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(pt) A BATALHA Nº 204: Nacionalismo e Desporto de Massas No ano das Olimpíadas e do EURO 2004

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Date Tue, 1 Jun 2004 10:41:26 +0200 (CEST)


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Esta circunstância, ano de Olimpíadas e do Euro 2004, estimulou-me a
escrever sobre nações e nacionalismo.O conceito de "nação" é frequentemente reduzido ao de “Estado”, um
conceito político, e portanto susceptível de se modificar com o tempo, de
ser completamente alterado ou até, mesmo, de desaparecer.
As nações, hoje, o que são? Há nações sem Estado e Estados plurinacionais:
quem duvida hoje em dia de que o povo palestiniano constitui uma nação?
Quem pode negar o facto de que a Espanha, aqui ao nosso lado, é uma
entidade política - um Estado - pluri-nacional?Claro que não podemos confundir Estado com nação. O tempo de vigência dos
Estados é, em muitos casos, bastante menor do que o da existência de
nações. Veja-se o tempo em que a Polónia não existiu como Estado, mas que
o continuou a ser como nação. Poderíamos multiplicar os exemplos, tanto
retirados a História europeia, como do resto do Mundo.
As nações sem Estado não são uma excepção, são antes a regra. Esta
afirmação pode parecer surpreendente, mas ela resulta da observação da
história da humanidade. Os primeiros Estados, foram construídos a partir
de há cerca de dez mil anos atrás, com o surgimento da revolução agrária,
o aparecimento da escrita, das primeiras cidades, de uma casta sacerdotal,
de funcionários, etc. ... Porém, as nações já existiam muito antes; a
espécie humana moderna tem pelo menos 200 mil anos.
No presente, apesar do genocídio dos índios das Américas, existem muitas
nações índias, confederações de tribos ou de grupos étnicos que mantêm
laços estreitos entre si. Isto tanto na América do Norte, como Central,
como do Sul.
Os povos Africanos, em particular sub-saharianos, também têm numerosas
nações, as quais possuem uma enorme riqueza linguística, em risco de perda
pela urbanização (catastrófica) das populações. Os territórios de tais
nações étnicas africanas são complemente diferentes das fronteiras dos
Estados, traçadas em virtude da partilha colonial e uma das causas de
sangrentos confrontos, que têm mantido este continente na miséria.
Os Estados pretendem representar as nações; porém, eles apenas conseguem
isso através de um artifício. As pessoas, atomizadas, individualizadas,
desenraizadas da sua cultura, de suas tradições, aceitam de bom grado (na
imensa maioria) que lhes imponham uma "cidadania".Esta "cidadania" mais parece uma espécie de "salvo-conduto", permitindo a
uma pessoa viver em condições mais ou menos semelhantes (em teoria) com os
outros. Caso não se seja "cidadão", entra-se na categoria de
"estrangeiro".
É curioso o caso de turcos de segunda geração, que apenas falavam alemão e
que não tinham da Turquia mais do que relatos e recordações de seus pais,
considerados como estrangeiros face à lei alemã, até há bem pouco tempo. A
lei mudou, mas sempre com muitas restrições, por receio de
"desalemanização" de uma bem nutrida, egoísta e paranóica pequena e média
burguesia.Nós, em Portugal, temos os mesmos complexos, os mesmos comportamentos e
não sabemos sequer olhar para nós próprios com um mínimo de objectividade.
Realmente, a "cidadania" é uma daquelas violências que os Estados infligem
ao conjunto das pessoas que, por qualquer motivo, nasceram ou vieram viver
para um dado território. Não tanto por que seja imposta, como de facto é
(ninguém me perguntou se eu desejava ser cidadão português), mas antes
porque se define como exclusão, se define justamente por confronto com
“aquele que não é cidadão”, o qual é colocado nessa situação de negação
de direitos, pelo arbítrio de regras e de normas que não dependem jamais
da sua vontade. Por exemplo, toma-se como critérios principais ter
nascido em tal local; ser filho de determinados mãe e pai, etc.. Estes
critérios, independentes da vontade do indivíduo, sobrepõem-se a outros,
como sejam: a capacidade de se exprimir no idioma, estar inserido na
sociedade, dando contributos relevantes para a mesma, etc. critérios que
estariam em larga medida dependentes da vontade.No início dos tempos modernos, no tempo da Revolução Francesa, os
constituintes de então não tiveram hesitações em ligar cidadania à
identificação com um determinado projecto político (a república). Assim,
houve acolhimento como cidadãos de irlandeses, britânicos, polacos, etc.Três quartos de século mais tarde, na Comuna de Paris, o Comité Central da
Comuna também não hesitou em incorporar elementos de outras
nacionalidades, incluindo-os nas fileiras da Guarda Nacional, em postos de
comando (capitão, etc. ).
Hoje em dia o conceito de "cidadania", ligado ao de "sociedade civil",
como entidade mítica suprapartidária, supra-classista, etc... vem sendo
reforçado, face à crise de representação que experimentam todos os
partidos políticos e todas as correntes ideológicas. Porém, o modo de que
se reveste, na maior parte dos discursos que tive oportunidade de ler, é
de uma singular estreiteza, bem menos generoso do que o dos Convencionais
de 1793 ou dos Communards de 1871.O desporto é transformado numa expressão de nacionalismo, muito
desvirtuando o ideal de uns Jogos Olímpicos como símbolo da paz e da
fraternidade entre todos os humanos, independentemente das suas
identidades nacionais, étnicas, religiosas, etc.É aproveitado como espectáculo de massas. Isto aconteceu, quer com o
regime de Hitler (a sua encenação dos Jogos de Berlim), quer com os
regimes de "democracia liberal", quer ainda com o regime soviético.
A partir da generalização da televisão, o desporto torna-se também o maior
trunfo da sociedade do espectáculo. Com a sedentarização das pessoas,
acompanhando a terceirização das economias nos países mais ricos, a
generalização do automóvel, etc.As pessoas "vivem" simbolicamente os feitos desportivos, através do mágico
fluorescente cubo televisual, como se fossem elas próprias a realizar os
feitos; como se estivessem na pele deste ou daquele “herói”.
O campeão (a equipa campeã) tem "a honra" de subir ao pódio e de ouvir em
silêncio recolhido os acordes do seu hino nacional enquanto é içada a
bandeira nacional respectiva. O efeito, nos espectadores, deste cerimonial
desportivo é de reforço inconsciente (e portanto mais eficaz) do orgulho
"nacional", na realidade nacionalista.
Também conhecemos a utilização das exaltações nacionalistas em torno do
desporto (quase sempre de futebol) por gangs de hooligans com ligações
bastante claras a grupos violentos de extrema-direita.Sem dúvida que a possibilidade dos grupos humanos se encontrarem e
competirem desportivamente, de forma saudável, não é aqui posta em causa.
O que ponho em causa é o aproveitamento de um desejo natural de perfeição
física, de superação dos obstáculos, de entre-ajuda, de camaradagem, de
confronto leal e, na sua essência, não-violento, para manter, cultivar e
mesmo exaltar o "vírus" nacionalista.
As pessoas que se deixam enredar pelo imaginário desse
desporto-espectáculo, que vivem obcecadas com as "performances" dos seus
ídolos, constituem para mim uma causa de espanto e de angústia.
Eu tenho assistido ao vivo ou pela tv a espectáculos desportivos,
pratiquei várias modalidades desportivas como amador, não tenho nenhum
preconceito contra a educação da mente e do físico em que consiste o
treino e a competição desportiva.
Não gosto de lhes colocar o rótulo de "alienadas", mas de facto, que outra
expressão serve para caracterizar o comportamento de pessoas que apenas se
interessam por futebol, com exclusão quase universal de todas as outras
coisas, que desprezam aqueles que não têm interesse nisso, que fazem
alianças ou tecem ódios em função dos clubes, que são capazes de decorar -
sem esforço- nomes, locais, datas, etc. relativos aos grandes feitos de
sua equipa preferida (e de outras) mas completamente ignorantes da
história, da literatura, da arte, da ciência?
Fica aqui esta interrogação: será isto tudo "desporto" ou será antes,
operação de propaganda ideológica dos Estados, em sua auto-promoção?
Manuel Baptista



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