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(pt) Brasil: anarquismo e feminismo

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Date Fri, 17 Sep 2004 10:57:48 +0200 (CEST)


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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
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[ de anarquismo.org ]
Seria Maria Lacerda de Moura uma Degenerada?
– Uma face do Feminismo no Brasil
Com certeza, Maria Lacerda de Moura foi uma das figuras
femininas mais expressivas dos tempos contemporâneos aqui no
Brasil. Todo seu lado positivo, construtivo, crítico,
sonhador, combativo, enfim, revolucionário, já foi por demais
dito entre @s libertári@s e historiadores que buscam a
história secular da luta pela emancipação feminina. A quem não
conhece a história dessa mulher, recomendo ler a Revista
“Libertárias”, nº 1 de 1997, em um artigo da Senhora Margareth
Rago denominado “As Libertárias”. Este artigo que ora publico
não pretende ser explicativo, e sim mostrar, ao contrário do
texto de Margareth, o lado mais reacionário, nefasto,
contraditório e abominável de Maria Lacerda. Não porque
pretendo apenas fazer um resgate histórico disso que chamam de
Feminismo Tupiniquim, e sim porque todo este lado negativo e
antipopular permanecem característicos em muitos que se dizem
“libertários”. É bom sabermos que não existe quem seja bom ou
mau a toda hora, o ser humano é uma mistura de sentimentos, de
pensamentos, de ódio e amor, raiva e rancor, enfim, um ser
plural. Os libertários, como Malatesta, Bakunin e Kropotkin,
entre alguns, assumiram certa vez em suas vidas que erraram
enquanto jovens no que diziam. O amadurecimento pode corrigir
caminhos. No caso de Maria Lacerda, ou o amadurecimento não
chegou, ou ela realmente foi convicta a vida inteira das
coisas que disse, o que parece ser muito triste, porém pouco
provável.
Maria Lacerda de Moura foi professora mineira, conferencista e
escritora. Conhecida por questionar os mitos científicos
construídos sobre o corpo e a sexualidade feminina pela
medicina moderna. Em 1924, lança o livro “A mulher é uma
Degenerada?”, onde retrata o tema da sexualidade feminina.
Outro livro muito conhecido por se tratar de assuntos
delicados como Maria Lacerda tratou, como é a questão da
sexualidade, foi o livro “Amai e não vos multipliqueis”.
Maria Lacerda de Moura foi uma figura polêmica que, sem se
contentar em atacar a moral e o status burguês e os costumes
da sociedade da época, acabava direcionando seu alvo de ataque
para todos os lados, como também atacou vários militantes
anarquistas e outros militantes operários, alguns não tão
convictos dos ideais libertários, como Afonso Schmidt, na qual
considero mais um historiador do que um militante. Por sinal,
Afonso Schmidt se tornaria comunista e ingressaria, junto com
o já vacilante Astrojildo Pereira, no Partido Comunista
Brasileiro, fundado por Astrojildo Pereira, Octávio Brandão,
entre outros ex-militantes “anarquistas”, pois todos eles já
eram severamente criticados por suas posturas anti-éticas e
desvirtuadas. Afonso Schmidt nunca fora um militante engajado,
nem no movimento anarquista e nem futuramente no movimento
comunista. Porém, é uma figura importante para entendermos a
vida social e política da época. Em uma carta de Maria Lacerda
de Moura ao militante anarquista Rodolfo Felipe, Maria Lacerda
faz os seguintes comentários sobre Schmidt e seu importante
livro “Colônia Cecília”: “(...) com o natural egoísmo de
homem, próprio do sexo, não teve uma palavra (se referindo ao
livro) para aquela que foi a ‘criada’ dos anarquistas, dos
homens que não queriam explorar ninguém... , para a única
mulher da Colônia, a lavadeira, cozinheira, a tábua de bater
roupa de todos... Não perdoei essa falha! Livro de homem,
mesmo que fosse anarquista...”
À exceção do trecho, há passagens dignas na carta enviada,
como ferrenha satirização dos comunistas e de passagens na
qual Schmidt acusa Bakunin de “niilismos”, duramente criticada
por Maria Lacerda, que se refere ao trecho dizendo “A segunda
grande falha, proposital, talvez, porque é a unhazinha do
comunista que saltou, sem querer...”
O descuido para com a mulher contido no livro de Afonso
Schmidt, que busca retratar a experiência anarquista no Paraná
com a Colônia Cecília, não foi uma exclusividade só dele.
Outros escritores, jornalistas e até mesmo elementos
anarquistas com participação na Colônia Cecília esqueceram os
nomes das colaboradoras femininas, o que de certo é um erro
gravíssimo, pois o trabalho físico das mulheres na comunidade,
sua presença nas reuniões coletivas e seu desprendimento não
podem ser ignorados. Sabe-se que algumas delas renunciaram ao
conforto das cidades. Algumas doaram suas jóias para comprar
sementes e ferramentas, realizaram tarefas valiosas, além dos
serviços de cozinha e higiene nas habitações, apoiavam os
companheiros, incentivando-os a continuar na luta depois de
mais um dia de trabalho malsucedido.
Até Giovanni Rossi - conhecido por sua tese sobre “Amor e
Família”, o amor livre – cometeu injustiças, deixando no
esquecimento os nomes das colaboradoras femininas na
experiência anarquista no Paraná.
Porém, Zélia Gattai, mulher de Jorge Amado (que por sinal é
comunista), em sua fantasia excessivamente romântica
intitulada “Anarquistas graças a Deus”, comete a mesma
injustiça com as mulheres, o que certamente joga por terra o
visível femismo de Maria Lacerda. Zélia fala da passagem de
sua avó, Argia Fagnoni Gattai, sem dar a devida importância à
sua firmeza ideológica e participação na colônia, nem mesmo
levando em conta a perda de um filho logo ao chegar ao Brasil.
Sobre seu avô, Francisco Gattai, fundador da Colônia Cecília e
pioneiro do anarquismo no Brasil, idéia que defendera até a
morte, Zélia comente a mesma injustiça. De certo, seria justo
que qualquer homem reivindicasse o nome de Francisco Gattai,
sonegado por Zélia? E qual seria essa a diferença perante a
crítica de Maria Lacerda? Penso eu, nenhuma! Ambos os nomes e
sexos não poderiam em hipótese alguma ser negligenciados, ou
“esquecidos”, da forma que foram.
Maria Lacerda foi, visivelmente, a arquiteta do femismo
brasileiro, ou até mesmo, quem sabe, uma militante femista. O
femismo é a deturpação máxima da luta pela emancipação
feminina, o feminismo. O femismo, em vez de lutar pela
igualdade dos sexos, luta pela abolição do sexo masculino.
Isso me parece muito com a política de um certo Stalin que
eliminava a oposição em seu governo. Uma femista deve ser
suficientemente psicótica para ver no sexo masculino, como
elas vêm até hoje, a oposição para a emancipação da mulher. De
certo, homens machistas e reacionários estão aos montes na
sociedade, porém, sempre pensei que a generalização fosse um
ato típico do fascismo italiano ou do nazismo alemão, e também
não longe disso, do Totalitarismo soviético. Se a sociedade
estava e ainda está cheia de machismos e idéias retrógradas,
ainda mais na época da Maria Lacerda, também estava cheia de
homens sonhadores, de verdadeiros exemplos de luta, de seres
humanos, de corações fraternos. Esses homens se encontravam
aos montes nas fileiras dos movimentos operários da época, e
do movimento anarquista, certamente, até hoje.
É muito interessante e válido colocar aqui um trecho da carta
de Piotr Kropotkin, publicado em “Le Revolte”, em 1893, onde
Kropotkin contesta Coppés, crítico da Colônia Cecília, com a
seguinte frase entusiasmadora, característica própria e
fantástica em Kropotkin: “Ainda que lhe desagrade, o ideal
Anarquista não é pôr as mulheres em comum: A Anarquia proclama
a igualdade da mulher e do homem, reconhece sua independência,
sua total autonomia, inclusive nos atos de amor”.


Além dos textos e comentários de cândido fundo femista, Maria
Lacerda de Moura também chegou a deixar escancarado um
moralismo conservador, diríamos hoje em dia, e passagens tão
contraditórias que fica quase impossível identificar quem foi
realmente Maria Lacerda de Moura.
Maria Lacerda de Moura se colocava visivelmente acima das
massas populares, e considerava, sem nenhum pudor, o
proletariado como um ser selvagem, ignorante, incapaz de
conduzir-se a sua auto-emancipação. Acredito que alguém que
não creia na enorme criatividade e capacidade das massas não é
revolucionário, não tem espírito revolucionário. É um filho de
uma cadela! E assim eram, e para a nossa infelicidade ainda
são, os marxistas, ou marxistalóides. O que mais combatemos no
marxismo - seja em suas faces leninistas ou stalinistas -
dentre outras coisas, é o profundo desprezo pela capacidade de
auto-emancipação das massas. Através disso, esses crápulas do
povo nos objetam que é necessário haver uma vanguarda, uma
elite cultural, que guiará as massas para sua emancipação.
Parece visível que Maria Lacerda compartilha o mesmo absurdo
raciocínio.
O seguinte trecho expõe o pensamento de Maria Lacerda e tudo o
que os anarquistas devem, infelizmente, repudiar nela:
“Não é desconhecendo os problemas da vida real ou omitindo-os
que poderemos auxiliar moralmente os que sofrem por ignorância
dos seus deveres humanos. Não é fingindo que não existem tais
problemas que poderemos amenizar algumas dores e reeducar os
sentimentos dos seres ainda animalizados. Que poetas subam com
seus instrumentos para cantar a beleza, espreitando as rosadas
nuvens: é talvez sua missão. Porém, nós, os pensadores, temos
que descer até o povo rude da alta ou da baixa sociedade, pois
todos são iguais... para faze-los dar um passo mais em sua
elevação espiritual. A nós cabe criar formas, pensamentos de
vida PURA, a noção de responsabilidade e de dever, e em
silêncio voluntário, em solidão e em meditação de uma vida
quase asceta, temos que fazer algo para despertar o íntimo dos
adormecidos nas calçadas das ruas da vida. E não é escondendo
a verdade e as injustiças humanas, senão defendendo o que é
nobre, tendo a coragem de olhar de frente a comédia humana da
mentira e dos ídolos sociais, tendo a temeridade de olhar de
frente a hipocrisia geral, que a boa educação convencional
acredita necessária ao bom entendimento e à diplomacia de
salões ou grã-finismo exótico e idiota”.
Em 1925, ela se ousa mais uma vez: “Não podemos passar por uma
mulher do povo, quase selvagem na sua ignorância...”
Fica visível que Maria Lacerda de Moura acredita estar em um
pedestal acima das massas (“nós, os pensadores, temos que
descer até o povo rude...”), depois afirma que serão os
pensadores os guias da emancipação popular (“A nós cabe criar
formas, pensamentos de vida pura...”). Ou seja, Maria Lacerda
de Moura se colocava como uma pessoa civilizada que precisava,
como um dever “revolucionário”, passar consciência ao povo
para que ele saísse de seu sono animalesco, selvagem,
ignorante e incapaz. Este aspecto é típico naqueles
anarquistas puritanos, como Federica Montseny na Espanha, na
qual julgavam qualquer forma concreta de luta Autoritarismo e
rompimento com a real idéia libertária.
É muito claro que a sociedade anarquista, idealizada e
“planejada” por Maria Lacerda, é algo abstrato e por demais
infundado – o que não lhe tira outros méritos importantes.
Maria Lacerda se baseia apenas no fator cultural, intelectual,
como meio de alteração das condições sociais. Com tanto que se
definia como pacifista, o que presume que ela acreditava ser
possível a revolução sem armas, a não reação do Estado e das
forças do capital, e outras coisas já muito óbvias aos
anarquistas de hoje, e também da época (A Ação Direta não era
e nem é mera abstração filosófica).
Maria Lacerda, segundo suas próprias palavras, se considerava
uma “individualista”, adepta da “suprema-resistência” e da
“não-violência”, na linha espiritualista de Jesus Cristo,
Tolstoi e Gandhi. Na verdade, penso que Maria Lacerda não
soube interpretar Tolstoi, se o tivesse feito bem, não diria
metade das asneiras que se atreveu a profanar.
Maria Lacerda negou todas as rotulações que lhe foram dadas,
como de “Sargento Reformista, “Feminista”, “neo-malthusiana”,
“comunista” e “sexóloga”. Porém, em contradição com a recusa
de participar de partidos ou estabelecer programas, acabou
delimitando um, ainda que por negação, em 1935:
“Abster-se de toda função pública de ordem administrativa,
judiciária, militar; não se prefeito, juiz, polícia, oficial,
político ou carrasco. Não aceitar funções que possam
prejudicar a terceiros. Não ser banqueiro, intermediário em
negócios, explorador de mulheres, advogado, explorador de
operários. Não ser operário de fábrica de munições ou armas de
guerra, não ser operário de jornais clericais ou fascistas.
Recusar ser instrumento de iniqüidades. Sacrificar o corpo, se
for preciso – do número de coisas indiferentes para o estóico
– a fim de não sacrificar a razão, a liberdade interior ou a
consciência.
Não denunciar, não julgar, não reconhecer nenhum ídolo – nem
reacionário, nem revolucionário. Não matar. Resistência ativa,
ação direta, a nova tática revolucionária de suprema
resistência ao mal, a não-violência”.


Investiu, na maior parte de sua vida militante, na carreira
educacional, seja em livros orientados a consciência feminina,
o que são mais freqüentes, seja em outros aspectos sociais.
Maria Lacerda chegou a ser professora nas Escolas Modernas e
Universidades Populares.
Chegou a afirmar certa vez: “Eduquem a Mulher, despertem a sua
consciência, iluminem a sua clarividência moral e ela
reformará o mundo...”, o que mostra seu instinto pela ação
educacional, muito freqüente, mas não só investida, entre os
anarquistas na época.
Em seu Livro “Lições da Pedagogia”, de 1925, escreve:

“Guerra ao analfabetismo, sim, porém, guerra sem tréguas à
ignorância presumida, à tibieza de caráter; ao orgulho tolo, à
vaidade vulgar, à pretensão, à ambição pessoal, ao egoísmo
sórdido, à intolerância, ao sectarismo absorvente, aos
preconceitos de uma civilização que desmorona, em suma: guerra
à mediocridade, à vu;garidade e à prepotência assegurada pela
autoridade do diploma, do bacharelato incompetente, nulo e
jactancioso”.
Pois bem, difícil é saber o que Maria Lacerda considera como
intelectualidade, pois ela se considera uma e afirma, com
todas as letras, que os pensadores, elevado às massas, devem
erguer sua mão ao povo, em um gesto nobre, e guia-los a sua
emancipação. Maria Lacerda não é fato isolado, é parte de um
confusionismo característico do individualismo. Ao menos,
Maria Lacerda não considera os acadêmicos formados pelas
academias do Estado e do Clero seres pensantes e intelectuais.
Seria demais afronta se assim os considerassem, visto que
freqüentava os centros culturais dos operários, as escolas
baseadas no educador Francisco Ferrer e nas suas escolas
modernas, como forma de oposição ao ensino dogmático do
Estado, onde só os filhos da burguesia tinham acesso, e do
Clero, onde a educação religiosa e intensamente reacionária
acabaria com os cérebros dos filhos do povo.


Por fim, a grande cisão entre os Anarquistas e a Senhora Maria
Lacerda de Moura ocorreu, primeiramente em 1923, e a outra em
1935.
A primeira cisão ocorreu como resultado da conferência
“Conformados e Rebeldes”, um festival do Jornal “A Plebe”,
organizado pela União de Artífices em Calçados, onde ela
palestrou em 25 de agosto de 1923. O público, formado de
anarquistas revoltados com as violentas perseguições movidas
na União Soviética aos opositores do Comitê Central e da
ditadura sob o proletariado, movidos a cabo por Lênin e
Trotski em seu Partido Bolchevique, e já sob conhecimento no
Brasil dos ocorridos na Ucrânia com a Makhnovistchina e em
Kronstandt, além de se contar com o ódio sentido por
Astrojildo Pereira entre os outros pelegos que viriam a
formar, em 1922, sob sórdida traição, o Partido Comunista
Brasileiro (Sessão Brasileira da Internacional Comunista,
chefiada por Moscou). Maria Lacerda de Moura teve a infeliz
decisão de discursar, propositalmente ou não, sobre a obra
educacional do Ministro Soviético Lunacharsky, oferecendo-lhe
elogios em seu discurso.
Uma série de artigos em A Plebe (4/8/23, 4/9/23, 27/9/23 e
10/10/23) discute a atitude independente da conferencista com
surpreendente desprezo e tenta explicar aos leitores o sentido
daquela apresentação esdrúxula. A conferencista teria querido
demonstrar pesar pela perda de energia dos companheiros, em
discussões estéreis e prejudiciais. Apesar de ponderada, a
reação não se fez esperar. Começaram a rarear os convites e as
atuações conjuntas, e somente dez anos depois, em 1933, é que
Maria Lacerda de Moura voltaria a se aliar com os anarquistas
na campanha contra a guerra e na famosa Liga AntiClerical, que
foi ponto de resistência e a mais forte expressão anarquista
no Rio de Janeiro até 1930.
A segunda cisão, também muito polêmica, se deu em 1935, em
conseqüência da publicação de seu livro antifascista:
“Fascismo – filho direto da Igreja e do Capital”, em que Maria
Lacerda de Moura declara desvergonhadamente que além de Jesus
Cristo não conhecia outros anarquistas. Foi novamente em A
Plebe, agora em nova fase, em que Pedro Cátalo e Oswaldo
Salgueiro (19/9/35 e 12/10/35) passaram a criticá-la
ferrenhamente, sublinhado a inconsistência teórica e política,
as imprecisões e contradições de seus escritos e de sua
atuação. Novamente questionaram a escritora, pertencente,
segundo ela mesma, à elite dos pensadores, candidata a guiar
as massas para sua emancipação, sobre seu apoio implícito à
União Soviética, que manifestara na conferência de 1923;
questionaram suas preocupações espiritualistas e o interesse
pelas ciências ocultas, as ligações com a Fraternidade Rosa
Cruz e com o Círculo Esotérico de Comunhão do Pensamento.
A confluência de convicções espiritualistas, com participação
maçônica e práticas esotéricas, ocorreu entre anarquistas de
diversas tendências, como no conhecido caso de José Oiticica,
que fora grão-mestre da Fraternidade Rosa Cruz. Não seria este
o aspecto que os distanciaria.


Afirmando que Maria Lacerda de Moura não era uma adversária
dos anarquistas, os anarquistas a negavam:
“carta de alforria para poder dizer de nós os disparates que se lêem em
seu último livro. Maior, muito maior obra fizeram os anarquistas desde há
um século para cá, e, entretanto, Maria Lacerda de Moura, por um milagre
do tinteiro, baniu-os da face da terra (...) Já se falou muito mal dos
anarquistas, porém, uma aberração tamanha não havia saído de nenhum
cérebro sensato. Foi Maria Lacerda de Moura quem teve a idéia infeliz e
irrefletida de fazer passar pelo prelo a idéia absurda de que o anarquismo
é um postulado para burgueses. Isso não é mais do que uma fórmula
deselegante de repetir os insultos proverbiais que os comunistas proferem
contra nós, chamando-nos de traidores, policiais e
contra-revolucionários”.
O artigo de A Plebe, com tom satírico, mostra como foram as
divergências na época. Na verdade, acredito que a cisão em
1923 fora um pretexto, um ato de justificativa e a última gota
para que fossem cortadas as influências de teor puritano, do
anarquismo cristão, contidos em Maria Lacerda de Moura, em um
período que o anarquismo encarava uma fase violenta de
repressão, entre prisões, mortes e extradições (a fins
didáticos, este período é marcado pelo governo fortemente
repressivo, e talvez o mais repressivo da república velha, de
Arthur Bernardes, que chegava a deportar cerca de 200
imigrantes por ano. Além disso, Bernardes começou o
planejamento de fiscalização social, colhendo dados para que
se soubesse cada movimentos de “agentes suspeitos do delito em
anarquia” nos círculos sociais, criando a polícia de
inteligência). Na verdade, as idéias típicas como as de Maria
Lacerda, nunca foram tão bem vistas dentro do movimento
operário onde as tendências libertárias eram fortes, e as
influências de idéias individualistas eram coisas esporádicas,
além de serem vistas por muitos militantes da época como
aberrações, por essas idéias nunca terem colaborado com a
unidade e ação do proletariado organizado.
Acrescenta-se que Edgard Leuenroth, que teve a colaboração da
jornalista Maria Lacerda tanto em A Plebe quanto em A
Lanterna, ao escrever em 1953 seu livro “Anarquismo: Roteiro
de libertação social (Antologia de doutrina – Crítica –
História – Informações)”, não menciona qualquer dos livros ou
conferências de Maria Lacerda de Moura.
A exclusão, portanto, ocorreu de parte em parte. Estabelecidas
às divergências, é preciso concordar que as convergências
também eram significativas: O discurso panfletário, a
tendência antiliterária e a preocupação permanente com a
missão educativa. Porém, os outros libertários foram além,
procuraram organizar os sindicatos, fundar seus jornais, ir
para a prática da ação direta (e as outras coisas chamadas de
“ginástica revolucionária”), enquanto Maria Lacerda se prendeu
a coisas muito específicas e por sua vez rejeitava muita das
ações revolucionárias dos anarquistas.
Maria Lacerda tinha um estilo, porém, muito característico em
sua escrita. Para comprovar isso, basta que comparemo-la à
Isabel Silva, onde se refere à Maria Lacerda de Moura:


“D. Maria Lacerda de Moura fazia longa e franca propaganda do
sufrágio feminino. E eu, como mulher, combatia essa campanha,
pois aspiro à minha integralização nos direitos sociais, mas a
quero completa e de fato (...) D. Maria Lacerda analisou os
característicos da mulher burguesa, da média burguesia e da
proletária, terminando numa apoteose ao delicado problema da
emancipação feminina de acordo com os mais altos ideais
humanos (...) É que ela se havia feito oradora culta e
excelente, na contemplação da tragédia social, para,
obedecendo a um impulso d’alma generoso, desistindo dos
louvores e incenso da aristocracia, vir comungar o seu
pensamento no seio dos humildes, onde não existe exageração de
gestos louvaminheiros, mas de onde transuda perfeita
sinceridade, leal e carinhosa camaradagem e a exata
compreensão pelo que a vida tem de sério, de grave e de
meditativo.”
Isabel Silva – A Plebe, 27/09/1923.



Por sinal, Maria Lacerda e mais algumas mulheres chegaram até
mesmo acusar Lima Barreto de reacionário machista. Por sinal a
burguesia adorou, como adora muitas idéias e feitos dos
individualistas (Não tenho nada contra alguns dos
individualistas). E o senhor Fernando Teixeira de Andrade, que
infelizmente é professor de Literatura do Colégio e Curso
Pré-Vestibular do Objetivo, não deve ter se contentado de
alegria em colocar no Livro nº 20 de Literatura (1) que é
distribuído e a milhares de seres supostamente pensantes de
São Paulo e do Brasil, alunos desse hediondo sistema de
ensino, que Lima Barreto possui fortes contradições e traços
reacionários (página 225 do livro), afirmando que Lima
rejeitava a ascensão profissional e social da mulher (social
devido ao voto). Ora, ora, ora, ah senhor Fernando Teixeira e
Alfredo Bosi, danadinhos, ainda pego vocês de jeito.
Felizmente estes dois infelizes, professores do Objetivo e da
UNIP, estão muito longe de chegarem perto dos grandes mestres
como fora Maurício Tragtenberg. (1)
Quanto à questão do voto, certamente Lima Barreto se opunha
pelos mesmos motivos nobres que Isabel Silva, e acredito que
isso é suficientemente claro e não precisa ser comentado,
visto que os anarquistas não votam e sempre rejeitaram e
boicotaram as eleições.
Quanto à ascensão profissional, me parece ser igualmente
lógico. Já não se basta a escravidão maciça de homens, algumas
mulheres e crianças em verdadeiros calabouços torturantes e
medievais na qual eram submetidos? Agora, finalmente, as leis
do mercado iriam institucionalizar a mão de obra feminina. As
mulheres conseguiram por algum tempo se safar da escravidão.
Felizmente, a garra dessas heroínas fizeram com que ambos os
sexos travassem em conjunto suas lutas pela emancipação
social. Até hoje, a mulher é marginalizada no trabalho e
vítima de abusos e racismos.
Claro que entre a Senhora Maria Lacerda de Moura e a Camarada
Isabel Silva, fecho e luto com Isabel. Aliás, uma grande pena
que a vida dessa companheira não seja estudada mais a fundo.
Talvez seja um contra-ponto forte aos bajuladores da Senhora
Maria Lacerda, mas não que eu a odeia por completo. Como disse
na introdução, não existem ninguém que seja bom ou mau o tempo
todo, e até mesmo a Maria Lacerda tem alguma coisa útil para
nos passar, talvez um exemplo exótico de vida ou talvez algum
exemplo militante, talvez, muito talvez Alguns interesses
acadêmicos deve haver por trás disso, como não sou acadêmico,
tão pouco intelectual, prefiro nem citar ou saber destes
interesses. O que me interessa é o exemplo militante, humano,
cultural, e tudo quando é de construtivo nos camaradas do
passado que ainda deixam seu espírito de luta presente para as
novas gerações. De resto, não me interessa mais nada, nenhum
título ou diploma.

Considerações Finais:

Gostaria de encerrar essa matéria com um trecho da grandíssima militante
anarquista Anita Figueiredo, que colaborava na imprensa anarquista. Este
artigo, publicado na revista Renovação, em 1921, faz parte de uma série de
artigos por ela publicada intitulado “A mulher e a Religião”, e em um
deles, continha o seguinte apelo:
“A Anarquia é o ideal que reúne todos os elementos com que se
poderá organizar uma sociedade onde os seus membros gozem a
felicidade e o bem-estar compatíveis com os ditames da moral e
da razão. É pela anarquia que a mulher, inteiramente
consciente dos seus direitos, deve lutar, juntando seus
esforços ao do seu companheiro.”
Em prol do elevado ideal da anarquia, peço às mulheres em
geral para se afastarem da influência nefasta da religião e
para trabalharem para a organização de uma sociedade onde os
deveres e os direitos sejam iguais para todos e onde não
exista deus nem diabo”.
José Oicitica, escrevendo para a revista “A Vida” sobre a “energia
feminina” convoca a companheira do homem para lutar pela emancipação
social e humana ao seu lado. Hoje, diríamos a companheira do homem e a
companheira da mulher.
..............

(1) – No caderno do Objetivo de Literatura, nº 20, pág. 225, a biografia e
traços gerais de Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 – 1922) é feita
por Antonio Arnoni Prado (através do livro “Literatura Comentada”), que é
o organizador do livro “Libertários no Brasil – Memórias – Lutas –
Cultura” utilizado como livro de base para esta matéria


*Obras Citadas, Utilizadas e Recomendadas sobre o Assunto:

·Libertários no Brasil – Memórias – Lutas – Cultura. Organizador: Antonio
Arnoni Prado
_Maria Lacerda de Moura e o Anarquismo – Miriam L. Moreira Leite

_Mulheres Libertárias: Um Roteiro – Francisco Correia

· Revista Libertárias, nº1, 1997 – “80 Anos de Revolução Russa”

_As Libertárias – Margareth Rago

· História do Movimento Operário Revolucionário – “Pavilhão Negro Sobre
Pátria Oliva” (Alexandre Samis)
· O Ano Vermelho: A Revolução Russa e seus Reflexos no Brasil – Moniz
Bandeira, A.T Andrade.
Quem quiser adquirir qualquer número da Revista “Libertárias” e o
Livro “História do Movimento Operário Revolucionário”, basta
entrar em contato com: Editora Imaginário: Tel: 3864 3242. End.:
Rua Ciro Costa, 94, conj. 1, Perdizes.
Margareth Rago, autora do artigo, é grande fã de Maria Lacerda de Moura.
Em sua matéria na revista, achei de grande valia dar uma pagina inteira
dedicada a M.L de Moura, porém, acho uma profunda injustiça que se dedique
apenas um parágrafo para citar Sônia Oiticica. Sobre Luce Fabbri, a
senhora Margareth Rago já publicara um livro com sua biografia. Ainda
estou na expectativa que Edgar Rodrigues lance algo sobre Sônia.
Atualmente só há uma obra de Maria Lacerda de Moura em circulação
conhecida, que é “Serviço Militar Obrigatório para mulheres -
Recuso-me! Denuncio!”, que pode ser adquirido com: Rede Libertária
da Baixada Santista. Contato: redelibertaria_bs@yahoo.com.br. Caixa
Postal 99, CEP 11010-010 Santos/SP
Outros Livros são possíveis de se encontrar na biblioteca do Centro
de Cultura Social (CCS). www.ccssp.cjb.net



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