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(pt) FdCA: Anarquistas e Política [it]

Date Tue, 2 Aug 2005 13:54:43 +0200 (CEST)


Há algumas décadas amiúde no interior da Federazione Anarchica Italiana
havia advertências contra um vírus que ameaçava de se estender: a
"spagnolite": infecção fatal para os que não se conformarem às indicações
do periódico anarquista individualista de New York L'Adunata dei
Refrattari, ou que não quiserem ficar no estado de impasse daquela
organização de síntese. Um vírus semelhante a uma peste ideológica. De
qualquer forma aquela avaliação não foi um erro.
Nas fileiras do anarquismo italiano o vírus espanhol não se difundiu
muito, ao contrário do que ocorreu e ocorre na América Latina: e em todo
caso não desapareceu em Espanha, onde os anarquistas ("infelizmente"
fugidos das garras de alguns "sapientes" do anarquismo, e sem muita
familiaridade com a língua italiana - de maneira que eles não puderam
apreender "o que verdadeiramente é o anarquismo", e tiveram de
administrar-se sozinhos) tiveram a "desgraça" de fazer a única revolução
proletária e libertária da Europa ocidental depois da Comuna de Paris.

O número de Setembro de 2003 do mensal Tierra y Libertad (órgão da
Federação Anarquista Ibérica) publicou um artigo intitulado "Algumas
considerações sobre a política", que desenvolve o assunto, está
desenvolvido numa maneira substancialmente igual - por muitos dos nossos
anarquistas italianos (e não só), mas seguramente não pelos comunistas
anarquistas - ao arremesso duma pedra dentro de uma poça de água dormente:
ou seja, o artigo recusa a tese da equivalência entre anarquismo e
apoliticismo.

O autor do artigo, o camarada Julián Vadillo Múñoz, escreve:

"Evidentemente, no caso se entender a política como conquista do poder do
Estado, o anarquismo rejeita isto totalmente. (?) Mas o facto de rejeitar
o Estado como instrumento de domínio não quer dizer que o anarquismo
recuse o poder. Embora a coisa soe estranha, o anarquismo tem uma
concepção do poder e governo. Para nós ambos os postulados deveriam ser
organizados numa perspectiva horizontal. O governo deve ser totalmente
democrático, e por isto o poder deve residir onde fica a sua origem: no
povo e somente no povo. Não se concebe a possibilidade de intermediários
permanentes numa sociedade anarquista (como os parlamentários). Mas a
destruição do sistema capitalista não acontece dum dia para o outro, (...)
Por isto aqui adoptamos os postulados de Errico Malatesta: para ele a
transformação social desenvolve-se paulatinamente, criando organismos
suficientes para desmontar com efectividade as velhas instituições. Isto
não tem nada a ver com a fase transitória da ditadura do proletariado,
como propõem os marxistas, porque a organização anarquista é
descentralizada claramente e visando à destruição do Estado. (?) É
evidente que todos estes procedimentos pertencem a uma esfera clara: a da
política. Por isto nós os anarquistas somos políticos e actuamos na
política, e não devemos ter medo de o dizer. Evidentemente criticamos a
política, mas como instituição profissional. (?) Para os anarquistas a
revolução não deve ser conduzida pelos profissionais, mas pelo povo mesmo.
A gestão não deve ser atribuída a pessoas alheias aos problemas da gente,
porque isto provocaria um elitismo que colide com a essência política do
anarquismo. O anarquismo é organização, o que deve ficar claro. (?) o
anarquismo fica regulado pela disciplina mais efectiva que é o compromisso
individual de cada um, como factor fundamental para um bom desenvolvimento
social. (...) O anarquismo é político porque representa uma opção clara a
favor da nova ordem social perante as outras correntes políticas".

E este camarada também reafirma a necessidade dum dualismo organizativo
entre organização sindical e organização política (no seu caso a
Federación Anarquista Ibérica).

O recente congresso anarco/comunista de unificação da CUAC chilena,
reivindicou o Poder Popular e num documento enviado às organizações
revolucionárias anarquistas, numa óptica concretamente política - os
camaradas da Organización Libertaria Cimarron do Uruguai sublinharam que
as categorias teóricas e a acção do anarquismo devem estar conectadas 133
à análise da realidade concreta dentro da qual a prática libertária se
desenvolve. E que devem ser assumidas também as contradições que nascem da
actividade política desenvolvida dentro da sociedade contra a qual se
combate, que não é a sociedade libertária desejada pelos anarquistas.

Esta observação poderia aparecer banal, se não implicasse uma série de
problemas importantes para a teoria e a história do anarquismo;
particularmente os problemas concernentes às situações onde o anarquismo
ascendeu (não conhecemos o futuro) ao nível de movimento de massa.

É fácil responder preliminarmente que as considerações que vamos
apresentar ficam distantes a anos-luz da realidade, se considerarmos o
estado actual do movimento anarquista no mundo. Não se esqueça que por
causa desta situação geral George Woodcock acabou a sua história do
anarquismo falando da derrota da revolução espanhola, afirmando o
esgotamento da capacidade revolucionária anarquista:

"Eu fixei o limite desta história da anarquia no ano 1939. A data foi
escolhida de propósito: foi o ano da morte, em Espanha, do movimento
fundado há duas gerações por Bakunin. Hoje há ainda milhares de
anarquistas espalhados em muitos países do mundo. (?) Mas eles são somente
o fantasma do movimento anarquista histórico, um fantasma que não inspira
nenhum medo aos governos, nenhuma esperança aos cidadãos e não interessa
os jornalistas. Claro está que como movimento o anarquismo falhou". (2)

O quadro não é falso nos seus termos substanciais: podemos dizer que
considerar definitiva a situação presente exclui a priori toda a
possibilidade de melhores desenvolvimentos futuros, agora não previsíveis:
trata-se de possibilidades futuras que na história humana muitas vezes se
apresentam inesperadas aos olhos dos próprios historiadores profissionais.
Contudo, Woodcock menciona uma frase - atribuída por alguns a Makhno e por
outros a Arshinov - que contém as possibilidades virtuais dum renascimento
do anarquismo, pelo menos enquanto existirem seres humanos pensantes:

"Olhem nas vossas profundezas (?). A verdade não se encontra em qualquer
outro lugar." Nesta insistência sobre a interdependência de liberdade,
realização da justiça e da moralidade, sobre a impossibilidade da
existência duma delas sem a outra, está a lição essencial do anarquismo
autêntico". (3)

De qualquer forma, aqui não interessa muito o problema do hiato entre o
movimento anarquista de outrora e o de hoje. Com referência à Espanha, que
Woodckock menciona, deve sublinhar-se uma vez mais qual foi uma
característica dos anarquistas daquele país empenhados na luta de classe e
nos projectos de revolução social: eles elaboraram progressivamente
programas articulados de modelos novos de organização dos diferentes
sectores sociais, tentaram entender quais fossem os mecanismos "técnicos"
da produção e as mudanças necessárias; assim que, chegada a hora da
revolução, souberam bem o que deviam fazer e como garantir a continuidade
técnica/económica na administração das estruturas básicas da sociedade,
industriais e agrícolas. O que sem dúvida permitiu ao movimento anarquista
espanhol dar respostas concretas sociais e económicas aos contraditores e
às pessoas susceptíveis de ser convencidas, sem fazer somente ostentação
de enunciações de princípios filosóficos ou de conversas evasivas da
realidade.

No nível da política as coisas são sempre mais complexas.

Diz-se que aos anarquistas lhes falta uma teoria da política, quer antes
quer depois da revolução. E o problema da política para os anarquistas
assume a sua valência mais ampla à luz daquela experiência espanhola que,
pela fortíssima presença libertária, representa uma lição obrigatória
cheia de elementos fundamentais, tão nos aspectos positivos, como
negativos.

"Em Espanha a política e o poder manifestaram-se como elementos não
equivalentes. Os anarquistas que tinham o poder real, não faziam política.
(?) Isto significa que a gestão do existente e as mediações não estão
necessariamente ligadas ao domínio: não é bastante desenvolver uma acção
em proveito próprio. O poder em si não é produtor de política, a qual pelo
contrário é aquela ciência e prática, que administra - em proveito de quem
a exercita -, as relações de força expressadas pela realidade. (?) Os
comunistas não tinham, em Julho de 1936, poder nenhum: mas eles tinham uma
política. Os anarquistas, pelo contrário, desenvolvendo a revolução contra
o poder existente e contra a reformação dum outro possível poder, eram
também autores duma acção contra si próprios. Em resumo, eles -
recusando-se como poder - activavam uma política adversa à realidade de
poder expressada pela sua própria existência. (?) A experiência espanhola
demonstrou que uma revolução social é a negação do poder, mas não do poder
no seu estado puro, como relação imediata de força. (?) Deriva que a
política é insuperável, principalmente se houver uma situação
revolucionária espontânea, onde a expressão evidente do poder que existe
nas relações de força implica a necessidade duma acção de adaptação a este
estado de coisas. Manifesta-se assim que a dimensão espontânea do social
não pode absorver a demanda duma orientação geral do movimento emancipador
". (4)

Para quem conhece os acontecimentos espanhóis, o discurso é claro: e
conhecem-se os erros políticos catastróficos cometidos quando o aparelho
estatal se desmoronou e as relações de força estavam favoráveis aos
anarquistas: eles (ou alguns deles) consideraram possível controlar a
situação só em termos de "ditadura anarquista", que devia ser evitada como
a peste. A solução foi entrar no governo republicano burguês!

O facto é que o uso dos nomes não é nunca indiferente ou casual; e
enquanto no movimento anarquista houver usos sinonímicos de termos
diferentes como poder, autoridade e domínio, com o complexo do risco
iminente de violar tabus ou de lacerar o véu de Isis, existirá sempre uma
cegueira política, causadora da perpetuação de erros prejudiciais. Uma
sistematização interessante destes conceitos, na óptica anarquista,
deve-se a Amadeo Bertolo, que ofereceu os instrumentos para acabar com uma
confusão linguística intolerável e perigosa.

Bertolo distinguiu três situações diferentes, às quais atribuiu nomes
correspondentes e adequados:

a) poder como função social reguladora, ou conjunto dos processos pelos
quais a sociedade se auto-regula produzindo normas e aplicando-as,
fazendo-as respeitar;

b) autoridade como assimetria de faculdades e capacidades de decisão
típicas duma complexa divisão social do trabalho em funções e papeis
diferentes;

c) domínio como monopólio do poder exercitado por uma minoria,
política/económica que excluir deste exercício real todo o resto da
sociedade.

Estabelecidos os conceitos, deriva que o propósito básico do anarquismo
consiste na destruição do domínio; mas poder e autoridade são funções
sociais neutrais, não elimináveis também numa sociedade libertária. (5)

Se a política - da qual objectivamente não se pode prescindir nem sequer
numa fase revolucionária - por definição implica as relações de força,
então deve-se verificar além de dogmatismos, reverências teóricas,
esquemas historicamente datados, etc. o que é que realmente faz parte do
DNA do anarquismo, e o que é que - pelo contrário - ameaça realmente a
mesma razão de ser deste projecto político. O que implica também
estabelecer os elementos que podem existir dentro do anarquismo sem
prejudicar a sua coerência interior.

Em boa substância precisa-se dum tipo de fenomenologia da realidade onde
se desenvolve o trabalho político e social - e não das possibilidades de
construção abstracta da mente humana - para estabelecer uma ligação
operativa entre teoria e prática. Contudo, devemos ter bem presente que
também as teorias que quiserem modificar a realidade afinal são sempre
"verificadas pela praxe", e não têm auto-justificação.

Que a luta contra o domínio e até mesmo a rejeição conceptual deste,
pertençam à própria razão de ser do anarquismo, fica absolutamente fora de
qualquer discussão. O domínio, em síntese, é a exploração do homem pelo
homem e há alguns séculos acha a sua forma social no binómio
Estado/capitalismo. O poder, como vamos dizer depois, é algo diferente. A
luta radical contra o domínio é fundamento da revolução social autêntica.
Fora disto há só empurrões para a substituição duma classe social
dominante por outra, com uma participação mais ou menos ampla de massas
que, em todo o caso, ficam súbditas.

Mas lutar significa oposição também violenta, contra os dominantes que não
querem deixar o seu poder e até preferem confrontar-se numa luta de morte,
forçando amiúde os próprios revolucionários para além das intenções
originárias. E na fase da revolução (pouco antes e durante) resolve-se um
dos lancinantes problemas teóricos que causaram enormes derrames de rios
de tinta na história do anarquismo: se o indivíduo é auto-suficiente ou se
precisa do conjunto social. Solução em favor da segunda opção.

Implicando a revolução social a destruição das velhas estruturas -
construindo a autonomia e a administração directa duma sociedade já não
mais organizada em classes, nem dominada por aquela instituição separada e
dominante que é o Estado - deriva disto que os oprimidos de ontem devem
ter a capacidade de levar ao cabo o que os opressores não quiseram fazer e
que não querem fazer enquanto tiverem o poder nas suas mãos. Em relação a
este objectivo - como aconteceu aos sanculottes franceses, a Makhno na
Ucrânia, na Catalunha e em Aragão durante a revolução espanhola -
precisa-se também e principalmente, de milícias populares armadas, de
patrulhas de controlo etc. Precisa-se dum instrumento aborrecido pelos
anarquistas que não devem, podem, ou querem, fazer a revolução mas que,
por outro lado, as massas constituem e usam com a efectiva consciência
revolucionária delas: a coerção contra o inimigo de classe para evitar
ficarem vítimas duma coerção contrária (à maneira de Franco ou Pinochet,
para nos entendermos bem).

Uma metáfora aparentemente cínica pode aclarar este ponto: quebrar os ovos
para fazer a omeleta é instrumental; gostar de quebrar os ovos,
independentemente das omeletas, é uma doença mental. Quer as experiências
históricas do século passado, quer as aquisições modernas das "ciências
humanas" deveriam conduzir-nos a uma revisão profunda de muitas (e
persistentes) certezas optimistas do pensamento anarquista "clássico" que,
debaixo da influência forte de esquemas abstractos, privilegiava
automatismos e simplificações. Por exemplo, o "Programa dos Anarquistas"
de 1920 e muitos escritos de Malatesta, apresentam o quadro duma revolução
que "em tempo real" derruba o tirano/Estado e põe as bases duma sociedade
libertária, que se defende com uma certa "facilidade" ou "desenvoltura"
contra os dissidentes nostálgicos do regime burguês e os
contra-revolucionários. Mas depois nós tivemos:
leninismo/estalinismo, fascismo, nazismo, experiência trágica em Espanha,
expansão internacional do domínio das máfias e das multinacionais,
capitalismo globalizado, império USA, etc. E também temos a distante - e
frequentemente esquecida - lição de Etienne de La Boetie (6) sobre a
servidão voluntária, os estudos psicológicos sobre a parte irracional da
psique humana e a formação/desenvolvimento do imaginário colectivo feitos
por Castoriadis (7), o "mistério" da proliferação de situações
objectivamente revolucionárias às quais não correspondem as condições
subjectivas. Elementos todos que complicam o quadro simplista delineado
pelas análises do anarquismo de antes da guerra. Está agora fora de
qualquer discussão o facto que uma revolução social deve se confrontar com
uma série de factores que não fazem dela um evento instantâneo, mas sim um
processo de duração não breve, porque esta não deve se enfrentar somente
com o Estado e as instituições do capitalismo. O tirano não está sozinho:
também estão com ele - além dos mercenários do exército e da polícia - as
massas de cidadãos (e aqui joga pouco o facto de eles serem também as
vítimas da opressão) que temem a liberdade, estão emaranhados em
mecanismos ideológicos e psicológicos que fazem deles instrumentos do
domínio e carne para canhão a favor dos dominantes. Também estas massas
são o inimigo e elas podem sê-lo com maior ferocidade do que o próprio
tirano.

Há um humanismo anarquista que aponta e justamente, para a emancipação dos
seres humanos enquanto tais: mas trata-se simplesmente dum ponto de
chegada. O ponto de partida é a luta dos oprimidos contra os opressores e
os seus instrumentos e cúmplices. E o fulcro da opressão está nas relações
de classe. A luta revolucionária dos oprimidos e a saída insurreccional
não interessarão à maioria dos oprimidos: será só uma parte deles que irá
gerir o momento revolucionário contra o resto da população. Também em
Espanha aconteceu assim. A revolução é por excelência um evento violento e
de coerção contra os partidários da ordem vigente. E consoante o grau de
intensidade da reacção contra-revolucionária, este evento terá uma duração
menor ou maior, implicando por sua vez uma intensidade diferente na acção
defensiva/ofensiva dos revolucionários e de satisfação das necessidades
inerentes (em Espanha, durante a guerra civil, os revolucionários foram
forçados a constituir também serviços de contra-espionagem devido às
infiltrações do inimigo). Naturalmente há o problema de não superar os
limites além dos quais existem a renúncia à identidade libertária e a
constituição duma "ditadura revolucionária." A revolução - na sua fase de
revolta armada - é o momento culminante da luta de classes. Luta que se
estrutura quando começa a se consolidar numa acção de força contra os
inimigos. Luta que expressa a rejeição da opressão e das suas estruturas.
A luta de classes não é nunca precedida por votações para verificar se
houve ou não um consentimento da maioria do povo. Simplesmente, alcançado
um certo grau de intolerância, alguns explorados decidem dizer "não" à
ordem social que os explora. Cria-se então uma contraposição de acções e
forças para alcançar a prevalência dos interesses dum sector da sociedade
com prejuízo dos interesses doutro sector.

As forças ocupadas na luta contra a exploração - quando o desenvolvimento
da luta tiver alcançado níveis elevados quantitativa e qualitativamente -
determinam uma espécie de "espaço" onde construir os elementos da
sociedade nova; e então luta-se também para estender este espaço e, como
evento final, realizar o espaço social tout court. Neste "espaço social
revolucionário" formam-se as estruturas de contra-poder que se tornam cada
vez mais operantes na medida em que o aparelho estatal/capitalista se
debilitar; aqui nascem os organismos de gestão popular, de reorganização
da sociedade que obram como instrumentos das massas populares para
combater os inimigos de classe. Demolidas as precedentes instituições
políticas, desfalecido o poder do Estado, o poder popular espalha-se no
espaço revolucionário e por sua vez aumenta-o. A metáfora do espaço social
revolucionário é útil para compreender também o problema da política
libertária durante a revolução. A defesa da revolução é a defesa deste
"espaço." Na fronteira externa, a acção política e militar será a mesma de
sempre: milícias populares, luta sem trégua contra o inimigo de classe e
aplicação da justiça revolucionária. Para evitar as degenerações
ditatoriais de matriz leninista, o lado mais delicado é o interior. Aqui
será indispensável a constituição de um poder popular baseado na
democracia directa, política e económica (o que não é ditadura de
partido), e o envolvimento maior possível das massas populares na
defesa/construção da sociedade revolucionária. A luta contra cada
tentativa de monopólio na revolução deve ser desenvolvida sem hesitações.
É aqui que entram em jogo as relações de força às quais tem de
corresponder a acção política. O "Programa dos Anarquistas" que previa
"para toda a gente a liberdade de difundir e experimentar as próprias
ideias - tendo como limite só a igual liberdade de cada qual" corresponde
à uma laicização dos mito dum optimismo milenarista que, se não o podemos
excluir absolutamente, pelo menos deveria ser projectado para uma dimensão
temporal que não está próxima. No "espaço revolucionário" esta liberdade
pode ser efectiva somente para os sujeitos deste espaço, senão podem ficar
frustradas as conquistas revolucionárias e a própria defesa da revolução.
A revolução implica a) uma liberdade em relação à exploração e ao domínio;
b) e uma liberdade para a realização pessoal e social no " espaço"
libertado, agora sem exploração nem domínio, nas formas e modos que as
massas revolucionárias preferirão. Se fosse permitido que estas formas e
estes modos incluírem também a restauração do que a revolução derribou, ou
anda a demolir, simplesmente iria cometer-se um suicídio. Não eram
suicidários os marinheiros revolucionários e libertários que em 1921 em
Kronstadt se rebelaram contra a tirania bolchevique: eles pediam "a
liberdade de palavra e de imprensa para os operários e os camponeses, para
os anarquistas e os partidos socialistas de esquerda"(8) e com base nisto
novas eleições livres nos sovietes. Não para o inimigo de classe
militarmente derrotado há pouco tempo! De facto, quem queira restabelecer
o domínio e quem seja cúmplice do domínio fica automaticamente fora do "
espaço revolucionário" e, por isso, da sociedade libertária. Neste
"espaço" não actuam só os anarquistas (nem sequer em Espanha, embora o
movimento anarquista fosse potentemente de massa, aconteceu isto). Assim
numa situação com pluralidade de sujeitos revolucionários - possivelmente
acrescentado por forças burguesas contingentemente aliadas contra um
inimigo comum, mas nem por isso revolucionárias - o problema da política
põe-se com referência aos objectivos da hegemonia; de facto, sem hegemonia
como se podem influenciar os eventos? O objectivo da conquista/defesa da
hegemonia implica uma dialéctica de alianças e, no fundo, uma luta que
deveria ser desenvolvida lembrando os princípios da acção libertária no
quadro da revolução (e não só). Porém, o problema não se esgota numa
relação simplesmente binária: quer dizer "fins/princípios-meios"; mas
ternário: "fins-princípios/meios/situação particular onde se realiza a
obra".

Fins e princípios determinam uma identidade: mas nenhuma identidade fica
colocada num meta-histórico limbo; pelo contrário, a obra desenvolve-se e
actualiza-se em relação à existência histórica no esforço de realizar os
seus próprios objectivos. Fins e princípios permitem determinar as rotas
navegáveis nas águas dum mar que é totalmente outra coisa em relação aos
fins e princípios. E se a capacidade de construção herética é parte
essencial da tradição anarquista, no seu desenvolvimento como parte
fundamental do movimento de emancipação dos trabalhadores, para chegar à
emancipação de ser humano como tal - então tem sempre razão Camillo
Berneri quando escrevia "um anarquista não pode senão odiar os sistemas
ideológicos fechados (teorias que são chamadas doutrinas) e dar aos
princípios um valor relativo" (9). Relativo, em boa substância, não
significa "violável a prazer", mas expressa a exigência de uma correlação
com outro termo: termo esse que é a situação histórica efectiva. Tornar os
princípios - que na substância são pontos de referência da identidade, sem
os quais se perde o caminho - num vademécum operativo bom para todas as
ocasiões e circunstâncias, expressa um prejudicial fundamentalismo
"legalista", que leva à ilusão perigosa de poder adaptar ao domínio dos
princípios uma realidade multíplice e dinâmica, a qual tem uma vida
autónoma e espontaneamente não quer se conformar a tais princípios. Se não
fosse assim, isto significaria que as coisas já estão arrumadas (ou podem
ficar arrumadas) e que o triunfo da revolução está muito próximo. Por
isto, afinal, não se deveria perguntar tanto se o anarquismo pode morrer
fazendo mediações com a realidade (e a realidade não é ainda anarquista),
mas se morrer quando não faz assim e se fecha na ilusão duma pureza
sectária, ou quando se conforma demasiado à realidade, confiando a esta
última o papel directivo da acção. Se a luta contra o domínio for um
princípio/fim não eliminável para o anarquismo, porém não se deve esquecer
a lição de Berneri (revisionista porque queria ser um anarquista do seu
tempo): que a liberdade é inseparável duma relação contínua com as
condições postas pela necessidade; porque a liberdade não é só tensão e
esforço individual, mas também ciência das ligações que conectam a acção
humana com um determinado contexto histórico. Portanto, o fazer-se da
liberdade é "relativo" à necessidade, e o específico elemento distintivo
do anarquismo aparece determinado pela tensão para eliminar o domínio e
reduzir a autoridade nos limites da necessidade. (10) Por causa dos
limites da necessidade, nas situações concretas geralmente e especialmente
nas revolucionárias para os anarquistas, é de importância extrema alcançar
uma avaliação correcta do sentido de marcha dos eventos. Se estes - por
causa duma já existente força da organização do movimento de luta dos
oprimidos, e duma eventual posição hegemónica dos anarquistas - permitirem
apontar depressa para uma ordem libertária da sociedade, será totalmente
contraproducente renunciar a dar um golpe decisivo às estruturas de
domínio, estatais e capitalistas, sob o pretexto de não exercer uma coação
contra alguns aliados ocasionais. Mas também numa hipótese semelhante, a
necessidade queria (11) que o programa revolucionário dos anarquistas
tomasse em consideração as condições históricas nas quais se trabalha,
incluindo as tradições e características do povo que faz a revolução. Pode
ser, aliás, que a situação, embora desenvolvida em condições
revolucionárias, implique um processo evolutivo para alcançar os
objectivos e uma luta política. Se os anarquistas quiserem vencer esta
luta, será necessário ter claro quais são as forças em jogo e os
obstáculos que elas podem interpor e de que modo será possível eliminar ou
rodear os obstáculos. Nesta óptica incluem-se também as "dissidências" e
resulta importante entender quais as que têm um carácter verdadeiramente
contra-revolucionário e quais não. Tudo isto mantendo os pés bem assentes
na terra. Quando, pelo contrário, a revolução não está absolutamente à
ordem do dia, as polémicas entre "ortodoxos" e "heterodoxos" podem
florescer com tranquilidade: elas têm o efeito de clarificar as posições
de cada um. A política dos anarquistas não se esgota na luta contra as
instituições existentes, que são modalidades operativas das estruturas de
domínio e exploração. Ela também inclui a luta pela construção doutro tipo
de sociedade, cujo ponto máximo de chegada reside na substituição das
políticas pela administração. Ponto de chegada, objectivo que deve ser
realizado e que por isto implica uma tensão dialéctica passando por
contradições e antinomias e não uma passagem imediata, porque o projecto
precisa da realização de várias premissas básicas. Sendo um elemento
fundamental da política a capacidade de alcançar os próprios objectivos, a
política anarquista não pode prescindir da instauração de alianças e
colaborações tácticas com grupos e forças não anarquistas, sem ter medo de
perder a própria identidade e pureza. Exceptuando o facto (filosófico) que
não se dá nenhuma identidade senão pela interrelação com os outros (assim
como o senso do "eu" se formar pelo encontro com muitos "tu"), necessários
para o desenvolvimento da identidade mesma - a renúncia às alianças
tácticas equivale à renúncia ao exercício de sinergias, sem as quais a
esterilidade e o encerramento se tornam, cada vez mais, causa e efeito
recíprocos. As alianças simplesmente devem ser avaliadas nas ópticas
binárias do possível/impossível, ou perigoso/não perigoso, com referência
quer aos objectivos estratégicos dados, quer às situações objectivas, quer
à exigência (em nada irrelevante) de se fazer conhecer por esferas sociais
mais largas, com o propósito de difundir as suas próprias ideias. Também
aqui o elemento distintivo fundamental está na posição do aliado eventual
com respeito ao binómio domínio/liberdade ditadura/autonomia. As
alianças/convergências operativas contingentes devem ser feitas antes de
tudo com as realidades que praticam a auto-organização e que no seu
próprio interior expressam a tendência a lutar contra o despotismo. Mas
isto não pode ser completamente um elemento de exclusão. Também com forças
reformistas - mas sem preconceitos anti-anarquistas - será possível
instaurar relações contingentes, ou seja de colaboração táctica, em
circunstâncias dadas. É com os inimigos do anarquismo, com aqueles que -
se tiverem a possibilidade - voltariam de boa vontade à prática do
fuzilamento dos anarquistas; é com os inimigos radicais da liberdade que
uma aliança significaria trazer água aos moinhos alheios, água que volta
atrás envenenada.

Pier Francesco Zarcone


NOTAS
(1) J. VADILLO, Algunas consideraciones sobre la política, em Tierra y
Libertad, n.182, Setembro de 2003, pp. 14-15.
(2) G. WOODCOCK, L'Anarchia, Milano 1976, p.414.
(3) Ibidem, pág. 421.
(4) G. BERTI, Il pensiero anarchico dal Settecento al Novecento, Manduria
1998, p.855-856.
(5) A. BERTOLO, Potere, autorità, dominio, em Volontà, n.2, 1983, pp.
51-78. (6) E. de LA BOETIE, Sulla servitù volontaria, Catania 1978. (7)
C. CASTORIADIS, La rivoluzione democratica. Teoria e progetto
dell'autogoverno, Milano 2001.
(8) I. METT, 1921: La rivolta di Kronstadt, Roma, 1970.
(9) G. BERTI, op.cit., p. 858.
(10) Ibidem, pp. 867-875.
(11) Ibidem, pág. 876.


Este texto foi retirado da secção "Análise" do site da Federazione dei
Comunisti Anarchici.

http://www.fdca.it
internazionale@fdca.it

Site Internet em português:
http://www.fdca.it/fdcapt


From: Federazione dei Comunisti Anarchici <internazionale@fdca.it>

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