanha, porque é uma lutadora, progressista ? independentemente do seu
nível social ? e que lutava, não apenas por melhores salários como também
pela cultura para os seus filhos. A este movimento das cigarreiras unem-se
grevistas doutros ramos: operários, pescadores, pessoal da indústria do
calçado. As cigarreiras corriam diante dos cavalos da guarda civil e a mãe
de Joaquina, embora católica, abria-lhes a sua porta e dava-lhes abrigo. E
às mulheres dos pescadores estava sempre pronta a emprestar uma ou duas
pesetas ? que então era dinheiro ? que pagavam quando podiam. Estou a
falar de pescadores que saiam e não sabiam se voltavam. Joaquina
contou-nos que cada barco tinha uma sereia diferente que tocava quando
regressavam ao porto e quando as mulheres não ouviam a sereia do barco do
seu marido, pai ou filho corriam ao molhe, qual muro de lamentações,
prevendo que os seus homens não voltavam.
Esta foi a infância de Joaquina. Viveu num bairro operário que foi a
primeira escola da sua vida, o primeiro livro em que principiamos a ler a
vida social que nos vai levar à nossa juventude e à nossa vida adulta. É
fermento que nos vai ficar. E ficou em Joaquina, não se tendo alterado
pelo facto de haver frequentado uma escola de freiras francesas. Falámos
da mãe de Joaquina porque estranhamos que uma mulher católica esteja
solidária com o mundo operário que não vai à missa e não acredita em
religiões ou igrejas. Julgo que daí começou a sua rebeldia. Já o pai é um
homem que ela via menos, por ser caixeiro-viajante e passar muito tempo
fora de casa. No entanto é exemplo dum homem trabalhador e consciente.
Para mim o importante é ser um homem que não é crente mas respeita a
mulher que vai à missa e crê naquilo em que ele não crê. Joaquina repartia
a sua merenda com os meninos que a não tinham, que não iam à escola e
andavam todo o dia na rua; e disse-me que sentia vergonha de sair com um
vestido novo porque os meninos do seu bairro eram pobres e andavam
esfarrapados.
Esta foi a meninice de Joaquina, que de La Coruña vai com os pais para
Vigo e daqui para Barcelona em 1934. Mas quando chega a esta cidade já é
uma mulher consciente. Compra para a mãe a revista ?El Hogar y la Moda?,
uma revista burguesa dirigida por uma galega progressista, Mariluz
Morales, que em 1936 foi a primeira mulher a dirigir um periódico e um
periódico como ?La Vanguardia?, que era o mais importante de Espanha.
Embora crente era uma mulher esquerdista, ao lado dos operários, que
escondia no seu escritório pessoas perseguidas pela polícia. Mas o
jornaleiro que vendia ?El Hogar y la Moda? vendia também ?Solidaridad
Obrera? e ?Mundo Obrero?, os periódicos que os operários liam e que, algo
desconfiado e hesitante, passará a vender também a Joaquina.
A infância de Liberto é também uma infância de luta, dado que seu pai era
mineiro e anarquista . Nasce em Fraga (Aragão) em 1920 e aos três anos vem
para Barcelona porque um acidente de trabalho obriga o pai a mudar de
ofício. Um ano depois nasce seu irmão Joaquim, cujo filho Victor se acha
hoje aqui presente. O pai de Liberto, António Sarrau, foi director
responsável pelo jornal ?Terra y Libertad?. Despedido da empresa ?Tranvias
e Autobuses? e vítima do boicote patronal estabeleceu-se com um quiosque
para venda de jornais e revistas. Quando o pai estava preso ou doente era
Liberto quem tomava conta do quiosque. Grande responsabilidade para um
menino com inquietações e anseios, que aos doze anos publicava o seu
primeiro artigo e aos 14 redigia a sua primeira novela que só seria
publicada três anos depois, ano em que publica também a sua segunda
novela. O quiosque permite a Liberto ter à sua disposição todos os
jornais, todas as revistas, todas as novelas. E se Joaquina teve uma vida
de luta Liberto não lhe fica atrás pois naqueles anos os operários viviam
muito mal e sofriam uma perseguição incrível, sobretudo os anarquistas e
sindicalistas, que desejavam um mundo melhor. A formação de Liberto é
feita ao lado de seu pai, homem duma extraordinária humanidade.
As vidas de Liberto e Joaquina são como dois rios que se vão unir e fazer
grandes coisas, mas também sofrer a penúria, perseguições e torturas.
Quando chegou a Barcelona Joaquina ingressou numa oficina de tapeçaria. É
uma mulher muito desperta e sei-o pelo meu companheiro que, embora mais
novo, estava enamorado a ponto de a mitificar: era uma mulher muito bela
e, sobretudo, muito valente. Quando chega 1936 vai entrar na história pela
sua acção, quer nas ruas, de armas na mão, quer em cargos de
responsabilidade no Conselho Económico da Madeira Socializada. Vai
conhecer Liberto em Barcelona, em assembleias e congressos. Liberto tinha
uma companheira de que teve o seu filho Suno, aqui presente e Joaquina um
noivo que foi morto na frente. Seguiram vidas separadas até que vão para o
exílio. Joaquina vai para Briançon, povoação fronteiriça com a Itália,
donde se escapa, indo albergar-se em casa do companheiro Paul Réclus
(sobrinho de Élisée Réclus). Partirá daqui para Toulouse e sofrerá ainda
uma detenção pela acção conjugada do ocupante e colaboracionistas. Com a
libertação Joaquina e Liberto irão encontrar-se em Toulouse, para sempre.
Liberto era jovem, havia frequentado a escola ?Natura?, e com os seus
companheiros Raul Carballeira, Francisco Martínez Marques, Miguel
Jjiménez, Joaquina Dorado?, formarão e militarão nas Juventudes
Libertárias. E criarão depois o grupo acrata ?Quijotes del Ideal? em
Barcelona. Liberto colaborara e fundara periódicos, combatera e fora
ferido na frente de Aragão, estivera em campos de concentração franceses e
em companhias de trabalho, fugira para o Norte de África e regressara a
França com o fim da ocupação nazi. O exílio for a muito duro para os
refugiados espanhóis que, por serem militares ou terem participado em
organizações sindicais ou políticas, procuravam escapar aos cárceres e
pelotões de fuzilamento franquistas. Foram mal recebidos, particularmente
os que não dispunham de passaporte, que eram a esmagadora maioria. E
muitos, mulheres e crianças sobretudo, eram meros familiares dos
refugiados ?políticos?. É o caso da mãe do poeta Antonio Machado, mulher
idosa que seguiu os filhos que pertenciam à Institución de Libre
Enseñanza. Os refugiados, muitos dos quais haviam atravessado a pé os
Pirinéus, sob a chuva e sob a neve, muitos deles feridos ou doentes,
alguns a quem tiveram de ser amputados os pés gelados, foram obrigados a
esperar vários dias na fronteira, sem qualquer abrigo, até obterem
autorização para a atravessar por parte das autoridades francesas.E
entrando são conduzidos para campos de concentração sem as mínimas
condições de alojamento, alimentação e salubridade, custodiados por
soldados senegaleses. Desprezados, apelidados de exército de alpergatas,
por militares dum exército bem equipado que meses depois iriam resistir à
forças fascistas, não trinta e dois meses, mas apenas poucas semanas.
Capitulação vergonhosa e colaboração ainda mais vergonhosa com o invasor.
E serão os vilipendiados refugiados espanhóis que irão animar o maquis e
as forças de libertação.
Joaquina sobreviverá nesses anos como costureira porque a sua mãe a
prepara dizendo-lhe que era ofício que em qualquer lado permitiria
sobreviver. E não só Joaquina como muitas mulheres espanholas conseguiram
sobreviver e sustentar os seus sentadas à máquina de costura. Pelo que a
esta última bem se poderia erigir também um monumento. A mãe de Joaquina
chamava-se Maria Pita, tal como uma grande personagem feminina da história
galega ? a grande Maria. E Joaquina, mesmo no exílio, trabalhou para
sustentar os seus velhos pais em Barcelona.
Com a derrota das forças do Eixo os espanhóis exilados julgaram iminente a
queda do regime fascista em Espanha, e um possível regresso à pátria.
Esperança infundada que os obrigou a nova estratégia: o regresso
clandestino para retomar a luta no interior. E é assim que Joaquina e
Liberto voltaram a Espanha em 1946, acabando por ser presos, torturados
sem nunca denunciar os seus companheiros e, finalmente, julgados em
conselho de guerra. Joaquina sairá do cárcere para entrar no hospital e
extrair um rim. Liberto permanecerá preso durante dez anos. E a
correspondência trocada entre ambos é muito importante e merece ser
editada, porque nela se evidencia muito amor, muita solidariedade mas
também muito desespero. E Liberto tem atrás de si uma experiência
literária considerável em jornais e revistas. Joaquina, que saiu do
hospital para ir morrer a casa sobreviveu e voltou a trabalhar para manter
os pais e ajudar Liberto. Este receava apodrecer e morrer na prisão, como
tantos outros e outras, longe de Joaquina e do filho. (Recordo uma mulher
de 80 anos que foi presa em Cádiz apenas por não terem encontrado o filho
e que nunca soube porque estava presa, porque não havia feito nada, e que
se converteu numa espécie de mãe e avó de todas as presas. E o filho tinha
a grande culpa de ser sindicalista e defender os trabalhadores seus
companheiros.)
As cartas de Liberto são por vezes peças literárias de grande valor. A
correspondência entre ambos, só permitida entre familiares chegados, fez
com que se tratassem como irmãos e não como companheiros. Nessas cartas
manifesta-se o afecto existente entre ambos, bem como de Liberto para seu
filho Suno, e a angústia, o desespero por uma detenção que durou dez anos
mas se poderia ter prolongado por vinte ou mais.1 Dedicava a Joaquina
muitas poesias e ocupava parte do seu tempo a desenhar e a pintar. A
qualidade destes trabalhos pode ser apreciada na Exposição que dentro em
pouco irão visitar.
Liberto sairia de prisão em 1958, dez anos cumpridos, por motivos de
doença. E ainda assim em liberdade condicional e sob fiança. Mas quando
sai não é já um homem desesperado porque conservou intactas as suas
ilusões.
Os anos de 1956 e 1957 foram muito duros, porque Joaquina, convalescente
de nefrectomia, regressou à clandestinidade para prestar apoio logístico a
Francisco Sabaté. Sabaté foi um homem que fazia justiça pelas suas mãos,
que teve dois irmãos mortos pelas polícia franquista e que lutou contra as
forças de segurança do regime, que assaltou bancos para fundar revistas e
financiar escolas racionalistas, ajudando companheiros presos. A sua vida
inspirou diversa obras cinematográficas. Joaquina, doente e com a vida em
risco, logrou atravessar a pé os Pirinéus e escapar para França. Em 1958
saiu Liberto da prisão e conseguiu escapar para Andorra e daqui para
França. A Andorra o foi esperar, vinda de Paris, Joaquina Dorado. Nesta
cidade se instalaram para prosseguir em conjunto a sua vida militante. Não
é um casal único na história do anarquismo. Recordo o casal Lola Iturbe e
Juanel, igualmente solidárias, sofredor, extraordinário. Mas não há muitos
casais que tenham sofrido tanto como este que hoje homenageamos. Duas
vidas imbrincadas nas lutas reivindicativas de classe, em prol dum mundo
em que a Justiça Social e a Liberdade configurassem um futuro prometedor
para o género humano. A sua última aventura frustrada foi a criação da
«Asociación Cultural y Ecologista Natura».

1 ? Tais sentimentos e a cultura e fulgor literário nelas expressos foram
ilustrados pela leitura de trechos mais ou menos longos de várias
missivas.

EXPOSIÇÃO «DUAS VIDAS MILITANTES»

Terminada a Conferência «Joaquina Dorado y Liberto Sarrau, por la
Libertad» por Antonina Rodrigo, a assistência abandonou as instalações da
Escola Secundária prof.Herculano de Carvalho e dirigiu-se para a sede do
C.E.L., onde foi inaugurada uma exposição biográfica ilustrada dedicada
aqueles companheiros, intitulada «Duas Vidas Militantes»
A Exposição, que se iniciava no vestíbulo com um painel de desenhos de
Liberto prosseguia na sala de reuniões, constando de vários painéis com
fotos, legendas e uma notícia do período em questão. Ao primeiro destes
painéis, intitulado ?Os Primeiros Anos?, com dados e fotografias
relacionadas com a localidade e data de nascimento dos homenageados, bem
como fotos de ambos em crianças, segue-se um segundo painel dedicado à
Escola «Natura» de Barcelona, à sua colónia de férias pirenáica «Mon Nou»,
a Liberto e ao seu mestre Puig Elias, bem como a uma visita relativamente
recente de Liberto a «Mon Nou» e uma foto de elementos da «Asociación
Cultural y Ecologica Natura» em que figuram Joaquina Dorado, António Turón
e Collette Durruti. Seguem-se dois painéis relativos ao período de 1936-39
em Barcelona: um dedicado a Joaquina e às suas actividades no Conselho
Económico da Madeira Socializada e a contenção dos golpes fascista de 1936
e comunista de Maio de 1937; outro a Liberto e sua actividade militar.
Segue-se um painel dedicado ao exílio de ambos entre 1939 e 1946 e outro
que corresponde à reactivação do movimento libertário após a derrota das
forças nazi-fascistas em 1945. Sucede-lhe um painel dedicado à militância
clandestina em Espanha, prisões, julgamento e fuga (1946-1958). Segue-se
dois paineís, um grande com a vida de ambos em França após 1959 e um
pequeno sobre a CNT (Tour d?Auvergne) e outro sobre a vida e actividades
de ambos em Espanha após a queda do franquismo. Há ainda um pequeno painel
acessório que relativo às visitas de Liberto e Joaquina ao C.E.L. e
finalmente um painel com recordações familiares de ambos. As duas novelas
escritas por Liberto em 1934 e 1937 e alguns textos de ou sobre Liberto
figuravam igualmente na exposição. Esta exposição esteve presente durante
todo o mês de Maio e na sala de reuniões que a albergava era servido um
café aos participantes nas actividades do ciclo.

2ª Sessão do Ciclo Inaugural

ANARQUISMO E SOCIOLOGIA

O tema em debate esteve a cargo do nosso consócio João Freire que dividiu
o tema em quatro tópicos principais por ele propostos e aos quais fazia
uma introdução de cerca de um quarto de hora abrindo um período de
discussão com a assistência (cerca de três dezenas de participantes).
O primeiro tópico, intitulado 1° andamento (allegro molto) - as confusões
do positivismo, mereceu este qualificativo de allegro molto por
corresponder a uma fase inicial entusiástica, em que o anarquismo passou
de círculos iniciáticos, fechados sobre si mesmos, a uma presença social
significativa que lhe permitia encarar o futuro com algum optimismo. O
aparecimento da sociologia está numa fase incipiente e a designação é
aplicada a quaisquer trabalhos versando temas sociais, longe dos critérios
actuais que têm a sua origem em Durkheim e Max Weber. Assim o nosso
primeiro teórico anarquista, Silva Mendes. cita sobretudo Spencer,
Kropotkin, Morgan como sociólogos libertários ou afins. Há uma grande
preocupação em legitimar o anarquismo como doutrina científica, o que é
exemplificado no trabalho de Kropotkin «O Socialismo Libertário e a
Ciência Moderna», em que se reclama de Comte e de Spencer. Surgiu mesmo a
ideia da sociologia como ciência-mãe que tudo explica, concepção que havia
já reivindicada quer pelo Direito, quer pela Filosofia.
Seguiram-se intervenções de seis membros da assistência, algumas das quais
sobre a dificuldade de aplicar indiferentemente o que fora dito a todas as
correntes do pensamente libertário. Freire concordou que face à corrente
principal, anarco-comunista kropotkiniana, surgiram tendências desviantes
como o naturalismo rousseauista, o anti-cientismo, o cinismo
individualista (Stirner, o Pessoa de «O banqueiro anarquista») ou o
voluntarismo romântico (Bakunin, Wagner), de resto toleradas. A dominância
da visão "científica" manifestou a capacidade do anarquismo para desposar
o seu tempo, não estar contra a sua época, à margem dela como noutros
momentos se verificou.

O segundo tópico, ou 2° andamento (scherzo, moderato) - o marxismo ganha
ao anarquismo.
Este ganhar é uma fase e não uma conjuntura porque corresponde a algumas
décadas. O anarquismo foi um grande inspirador de causas mas também um
desaproveitador de oportunidades. Na evolução social posterior à idade de
ouro do anarquismo social deu uma dezena de contributos significativos que
não capitalizou em proveito próprio. Focarei três observações.
Primeiro a ideia de movimento social, como agente transformador da
sociedade, com ênfase no sindicalismo mas mais ampla.
Segundo, o apelo à participação directa das pessoas nos processos sociais
e políticos, com controlo pela base quando é indispensável delegar.
Terceiro o associatívismo autónomo dos produtores, essencialmente dos
operários mas também noutros domínios.
Há ainda questões como o casamento como facto essencialmente
inter-individual, união livre baseada no afecto e na responsabilidade, a
educação como processo social amplo, incluindo mas excedendo a família,
visando a capacidade de autodeterminação e a construção da individualidade
Seguiu-se novo período de discussão com intervenção de vários membros da
assistência e em que foi contestada o título do tema uma vez que o
marxismo, não só falhou como modelo de sociedade socialista como colapsou
na Europa Oriental após a queda do muro de Berlim. E sobrevive na China
mediante um processo de reconversão capitalista.

Por se haver ultrapassado o tempo previsto na discussão dos dois pontos
anteriores foram os dois pontos subsequentes fundidos numa intervenção
única algo abreviada respectivamente:
3° andamento (andante, vivace) - a socioloaia contemporânea e as suas
dificuldades e 4° andamento (adagio) - o anarquismo negativo da
pós-modemidade.
Relativamente à sociologia contemporânea, a que vingou ou académica, foi a
que saíu de Weber e Durkheim. Ninguém propôs uma teoria explicativa global
do género marxista, embora este último surja diluído na sociologia das
classes e na sociologia da política. Em vez disso evoluiu-se para uma
sociologia descritiva, com teorias de médio alcance e âmbito restrito.
Foram citados Crozier e Bourdieu, bem como do psico-sociólogo Eugene
Enriquez. Este último, considera impossível uma sociedade sem alienação
nem repressão. Referência por fim ao quarto ponto, cuja designação se
alicerça no que ocorreu entre nós no PREC: um anarquismo áspero,
insolidário, de provocação, cujo modelo vinha do Maio de 68 em Paris e
tinha mais a ver com o situacionismo do que com o anarquismo. Abordagem
também duma corrente norte-americana que se intitula anarco-capitalista,
se distingue do liberalismo porque preconiza a abolição do Estado e se
consubstanciou no programa de Nozick e numa das candidaturas à presidência
dos EUA, que ficou em quarto lugar com cerca de trezentos mil votos.
Seguiu-se um novo período de discussão com intervenção de vários
companheiros e em que foi contestada a simbiose de anarquismo com
capitalismo e a incongruência dum partido que se propõe a abolição do
Estado apresentar candidatura à presidência dos EUA.



3ª Sessão do Ciclo Inaugural

CULTURA E SOCIEDADE
Não se tendo verificado, por ponderosos motivos profissionais, a presença
de Miguel Serras Pereira nesta mesa-redonda, iniciou os trabalhos António
Cãndido Franco. De acordo com Manuela Parreira da Silva e dado o carácter
muito vago do tema e o interesse suscitado pela discussão da reunião
anterior, decidiram retomar dois pontos abordados nesse debate.

António Cândido Franco

Abordou o tema da propriedade em Proudhon, uma vez que o anarquismo
histórico começou com ele, tendo reivindicando essa designação para a sua
doutrina. Numa das sua obras mais conhecidas «O que é a propriedade?»
respondeu "A propriedade é o roubo". Menos conhecida é a sua afirmação de
que "a propriedade é a liberdade". É um roubo na medida em que é a soma de
abusos resultantes da exploração e exercício do poder de uns homens sobre
outros, mas tem também ver com o uso, o poder do homem sobre as coisas.
Para Proudhon a propriedade é legitimada como posse de quem a trabalha,
nunca de quem a detem e explora o trabalho de quem nela opera. Proudhon
parece haver visado uma rectificação das preversôes do liberalismo ? a
crescente monopolização da riqueza ? pela introdução dum princípio novo ?
a associação mútua. Princípio este que foi o motor de várias correntes
anarquistas ulteriores e que permite assim considerar Proudhon como a
matriz de todo o pensamento anarquista posterior.
A corrente que se desenvolveu a partir da associação múltipla deu origem
ao colectivismo de Bakunin primeiro, ao comunismo libertário de Kropotkin,
em seguida. A oposição de Proudhon a Marx tem a ver com a concepção
comunista de Estado, autoritária, do autor de «O Capital».
A defesa da propriedade como liberdade conduziu à visão duma sociedade de
proprietários igualitários que teve sobretudo audiência nos EUA,
principalmente com Benjamin Tucker, que forjou a designação de anarquismo
individualista. Este individualismo na área económica viria a evoluir nas
últimas décadas para o anarco-capitalismo, que defende não um Estado
minimalista, como os liberais, mas a abolição completa do Estado.
Nas concepções anarquistas a sociedade nunca é incompatível com o
indivíduo, antes tem por ele o máximo respeito. E nutre idêntico respeito
pela diversidade e pela pluralidade, que não são incompatíveis com a
unidade sim com a uniformização. Guatari e Deleuze definiram anarquia como
a unidade do múltiplo. A defesa da pluralidade das culturas está ligada à
defesa das culturas locais. A cultura local é uma forma de universal de
expressão, mas não a única. E foi ainda Proudhon quem compreendeu que o
elo entre o local e o universal era o federal.

Manuela Parreira da Silva

Tomando também por ponto de partida uma afirmação de João Freire na sessão
anterior, quando ao referir-se ao individualismo cínico citou Stirner e o
Pessoa de «O banqueiro anarquista». Pessoa provavelmente só conhecia
Stirner pela leitura do livro de Eltzbacher, que tinha na sua biblioteca.
Isto não significa que fosse anarquista. Noutros documentos seus
referiu-se ao anarquismo, ao socialismo e ao democratismo como teorias
muito simpáticas mas que eram divinizações da mentira. Opinião pessoal e
não a duma personagem sua, como o banqueiro. O livro foi publicado em 1922
mas escrito certamente antes. Recorde-se que A Batalha surgiu em 1919, o
partido comunista em 1921 e a revolução russa era tema de grande
actualidade. Deve considerar-se «O banqueiro anarquista» uma sátira
dialéctica inspirada nos eventos da época. O livro integraria uma série de
sátiras dialécticas das quais a intitulada «Memórias de um ladrão» (que
não foi publicada nem talvez escrita) sugere o romance de G.Dariel «O
Ladrão» (1897), cujo herói André Breton considerava a personificação do
Único de Stirner. Poderia estar aqui a fonte de inspiração para «O
banqueiro anarquista», pois há no texto pessoano muitas frases
reminiscente de «O Único e a sua propriedade». O raciocínio que Pessoa
inscreve no seu banqueiro é de que a única maneira de alguém se libertar
da dependência do dinheiro é tornar-se rico, deixando de estar na sua
dependência. O argumento é um sofisma consciente e deliberadamente criado
pelo autor para lhe conferir carácter satírico. Talvez se possa
estabelecer alguma conexão entre este banqueiro anarquista e o
anarco-capitalismo de que falou João Freire e Cãndido Franco.

As duas intervenções foram objecto de numerosas e por vezes longas
intervenções por parte dos assistentes em diálogo com a mesa que não é
possível reproduzir aqui dada a sua extensão. Com esta sessão, menos
concorrida mas talvez mais vivamente argumentada que a anterior, concluiu
este primeiro ciclo anual de homenagem a Joaquina Dorado e Liberto Sarrau.
Os textos completos (revistos pelos autores) serão publicados na forma de
caderno logo que possível.



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