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(pt) Federação Anarquista do Rio de Janeiro - Editorial do Libera: Anarquismo e Sindicatos

Date Sun, 21 Aug 2005 23:05:53 +0200 (CEST)


É ilusório acreditar que o sindicalismo, por si só, possa nos conduzir a
mudanças sociais profundas.
A atual sociedade é constituída de uma maneira perversa que, muitas vezes,
faz com que os interesses imediatos de cada categoria trabalhadora sejam
opostos. Isso faz com que, em geral, os sindicatos se tornem
corporativistas e até mesmo mantenedores do modo de produção capitalista.
Afinal, eles se estruturam segundo a organização do trabalho na sociedade
atual, organização esta ditada pelo capitalismo. Portanto a nova sociedade
não pode ser sedimentada a partir dos sindicatos, mas sim a pela
dissolução do modo de produção capitalista e pela criação de novas
organizações que correspondam a uma outra realidade, libertária e
igualitária.
No Brasil, a ação sindical se tornou mais problemática a partir do governo
de Getúlio Vargas. Este ditador fechou sindicatos livres e impôs uma
organização trabalhista autoritária, copiada da legislação fascista de
Benito Mussolini. Determinou para os sindicatos uma filiação compulsória
aos órgãos do Estado, roubando-lhes dessa forma certa independência e
muito do caráter revolucionário que haviam adquirido durante os primeiros
anos do século XX, quando ainda da vigência do ?sindicalismo
revolucionário? de orientação marcadamente anarquista.
Mas o fato é que os sindicatos têm valor e importância para nós. Na
atuação sindical podemos obter melhorias mais imediatas que também são
necessárias. Além disso, através dos sindicatos travamos contato com
outros trabalhadores e trabalhadoras que, longe de aceitar passivamente o
que lhes é ?dado? pelos patrões ou o Estado, exigem, aqui e agora,
melhores condições de vida e aprendem o valor da organização. Não deixa de
ser ainda, em quem pese o grau avançado de burocratização, o sindicato uma
escola de formação de indivíduos dispostos a reconhecer na classe uma
alternativa de aglutinação para a luta. E mesmo é dentro dele que, de
posse da perspectiva de suas limitações, o militante pode mobilizar
recursos e estrutura para o apoio necessário aos movimentos sociais que,
uma vez assumindo o caráter insurgente, não dispõem dos mínimos recursos
materiais para a manutenção da ação contra o sistema.
Assim, a partir da premissa de que o anarquismo deve estar onde estão os
trabalhadores; este não pode encapsular-se em elucubrações teóricas e
dedicar-se a projetos de sociedade futura que nunca saem do papel. Temos
que estar junto a nossa classe, levando nossa mensagem, prática e ética
libertária. Situação que, por mais limitada que possa parecer, é
imensamente mais avançada para o acúmulo de experiências dos militantes
que o isolamento em grupos de discussão pretensamente superiores à
realidade que os cerca.
É fato que, hoje, como tática, devemos dar maior ênfase ao estabelecimento
de novas formas de organização (não-hierárquica) em trabalhos comunitários
e ? sobretudo ? em ocupações urbanas e rurais, combatendo o latifúndio e a
especulação imobiliária. Pois estes movimentos questionam a propriedade,
um dos pilares do capitalismo, passando assim, para nós anarquistas, a
representarem também um elemento estratégico. Uma vez que no apoio dado às
ocupações encontramos a possibilidade de uma ação concreta nos meios
sociais, o que nos auxilia na construção de uma alternativa mais clara de
inserção, vemos também dentro dessa articulação a clara possibilidade da
definição dos objetivos a serem alcançados, não apenas devolvendo ao
anarquismo seu caráter constitutivo de classe, mas também orientando a
nossa prática para uma direção mais conseqüente e amparada pelos
tradicionais princípios revolucionários.
Tal já vem sendo feito por vários grupos anarquistas no Rio de Janeiro. É
o caso da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) atuante na
Ocupação Olga Benário, em Campo Grande, e do Coletivo Libertário Ativista
Voluntariado de Estudos (CLAVE) presente nas ocupações Vila da Conquista e
Nelson Faria Marinho (em Curicica, Jacarepaguá), entre outras iniciativas
que incluem o Grupo Ação Libertária (GAL), presente na organização de
novas ocupações.
Dessa forma torna-se importante mantermos uma proximidade com sindicatos,
inclusive levando até eles informes de nossa atuação e reivindicando apoio
para a manutenção e ampliação de projetos como estes. A Biblioteca Social
Fábio Luz, o Projeto AJAM (fabricação de bolinhos por jovens do Morro dos
Macacos), o Centro de Cultura Social do Rio de Janeiro como um todo, as
ocupações urbanas e as diversas outras iniciativas impulsionadas por
anarquistas não devem prescindir da ajuda de órgãos que congregam
trabalhadores e estão organizados, assim como quaisquer demais ações que
apontem para o estabelecimento, desde já, de uma sociedade livre e
solidária. Se por um lado, as associações de classe foram submetidas a um
processo histórico de burocratização e perderam muito de seu conteúdo
revolucionário; por outro, percebendo nos demais movimentos sociais algum
vigor para a luta, torna-se fundamental que contribuam com o que for
possível para os ganhos coletivos proporcionados pela sociedade socialista
que se faz necessário construir.
Saúde e Anarquia!!!
Federação Anarquista do Rio de Janeiro
Editorial do Libera #129 (mar-jun/2005)


Email: farj-A-riseup.net
URL: http://farj.entodaspartes.org


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