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(pt) [Brasil]documento de unipa(www.unipa. cjb.net)

From a-infos-pt@ainfos.ca
Date Thu, 10 Feb 2005 10:45:56 +0100 (CET)


______________________________________________________
A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
http://ainfos.ca/ http://ainfos.ca/index24.html
________________________________________________

A Alma e o Corpo
O Bakuninismo e a Organização Anarquista
Documento Teórico da UNIPA
Introdução
Este texto visa fazer uma discussão aprofundada sobre
o bakuninismo, a ideologia anarquista, a organização
política revolucionária e seu papel na luta de massas.
Neste sentido, ele servirá como documento base de toda
a política da União Popular Anarquista (UNIPA). Ele
poderá também auxiliar a todos os militantes,
revolucionários socialistas, ou ainda militantes de
base, a encontrar uma formulação clara que os possa
conduzir rumo à luta pela revolução social no Brasil.
O texto é dividido em duas partes. A
primeira parte (“A Alma”) trata de determinar com
clareza as bases teóricas e ideológicas para uma
organização política revolucionária. A segunda parte
(“O Corpo”) analisa a relação entre a organização
política e organização de massas, de forma a
determinar com clareza os elementos de nossa linha
política e nossa linha de massas.

Este texto foi produzido coletivamente, no
período que precedeu e sucedeu o II Congresso da União
Anarquista (fevereiro-março de 2004), momento de
intensa reflexão teórica, feita paralelamente a
momentos graves nas nossas frentes de massa. Por isso,
este documento surge com uma feição especial,
concebido por um longo processo de discussão e
amadurecimento teórico fecundado por uma prática
política também prolongada e exaustiva.

As orientações aqui contidas representam o
movimento real e duplo da luta política; da ação para
as idéias, por um lado, e por outro, das idéias
novamente para a ação, revigorada pela reflexão
coletiva. Por isso confiamos que as orientações
contidas em nossos documentos irão ter a devida
durabilidade e garantirão o avanço de nossa
organização na sua luta pelo socialismo.



I – O Pensamento-Guia (A Alma)

“A sociedade, no grande sentido da palavra, o povo, a
vil multidão, a massa dos trabalhadores, não só dá a
força e a vida, mas também dá os elementos de todos os
pensamentos modernos, e um pensamento que não sai do
seu seio e que não é a expressão fiel dos seus
instintos populares, segundo a minha opinião, é um
pensamento morto à nascença.”.

(Mikhail Bakunin)



O Bakuninismo é o Pensamento Guia de nossa
organização. Defini-lo é ao mesmo tempo avançar e
aprofundar o conhecimento sobre o anarquismo enquanto
ideologia revolucionária na história da luta do
proletariado por sua emancipação.

Para realizar esta discussão é de
importância fundamental que, em primeiro lugar, fique
clara a exigência de um rigor e uma precisão
conceitual máxima. É preciso fazer a distinção clara
entre as noções de ideologia, teoria e
pensamento-guia.

Com relação a ideologia existem dois elementos
essenciais: seu caráter sistêmico e sua existência
necessariamente articulada nos planos do pensamento e
da vida material. O que está dito aqui é o seguinte:

1) As idéias/valores e aspirações, somente constituem
uma ideologia porque estão coerente e necessariamente
articuladas entre si na forma de um sistema, onde a
supressão ou alteração de uma destas idéias/valores ou
aspirações, subverte o sistema como um todo e
descaracteriza o conjunto enquanto uma ideologia
determinada;

2) As idéias/valores e aspirações coerentemente
articuladas entre si em forma de sistema constituem a
ideologia, não são apenas noções abstratas: ou estão
manifestas nas práticas materiais de indivíduos e
grupos, ou não são nada. Melhor dizendo, um valor (ou
uma aspiração) que é apenas enunciado e não
manifestado na prática não é verdadeiramente um valor
(ou uma aspiração), é apenas uma figura de discurso e
de retórica. É importante destacar que este conjunto
de afirmações é válido não para uma ou outra
ideologia, mas para o conceito de ideologia enquanto
tal.

A teoria é, assim como a ideologia, um
sistema, ou seja, um conjunto composto por elementos
interdependentes coerentemente e necessariamente
articulados entre si. Enquanto a ideologia é um
sistema formado por idéias/valores e aspirações, a
teoria é um sistema de conceitos, que são as
ferramentas necessárias para a interpretação e o
conhecimento do mundo social (mas também – em geral –
para o mundo natural).

Teorias diferentes - sistemas de conceitos diferentes
– levam a compreensões diferentes sobre o homem e a
sociedade, e autorizam conclusões também diferentes,
que conduzirão a ações distintas e até opostas sobre e
no mundo social. É de fundamental importância destacar
que a teoria (qualquer teoria) nunca é uma apreensão
imediata, neutra e descompromissada da realidade do
homem e da sociedade, ao contrário, é sempre
construída a partir ou de um posicionamento político,
mesmo que pouco sistematizado, sobre o ordenamento da
sociedade, mais ou menos crítico ou conservador.

Portanto, para valores e aspirações diferentes quanto
ao mundo social, correspondem teorias diferentes para
compreender, criticar ou justificar este mundo social,
e qualificar a ação sobre ele. Esta afirmação não
significa que não existam teorias fraudulentas e
mistificadoras, de um lado, e teorias que apontam uma
compreensão correta do mundo social (ou natural),
“verdades científicas”, do outro. Simplesmente aqui
afirma-se o seguinte: 1) Em ciência, todas as
“verdades cientificas” estão permanentemente
submetidas à prova e à verificação, e assim, sujeitas
a serem ultrapassadas e superadas por novas “verdades
científicas”; 2) Mesmo as “verdades científicas” são
produzidas a partir de um determinado ponto de vista
interessado e comprometido, apesar ou por causa disto
mesmo.

Como já vimos afirmando, a ideologia de um
determinado grupo ou organização política é o fator
determinante para sua ação e para seu trabalho
teórico. É a ideologia que move e impulsiona a ação,
servindo a teoria para precisar a direção e qualificar
a condução desta ação. Podemos agora aprofundar um
pouco mais o debate. A ideologia é um sistema de
idéias, aspirações e valores, ou seja, um conjunto de
elementos interdependentes e coerentemente
articulados.

É importante perceber que esta articulação coerente de
várias idéias/valores e aspirações é uma construção
humana na sociedade e na história, logo, a ideologia
(toda ideologia) possui uma história específica, é
constituída em um dado momento histórico, por
indivíduos e/ou grupos determinados a partir de um
trabalho intelectual de sistematização de uma
determinada prática social. A ideologia não existe em
um limbo e não surge a partir do nada, possui história
e fundadores determinados que a constituem através de
uma reflexão intelectual sobre uma determinada
prática, para onde retorna necessariamente.

Resumindo, podemos dizer que: o Pensamento-Guia é o
conjunto mais amplo, que compreende a Ideologia e
Teoria; a Ideologia é uma sintetização política dos
elementos fundamentais deste conjunto maior.



2 - A formação histórica da ideologia anarquista e
seus princípios constitutivos



O anarquismo é uma ideologia, assim, é um sistema de
idéias, valores e aspirações, ou seja, é um conjunto
onde estes elementos são interdependentes e estão
necessária e coerentemente articulados entre si. É
verdade que certas idéias/valores e aspirações que
formam o anarquismo enquanto ideologia possuem uma
existência na luta das massas trabalhadoras que é
anterior à sua sistematização, mas não existe
anarquismo antes desta sistematização, ele é esta
sistematização. Assim compreendido, fica claro que o
anarquismo possui uma história bem determinada que
pode ser investigada e conhecida.

É preciso recusar certa mitologia que afirma vagamente
tolices, anacronismos e/ou falsificações grosseiras,
decorrentes de matrizes teóricas idealistas”, tais
como: “O melhor expoente da filosofia anarquista na
Grécia Antiga foi Zenão (342-267ou 270 AC), cretense,
fundador da escola estóica, que opôs uma clara
consciência de uma comunidade livre, sem governo à
utopia estatista de Platão” (Kropotkin, O Anarquismo
1905). Por mais impressionante que possa parecer tal
afirmação, ela é falsa e vazia de qualquer conteúdo
histórico real.

O anarquismo enquanto ideologia vai
começar a ser sistematizado a partir das experiências
de luta do movimento proletário europeu do século XIX,
do interior de seus setores mais intransigentemente
classistas. O dinamismo deste movimento, cada vez mais
radicalizado e anti-burguês, principalmente depois da
década de 1840, vai propiciar o desenvolvimento de um
efervescente trabalho intelectual de indivíduos,
grupos e organizações inseridas neste conflito social.


É neste momento que começam a tomar forma as primeiras
sistematizações do socialismo enquanto ideologia
revolucionária do proletariado, é fruto deste primeiro
momento a clássica obra “O que é a propriedade?” de
Pierre-Joseph Proudhon, onde é frontalmente
desmascarado o sistema político, econômico e
ideológico da burguesia, assim como também é neste
período publicado o pilar do marxismo, o “Manifesto do
Partido Comunista” de Karl Marx e da Liga dos
Comunistas. Com o avançar das décadas o socialismo vai
constituir-se e consolidar-se em duas vertentes
adversárias: o Socialismo Revolucionário ou
Anarquismo, e o Comunismo marxista ou
Social-Democracia.

Será o revolucionário, proletário e
intelectual Proudhon, o primeiro a reivindicar
positivamente o conceito de anarquista para definir a
si mesmo e sua formulação programática. Proudhon é um
intelectual de grande envergadura teórica e durante
duas ou três décadas a principal referência de massas
do movimento operário europeu ocidental (especialmente
francês). A partir de suas reflexões teóricas sobre a
economia capitalista e o poder burguês e de sua
formulação programática de um socialismo anti-estatal
e profundamente anti-burguês, Proudhon vai lançar as
bases daquilo que o revolucionário russo Mikhail
Bakunin vai dar a forma acabada: o anarquismo.

A incansável atividade organizativa no
interior do movimento operário – particularmente no
interior da Associação Internacional dos Trabalhadores
através de sua organização política a Aliança – bem
como sua imensa capacidade de trabalho intelectual fez
de Bakunin uma figura singular na luta proletária e
socialista na Europa do século XIX. Bakunin,
incorporando o fundamental do instrumental teórico e
da síntese programática de Proudhon vai os levar às
suas últimas conseqüências políticas e teóricas.

É Bakunin o responsável por sistematizar a ideologia
anarquista bem como por aprofundar sua teoria,
definir com precisão seu programa e sua estratégia. O
anarquismo, enquanto sistema unitário e dialético das
idéias, valores e aspirações do socialismo, liberdade,
organização e luta classista vai ter como início de
sua trajetória histórica, exatamente a ação
intelectual e prática revolucionária de Mikhail
Bakunin no século XIX. Em suma, a sistematização do
anarquismo enquanto ideologia vai se processar através
e no interior do pensamento elaborado e desenvolvido
historicamente por Bakunin.

Concordamos com o célebre pensamento
exposto na “Plataforma Organizacional” (manifesto do
Grupo Dielo Trouda de 1927) quando afirma que “O
anarquismo não é uma utopia, nem uma idéia filosófica
abstrata, é um movimento social das massas
trabalhadoras.”. Esta afirmação, contida na
“Plataforma”, marca a oposição da perspectiva
anarquista à perspectiva leninista, segundo a qual o
socialismo é produzido no seio de um determinado setor
da intelectualidade burguesa e é daí introduzido na
luta dos trabalhadores.

Nós, ao contrário, entendemos que o conjunto de
idéias/valores e aspirações constitutivo do anarquismo
enquanto ideologia, já estava manifesto na luta dos
operários e camponeses do século XIX contra a
dominação burguesa. E se Bakunin foi capaz de ordenar
estas aspirações, idéias e valores difusos num sistema
ideológico, através de seu pensamento e no interior de
seu pensamento, foi exatamente porque Bakunin estava
inserido absolutamente na mesma luta e condição
material dos operários e camponeses [1].

Quatro elementos constituem os princípios ideológicos,
que caracterizam o anarquismo: Socialismo e Liberdade,
Luta Classista e Organização. As idéias de socialismo
e liberdade como aspirações e as de luta classista e
organização como valores máximos.

Estes quatro princípios ideológicos não foram
definidos arbitrariamente. Eles surgiram da
experiência histórica em que se forjou o nosso
pensamento guia. É o pensamento guia que afirma a
importância da organização. Bakunin diz “ há no povo
uma força elementar, mas esta precisa ser amparada por
uma organização que permita mais do que a sublevação
por si só, mas também a vitória revolucionária por uma
preparação longa e prolongada”. Para Bakunin, é também
a organização (a associação) o único caminho das
massas para a libertação, a emancipação pela prática.

Mas a organização não se explica por si só. A
organização só faz sentido em face de outra idéia, a
luta classista. Bakunin afirma: “Que desta
organização, cada vez maior, da solidariedade
militante do proletariado contra a exploração burguesa
deva sair e surja efetivamente a luta política do
proletariado contra a burguesia, quem duvida disso?”.

A luta se apresenta como fator positivo de movimento
da sociedade e da história: “Esta harmonia, é a
ausência de luta, a ausência de vida, é a morte. Em
política é o despotismo. Olhem para toda a história e
convençam-se que em todas as épocas em todos os
paises em que há desenvolvimento e exuberância da
vida, do pensamento, da ação criadora e livre, houve
divergência, luta intelectual e social, luta de
partidos políticos ...”

As noções de luta e organização se apresentam assim
como idéias sempre presentes tanto na teoria quanto na
prática política de Bakunin. São elas que caracterizam
e sintetizam o fundamental do anarquismo.

A crítica bakuninista da sociedade capitalista é
conjugada com outras duas idéias que sintetizam as
aspirações fundamentais do anarquismo: “Que a
liberdade sem o socialismo é o privilegio, a
injustiça; e que o socialismo sem a liberdade é a
escravidão e a brutalidade...”

Socialismo e Liberdade, dois termos unidos
dialeticamente pela concepção anarquista, quando
separados se apresentam apenas como deformação. A
revolução social se apresenta como meio necessário
para a realização de tais aspirações. A luta e
organização anarquista se vinculam a aspiração
socialista e libertária e estas se vinculam a prática
da luta classista e da organização.

Socialismo, Liberdade, Organização e Luta Classista;
estes dois pares de idéias/valores e aspirações
dialeticamente unidos constituem os elementos básicos
da ideologia anarquista.

Amparada de um lado na crítica teórica da sociedade
capitalista, e de outro numa experiência
revolucionária, com as quais constitui uma unidade em
permanente movimento, a ideologia anarquista tem uma
dimensão própria, sendo o motor da prática política
anarquista.

Página: 4


3 - Os elementos constitutivos da teoria bakuninista



Ao nos referirmos ao pensamento de Bakunin,
estamos enfocando precisamente o pensamento expresso e
manifesto na sua obra, e esta obra é definida pelo
conjunto dos livros, panfletos, artigos, manuscritos e
etc, por ele redigidos. Assim ao mencionarmos o
pensamento de Bakunin estamos mencionando algo
materialmente determinado e determinável e não “idéias
implícitas” ou “sentimentos interiores”, mesmo porque,
como afirma Bakunin: “O homem tem unicamente no seu
interior o que manifesta de qualquer modo no seu
exterior”[2].

É o pensamento de Bakunin que gera o anarquismo
historicamente enquanto ideologia revolucionária. Este
pensamento tem, pois, uma relação de paternidade com a
ideologia anarquista – no sentido de que é com base em
seus conceitos e reflexões que a sistematiza – ao
mesmo tempo em que é impulsionado por ela, que o
pensamento de Bakunin se desenvolve. Está aqui
claramente explicitada e marcada a profunda unidade
que existe entre o anarquismo e o pensamento de
Bakunin.

O pensamento de Bakunin tomado como fundamento da
compreensão do mundo social, ou seja, como base a
partir da qual desenvolver o trabalho dinâmico de
produção teórica analítica e interpretativa da
realidade social, nós o definimos como Bakuninismo.

Entendemos que o bakuninismo fornece não somente uma
correta compreensão a respeito do complexo de relações
que se estabelece entre o homem e a sociedade, bem
como fornece uma crítica definitiva ao sistema
político e econômico burguês e à sua ideologia. Além
disto, o bakuninismo também apresenta uma compreensão
precisa a respeito da relação entre as classes na
sociedade capitalista e o seu papel na transformação
ou preservação deste sistema social. Por último, mas
não menos fundamental, entendemos que o bakuninismo
desenvolve e apresenta uma perspectiva justa a
respeito da relação entre a ação da força coletiva na
sociedade e a construção das idéias, representações e
do conhecimento, incluindo-se aí a ciência. Não deve
ser perdido de vista o fato de que o bakuninismo é uma
produção intelectual desenvolvida a partir dos marcos
de um enfrentamento de morte contra a dominação
burguesa, com base na organização e na luta classista
e apontando para a construção do socialismo e da
liberdade, é um pensamento que expressa uma visão
proletária e revolucionária do mundo social.

É importante apresentar neste momento os
fundamentos principais do bakuninismo, ou seja: o
materialismo e a dialética. O materialismo
constitui-se na afirmação de que a materialidade, os
fatos, a vida, produz as idéias, as representações, o
conhecimento. Oposição intransigente ao idealismo,
para o qual as idéias geram a vida material, o
materialismo historicamente desenvolveu-se mesclado ao
socialismo. Podemos entender o centro da definição
materialista de Bakunin a partir desta citação:



“A força do sentimento coletivo ou do espírito público
é já hoje poderosa. (...) Mas se esta força social
existe, por que é que ela não foi suficiente, até aos
nossos dias, para moralizar e humanizar os homens?
(...) porque até aos nossos dias, ela própria nunca
foi humanizada porque a vida social da qual ela é
sempre a expressão mais fiel baseia-se, como se sabe,
no culto divino e não no respeito humano; na
autoridade e não na liberdade; no privilégio e não na
igualdade; na exploração e não na fraternidade dos
homens, na corrupção e na mentira e não na justiça e
na verdade. (...) Querem torná-la benéfica e humana?
Façam a Revolução Social.”[3]



Bakunin recusa o economicismo de Marx e o esquematismo
mecanicista deste mesmo pensador que o leva a entender
a realidade política, jurídica e cultural de uma
sociedade como uma mera reflexão da “infra-estrutura”
econômica. Bakunin admite que certas idéias “retornam”
ao mundo material quando incarnadas em fatos
materiais, em instituições e etc. A realidade
determina as idéias, mas idéias também estão presentes
nesta realidade. O materialismo, segundo Bakunin, é
fundamentalmente um materialismo da ação, do fato, da
vida, do conjunto da realidade que determina a
produção das representações e das idéias, não um
materialismo que reduz a explicação do mundo à base
econômica da sociedade, como em Marx.

Como um pensador capacitado e imerso na luta de
classes, Bakunin tinha clareza de todas as
consequências e de todos os vínculos políticos do
conhecimento produzido e do próprio processo de
produção do conhecimento. Assim, Bakunin combatia o
idealismo “dos metafísicos e doutrinários” por ser a
racionalidade própria à legitimação de todos os
modelos sociais de opressão da história.

Por outro lado, a afirmação materialista de Bakunin
está intimamente vinculada às necessidades políticas
do proletariado em luta:



“Porque o que toma por seu ponto de partida o
pensamento abstrato não poderá nunca chegar a vida,
porque não existe caminho que possa conduzir da
metafísica a vida. Estão separadas por um abismo.
Superar este abismo, realizar um salto mortal ou mesmo
o que Hegel denominou um salto qualitativo desde o
mundo da lógica ao mundo da natureza, da vida real,
não o conseguiu ainda ninguém e nunca conseguirá. O
que se apóia na abstração morrerá nela.

A rota vivente concretamente justificada é a ciência,
o caminho do fato real ao pensamento que o abarca, que
o expressa e que, por conseguinte, o explica: e no
mundo prático, é o movimento da vida social até uma
organização impregnada o máximo possível desta vida,
conforme as indicações, condições, as necessidades e
as exigências mais ou menos apaixonadas desta mesma
vida (p. 212)

Tal é a vasta rota popular da emancipação real e
total, acessível a todos e, por conseguinte, realmente
popular, rota da revolução social anarquista, que
surge por si mesma do seio do povo, destruindo tudo o
que se opõe ao desabrochar generoso da vida do povo a
fim de criar logo, das profundezas mesmas da alma
popular, as novas formas da vida social livre.” (p.
Estatismo e Anarquia, p. 213).



Torna-se o materialismo perspectiva de análise social
e método de intervenção política revolucionária.

No que diz respeito à idéia de dialética,
Bakunin, compreende que o conflito e a luta são
elementos constantes e permanentes na sociedade. Em
ruptura porém com a dialética hegeliana (e marxista)
que aponta para a idéia de que a contradição entre
tese e antítese é superada por uma síntese, Bakunin
compreende que a tese, ou lado positivo, manifesta-se
como quietude absoluta; e a antítese, ou lado
negativo, elemento dinâmico da dialética, por natureza
tende a caracterizar sua existência pela negação
absoluta da tese não permitindo síntese harmônica .

As séries dialéticas de Proudhon onde os elementos
estão em verdadeira interação conflitiva sem solução
harmonizante, são incorporadas por Bakunin em seu
pensamento, caracterizando o bakuninismo por quatro
eixos principais: a dialética entre o indivíduo e
sociedade, a dialética entre a política e a economia,
a dialética entre a burguesia e o proletariado, e a
dialética entre a ação e o pensamento.

A dialética o individuo e a sociedade diz
respeito à contínua inter-relação que se dá na vida
social entre os indivíduos e a coletividade social. Em
primeiro lugar, Bakunin investe contra o pensamento
liberal afirmando que: Tudo que é humano no homem, e a
liberdade mais do que qualquer outra coisa, é o
produto de um trabalho social, coletivo[4]. Se Bakunin
faz questão de, por um lado, demolir o indivíduo
abstrato do idealismo liberal e burguês, também aponta
suas baterias contra o determinismo simplista da
coletividade social sobre o indivíduo, fundando este
primeiro aspecto de sua concepção dialética: Todos os
indivíduos, mesmo os mais inteligentes, os mais
fortes, e sobretudo os inteligentes e fortes, são, em
qualquer momento de sua vida, os produtores e os
produtos da vontade e da ação das massas[5]

A dialética entre a política e a economia
surge no pensamento de Bakunin como um vigoroso avanço
no conhecimento social de sua época nos marcos do
proletariado em luta. Refutando o economicismo de Marx
e a sua noção de que a “infra-estrutura” econômica da
sociedade determina mecanicamente a “super-estrutura”
política, jurídica e ideológica, Bakunin vai propor
uma perspectiva dialética para a compreensão das
relações entre o político e o econômico:



O estado político de cada país ... é sempre o produto
e a expressão fiel da sua situação econômica; para
mudar o primeiro só é necessário transformar esta
última. Todo o segredo das evoluções históricas,
segundo o Sr. Marx, está lá. Ele não toma em
consideração os outros elementos da história, tais
como a reação contudo evidente, das instituições
políticas, jurídicas e religiosas sobre a situação
econômica. Ele diz: “A miséria produz a escravatura
política, o Estado”; mas não se atreve a revirar esta
frase e dizer: “A escravatura política, o Estado,
reproduz por sua vez e mantém a miséria, como uma
condição de sua existência; de modo que para destruir
a miséria, é preciso destruir o Estado”[6].



A dialética entre a burguesia e o
proletariado tal como afirmada por Bakunin fundamenta
que o estado presente de uma determinada conjuntura
histórica da sociedade capitalista é o resultado de
uma correlação de forças na luta entre a classe
proletária e a burguesia:



“Compreendeste que entre o proletariado e a burguesia
existe um antagonismo que é irreconciliável, pois que
é conseqüência necessária de suas posições
respectivas? Que a prosperidade da classe burguesa é
incompatível com o bem-estar e a liberdade dos
trabalhadores, porque esta prosperidade exclusiva não
é nem pode ser fundada senão na exploração e na
escravidão do seu trabalho, e que,pela mesma razão, a
prosperidade e a dignidade humana das massas operarias
exigem absolutamente a abolição da burguesia como
classe autônoma? Que por conseguinte a guerra entre o
proletariado e a burguesia é fatal, e só pode acabar
através da destruição desta ultima? (Política da
Internacional, p. 53)

Quanto a estas causas[causas da criação de fatos novos
na sociedade], é preciso procurá-las no
desenvolvimento ascendente das necessidades econômicas
e das forças organizadas e ativas, não ideais mas
reais, da sociedade[7].



Também será exclusivamente a partir da luta de classes
que Bakunin entende o avanço da sociedade. A concepção
dialética da relação entre as classes sociais leva
Bakunin a buscar a transformação radical da sociedade
capitalista nos termos da dialética tal como ele a
defende (com a antítese suprimindo e não acomodando-se
com a tese em um novo arranjo): A revolução é a
guerra, e quem diz guerra diz destruição dos homens e
das coisas. Sem dúvida que é uma pena que a humanidade
ainda não tenha inventado um meio mais pacífico de
progresso, mas até hoje qualquer passo novo na
história só foi realizado na realidade depois de ter
recebido o batismo de sangue[8]

A dialética entre a ação e o pensamento expressa a
concepção de Bakunin que fundamenta sua radical
perspectiva materialista. Para Bakunin, o pensamento e
a vida (o plano da ação) não podem nunca ser
redutíveis uma ao outro ou vice-versa: “Como seres
vivos, discernimos e sentimos esta realidade, ela
envolve-nos e nós sofremo-la e exercemo-la nós
próprios, muitas vezes sem o sabermos, a todo momento.
Como seres pensantes, abstraímo-nos forçosamente dela,
pois o nosso próprio pensamento só começa com esta
abstração e por ela”[9]. O pensamento é a abstração da
vida, incluindo aqui a ciência, a vida – a realidade
material – é, ela sim, a totalidade, e não é passível
de ser apreendida diretamente, sem a mediação da
abstração, pela racionalização e pela ciência. “Tudo
o que puderem dizer sobre uma coisa para a
caracterizar, todas as propriedades que lhe atribuam
ou que lhe encontrem serão determinações gerais,
aplicáveis em graus diferentes e numa quantidade
inumerável de diferentes combinações, a muitas outras
coisas. (...) A individualidade de uma coisa não se
exprime”[10].

Apesar de estabelecer este limite à razão, Bakunin
está longe de se posicionar ao lado do irracionalismo
e de atacar a ciência:



“Nós respeitamos inteiramente a ciência e
consideramo-la como um dos mais preciosos tesouros,
como uma das glórias mais puras da humanidade. Por sua
causa o homem distingue-se do animal ,hoje seu irmão
mais novo, outrora seu antepassado, e torna-se capaz
de liberdade. Portanto também é necessário reconhecer
os limites da ciência e de lhe lembrar que não é o
todo, é só uma parte, e que o todo é a vida ...[11].



Bakunin é, no entanto, um inimigo ferrenho do
cientificismo e de sua obra social tanto no aspecto
mais amplo quanto no interior da luta proletária. O
cientificismo nasce com a dominação burguesa: “Ela [a
burguesia] sabe muito bem que a principal base, e até
se poderia dizer a única, da sua força política atual,
é a sua riqueza; mas, não querendo nem podendo
confessá-lo, ela procura explicar esta força pela
superioridade da sua inteligência, não natural mas
científica; para governar os homens, acha ela, é
preciso saber muito e hoje só ela é que sabe””[12].

Pondo os devidos freios às pretensões do governo dos
homens de ciência, Bakunin igualmente ataca as
pretensões de hegemonia “científica” de Marx, seus
partidários e seu programa no interior do movimento
operário e na construção do socialismo, ao apontar
para a sociedade socialista sob poder dos
trabalhadores, diz Bakunin:



“O trabalho “em geral” não é senão uma idéia abstrata
que não encontra a sua “realidade” senão numa imensa
diversidade de indústrias especiais, em que cada uma
tem a sua natureza própria, as suas próprias
condições, que não se podem adivinhar e muito menos
determinar pelo pensamento abstrato, mas que, só se
manifestando pelo fato de seu desenvolvimento real,
podem determinar sozinho o seu equilíbrio particular,
as suas relações e o seu lugar na organização geral do
trabalho, - organização que, como toda as coisas
gerais, tem de ser a representante sempre reproduzida
de novo pela combinação viva e real de todas as
indústrias particulares e não o seu princípio
abstrato, imposto violenta e doutrinariamente, como o
queriam os comunistas alemães, partidários do Estado
Popular[13].



O movimento dialético, segundo Bakunin, entre o
pensamento e a vida, se apresenta ao fim das contas
como a determinação da ação concreta sobre o
pensamento, mas este pensamento estando igualmente
inserido no complexo conjunto de elementos materiais
que constituem a ação e a vida”. . Todo o movimento do
conhecimento racional, científico e de sua relação
dialética com a vida e a ação encontra-se expressa
numa breve frase do revolucionário russo: A abstração
científica, já tenho dito, é uma abstração racional,
verdadeira na sua essência, necessária à vida da qual
ela é a representação teórica, a consciência. Ela
pode, deve ser absorvida e dirigida pela vida[14]

Tendo assim caracterizado o bakuninismo é importante
destacar que o anarquismo é o produto e,
simultaneamente, o produtor do bakuninismo, pois é o
eixo ideológico condutor do trabalho intelectual de
Bakunin. Por outro lado, o bakuninismo é o solo fértil
de onde brota o anarquismo além de ser sua explicação
última.

O anarquismo é a ideologia bakuninista e o bakuninismo
é o pensamento anarquista. Anarquismo e bakuninismo
encontram-se indissociavelmente fundidos em uma
poderosa unidade, e a melhor prova para tal é o fato
de que ambos desenvolvem-se historicamente juntos,
construindo-se mútua e dialeticamente ao longo da
trajetória política e revolucionária de Bakunin.

A tentativa de divorciar o anarquismo do bakuninismo
provou historicamente, através da revisão promovida
por Malatesta e seu anarquismo comunista, que enquanto
fraude, só pode degenerar em revisionismo e reação, ou
na melhor das hipóteses, em confusão e hesitação. A
teoria, o programa, e a estratégia gerais do
anarquismo encontram sentido no interior do conjunto
da formulação bakuninista e fora daí tendem a
desembocar no idealismo pequeno-burguês e no
humanitarismo reacionário e conservador.

Ao afirmarmos que o bakuninismo pensamento-guia da
organização, afirmamos que encontramos no conjunto da
obra de Bakunin a base fundamental para o
desenvolvimento de nossa produção teórica,
programática e estratégica.

Entendemos que ao pensamento-guia podemos acrescentar
contribuições complementares e que desempenhem um
papel de aprofundamento com relação às suas
concepções, porém rechaçamos toda e qualquer revisão
nos postulados básicos do bakuninismo e denunciamos
toda tentativa de desvencilhar o anarquismo de sua
base filosófica bakuninista como revisionismo e
traição à causa anarquista. A unidade indissociável
entre bakuninismo e anarquismo é a chave para o
rearmamento ideológico, teórico e político do
socialismo revolucionário anarquista e
conseqüentemente do proletariado em sua luta de
emancipação.





II - a dialética da organização política com a
organização de massas (O Corpo)


Esta parte do texto visa realizar a o aprofundamento
teórico acerca da nossa linha política. Neste sentido,
pretendemos analisar os elementos que determinam o
funcionamento interno e a ação da organização política
revolucionária anarquista.

A nossa linha política define:



“Tendo por base a ideologia anarquista, podemos
afirmar que ela toma a luta e organização como
pressupostos, o que significa que: 1) existe a
necessidade de organização, tanto dos anarquistas em
organização revolucionária como da massa em movimentos
reivindicativos. Além disso, para fins operacionais,
podemos classificar as idéias e aspirações da
ideologia no que chamaremos aqui de Estratégia e
Programa Geral Permanentes, porque compõem a ideologia
anarquista, logo, não são passíveis de revisão.

A Estratégia Permanente é 1) Revolucionária, o que
significa que ela supõe o uso da força para a mudança
da sociedade; 2) Anti-colaboracionista, pois ela
boicota o sistema político burguês e leva a separação
de seus grupos e partidos. Esta estratégia exige: 1)
que os anarquistas sustentem as organizações populares
e façam propaganda dentro delas; 2) que o partido
recrute/forme líderes populares, para que estes
apliquem sua política revolucionária dentro dos seus
respectivos movimentos e lhes dêem uma direção
revolucionária. Esta Estratégia está subordinada e é o
meio principal de alcançar o Objetivo Final da
Ideologia, ou seu Programa Permanente, que é o
estabelecimento de um sistema socialista, que supõe a
destruição do Estado burguês e do Capitalismo.



Os pilares da Organização Anarquista não são somente
idéias, mas práticas e relações que evolvem formas
concretas de distribuição do poder e de organização da
tomada de decisões. “Qualquer coisa não é senão que
ela faz”, dizia Bakunin. Entendendo a centralidade da
ideologia, e os quatro princípios ideológicos
(socialismo e liberdade, luta e organização), devemos
ter consciência entretanto que uma organização não se
apóia somente sobre valores e aspirações.

Uma organização se apóia sobre princípios
organizativos que não se reduzem nem se confundem com
os princípios ideológicos. Os princípios organizativos
visam exatamente dar forma concreta e mecanismos
explícitos de regulação da ação. Nossa Linha Política
se pauta em sete pontos fundamentais, que estruturam
nossa organização:



“1º a organização se apóia sobre quatro princípios:
unidade teórica, unidade tática, responsabilidade
coletiva e federalismo.

2º a função da organização é preparar e dirigir a luta
revolucionária pelo socialismo, através da inserção na
luta política de massas, amparado num planejamento
estratégico harmônico global;

3º a estratégia geral permanente da organização supõe:
a realização de uma revolução social, ou a mudança do
sistema social pela força coletiva do povo; o
anti-colaboracionismo;

4º o programa geral permanente, seu objetivo
finalista, é o socialismo;

5º a organização mobilizará diferentes sujeitos
sociais existentes no país, dos campos e das cidades,
no desenvolvimento da luta revolucionária. Estes
sujeitos são as massas exploradas/oprimidas política e
economicamente, urbanas e rurais, ou seja, o
proletariado de nosso país;

6º o caráter da violência revolucionaria, é reativo
(uma vez que é uma reação legítima à violência da
burguesia) e libertador (garantir a emancipação das
massas e seu protagonismo no processo revolucionário);

7º o caráter violento da revolução exige a formação de
organizações armadas revolucionárias”

.

Discutiremos inicialmente a diferença entre
organização dos anarquistas (organização política
revolucionária) e a organização das massas (e sua
relação dialética). Esta temática é fundamental para
lançarmos as bases do anarquismo enquanto ideologia
revolucionária que funde uma organização política num
movimento popular.

Depois trataremos dos quatro princípios organizativos:
1) unidade teórica, 2) unidade tática, 3)
responsabilidade coletiva e 4) federalismo. O objetivo
desta discussão é criar melhores condições para
entendimento do funcionamento da organização
anarquista, de tudo que faz de uma organização o
anarquismo em carne e osso.



1 - O que é a organização política revolucionária
anarquista



Devemos saber claramente o que é uma organização
política revolucionária anarquista. O centro da
organização é a ideologia anarquista. Esta ideologia,
como vimos antes, é um sistema determinado de idéias,
valores e aspirações, manifestos numa prática
política. São estes valores e aspirações que motivam e
governam sua ação política.

A organização política revolucionária
anarquista tem sua missão: construir o socialismo
através da revolução social. Mas o que, em termos
práticos, caracteriza esta organização? Primeiramente
podemos dizer que organização política revolucionária
anarquista tem o caráter de minoria ativa. O que isto
quer dizer? A noção de minoria se relaciona
diretamente a formulação acerca da relação entre
organização revolucionária e massas populares.

Qual será a distinção entre organização específica e
organizações de massa? Como distinguir seus papéis e
objetivos, se é que são distinguíveis? Estas são
questões pertinentes e das respostas a elas dependerá
a aplicação correta da linha política e da linha de
massas.

O nosso parâmetro histórico é dado pela relação entre
a “Aliança dos Socialistas Revolucionários” e a AIT
(Associação Internacional dos Trabalhadores). Mikhail
Bakunin teoriza e define a correta relação entre
“partido e massas”, ao debater a relação entre a
Aliança e a AIT:



“A quem nos perguntar para que serve a existência da
Aliança quando existe a Internacional, nós
respondemos: a Internacional é, sem dúvida, uma
magnífica instituição, é incontestavelmente a mais
bela, a mais útil, a mais benéfica criação deste
século. Ela criou a base da solidariedade dos
trabalhadores de todo o mundo. Ela deu-lhe um começo
de organização através da fronteira de todos os
estados e fora do mundo dos exploradores e
privilegiados. Ela fez mais, já contem hoje os
primeiros germes da organização da unidade que há de
existir e ao mesmo tempo deu ao proletariado de todo o
mundo o sentimento de sua própria força. Estamos
certos também do grande serviço que ela prestou a
grande causa da revolução universal e social. Mas ela
não é uma instituição suficiente para organizar e
dirigir esta revolução.” (Bakunin, op.cit, p.72).



Por que Bakunin afirma esta insuficiência da
organização das massas? Vejamos:



“A Internacional aceita no seu seio, abstraindo-se
completamente de todas as diferenças de crenças
políticas e religiosas, todos os trabalhadores
honestos, com todas as suas conseqüências a
solidariedade da luta dos trabalhadores contra o
capital burguês explorador do trabalho. Esta é uma
condição positiva, suficiente para separar o mundo dos
trabalhadores do mundo dos privilegiados, mas
insuficiente para dar aos primeiro uma direção
revolucionária. ... os fundadores da Associação
Internacional agiram com grande sabedoria eliminando
primeiramente do programa desta Associação todas as
questões políticas e religiosas. Sem dúvida, de modo
nenhum lhes faltou opiniões políticas, nem opiniões
anti-religiosas bem marcadas; mas abstiveram-se de as
emitir neste programa, porque o seu principal
objetivo, em primeiro lugar, era unir as massas
operárias de todo o mundo civilizado numa ação comum.
Necessariamente que tiveram de procurar uma base
comum, uma série de princípios simples sobre os quais
os operários, sejam quais forem assuas aberrações
políticas e religiosas,por pouco que sejam sérios,
isto é, homens duramente explorados e sofredores,
estão e tem de estar de acordo”. (Bakunin, op.cit, p.
72-73).



A organização de massas, para poder incorporar uma
grande e crescente quantidade de pessoas, tem de ser
flexível, no sentido de que só se coloca como
pré-requisito o caráter proletário e a disposição para
a luta e organização coletiva. Logo, para poder ser
ampla, mobilizar milhões, a organização de massas não
consegue cumprir todas as tarefas necessárias a luta
revolucionária.

É por isso que se faz necessária uma
organização política que tem por função dar o
direcionamento revolucionário a organização de massas.
A relação entre organização específica e organização
de massas é assim de complementaridade. Bakunin fala
que:



“A aliança é o complemento necessário da
Internacional ... Mas a Internacional e a Aliança,
tendendo para o mesmo objetivo final, perseguem
objetivos diferentes. Uma tem por missão reunir as
massas operarias, os milhões de trabalhadores, através
das diferenças das nações e dos países, através das
fronteiras de todos os estados, em um só corpo imenso
e compacto; a outra, a Aliança, tem por missão dar as
massas uma direção verdadeiramente revolucionária. Os
programas de uma e outra, sem serem opostos em nada,
são diferentes pelo próprio grau de desenvolvimento
respectivo. O da Internacional, se os tomarmos a
sério, também é em germe, mas só em germe, todo o
programa da Aliança. O programa da Aliança, é a
explicação última do da Internacional.” (Bakunin,
op.cit, p. 72-73).



A organização anarquista e a organização de massas
mantêm uma relação dialética. Mas existem diferenças
fundamentais entre ambas: o Caráter e o Programa.

A organização anarquista tem o caráter de minoria, a
pretensão de aglutinar apenas os militantes de
vanguarda do proletariado, e porta o programa máximo,
o socialismo e a estratégia revolucionária; a
organização de massas, por sua vez, tem o caráter de
maiorias, o objetivo de aglutinar em grande número as
massas, e para isso tem como programa melhorar as
condições materiais de vida dos trabalhadores. Este
programa não contradiz o programa revolucionário,
caminha em direção a ele, mas não é igual a ele.



2 – A Plataforma Organizacional:
Unidade Teórica, Unidade Tática, Responsabilidade
Coletiva e Federalismo.


Os quatro princípios organizacionais (Unidade Teórica,
Unidade Tática, Responsabilidade Coletiva e
Federalismo) sobre os quais a nossa organização
política revolucionária se apóia, foram formulados no
documento intitulado “A Plataforma Organizacional”,
publicado em 1926, pelo Grupo Dielo Trouda[15]. È
preciso então discuti-los, saber que idéias expressam
e que conseqüências práticas trazem.

Os quatro princípios organizacionais são apresentados
na “Seção Organizacional”, em que se fala da proposta
da União Geral dos Anarquistas. Segundo a Plataforma:



“A teoria representa a força que orienta a atividade
de pessoas e organizações por uma trilha definida e
direcionada a um objetivo determinado. Naturalmente,
ela deve ser comum a todas as pessoas e organizações
aderentes à União Geral. Qualquer atividade realizada
pela União Geral, tanto no global quanto em seus
detalhes, deve estar em perfeita concórdia com os
princípios teóricos professados pelo coletivo.

2. Unidade Tática ou o Método Coletivo de Ação

Da mesma forma, os métodos táticos aplicados pelos
membros e grupos isolados dentro da União devem ser
unitários, ou seja, estar em concórdia rigorosa tanto
entre si quanto com a teoria e a tática da União.

Uma linha tática comum no movimento é de importância
decisiva para a existência da organização e para todo
o movimento: ela elimina o efeito desastroso de várias
táticas que se opõem entre si, concentra as forças do
movimento, oferece à elas uma direção em comum
levando, portanto, a um objetivo fixo.

3. Responsabilidade Coletiva

A prática de agir sob a responsabilidade de um
indivíduo deve ser decididamente condenada e rejeitada
nos postos do movimento anarquista. As áreas da vida
revolucionária, sociais e políticas, são, acima de
tudo, profundamente coletivas por natureza. A
atividade social revolucionária nesta áreas não pode
ser baseada na responsabilidade de indivíduos
militantes.

O órgão executivo do movimento anarquista geral, a
União Anarquista, ao tomar uma posição definitiva
contra a tática de individualismo irresponsável,
introduz em seus postos o princípio de
responsabilidade coletiva: a União toda será
responsável pela atividade política e revolucionária
de cada membro; da mesma forma, cada membro será
responsável pela atividade política e revolucionária
de União como um todo.

4. Federalismo

O anarquismo sempre negou o conceito de organização
centralizada, tanto na área da vida social das massas
quanto na sua ação política. O sistema centralizado
depende na diminuição do espírito crítico, iniciativa
e independência de cada indivíduo e na submissão cega
das massas ao 'centro'. As conseqüências naturais e
inevitáveis deste sistema são a escravidão e a
mecanização da vida social e da vida da organização.

Sendo contra a centralização, o anarquismo sempre
professou e defendeu o princípio de federalismo, que
concilia a independência e a iniciativa dos indivíduos
e da organização que servem à causa comum.

Ao conciliar a idéia de independência e alto grau dos
direitos de cada indivíduo com o serviço das carências
e necessidades sociais, o federalismo abre as portas
para toda manifestação saudável das faculdades de todo
indivíduo.

Mas, freqüentemente, o principio federalista tem sido
deformado nos postos anarquistas: ele tem sido
interpretado como o direito, acima de tudo, de
manifestar o 'ego' de alguém, sem a obrigação de arcar
com os deveres para com a organização,

Esta falsa interpretação já desorganizou nosso
movimento no passado. Está na hora de pôr um fim a
isso de uma forma firme e irreversível.

A federação significa a concordância livre entre
indivíduos e organizações a trabalhar coletivamente em
rumo a um objetivo comum.

Contudo, tal acordo e federação, que é baseada nele,
só poderão se tornar realidade, ao invés de ficção ou
ilusão, sob as condições essenciais de que todos os
participantes do acordo e a União cumpram
completamente os deveres assumidos, e conforme as
decisões compartilhadas. Em se tratando de um projeto
social, independente de quão vasta seja a base
federalista na qual é construído, não podem haver
decisões que não sejam executadas. É ainda menos
admissível em uma organização anarquista, que assume
exclusivamente obrigações relacionadas aos
trabalhadores e sua revolução social.

Consequentemente, o tipo federalista de organização
anarquista, ao mesmo tempo que reconhece os direitos
de independência, opinião livre, liberdade individual
e iniciativa de cada membro, requer deles que assumam
deveres organizacionais fixos, e exige a execução de
decisões compartilhadas.

Somente com esta condição o princípio federalista terá
vida, e a organização anarquista funcionará
corretamente, e se guiará em direção do objetivo
definido.

A idéia da União Geral dos Anarquistas expõe o
problema de coordenação e concordância das atividades
de todas as forças do movimento anarquista.

Cada organização aderente à União representa uma
célula vital do organismo todo. Cada célula deve ter
seu secretariado, executando e guiando teoricamente o
trabalho político e técnico da organização.

Visando a coordenação da atividade de todas as
organizações aderentes da União, um órgão especial
será criado: o comitê executivo da União. O comitê
será responsável pelas seguintes funções: a execução
das decisões tomadas pela União com as quais são
confiados; a orientação teórica e organizacional da
atividade de organizações isoladas consistente com as
posições teóricas e a linha geral tática da União; a
monitoração do estado geral do movimento; a manutenção
das relações de trabalho e organizacionais entre todas
as organizações da União; e com outras organizações.

Os direitos, responsabilidades e tarefas efetivas do
comitê executivo são fixados pelo congresso da União.
A União Geral dos Anarquistas tem uma meta concreta e
determinada. Em nome do sucesso da revolução social
ela deve, acima de tudo, atrair e absorver os
elementos mais revolucionários e altamente críticos
dos operários e camponeses.

Exaltando a revolução social, e mais ainda, sendo uma
organização anti-autoritária que aspira à abolição da
sociedade de classes, a União Geral dos Anarquistas
depende igualmente da duas classes fundamentais da
sociedade: os operários e os camponeses. Ela põe peso
igual sob o trabalho de emancipação destas duas
classes.

Quanto aos sindicatos dos trabalhadores e as
organizações revolucionárias das cidades, a União
Geral dos Anarquistas terá de dedicar todos os seus
esforços para ser seu pioneiro e guia teórico.

Ela assume a mesma tarefa em relação às massas
exploradas de camponeses. Assim como pretende ter o
mesmo papel que o sindicato revolucionário dos
trabalhadores, a União se esforça por efetivar a
criação de uma rede de organizações econômicas
revolucionárias dos camponeses, além disso, uma união
específica de camponeses, fundada a partir de
princípios anti-autoritários.

Nascida da massa de pessoas trabalhadoras, a União
Geral deve tomar parte de todas as manifestações de
suas vidas, levando a eles o espírito de organização,
perseverança e ofensiva em todas as ocasiões. Somente
desta forma ela poderá concretizar sua tarefa, sua
missão teórica e histórica na revolução social dos
trabalhadores, e se tornar a vanguarda organizada do
seu processo de emancipação.” (Anarquia e
Organização, p. 27).



Vemos que existe um encadeamento entre os quatro
princípios, e que eles se traduzem numa determinada
estrutura organizacional. Os pontos de maior polêmica,
nas críticas movidas a plataforma, foram em relação à
responsabilidade coletiva e sua interpretação do
federalismo. Por isso é importante discutir as
definições e questões de fundo.

A responsabilidade coletiva é um princípio
organizativo plenamente coerente com a ideologia
anarquista e o pensamento guia, o Bakuninismo. Este
princípio indica a relação dialética entre
indivíduo-organização, a necessidade de um controle
recíproco, de uma disciplina bem determinada. Seu
objetivo é garantir a coerência e harmonia das ações
da organização. Bakunin formula com precisão a mesma
questão:



“A fim de estabelecer uma certa coordenação na ação,
coordenação necessária, creio eu, entre as pessoas que
tendem para o mesmo objetivo, impõe-se determinadas
condições: um certo número de regras ligando cada um a
todos, determinados pactos e acordos renovados
frequentemente – se falta tudo isto, se cada um
trabalha como lhe apetece as pessoas mais sérias se
encontrarão elas próprias numa situação em que os
esforços de um serão neutralizados pelos de outros.
Disso resultará a desarmonia e não a harmonia e a
confiança serena para a qual nós tendemos.

Eu quero que no nosso trabalho haja ordem e uma
confiança serena, e que nem uma nem outra sejam os
resultados de ordens de uma única vontade, mas da
vontade coletiva, da vontade bem organizada de
numerosos companheiros disseminados em numerosos
países.



Por muito inimigo que seja daquilo que na França se
chama de disciplina, no entanto reconheço que uma
certa disciplina, não automática, mas voluntária e
refletida, estando perfeitamente de acordo com a
vontade dos indivíduos, continua a ser e sempre será
necessária, todas as vezes que vários indivíduos,
livremente unidos, empreenderam um trabalho ou uma
ação coletiva qualquer. Esta disciplina não é senão a
concordância voluntária e refletida de todos os
esforços individuais para um objetivo comum. No
momento da ação, nomeio da luta, os papéis dividem-se
naturalmente, segundo as aptidões de cada um,
apreciados e julgados por toda a coletividade: uns
dirigem e coordenam, outros executam as ordens. Mas
nenhuma função se petrifica, se fixa e fica
irrevogavelmente ligada a nenhuma entidade ou pessoa.
A ordem e a promoção hierárquica não existem, de modo
que o comandante de ontem pode tornar-se o subalterno
de hoje. Ninguém se eleva acima dos outros, ou se se
eleva, não é senão para cair logo a seguir, como as
ondas do mar, voltando sempre ao nível salutar da
igualdade.”(Bakunin, 2002, p. 60).



A temática da responsabilidade coletiva se
relaciona diretamente a questão do federalismo. O
federalismo é uma formulação política e teórica
central no anarquismo. É importante saber o que o
federalismo significa em termos práticos.

P.J. Proudhon dá uma definição do
princípio federativo:



“Federação, do latim foedus, genitivo foederis, quer
dizer pacto, contrato, tratado, convenção, aliança, é
uma convenção pela qual um ou mais chefes de família,
uma ou mais comunas, um ou mais grupos de comunas ou
estados, obrigam-se recíproca e igualmente uns em
relação aos outros para um ou mais objetos
particulares, cuja carga incumbe especial e
exclusivamente aos delegados da federação. (Proudhon,
Do Princípio Federativo, p.90)

Em resumo, o sistema federativo é o oposto da
hierarquia ou centralização administrativa e
governamental a qual distingue, ex aequo, as
democracias imperiais, as monarquias constitucionais e
as repúblicas unitárias. A sua lei fundamental,
característica, é esta: na federação, os atributos da
autoridade central especializam-se, restringem-se,
diminuem de número, de intermediários, e se ouso assim
dizer, de intensidade ...” (Proudhon, Do Princípio
Federativo, p.91)



O princípio federativo, enquanto fórmula de contrato
político, tem duas características, segundo Proudhon:
ele é sinalagmático ou bilateral, implicando obrigação
recíproca; é comutativo, já que as partes se
comprometem em dar coisas equivalentes as que recebem.

Assim, o princípio federativo coloca o equilíbrio de
poder e obrigações iguais na base das relações
políticas. Isto não significa a inexistência de
organismo centrais, muito pelo contrário, exige eles;
a diferença é que a relação de poder entre os
organismos centrais ou federais e locais e
intermediários é equilibrada. Proudhon afirma que a
função dos organismos federais é essencialmente
iniciadora[16].

O Catecismo Revolucionário, documento
programático da Aliança, apresenta também algumas
questões relativas ao federalismo:



“J. A divisão de um país em regiões, províncias,
distritos, e comunas, como na França, dependerá
naturalmente das tradições, das circunstancias
específicas, e da natureza particular de cada país.
Nós podemos indicar aqui somente os dois fundamentais
e indispensáveis princípios que precisam ser postos em
prática por um país que esteja seriamente tentando
organizar uma sociedade livre. Primeiro: todo
organização precisa proceder por meio da federação da
base para o topo, da comuna a associação coordenada do
país ou nação. Segundo: é preciso existir no mínimo um
corpo intermediário autônomo entre a comuna e o país,
o departamento, a região, ou a província. Sem um tal
corpo intermediário autônomo, a comuna (no estrito
sentido do termo) seria isolada e também fraca para
ser capaz de resistir a pressão centralística e
despótica do estado, que irá inevitavelmente (como
aconteceu duas vezes na França) restaurar o poder
regime monárquico. O despotimo se origina mais in
organização centralizada do Estado, do que na natureza
despótica dos Reis.”

K. A unidade básica de toda a organização política em
cada país precisa ser a comuna completamente autônoma,
constituída pelo voto da maioria dos adultos de ambos
os sexos. Ninguém terá quer o poder quer o direito de
interferir na vida interna da comuna. A comuna elege
todos os funcionários, legisladores, e juizes. Ela
administra a propriedade comunal e finanças. Toda
comuna teria o direito incontestável de criar, sem
sanção superior, sua própria constituição e
legislação. Mas na ordem de liga-la e torna-la uma
parte integral da federação da provincia, a comuna
precisa conformar sua própria carta constituinte
particular aos princípios fundamentais da constituição
provincial e ser aceita pelo parlamento da província.
A comuna precisa também aceitar os julgamentos do
tribunal provincial e quaisquer medidas ordenadas pela
administração da província. (Todas as medidas da
administração provincial precisam ser ratificadas pelo
parlamento provincial) A Comuna recusando aceitar as
leis provinciais não terá direito a seus benefícios”.
(Catecismo Revolucionário, p. 7).



Podemos visualizar então que o federalismo
é uma determinada forma de organização política da
sociedade e também um princípio organizativo. O
fundamental é que o federalismo significa a inclusão
das unidades locais em unidades amplas; por isso a
comuna se ajusta as regras da província e esta as
regras da organização política nacional.

No entanto é preciso distinguir o
princípio federativo, enquanto formulação política
anarquista inserida na sua concepção global de
sociedade, da federação enquanto fato social. Como
vimos, o princípio federativo anarquista significa
bilateralidade, participação de várias partes e
comutatividade, equivalência, igualdade; a federação é
a compartimentalização igualitária (administrativa e
territorial) das funções políticas.

Entretanto, existem federações na sociedade
capitalista (o Brasil é uma república federativa), mas
que se reduzem ao aspecto administrativo. O princípio,
a relação política que a ordena é baseado no
estatismo, em relações de dominação. O princípio
federativo anarquista é uma relação igualitária de
poder, que se expressa em uma administração federada,
mas que é mais que isso.

Podemos dizer assim que a Plataforma,
conscientemente ou não, resgata o verdadeiro sentido,
político e social, das formulações que já estavam
devidamente acabadas no pensamento guia: em Bakunin e
Proudhon. O federalismo não exclui instancias
concretas de coordenação central, muito pelo
contrário, as exige; o papel delas é iniciar, regular
e zelar pelos acordos coletivos. O Poder máximo no
entanto reside nas bases.

A noção de que a União geral é composta por células
(organismos locais), que por sua vez tem um núcleo
dinamizador (o secretariado), e que existirá um Comitê
Geral, responsável pela observação das decisões
tomadas e pela função de iniciar e orientar o trabalho
coletivo é simplesmente a afirmação, e não a negação,
do federalismo. A Articulação coerente entre os
organismos locais numa estrutura que funcione de baixo
para cima, e da circunferência para o centro (mas que
possui um “cima” e um “centro”) e o funcionamento
efetivo da política revolucionária, são exatamente o
cerne do federalismo.





3 – O lugar da Organização Política



A organização política revolucionária ocupa um lugar
central no processo revolucionário, no sentido que ela
tem o papel de iniciador, vanguarda e guardião. Este
elemento, desenvolvido por Bakunin, é retomado pelo
Grupo Dielo Trouda (causa dos trabalhadores) nos anos
20 do século XX, pela Agrupação Amigos de Durruti nos
anos de 1936-1937, e pela FAU nos anos 1960/70. Em
todos estes casos se veria a reprodução da distinção
da organização dos anarquistas e das massas.

A Organização Política Revolucionária Anarquista tem
um papel central a cumprir. Isto porque dada as
condições da luta revolucionária – as exigências de
mobilização do proletariado e a repressão burguesa – o
movimento de massas não tem condições de cumprir todas
as tarefas da luta revolucionária.

A Organização tem assim a missão de guiar
teoricamente, de dar o exemplo, de tomar a iniciativa
da luta, ser a vanguarda popular, em todos os momentos
do processo, como afirma corretamente a plataforma. A
formulação da FAU nos anos 70 do século XX, durante a
luta contra a ditadura vai na mesma direção:



“Mas a transformação de fundo do sistema somente se
pode alcançar na medida em que exista uma organização
especificamente política, capaz de disputar o poder
com as classes dominantes. E para isso são necessárias
formas de organização e métodos de ação que somente
uma organização ideologicamente homogênea e apta para
atuar em todos os terrenos, pode dar-se. (Cartas de
FAU, in Acion Direta Anarquista, p. 192).

O problema do poder, decisivo em uma mudança social
profunda, só pode resolver-se a nível político,
através da luta política. E esta requer uma forma
específica de organização: a organização política
revolucionária. Somente através de sua ação, enraizada
nas massas, pode lograr-se a destruição do aparato
estatal burguês e sua substituição por mecanismos de
poder popular. (...)

A atividade de uma organização política supõe uma
previsão do devir possível dos acontecimentos durante
um lapso mais ou menos prolongado, previsão que inclui
a linha de ação a ser adotada pela organização frente
estes acontecimentos de maneira a influir sobre eles
no sentido mais eficaz e adequado.” (Cartas de FAU, in
Acion Direta Anarquista, p. 194 e 196).



Em última instância, como afirmava Bakunin, a
organização tem o dever de preparar as condições para
a vitória revolucionária das massas, obtida através de
uma prolongada preparação. É preciso ficar claro que a
organização política revolucionária ocupa um lugar
central na concepção bakuninista de revolução. Sem
organização política revolucionária anarquista, não há
revolução social. Exatamente como indicado pela FAU.



4 – A Organização de Massas



Iremos discutir agora a correta concepção anarquista
da relação da organização política revolucionária com
os movimentos de massa, ou dizendo de outra forma, as
organizações e entidades proletárias e populares.
Temos como objetivo esclarecer orientações teóricas a
serem adotadas, para que possamos visualizar com mais
precisão o porque de determinadas fórmulas práticas
empregadas no trabalho político.

Iremos então detalhar como a organização de massas se
constitui, como ela deve trabalhar, como ela se
organiza internamente para poder ao mesmo tempo
incorporar massas populares com opiniões diversas,
contraditórias e preconceitos burgueses para lutar por
melhorias imediatas, e ao mesmo transforma-las em
sujeitos cada vez mais conscientes e aderentes ao
programa socialista revolucionário. A nossa Linha de
Massas determina:



1) construir organizações de massa com “caráter de
tendência”, ou seja, que combinem em seu interior a
luta reivindicativa e a orientação revolucionária,
mesmo que em estado embrionário;

2) a partir daí construir/sustentar organismos
representativos (sindicatos, associações de moradores
e etc)

3) o conjunto das organizações de tendência
construídas/dirigidas pela organização específica, e
que seguem sua linha, serão chamadas de Braço de
Massas.

4) o objetivo do Braço de massas é fazer a luta
reivindicativa com uma orientação revolucionária, mas
seu programa não se confunde com o programa da
organização. O Braço de Massas é o elo da organização
específica com a vida cotidiana do povo e seus
problemas materiais; sua função é lutar para
resolve-los e aprofundar o grau de desenvolvimento
ideológico das massas em direção ao socialismo, sempre
começando da realidade material e concreta.



Fundamentaremos teoricamente, a seguir, as orientações
práticas da nossa linha de massas.



5 - O que é a Organização de Massas ...



De acordo com a concepção bakuninista, a organização
de massas tem uma função bem determinada: é fazer a
luta política pela melhoria das condições de vida do
povo. O seu programa e as suas exigências são
direcionadas para a aglutinação dos trabalhadores para
a luta, colocando somente este critério como central
para o ingresso na organização. Vejamos o que diz
Bakunin, num artigo chamado “A Dupla Greve de
Genebra”:



“Mas ,como chegar, do abismo da ignorância, da
miséria, da escravatura em que vivem os proletários
dos campos e das cidades, a este paraíso, a esta
realização da justiça e de humanidade sobre a terra?
Para tal, os trabalhadores tem apenas um meio: a
associação. Através da associação,
instruem-se,esclarecem-se mutuamente e põem fim, por
si próprios, a esta fatal ignorância que é uma das
principais causas da sua escravatura. Através da
associação, aprendem a se ajudarem, a se conhecerem, a
se apoiarem mutuamente, e acabarão por criar um poder
muito maior que o de todos os capitais burgueses e
poderes políticos juntos. (...)

Se a Internacional conspira, o faz a luz do dia, e diz
a quem quiser ouvir. E que diz? Que exige? A justiça,
nada mais que justiça, o direito da humanidade e o
direito ao trabalho para todos. (...)

É uma obra revolucionária? Sim e não. É revolucionária
no sentido em que pretende substituir uma sociedade
fundada sobre a corrupção, sobre a exploração da
imensa maioria dos homens por uma minoria opressora,
sobre o privilégio, sobre a ociosidade e sobre uma
autoridade que protege tudo isso, por uma sociedade
fundada sobre a justiça igual para todos e sobre a
liberdade de todos. (...)

A Associação Internacional é revolucionária no sentido
de querer chegar a destruição violenta da ordem
política atualmente existente na Europa? Não. Pouco se
preocupa com esta política, melhor, nada se preocupa
com esta política.” (Bakunin, L´égalite 1869 ,in O
Socialismo Libertário, p. 7-8).



Vemos que a organização de massas tem como objetivo
lutar pela garantia dos direitos dos trabalhadores.
Mas devido a situação concreta do proletariado, ela
não pode exigir que estes assumam um programa
revolucionário como exigência de sua adesão, pois isto
faria com que a organização fosse impossível. Mas
assim mesmo a organização de massas cumpre funções
necessárias a política revolucionária; separar os
trabalhadores da política burguesa, gerar a força
coletiva, o poder dos trabalhadores.

A função principal da organização de massas (e que
define o seu caráter), fica ainda mais explícita,
quando Bakunin discute as instâncias internas da AIT e
sua importância. A AIT tinha pelo menos dois tipos de
seções, as centrais e as de ofício:



“Se só houvesse havido, na Internacional, seções
centrais, provavelmente elas já teriam conseguido
formar conspirações populares para inversão da ordem
atual das coisas, conspirações de intenção, mas muito
fracas para atingir seus fins, porque elas nunca
poderiam arrastar e receber no seu seio, senão um
pequeníssimo número de operários.,os mais
inteligentes, os´mais enérgicos, os mais convencidos e
os mais dedicados. A imensa maioria, os milhões de
proletários ficaria de fora e, para inverter e
destruir a ordem política e social que hoje nos
esmaga, é preciso a concorrência destes milhões.”
(Bakunin, op.cit, p. 68).



Apesar de não ser pré-requisito para a ação
revolucionária, a quantidade é fator indispensável
para vitória da revolução. A Revolução Social é uma
revolução das massas, das maiorias. A função da
organização de massas é aglutinar estas maiorias para
o exercício prática da solidariedade e da luta. Esta
organização é que gera o poder necessário a revolução.




6 - O Método Materialista de Mobilização do
Proletariado.



Para organizar as amplas massas é preciso, no
entanto chegar até elas e convence-las de
organizarem-se. Para isto Bakunin indicou o método
correto a ser seguido pelos socialistas
revolucionários. É o método político materialista:



“Os fundadores da Associação Internacional dos
Trabalhadores agiram com extraordinária sensatez ao
evitar assentar em princípios políticos e filosóficos,
como base dessa associação, e ao fundar-se
primeiramente apenas na luta exclusivamente econômica
do trabalho contra o capital, pois estavam certos de
que, a partir do momento em que um operário se coloca
neste campo, a partir do momento em que ganhando
confiança nos seus direitos e na sua força numérica,
se insere com os seus companheiros de trabalho numa
luta solidária contra a exploração burguesa, será
necessariamente levado, pela própria força das coisas,
e pelo desenvolvimento dessa luta, a reconhecer
rapidamente todos os princípios políticos socialistas
e filosóficos da Internacional, princípios que não são
mais, com efeito, que a justa expressão de seu ponto
de partida, do seu fim.” (Bakunin, A Política da
Internacional 1869, in O Socialismo Libertário, p.
57).



Este critério de recrutamento, que coloca como
pressuposto a luta e a organização popular, sem exigir
mais nada dos aderentes, conduzirá pela dinâmica
política da luta de classes, a um aprofundamento cada
vez maior em direção uma consciência de classe
socialista. È a prática de luta e organização imediata
(e lembramos que toda prática compreende certas
idéias) que deve ser o ponto de partida, a adesão
consciente ao programa máximo socialista
revolucionário é o ponto de chegada.
A exclusão das “idéias políticas e religiosas” dos
critérios de adesão de massas, e seu centramento na
reivindicação, é o único meio de aglutinar as
maiorias, como indica Bakunin:



“Portanto, para interessar e para arrastar todo o
proletariado na obra da Internacional,era e é preciso
aproximar-se dele não com idéias gerais e abstratas,
mas com a compreensão real e viva dos seus males
reais;e os seus males do dia a dia, ainda que
apresentem um caráter geral para o pensador, e ainda
que sejam na realidade efeitos particulares de causas
gerais e permanentes, são infinitamente diversos,
tomando uma multiplicidade de aspectos diferentes,
produzidos por uma variedade de causas passageiras e
reais. (...)

Então, para tomar o coração e conquistar a confiança,
o consentimento, a adesão,a afluência do proletário
... é preciso começar por falar-lhe, não dos males
gerais de todo o proletariado internacional, nem das
causas gerais que lhe dão nascença, mas dos seus males
particulares, quotidianos privados. É preciso
falar-lhe da sua profissão, das condições do seu
trabalho precisamente na localidade em que habita; da
duração e da grande extensão do seu trabalho
cotidiano, da insuficiência do seu salário, da maldade
do seu patrão, da carestia dos víveres e da sua
impossibilidade de nutrir e de instruir
convenientemente sua família. E propondo-lhes meios de
combater os seus males e para melhorar sua posição,
não é preciso falar-lhe logo dos objetivos gerais e
revolucionários que constituem neste momento o
programa da Associação Internacional dos Trabalhadores
(...) provavelmente ele não compreenderia nada destes
objetivos, e poderia mesmo acontecer que, estando
influenciado pelas idéias religiosas, políticas e
sociais que os governos e os padres procuram
inculcar-lhe, repelisse com desconfiança o
propagandista imprudente que quisesse converte-lo com
esses argumentos. Não, primeiramente só é preciso
propor-lhes objetivos que o seu bom senso natural e
sua experiência quotidiana não possam ignorar a
utilidade, nem repeli-los (Bakunin, o Conceito de
Liberdade, p.144-145).



O ponto de partida exigido para a adesão a organização
de massas é a luta pela melhoria das condições
materiais de vida. Este ponto de partida é o centro do
método político materialista de mobilização. É ele que
permite a aglutinação massiva de pessoas, consciência
socialista e revolucionária é um desdobramento advindo
da experiência que esta organização de massas gera.

Mas como então garantir a adesão das massas a política
revolucionária através da experiência de luta? Na
verdade esta garantia se dá porque dentro da
organização de massas existem também os
revolucionários, que vêem a luta imediata como parte
de uma luta de longo prazo pela libertação proletária.
A organização da AIT possuía na sua estrutura, como já
vimos, pelo menos duas instancias fundamentais: a
Seção Central e Seção de Ofício. Vejamos qual o papel
de cada uma delas.



7 - A Estrutura da Internacional: Seções Centrais e
Seções de Ofício


Dentro de algumas formulações anarquistas, veremos
quase sempre ser mencionada a relação dos pequenos
grupos que normalmente dão início a alguma ação com os
amplos movimentos que podem ser, e que efetivamente
são, gerados no correr do processo de luta. Assim
vemos Bakunin analisar o surgimento e desenvolvimento
da AIT:



“A seção central, já dissemos, foi o primeiro germe, o
primeiro corpo constituinte da Associação
Internacional em Genebra; ela deveria, continuar a ser
sua alma, a sua inspiradora e propagandista
permanente. É neste sentido, sem dúvida, que muitas
vezes se lhe chamou de “Seção da Iniciativa. Ela criou
a Internacional em Genebra, deveria conservar e
desenvolver seu espírito. Sendo todas as outras seções
corporativas,os operários estão aí reunidos e
organizados não pela idéia, mas pelo fato e pelas
próprias necessidade de seu trabalho idêntico. Este
fato econômico, o de uma indústria especial e de
condições particulares de exploração desta indústria
pelo capital, a solidariedade íntima e particularmente
os interesses, as necessidades, os sofrimentos, a
situação e as aspirações que existem entre todos os
operários que fazem parte da mesma seção corporativa,
tudo isso forma a base real da sua associação. A idéia
vem depois, como explicação ou como explicação
equivalente do desenvolvimento e da consciência
coletiva e refletida deste fato (Bakunin, 2002, p.
66).



Esta indicação inicial nos permite fazer uma série de
inferências importantes, que permitirão uma melhor
visualização da questão. Vemos que há uma distinção
entre as seções centrais e seções corporativas. Mesmo
nas organizações de massa, existe uma distinção entre
os núcleos geradores que devem ser também os núcleos
duros dos movimentos de massa.

Isto é importante porque contraria certas visões
socialistas reformistas e autoritárias, principalmente
social-democratas, de que as organizações de massa têm
simplesmente caráter reivindicativo (sindicalista ou
trade-unionista na linguagem leninista). Na verdade, é
possível, e historicamente provado, que a ideologias
revolucionárias nascem e se organizam dentro das
organizações proletárias e populares. O anarquismo é o
melhor exemplo disso.

As seções centrais reuniam exatamente os militantes de
vanguarda do proletariado, aqueles que já tinham
desenvolvido uma sólida consciência socialista.
Vejamos o que mais diz Bakunin sobre as seções
centrais:



“As seções centrais são os centros ativos e vivos onde
se conserva, se desenvolve e se explica a nova fé. Lá
ninguém entra como operário especial desta ou daquela
profissão; lá entram todos unicamente como
trabalhadores em geral, com o fim da emancipação e da
organização geral do trabalho e do novo mundo social
baseado no trabalho, em todos os países. Os operários
que fazem parte dela deixando à entrada sua qualidade
de operários especiais ou reais, no sentido de
especialidade, apresentam-se lá como trabalhadores em
geral. Trabalhadores de que? Trabalhadores da idéia,
da propaganda e da organização do poder tanto
econômico como militante da Internacional:
Trabalhadores da Revolução Social” (Bakunin, o
Conceito de Liberdade, p. 142).

.

Em primeiro lugar, eles deviam dirigir-se as massas em
nome de sua emancipação econômica e não da política;
primeiro em nome de seus interesses materiais, para
chegar mais tarde a seus interesses morais, sendo os
segundos interesses coletivos, unicamente a expressão
e conseqüência lógica dos primeiros. Eles não podiam
esperar que as massas viessem procurá-los, tinham de
ir procura-las onde elas estão,na sua realidade
quotidiana, e esta realidade é o trabalho cotidiano,
especializado e dividido em corporações de profissões,
já mais ou menos organizado pelas necessidades do
trabalho coletivo, em cada industria particular, para
que eles aderissem ao objetivo econômico, a ação comum
da grande Associação dos Trabalhadores de todos os
paises ...(..) O que quer dizer que a primeira coisa
que eles deviam fazer, e efetivamente fizeram, foi
organizar, em volta de cada organização central,
tantas seções de profissão quantas industrias
diferentes existissem.” (Bakunin, o Conceito de
Liberdade, p. 147-148).



As seções centrais eram compostas de “trabalhadores
revolucionários”, ou seja, proletários já adeptos de
um projeto revolucionário, aglutinados em tornos de
idéias e aspirações determinadas. São estes os que dão
inicio a organização de massas. Mas esta organização
exige do aderente que ele seja a princípio,
trabalhador e não revolucionário. A organização de
massas comporta assim em seu interior os núcleos
iniciadores que iniciam o trabalhado político de
organização e as maiorias que vão aderindo a ela pela
luta.

No entanto existe uma relação dialética
entre as seções centrais e as seções de oficio. Uma
complementa a outra, e separada elas perdem igualmente
sua força revolucionária. Bakunin diz:



“Se a Associação Internacional dos Trabalhadores fosse
composta somente de seções centrais, ela nunca teria
reunido nem mesmo um centésimo do poder que ela agora
pode se orgulhar. As seções centrais teriam sido meras
sociedades onde se debateria todo tipo de questão
social, incluindo naturalmente aquela da organização
dos trabalhadores ... (...) A imensa tarefa que a AIT
tem se dedicado não é somente econômica ou puramente
material. Ela tem, ao mesmo tempo e no mesmo grau, um
objetivo social, filosófico e moral. Longe de
dissolver-se, as seções centrais precisam perseguir
este objetivo e continuar a propagar a nova filosofia
social, teoreticamente inspirada pela ciência real -
experimental e racional - baseada nos princípios
humanísticos e na harmonia com os eternos instintos de
igualdade, liberdade e solidariedade social.”
(Bakunin, in On Program of the Alliance).



Vemos assim que a estrutura orgânica da AIT se
expressava em dois pólos antinômicos unidos
dialeticamente: a relação contínua de interação entre
os dois pólos é que fazia com que a organização de
massas não se desviasse da realidade do povo e se
esvaziasse e nem que se tornasse uma mera organização
corporativa, exclusivamente interessada em melhorias
econômicas.

O método materialista de mobilização do proletariado
conjugado com uma organização de massas com esta
estrutura faz com que o povo eduque a si próprio pela
prática. E que através dela desenvolva uma consciência
socialista, o que é indispensável para a revolução:



“O trabalhador aprende mais a partir de sua própria
experiência pessoal do que da explicação verbal dos
trabalhadores da mesma categoria, explicações que são
confirmadas pela sua própria experiência e pelas
experiências de todos os membros de sua seção. (...)

Está claro que somente as seções de ofício podem dar
uma educação prática a seus membros e que estas
somente podem conduzir a organização das massas
proletárias na Internacional, sem a qual a poderosa
participação a Revolução Social nunca será realizada.”
(Bakunin, in On Program of the Alliance).



Tendo agora uma compreensão correta da organização de
massas e sua forma de ação e organização, precisamos
entender o lugar desta organização na luta
revolucionária.



8 – O Lugar da Organização de Massas



A organização das massas é pré-condição para a
política revolucionária. Na concepção bakuninista, a
revolução social – o programa da organização política
revolucionaria anarquista – só pode ser alcançada pela
participação massiva do proletariado. Mas o mesmo
método que possibilita a mobilização massiva do
proletariado faz com que esta organização não possa
cumprir todas as tarefas necessárias a uma revolução.

A Plataforma formula com precisão os contornos
fundamentais desta concepção:



“A concepção anarquista do papel das massas na
revolução social e na construção do socialismo
difere-se tipicamente daquele dos partidos estadistas.
Enquanto o bolchevismo e tendências afins consideram
que as massas possuem somente instintos destrutivos e
revolucionários, sendo incapazes de realizar
atividades criativas e construtivas - a principal
razão pela qual a última atividade deve concentrar-se
nas mãos dos homens que formam o governo do Estado do
Comitê Central do partido - os anarquistas, pelo
contrário, acham que as massas trabalhadoras possuem
enormes possibilidades criativas e construtivas
inerentes, e os anarquistas desejam suprimir os
obstáculos que impedem a manifestação destas
possibilidades.

Os anarquistas consideram o Estado o principal
obstáculo, que usurpa os direitos das massas e retira
delas todas as funções da vida econômica e social. O
Estado deve perecer, não "em algum dia" na sociedade
vindoura, mas sim imediatamente. Deve ser destruído
pelos trabalhadores no primeiro dia de sua vitória, e
jamais deverá ser reconstituído usando qualquer outro
tipo de falsa aparência. O Estado será substituído por
um sistema federalista de organizações dos
trabalhadores de produção e consumo, unidas
federalmente e autogestionadas. Este sistema exclui
tanto as organizações autoritárias quanto a ditadura
de um determinado partido, qualquer que seja ele.

A Revolução Russa de 1917 demonstra precisamente esta
orientação do processo de emancipação social através
da criação do sistema de soviets de operários e
camponeses e os comitês de fábrica. Seu triste erro
foi não ter liquidado, em um momento oportuno, a
organização de poder do estado: inicialmente do
governo provisório, e em seguida do poder bolchevista.
Os bolchevistas, aproveitando-se da confiança dos
trabalhadores e dos camponeses, reorganizaram o estado
burguês de acordo com as circunstâncias do momento e,
consequentemente, mataram a atividade criativa das
massas, através do apoio e da manutenção do estado:
que sufocou o regime livre dos soviets e dos comitês
de fábrica, o que havia representado o primeiro passo
em direção à construção de uma sociedade socialista
não-estatal.(A Plataforma, p. 15).



Mas se as massas são a força revolucionária, como
dissemos, sua organização e método de mobilização
possui limitações. Para aglutinar muita gente, é
preciso afrouxar os laços ideológicos e “conspirar a
luz do dia”, como indicou Bakunin. Isto faz com que
somente uma organização política revolucionaria, com
coesão ideológica e teórica e capacidade de ocultação
seja capaz de dar conta das tarefas revolucionárias
publicas e clandestinas tão essenciais.

Na concepção bakuninista, as massas cumprem um duplo
papel; elas são a principal força destrutiva da
revolução, a essência do poder que destrói o Estado
Burguês e o Capitalismo; mas elas são também a
principal força construtiva, pois são os organismos de
mobilização de massa (soviets, comitês de fabrica e
etc) o centro de estruturação dos organismos de poder
da nova sociedade. Assim, as massas são o único
soberano da sociedade socialista. Estas duas faces,
destrutiva e construtiva, são indissociáveis. Por isso
a prática política anarquista é indissociável da luta
de massas.

É fundamental distinguir ainda a relação entre
determinada organização de massas e a organização
política, que acima falamos e delineamos a estrutura,
da organização das massas em geral. A FAU formula a
distinção entre o que chama de organização de tipo
sindical e a organização de tipo de tendência:



“Em primeiro lugar convém ter sempre presente que a
organização de tendência não equivale a organização
gremial, sindical ...

Não há sindicato que possa subsistir muito tempo se
abandona a defesa do grêmio que agrupa. Defesa do
grêmio em geral e de seus interesses em particular,
frente aos patrões e autoridades.

O sindicato está aberto a todos. Entre seus membros há
habitualmente as mais diversas opiniões e orientações
políticas e ideológicas e é correto que assim seja.
Estas distintas opiniões se confrontam dentro da vida
sindical e se o grêmio tem – como deve ser – um tipo
de organização que reflita com fidelidade a opinião de
seus membros, será a orientação majoritária que
expressará a opinião do sindicato. É necessário e
lógico que nos sindicatos se tratem de temas que vão
além da preocupação salarial, da luta econômica. Mas
na medida que vão – e vem – mais longe surgem as
discrepâncias. Sobre métodos, sobre formas de atuar, e
as vezes, inclusive, sobre programas. E todo isto é
normal. (...)

O sindicato não pode por isso, ser um alicerce
suficientemente sólido para construir, a partir
dele,um movimento revolucionário.

Por isso se se quer levar firmemente adiante uma linha
conseqüente de ação combativa a nível de massas, além
de atuar sindicalmente, é preciso agrupar-se como
tendência, o que implica já um primeiro grau de
definição, maior que o sindical. (...)

Os sindicatos significam um nível, primário e geral,
de ação de massas. As agrupações de tendências
coordenadas entre si e enraizadas no conjunto dos
setores mais combativos do povo, nos bairros,são um
nível superior ao anterior.” (Mechoso,Acion Direta
Anarquista, p. 189-192).



A organização de tendência é uma organização de massa,
mas distinta das organizações de tipo representativo
(como os sindicatos). A organização de tendência supõe
a aceitação de determinados métodos de luta, o que as
faz mais coesas ideologicamente que as demais. Porém
elas são ainda insuficientes. Elas só fazem esta
separação necessária de setores das massas da política
reformista e reacionária, e dão maior consistência
ideológica aos seus membros.

A organização política revolucionária
anarquista precisa gerar um movimento revolucionário.
Como é impossível gerar este movimento a partir de
organizações de tipo sindical, a organização política
tem de agrupar organizações de massa sob a forma de
tendência. A organização de massas, de tipo de
tendência orientada pela organização anarquista, é o
que chamamos de braço de massas[17].

A unidade dialética da organização política
revolucionária com a organização de massas, se dá
através de um continuo processo político, que gera
luta e organização, que permite a incorporação
progressiva do povo, devido ao seu método materialista
e ainda desenvolve a consciência socialista.





--------------------------------------------------------------------------------[1] Entendemos que esta afirmação á válida tanto para
o anarquismo e Bakunin como para a própria história
de Marx e da ideologia comunista por ele desenvolvida.
Não pode ser obscurecido o fato de Marx produziu todo
o seu pensamento do interior do contexto da luta
operária do século XIX e todo o seu pensamento
correspondia a demandas colocadas no interior da luta
de classes e no interior das lutas de Marx e seus
correligionários contra seus adversários no interior
do movimento operário. (como o anarquismo, por
exemplo).

[2] Bakunin, M. O Conceito de Liberdade. P. 19

[3] Bakunin, M. O Conceito de Liberdade. P. 20

[4] Idem. P. 24

[5] Idem. P. 17

[6] Idem. P 92

[7] Idem. P. 90

[8] Idem. P. 202

[9] Idem. P. 43

[10] Idem. P. 41

[11] Bakunin, Mikhail. O Conceito de Liberdade. P. 45

[12] Idem. P. 51

[13] Idem. P. 144.

[14] Idem. P. 47

[15] O debate em torno da organização anarquista, sua
estrutura e funcionamento, teve seus momentos mais
importantes e críticos, assim nos parece, nas décadas
de 20 e 30, com a polêmica, hoje famosa, entre Nestor
Makhno, Piotr Arshinov e Errico Malatesta sobre a “A
Plataforma Organizacional”. É preciso contextualizar
esta discussão, e vê-la também a luz do desdobramento
dos fatos históricos. Isto é necessário para que não
nos deixemos equivocar nas discussões, confundindo a
crítica da estrutura interna da organização
anarquista, com a crítica da proposta de organização
em si. È preciso analisar também as insuficiências e
vacilações que contribuíram, num momento decisivo,
para a não superação de problemas teóricos e práticos
do anarquismo e da revolução.

O debate em torno da Plataforma Organizacional se
inicia com a carta de Malatesta a Makhno, em que
comenta e faz uma série de críticas a noção central da
Plataforma Organizacional, responsabilidade coletiva.
Makhno e o grupo organizado em torno da revista Dielo
Trouda respondem a carta, não sem surpresa, diante das
críticas feitas por Malatesta e a sua recusa em
aceitar a idéia de responsabilidade coletiva.



[16] “Em lugar de absorver os Estados federados ou
autoridades provinciais e municipais em uma autoridade
central, reduzir as atribuições desta a um simples
papel de iniciativa geral, de garantia mútua e de
vigilância ...” (Proudhon, Do Princípio Federativo,
p.102)

[17] Existem organizações de tipo de tendência
independentes ou vinculadas a outras organizações
políticas. A noção de braço de massas indica assim a
vinculação da organização anarquista a determinadas
organizações de massas que seguem sua orientação.










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