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(pt) Para Pensar o Feminino

From a-infos-pt@ainfos.ca
Date Wed, 21 Jul 2004 23:04:38 +0200 (CEST)


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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
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[retirado de nodo50.org/insurgentes ]
Como dizemos sempre, qualquer tentativa de transformação social que
desconsidere a necessidade de uma revolução individual efetiva tenderá ao
fracasso. Enquanto seres sociais, acabamos por institucionalizar e
internalizar as normas sociais sancionadas pela coletividade. Nesse
sentido, precisamos questionar tudo o que nos parece óbvio se pretendemos
realmente romper com a sociedade capitalista pois são as nossas atitudes
cotidianas que mantém a engrenagem social e econômica à todo vapor.
Consideramos que a “questão de gênero” – por falta de um nome melhor –
deve inserir-se nesse contexto de uma revolução individual contra o
sistema capitalista e à favor de uma nova sociabilidade fundamentada em um
indivíduo portador de uma individualidade que signifique ser mais que
apenas um consumidor de produtos e que ultrapasse, dentre outros, os
limites estabelecidos pelas determinações do masculino e do feminino.
Diferente do que muitos acreditam, o moderno sistema produtor de
mercadorias não é sexualmente neutro. Se é verdade que o capitalismo não
inventou o patriarcado, é certo que ele o acentuou. É o princípio
masculino o agente que constitui e afirma o masculino. O homem é o senhor
da esfera pública, âmbito das decisões políticas e da produção de
riquezas; suas características confundem-se com as do próprio modo de
produção: força, racionalidade, competência, virilidade, inteligência.
Sendo a esfera pública masculina o motor do sistema e que, enquanto tal,
possui importância primeira na sociedade dado o resultado de suas
atividades – o lucro – aquilo que estiver fora desse esquema será
submetido àele. Porém, existe uma esfera da vida que não é expressa em dinheiro e da
qual a mulher foi feita responsável. É o reverso do sistema, a vida
privada, o cuidado com os filhos, a afetividade, a emotividade. Ao
feminino são remetidas tarefas desvalorizadas economicamente e essa
inferioridade éestendida às qualidades que o patriarcado lhe imputou: o cuidado com a
vida, a esfera do sensível – e com ela a fraca inteligência, a
incapacidade de viver no público, etc. O feminino conta apenas enquanto
suporte sobre o qual desenvolve-se o homem, tornando-se dele um apêndice.
Na sociedade de mercado, o feminino ocupa posto de subalternidade. No
entanto, e apesar disso, acredita-se que através do dinheiro é possível
superar essa inferioridade. Ilusão perigosa que tem resumido a luta
feminista à exigência de maior participação no mercado como forma de
emancipação. Os resultados, até agora, atestam o equívoco de tal
interpretação e o feminino continua subjugado: dupla jornada de trabalho,
função igual com salário desigual, prostituição, mercantilização do corpo;
e quando chega a ocupar postos de comando, o feminino precisa travestir-se
de masculino pois é este o princípio regente. Entretanto, os grandes
avanços feministas estão, quase sempre, nessa ordem e representam a
entrada na mulher no universalismo do capital que é, como já dito, ele
próprio masculino. A emancipação é comemorada quanto maior a entrada da
mulher na esfera pública mas nunca refere-se a participação masculina na
esfera privada. Ao contrário, temos assistido a um crescente abandono
deste mundo particular – onde as relações entre as pessoas não são
mediadas pelo dinheiro – causado por essa supervalorização do público.
Homens e mulheres são levados ao mundo externo, promovendo uma
institucionalização do cuidado com a vida ou deixando-o sob
responsabilidade de empregados. (Claro que aqui deve-se atentar para o
fato de que as diferenças de classe social e de desenvolvimento do país
influenciam diferentemente o desenrolar dessa situação.)
Por outro lado, há as que se contrapõem a essa condição, denunciando o
fato de que a mulher continua subalterna quando nega sua feminilidade ante
o masculino, e propõem o inverso: a feminização do mundo como alternativa
social. Acreditando que existe um ser feminino fruto das suas vivências
corporais e das interações psíquicas experimentadas por este corpo, além
das próprias representaçõessexuais que lhes imputam a sociedade, a mulher apresenta-se enquanto
indivíduo perfeito e as suas características morais são o caminho para a
superação do estado de miséria, corrupção e desigualdade que se tornou o
mundo sob a égide masculina.
Percebermos que, apesar das múltiplas interpretações, a dicotomia
homem-mulher permanece inquestionável. A atuação da mulher limita-se a
tentativa de trocar os postos na hierarquia do sistema de gêneros. Também
não conseguem, com sua crítica, oferecer mecanismos de superação do estado
atual das coisas. Ao contrário, possuem, muitas vezes, um caráter
reformador e integralizante ao sistema, sempre atrelado ao capitalismo e
ao Estado, conseguindo uma emancipação nos limites que o Estado pode
conceder e que o capitalismo necessita para se perpetuar – os conflitos
são apenas amenizados, calados, mas não solucionados. Se temos claro que a
nossa luta é contra o capitalismo (se é o repertório que incomoda, não
adianta trocar a posição dos instrumentistas da orquestra!) e pelaliberdade de exercermos nossa individualidade, então a crítica – e a
prática dela decorrente – deve ultrapassar a mera disputa de quem ocupa, a
partir de agora, o papel dominante.
Uma condição primeira para a superação do capitalismo é oferecermos máxima
resistência às suas determinações sobre as nossas vidas, sobre as relações
que travamos dia-a-dia, ou seja, estabelecermos cotidianamente uma nova
cultura que represente uma ruptura prática com a passividade e o mando/
obediência característicos das relações mercantis e do Estado que as
representa, como maneira de construir os contornos de uma nova
sociabilidade baseada no que lhes é oposto – relações diretas,
anti-hierárquicas e horizontais entre indivíduos.
O sistema de gêneros, como os demais sistemas classificatórios, pressupõe
ele próprio uma hierarquização que, ao reproduzi-la em nossas relações
sociais, perpetuamos as bases que mantém o sistema capitalista. A
libertação da humanidade ou será resultado de uma transformação social e
global mas que parta do indivíduo ou tratará apenas de um simulacro da
liberdade, aquela que temos hoje.
Somos “livres” tanto maior a nossa possibilidade de escolher a mão que irá
nos apedrejar; somos “livres” tanto maior a nossa capacidade de
adaptarmo-nos aos estereótipos construídos pelos diferentes nichos de
mercado; somos “livres” tanto mais pudermos escolher, no catálogo e
ofertas, que tipo “humano” queremos ser. O capitalismo usurpa a nossa
individualidade e nos coisifica, quer dizer, nos sujeita a representações
necessárias à sua própria sobrevivência – eleitores passivos, consumidores
ávidos, empregados submissos, etc. Não somos livres para exercermos a
nossa unicidade. Sob o peso das instituições e representações sociais,
quase sempre desconhecemos nossos desejos, nossas potencialidades.
A busca por uma singularidade, por traços comportamentais condizentes com
as suas possibilidades também é, nesse sentido, uma jornada
anticapitalista. E é um caminho que é, necessariamente, conflituoso com a
classificação da humanidade a partir de uma diferenciação biológica
baseada no aparelho reprodutor e que inculca atributos sociais de acordo
com o sexo. Longe de favorecer a ascensão do indivíduo, o sistema de
gêneros tem construído pessoas cindidas em duas possibilidades de ser
opostas, porém complementares entre si – homens e mulheres. Essa cisão
bipolar acaba por castrar e limitar os indivíduos – e estamos certas que
cada um sabe o que isso significa! Por sua vez, a naturalização dessa
diferenciação – levando a que algumas feministas defendam um “eterno
feminino” salvador – desconsidera uma característica própria do ser
humano, a invenção da cultura, que rompe com as determinações naturais
sobre ele. Algumas tribos africanas são bastante ilustrativas dessa
desnaturalização: após nascerem os filhos, são os homens quem descansam
durante meses enquanto amulher cuida da agricultura e demais atividades de sobrevivência.

O estabelecimento de uma divisão binária da humanidade baseada em
pressupostos naturais e reinteradores da hierarquia nas relações
interpessoais nos parece muito pouco coerente com um projeto de vida que
pretenda a superação do capitalismo e a vida em liberdade. Novas formas de
sociabilidade precisam ser forjadas para que possamos provocar um
curto-circuito nos alicerces da máquina social e econômica que pretendemos
suplantar. Para além da disputa entre homens e mulheres, cada um deve ser
livre para constituir-se enquanto indivíduo, abraçando qualidades e
características que representem não papéis socialmente impostos, mas uma
particularidade que o defina único no mundo. Essa é umacondição para nos tornarmos sujeitos de nossa própria história e, enquanto
tal, fazê-la a nosso modo.
E reconhecermo-nos como agente dessa transformação não é uma tarefa apenas
para homens ou para mulheres. Também não é uma tarefa para “escolhidos”,
muito menos para indivíduos dispersos. Se a revolução individual é
condição primeira para superar o capitalismo, a condição maior para onde
ela deve convergir é a livre associação de tod@s - indivíduos não
cindidos, sujeitos históricos – em coletivos, grupos, comunas ou
organizações autônomas, horizontais/ anti-hierárquicas, autogestionárias e
livremente federadas, pois só organizados somos capazes de apresentar
resistência real ao capitalismo. Revolução cotidiana e atuação organizada
coletivamente são esferas interdependentes e, necessariamente, devem
caminhar juntas se pretendemos destruir essa forma de organização social,
política e econômica e construir uma nova, mais justa, solidária,
igualitária, livre e ecologicamente viável.
Nem homens, nem mulheres!

Pela liberdade de sermos nós mesm@s em busca

de um mundo livre!

Vanessa Luana membro do Coletivo Lua




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