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(pt) [Brasil] Carta Aberta a UNIPA: anarquismo e a reconstrução da prática/teórica

From paranoi@riseup.net
Date Thu, 2 Sep 2004 08:01:38 +0200 (CEST)


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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
http://ainfos.ca/ http://ainfos.ca/index24.html
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[Resposta aos documentos "Revolução Social no Brasil" e "Carta aos
Revolucionários Anarquistas". O autor deseja ver as críticas, sugestões e
acréscimos as suas considerações: paranoi@riseup.net]
Considerações Históricas
O anarquismo, como prática revolucionária, nasce do movimento de luta,
encabeçado pelos operários no século XIX, contra a exploração capitalista
e a opressão da classe dominante. Sua constituição como ideologia
revolucionária advêm de vários pensadores e correntes de pensamento,
baseados na prática do movimento operário; assim constitui-se o
"movimento anarquista" durante o período da I Internacional (1864-72),
perdurando até os dias de hoje (as vezes com modificações de acordo com a
conjuntura, enquanto outras vezes não se modificou em nada). Há de se
lembrar, que algumas "correntes do anarquismo" se afastaram do movimento
operário e constituíram suas idéias no indivíduo (seja ele qual for) ou
nos bairros/comunas/municípios (municipalismo libertário, mas não o
comunalismo), deixando de lado a "luta de classes" que encabeça a ação do
movimento operário (neste sentido, não acho pertinente adjetivarmos essas
concepções como "burguesas" ou "pequeno-burguesas" sem abrirmos uma
discussão - recomendo o livro do Luigi Fabbri "Las influezas burguesas en
lo anarquismo", que pode ser encontrado pela internet - além disso, não
tem muito sentido chamar de anarquismo, ideologias que iniciam sua
discussão através de outros pontos que o anarquismo não iniciou, pois
sendo assim, poderíamos definir que qualquer coisa seria anarquismo).

O anarquismo como movimento, foi encabeçado em seu início por Mikhail
Bakunin, revolucionário russo, fundador da Aliança da Democracia
Socialista e participante da I Internacional (não podemos esquecer aqui
da contribuição de Proudhon, não só com o seu sistema de idéias -
dialética serial, antinomias, críticas econômicas, federalismo - mas como
contribuição a luta operária - associações mutualistas, sindicalismo
revolucionário, formação da Internacional, atuação dos mutualista na
Comuna). Neste início a teoria revolucionária anarquista estabeleceu-se
com os princípios materialista, classista, dialético e histórico,
seguindo principalmente as principais discussões no campo socialista
(isso nas décadas de 1860/70). Após a (auto)destruição da Internacional,
as correntes socialistas (blanquismo, bakuninismo, marxismo, lassallianismo,
outros ‘ismos’) se afastaram cada vez mais uma das outras, iniciando
caminhos “originais” para cada uma: o marxismo, pós-Comuna, iniciou um
trabalho em cima da sociedade pós-revolucionária (Guerra Civil na França,
Cartas sobre a Comuna Russa – período hoje ‘delimitado’ como Marx
tardio)[1], além da elaboração teórica sobre as ciências em geral
(Anti-Duhring, Dialética da Natureza); o anarquismo, iniciou com sua
vertente comunista, uma aproximação ‘cientificista’, com Kropotkin (Apoio
Mútuo, Ciência Moderna e o Anarquismo) e Réclus (Evolução, Revolução e o
Ideal Anarquista). Infelizmente, há um distanciamento maior destes
teóricos da luta popular, o que faz o anarquismo perder um pouco a sua
vitalidade das décadas anteriores, mas na década de 1890, o anarquismo
volta as lutas populares através da sua influência no Sindicalismo
Revolucionário e na sua transformação específica, o anarco-sindicalismo,
que vai ganhar força até a década de 20, quando começa ser eliminado ou
perder suas influências sistematicamente (esta eliminação vem
principalmente das modificações na conjuntura
política-econômica-social-ideológica, o que limitou a ação
anarco-sindicalista).

Cabe ressaltar aqui, que isso é simplesmente uma pequena visão da
história do anarquismo, onde dados foram omitidos: a contribuição de
Malatesta para o anarquismo é fundamental, tanto na questão da
organização, quanto da luta (USI e UAI, greves na Itália); a contribuição
de Ferrer, com a escola racionalista e seu método de mudança também o é;
o Dielo Trouda, Emma Goldman, Alexander Berkmann, Daniel Guérin, Luigi
Fabbri e outros, também têm importância na formação teórica do anarquismo
(que muito pelo contrário do que foi dito por aí, estão longe de serem
revisionistas ou liquidacionistas, só não tinham as mesmas conclusões que
Bakunin chegou), mas devido ao objetivo do texto, não poderei me alongar
muito nessas compreensões.
A Unidade Específica do Anarquismo
Entre todas as correntes do anarquismo, deve-se ter uma UNIDADE
ESPECÍFICA para que as mesmas possam ser chamadas de anarquismo[2]. Creio
já ter iniciado esta idéia, mas precisa-se colocar mais algumas coisas: o
anarquismo é um movimento de luta contra o capitalismo[3] e sua classe
dominante e este movimento, tem como objetivo final, a construção de uma
sociedade socialista, isto é, uma sociedade onde os meios de produção, os
meios políticos e o acesso ao conhecimento, sejam iguais a todos os seus
membros; para que isso seja possível, deve-se abolir as relações de
dominação/submissão da sociedade. Por estes motivos, creio não ser
possível estabelecer um “anarco-capitalismo” ou “anarco-individualismo”
(este no sentido de promover só a libertação de um indíviduo específico),
mas pode-se ter uma corrente individualista no anarquismo, que vise antes
da libertação da sociedade (no qual considera-se a soma dos indivíduos),
uma libertação de cada indivíduo; ou uma corrente anarco-sindicalista,
que vise a libertação da sociedade através da luta dos sindicatos e o
mesmo como órgão de função política no pós-revolucionário; uma visão
especifista, que visa a organização dos anarquistas, assim como a
organização da população em um organismo revolucionário (Grupo Anarquista
de Gualiai-Polé/Makhovistchina ou Aliança da Democracia
Socialista/Internacional)[4]; ou uma visão comunalista, que vê na
formação de comunas em conjunto com as lutas de outros ramos, a
possibilidade de transformação social[5]. Esta é a diversidade existente
no anarquismo, pois a partir de algumas premissas básicas (diga-se de
passagem, materiais, realistas ou reais-racionais), constitui-se
diversificadas correntes, de acordo com os momentos específicos de cada
espaço e/ou tempo.
Teoria e Prática Revolucionária
Para conseguir seus objetivos, o anarquismo tem a precedência de uma
transformação radical do real-racional[6] da sociedade. Para tal deve ter
UMA teoria para transformação e UMA prática que impulsione a teoria, isto
é, através da análise deste real-racional, o anarquismo deve estabelecer
um método de transformação radical[7] ou revolucionária da sociedade.
A teoria coletivista (conhecida também como bakuninismo) e sua aplicação
durante as décadas de 1860/70, é um exemplo dessa posição. Assim como a
ação dos sindicalistas revolucionários no período de 1890-1920, também o
é. A pergunta que se coloca para o movimento anarquista, não só nacional,
mas internacionalmente, é se atualmente existe uma teoria e prática
revolucionária para confrontar o capitalismo neoliberal ? Se existe,
onde, por quem e como ela esta sendo aplicada ? Ela é um modelo que deve
ser seguido por todos os locais ?
Não há dúvida que para a ação anarquista deva ser feita UMA
teoria/prática[8], que será feita através da atuação dentro dos núcleos
de luta (isto sempre foi um elemento “privilegiado” dentro do
anarquismo). A questão é, vai se construir uma UNIDADE, teórica e/ou
prática, através de ações mecânicas ou orgânicas ?[9]
O que apareceu no documento da UNIPA (A Revolução Social no Brasil),
parece uma transposição mecânica do método coletivista para os nossos
dias atuais, não se esquecendo do caráter sectário do documento, como
também da Carta aos Revolucionários Anarquista[10]. A questão que se
coloca não é da defesa da ‘unidade’ e ‘harmonia’ na ‘diversidade’ do
anarquismo, mas se uma teoria que teve validade (há controvérsias em
relação ao fato) em um domínio social-histórico (Europa, pós-II Revolução
Industrial) teria validade hoje ? Outra questão, é que se esta teoria (e
o programa por ela estabelecido) foi construída por poucas pessoas, que
têm atuação no âmbito da luta popular, ou se foi construída após uma
análise de vários anos de luta, no qual os participantes se debateram com
uma possível análise da luta em uma potência máxima ? Não seria mais
interessante que ao invés de cristalizarmos em posições do passado,
construíssemos uma posição para o futuro ?

Conclusões

O anarquismo comporta diversas correntes, mas isso não quer dizer que
essas correntes não tenham divergências entre si (a polêmica
Malatesta/Dielo Trouda ou DieloTrouda e Malatesta/Anarco sindicalistas
ainda é viva dentro da teoria/prática anarquista).
O movimento anarquista, no Brasil e no mundo, ficou algum tempo com
pequenas ou isoladas ações, ganhando um “gás” novamente após os
acontecimentos de maio de 68 (eu reconheço que tem a FAU no Uruguai,
grupos na Coréia e na China, mas a força do anarquismo como movimento de
luta se perdeu), mas no Brasil só retomou com a queda da ditadura, na
década de 80. Desde então, os anarquistas procuraram se rearticular pelo
mundo para retomar suas ações de luta: FdCA na Itália, a NEFAC na América
do Norte, a OSL Internacional, a CNT/FAI na península ibérica, a CGT na
Espanha/França, dentre muitas outras organizações e grupos (as ações de
68, proporcionaram grupos de ação local, isto é, pequenos coletivos que
visam a transformação local, articulando-se, infelizmente poucas vezes,
para ações em âmbitos maiores).
Devido a esta recente rearticulação do movimento anarquista, e as
constantes transformações da sociedade capitalista (globalização,
neoliberalismo), acredito que devemos reconstruir CONJUNTAMENTE a
teoria/prática anarquista, através da ação prática em conjunto com a
população, isto é, procurar fazer uma ação orgânica onde os protagonistas
desta teoria/prática sejam os próprios revolucionários anarquistas.
Se o documento da UNIPA fosse uma contribuição para a discussão da
teoria/prática anarquista e não uma posição dogmática e sectária (creio
que a UNIPA ainda não refutou este argumento), ele seria de grande
importância para a reconstrução da teoria/prática de todos os
revolucionários anarquistas[11].
Termino fazendo das palavras de Proudhon a Marx, em uma carta de 1846,
onde o último convida-o para formar uma associação de correspondência
entre os socialistas europeus, as minhas próprias, nesta carta para
UNIPA: "Investiguemos juntos, se assim vós desejais, as leis da
sociedade, o modo como essas leis se realizam, o processo segundo o qual
nós chegaremos a descobri-las mas por deus, depois de demolir todos os
dogmas a priori, não pensemos, por nossa vez, em doutrinar o povo [...]
Eu aplaudo, de todo o meu coração, vossa idéia de colocar em evidência,
todas as opiniões; façamos uma boa e leal polêmica; demos ao mundo o
exemplo de uma
tolerância sábia e previdente mas, porque estamos à frente do movimento,
não nos tornemos chefes de uma nova intolerância, não nos coloquemos como
apóstolos de uma nova religião, mesmo que essa religião seja da lógica e
da razão. Acolhamos, encoragemos todos os protestos, desonremos as
exclusões, todos os misticismos, não olhemos jamais uma questão como
esgotada e quando tivermos usado até nosso último argumento, recomecemos,
se for preciso com eloqüência e com ironia. Com essa condição eu entrarei
com prazer em vossa associação, senão não!”[12]

Paranoi@

---

NOTAS
1)É interessante ressaltar que este não foi o foco central de Marx e
Engels, mas teve uma atenção no período determinado.

2)Estou partindo da idéia da lógica conjuntista-identitária, isto é, que
para se ter uma classe (classificação, grupo), deve-se constituir uma
propriedade (singularidade, unidade específica) para o mesmo, o que
diferencia esta classe das outras (ver Castoriadis, As Encruzilhadas do
Labirinto).

3) Considera-se aqui que o regime na antiga URSS é o de Capitalismo
Burocrático Total (ver Castoriadis, no livro o “Destinos do Totalitarismo
e outros escritos”)

4) É importante ressaltar que para os especifistas anarquistas, a
constituição de uma organização popular revolucionária é fundamental para
a ação revolucionária.

5) Existe a possibilidade da junção dessas várias concepções em alguns
pontos, podendo se misturar o comunalismo com o anarco-sindicalismo ou o
comunalismo com o especifismo ou o individualismo com o
anarco-sindicalismo, dentre outras.

6)Entenda-se como real-racional, o conjunto de símbolos, valores, crenças
e costumes que uma sociedade tem, não importando se os mesmos baseiam-se
numa concepção metafísica ou materialista do mundo (ver Castoriadis, As
Encruzilhadas do Labirinto e/ou A Instituição Imaginária da Sociedade ou
Bartolomé, Castor, A Co(i)mplicação Dualética dos Autos e a Interminação
na Compreensão do Ser).

7) A manutenção da “transformação radical” se baseia na possibilidade de
uma transformação da sociedade sem o uso da violência contra a classe
dominante (posição defendida por alguns individualistas e pacifistas
anarquistas).

8) A teoria do espontaneísmo total, onde coloca-se que não precisa de um
estabelecimento de programa para mudança, não passa de uma teoria
burguesa, que ao invés de auxiliar na transformação a atrapalha.

9) A ação mecânica pode ser entendida no contexto de que ela é uma
transposição de um modelo de ação para uma realidade diferente do qual o
mesmo foi criado; enquanto a ação orgânica, pode ser entendida como a
formação de um modelo a partir da realidade temporal e espacial dos
participantes, que não exclui a análises de ações feitas em outros
espaços ou tempos.

10) Em relação a carta, há uma explicação clara da adoção do coletivismo
quanto posição teórica, onde poderia colocar em cheque a afirmação de que
é “uma transposição mecânica”, mas ao ver como está discussão foi travada
e como ela será levada daqui para frente (classificação de outras
correntes em ‘revisionismo’, ‘liquidacionismo’ e ‘ecletismo’; combate a
essas correntes), continuo afirmar que esta é uma transposição mecânica,
com boas doses de dogmatismo (é interessante relembrar, a posição dos
bolcheviques em relação a outras correntes durante a revolução russa;
(o)posição que ajudou a degeneração da revolução em burocratismo e no
stalinismo).

11)Existem coisas bastante interessantes no documento, que devem ser
discutidas para a formação de uma teoria/prática para os dias atuais.

12) Entendo que a posição aqui não é de comandar o movimento, mas.....





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