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(pt) Nestor Makhno: Lenine e o Leninismo, os guias do proletariado mundial*

From a-infos-pt@ainfos.ca
Date Wed, 17 Mar 2004 10:24:35 +0100 (CET)


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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
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por Nestor Makhno
[*publicado em «l’en dehors», 31 de Agosto de 1925]
Em todos os países e , em particular, nos estados que formam a União das
Republicas Soviéticas, ouve-se um clamor insistente e delirante: « Lenine
é o guia dos trabalhadores de todos os países, construiu uma teoria para
os servir, mostrou-lhes a verdadeira caminho da libertação vingadora, etc.
»Porém, no mesmo país onde os carrascos brancos e vermelhos, no interesse
dos seus partidos, decapitaram a incomparavelmente grande revolução russa
– a que é libertadora dos trabalhadores – e desviam actualmente as massas
laboriosas do seu objectivo verdadeiro, aí mesmo, perdeu-se a confiança em
si própria, na força criadora da acção espontânea para a organização da
nova sociedade. E este acontecimento ocorreu num país onde rebentou esta
grande revolução e onde ela terminou tão prematuramente (bem antes de ter
alcançado o seu desenvolvimento completo) apesar do entusiasmo de que as
massas trabalhadoras – excluindo Lenine e consortes – estavam animadas!A tais brincadeiras (para os partidos bolcheviques dos outros países
assumem-se como afirmações de grande importância) que não são nenhumas
brincadeiras, afinal, mas antes o sinal de uma irresponsabilidade
criminosa, respondem em eco os partidários de Lenine nos países
exteriores. A consequência disto é que, mesmo os não-partidários de
Lenine, aceitam tais alegações como verdadeiras, os homens-escravos cuja
inteligência, a força, a vontade estão prisioneiras dos ferros do capital
abjecto e maníaco. Muitos então, burlados e burlando os outros, esganam-se
a gritar « Lenine é o guia do Proletariado de todos os países, deu-nos a
teoria da libertação, mostrou-nos a via de verdadeira emancipação».É inconcebível que o burguês Lenine seja o guia do proletariado mundial.
Esta pretensão parece-nos infundada, injustificável, aos nossos olhos de
camponeses revolucionários, que partilhámos todas as etapas da revolução
russa e que nos confrontámos com o «leninismo». Colocar Lenine num
pedestal nessa qualidade é uma farsa que apenas prova a fraqueza de
espírito daqueles que se esforçam a atribuir a este homem a direcção do
proletariado, embora, na realidade, ele nem se encontrava no pais durante
a grande revolução russa. O assassínio desta apenas ocorreu graças á
enorme ingenuidade infantil do povo, e ainda mais por causa das baionetas
dos mercenários que, na sua cegueira, se vendiam ao partido leninista.Em nossa opinião, o colocar-se num pedestal Lenine, como « o guia de todos
os trabalhadores do mundo» não é nem mais nem menos do que uma malvada e
criminal farsa cometida contra uma humanidade enganada e oprimida, ainda
bastante iludida para dar a esta atitude grotesca um valor definido e
específico.O partido socialdemocrata bolchevista, que se designa também erroneamente
comunista, e cujo apoio espiritual foi o burguês Lenine (Oulianov Lenine)
o qual, até à norte saturou toda a revolução russa da sua ignorância
científica e do vazio do marxo-leninismo, este partido age de mesma forma
que a burguesia em relação aos trabalhadores, ou seja, vê neles única e
simplesmente escravos fiéis.De Marx a Lenine, e após o seu desaparecimento, este partido pretendeu
sempre ser o educador de toda a humanidade laboriosa, à custa daqueles que
trabalham. Ele nem sequer se apercebe que é um educador que se intromete,
jesuítico, que se esforça por conduzir a massa oprimida sob a pretensa
bandeira da emancipação, embora, irresponsavelmente a desvie por uma
aparente vitória sobre a escravatura económica, política e psíquica. Na
realidade, apenas pretende reformar a escravatura da humanidade. Soube
demonstrar suficientemente, pelos seus actos durante a grande revolução
russa, que sabia ser um excelente carrasco, não apenas daqueles que, num
período de luta entre os homens, representam um elemento perverso e
corrompido, mas igualmente daqueles cuja impulsão é saudável, pura, bela,
que sulcam com nobreza um caminho livre, que trabalham pelo
desenvolvimento de todas as forças criativas para o bem do conjunto
social.Mostrou-se um mau educador, e sobretudo um educador pernicioso.
Os fenómenos que se puderam observar em particular no partido leninista
russo também se observam igualmente nos outros países. Um simples facto,
como exemplo: vimos os comunistas marchar em grupos pelas ruas, de bengala
na mão e porrete de cauchu dissimulado. Desta constatação insignificante
podemos concluir que o movimento bolchevista, durante a revolução russa,
tinha um carácter mais destruidor que revolucionário (Noutros países
reveste-se do mesmo carácter.)O bolchevismo contém em si próprio ideias insanas para as quais os
trabalhadores de todo o mundo não deveriam, em caso nenhum, assumir a
responsabilidade. Isso também é por vezes reconhecido no interior das
fileiras do partido leninista, embora sempre de maneira confusa. Há ainda
milhões de trabalhadores que, por instigação do partido, se consideram
chamados a dirigir o destino da humanidade, em vez de pensar numa união
livre e fraterna com os camponeses pobres, na livre resolução de seus
interesses mútuos durante a revolução. Este pensamento criminoso do
partido que envenena trabalhadores – que, na sua vida, apenas sentiram ou
pensaram como escravos assalariados, dependentes – este pensamento
criminoso segunda o qual, os escravos têm de decidir sobre o destino de
outros, tranquiliza o seu coração. «Ah! O tempo consertará tudo!» É sobre
tais palavras de esperança e de expectativa que assentam os mais evidentes
atentados cometidos contra a classe trabalhadora, à custa de seu sangue e
de sua vida. Escondeu-se dos trabalhadores, foi-lhes disfarçado o crime
cometido contra a revolução e as multidões revolucionárias que se
esforçavam, com todo o ardor, em levar a revolução a bom porto, em
destruir, de uma vez por todas, a escravidão e libertar-se das cadeias da
exploração.É compreensível que o partido social-democrata dos comunistas
bolchevistas, perseguindo os seus fins na vida pública e privada, atribua
uma grande importância a que Lenine seja elevado à estatura de chefe
mundial de todos os trabalhadores; de tal maneira que o seu nome constitua
um elo entre o proletariado de todos os países e seu partido. A dedicação
de Lenine aos interesses do seu partido, o seu ardor pessoal, são
realmente consideráveis. Um partido portador do seu nome vê como seu dever
glorificá-lo. E presta-lhe homenagem porque tem necessidade dele como
símbolo...Mas o que é que o bolchevismo leninista tem de comum com as esperanças
ardentes da humanidade explorada e exausta? O bolchevismo que desemboca na
prática, no direito da dominação do homem sobre o homem; que será
reconhecido, por qualquer um que reflicta, como detestável e criminoso?O burguês Lenine, com o seu panbolchevismo, ele e todo o seu partido, ao
querer submeter à sua vontade, pela força, a massa dos trabalhadores, está
tão afastado dos elevados fins de uma libertação verdadeira como as
instituições da Igreja e do Estado, tais como nós as vemos.Actualmente, esta confusão de ideias parece misteriosa, mas basta reler,
de olhos bem abertos, os últimos escritos de Lenine que são, segundo a
própria opinião dos bolcheviques, o seu testamento. Em relatório
apresentado ao Comité de Moscovo do partido Comunista Russo, datado de 10
de Janeiro deste ano (Isvestia de 14 de Janeiro de 1925). Kameneff
comunica as instruções rigorosas sobre o que se deveria dizer ácerca de
Lenine quando alguém perguntasse, lembrando este testamento do defunto.A ascensão de Lenine aos cumes celestiais dos quais desce até nós como
guia mundial do proletariado, obriga a que digamos duas palavras a este
respeito. Assim, no testamento citado por Kameneff, Lenine diz: «Devemos
edificar um Estado onde os operários conservarão a predominância sobre
toda a classe dos camponeses.» (1) Que queria dizer o «guia mundial do
proletariado»? Que os trabalhadores que adiram ao partido leninista não
deveriam jamais sonhar construir uma sociedade nova em colaboração com a
classe camponesa? Ou antes que ele queria que esta se submetesse ao
domínio da sua inconcebível ditadura operária-bolchevista? A edificação de
um tal Estado, no qual o operário tem o direito de colocar sob tutela toda
a classe camponesa, estava ligada muito habilmente, para Lenine, a
electrificação rural. «Se a classe operária quiser dar seguimento a esta
ideia, os maiores progressos são possíveis e a grande indústria será
criada». «Deste modo», continua o pretenso guia mundial de todos os
operários «será garantida a transformação rápida de cavalos esfomeados, em
poderosos cavalos mecânicos, desenvolveremos certamente uma grande
indústria mecânica, electrificada » e acrescenta: «temos assim a certeza
de conservar o poder. »Não é aqui o local próprio para discutir a questão da transformação dos
pequenos cavalos em grandes charruas mecânicas. Nós acreditamos firmemente
na força criadora dos trabalhadores e estamos convencidos que se eles
expropriarem realmente a burguesia de todos os meios de produção, do solo
e da propriedade fundiária, saberão bem reorganizar a sua vida e todas as
suas relações económicas e individuais. A tutela ditatorial dos
«operários» sobre os camponeses como defendem Lenine, Kameneff, Zinovieff,
Trotsky, Derchinsky, Kaline e tantos outros, mostrou-se, na sua
aplicação, impotente. Estes apenas conseguiram produzir partidos,
compromissos, desvios e recuos do bolchevismo ao fascismo (O terrorismo
político dos bolchevistas em relação às ideias revolucionárias e aos seus
defensores não difere em nada do terrorismo fascista).Quando Lenine convida as massas a edificar um Estado onde os operários têm
a supremacia sobre a classe camponesa, está a inviabilizar a ideia de uma
livre comunidade de trabalho entre os operários e os camponeses; ele
coloca a revolução russa numa posição tal que os trabalhadores esmagados
caminham para a sua morte. Eles teriam sido literalmente abafados e não
teriam a liberdade condicional de que «gozam» hoje dentro da União das
Repúblicas Soviéticas se os camponeses tivessem oposto a sua própria
autoridade à classe operária. Felizmente, os camponeses da Rússia e da
Ucrânia não têm a mínima fé em Karl Marx; eles sabem perfeitamente que
toda a violência, seja qual for o nome que tenha, é criminosa e baixa. O
camponês russo nunca se sentiu atraído pela violência, sempre a repudiou.
Sacrificou a sua liberdade, senão mesmo a sua vida, para proteger «o
governo dos operários» contra os ataques da burguesia, pois pensava que o
operário no seu íntimo é estranho a todo o despotismo e que o ajudaria a
combater a servidão do campesinato. Em vez disso, operários e camponeses,
sofreram, uns e outros, uma nova opressão.A questão que se nos coloca agora é a seguinte: Falar da edificação de um
Estado onde uma camada popular exerce o domínio sobre outra – eis aqui a
atitude de um Guia Mundial do Proletariado? Ou antes a linguagem do chefe
dum grupo de homens cujo objectivo, debaixo da pretensa bandeira da
libertação real do capitalismo, é levar a cabo uma reforma do sistema
capitalista, graças aos esforços dos laboriosos e à sua custa.Afirmamos que um homem chamado Lenine falou nesse último sentido – que
falou na qualidade de representante do partido bolchevista, o qual, embora
pretenda pertencer à família dos laboriosos do mundo, não concebe as
relações familiares com as massas senão na condição de as considerar como
um meio de alcançar –sem dificuldades- o fim para o qual tende, enquanto
partido.Os laboriosos do mundo ainda não disseram felizmente a sua última palavra
:se aceitassem, ao libertarem-se de uma autoridade, colocarem-se debaixo
do jugo de uma nova opressão, despótica, mais sofisticada, tão cruel
(senão mais) que a que eles queriam derrubar? Os laboriosos do mundo sabem
suficientemente que a sua tarefa sagrada é de aniquilar esta nova
violência, como todas as outras.Viver em fraternidade, libertados de toda a dependência e de toda a
sujeição servil – eis o Ideal inteiro do Anarquismo, que corporiza a sã
natureza do homem. O burguês Lenine e seu partido bolchevista combateram
sempre este ideal elevado. Pelas baionetas, pelo assassínio, por
perseguições às quais expuseram os portadores deste ideal, os leninistas
esforçaram por conspurcá-lo, por difamá-lo aos olhos das massas. Em vez
dele, tentaram fazer triunfar, graças à força das armas – primeiro, no
seio dos trabalhadores e depois, usando-os, em toda a humanidade – um
ideal de assassínio contínuo, de violência brutal, de aventuras políticas.Depois disto tudo, designar Lenine «o Guia Mundial do proletariado», não
será por brincadeira?Sim, uma sinistra brincadeira, criminosa, de qual é alvo a humanidade
exausta, enganada, esmagada.
Suécia


fim
de
Maio
de
19251. Wir müssen einen Staat aufbauen, in welchem die Arbeiter die Oberhand
über die ganze Bauernschaft behalten.



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