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(pt) Entrevista de ANA: "Os seres humanos de hoje foram fabricados para o egoísmo lúdico"

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Date Wed, 21 Jul 2004 13:07:31 +0200 (CEST)


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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
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Utopia, coração, sensibilidade e rebeldias libertárias. É o que
o público anarquista (e não anarquista) do Rio de Janeiro, São
Paulo, Santos (e talvez Salvador) poderão conferir nas
“Conversas Libertárias” com o anarquista espanhol Ignacio de
Llorents, a partir da última semana de julho até meados do mês
de agosto.
Mais informações sobre o dia, local e horário das “Conversas
Libertárias”, escrever para:
Rio de Janeiro: farj@riseup.net
São Paulo e Santos: moesioreboucas@yahoo.com.br
Para apresentar ao público brasileiro Ignacio de Llorents, a ANA
realizou essa pequena entrevista:


Agência de Notícias Anarquistas : Como apareceu o anarquismo na
sua vida?

Ignacio de Llorents : No começo da década de setenta se viviam
os últimos anos da ditadura do general Franco, e eu, e tantos
jovens de então, comecei a participar nos movimentos estudantis
de contestação ao regime. Naqueles tempos esses movimentos
estavam influenciados de certa maneira, e oprimidos, pela
ideologia marxista, mas eu tive sorte, e aos quinze anos eu pude
ler o excelente livro do anarquista Russo Volin: “A Revolução
Desconhecida”, que é um dos melhores antídotos contra o
comunismo. Neste livro está claro como se trai um movimento
revolucionário popular, e se constitui um regime de terror. Por
outro lado, se os comunistas diziam que a sua finalidade era a
liberdade e a dissolução do Estado. Por que esmagaram o
movimento majnovista ucraniano que já tinha conseguido
estabelecer o que os comunistas procuravam? Esta pergunta não
souberam me responder convincentemente os amigos trotskistas com
os quais eu militava no comitê clandestino do meu Instituto de
educação secundária. De modo que decidi parar de colaborar com
eles deduzindo que eu era anarquista. Que pretensioso! Coisa de
adolescência... Então fui rastreando por livrarias e bibliotecas
livros que me informaram o que era o anarquismo. Há que
ressaltar que nessa época estavam proibidas as obras que o
regime considerava perniciosas, mas em algumas livrarias podia
ser achada alguma coisa atrás das estantes. Ainda lembro-me da
emoção que senti quando um livreiro argentino mostrou-me o fundo
que tinha a editora Projeção de Buenos Aires; embora o primeiro
livro de teoria anarquista que li foi uma antologia de Bakunin
em francês, que roubei de uma livraria – quando jovens éramos
muito dados a praticar a “expropriação livresca” - e que fui
lendo com a ajuda de um dicionário.

Quando Franco morreu, em novembro de 1975, tinha 18 anos de
idade e estudava História na Universidade de Barcelona. Poucos
meses depois, com o inicio do período da chamada transição para
a democracia, começaram a sair da clandestinidade e a retornar
do exilo os velhos companheiros, e eu tive a fortuna e a honra
de conhece-los, e aprender muito com eles. Reconstruiu-se a CNT
e se viveram tempos de efervescência. Em Barcelona, em 1977
foram realizadas as “Jornadas Libertárias Internacionais” e
durante uma semana a cidade foi tomada por anarquistas do mundo
inteiro. Foi uma coisa espetacular! Podias assistir conferências
e debates com Cohn-Bendit, ver uma apresentação do Living Teatre
com Julian Beck e em seguida participar de festas noturnas
devastadoras. A Califórnia da década prodigiosa, Paris do maio
de 68 e a Barcelona da revolução de 36 pareciam conviver juntos
num ambiente de festa e entusiasmo. Mas logo chegaram tempos
difíceis e de desilusão. Não soubemos canalizar e manter o
fervor e a grande corrente de simpatia que o anarquismo havia
gerado. Questões de divisões internas unidas a manobras do
governo, mais o caráter próprio dos tempos, a acomodação da
sociedade de consumo e a desmobilização própria que geraram os
regimes de pseudodemocracia que vivemos levaram a que o
movimento anarquista deixasse de ser tão popular como havia sido
nos primeiros anos da transição.

Eu procurei estar ligado com os velhos companheiros e participar
com eles em diversas e interessantes iniciativas. Ao acabar o
curso, em 1979, fui viver um ano em Paris, onde conheci e
freqüentei os grupos espanhóis e franceses, e de 1981 a 1983
estive vivendo no México. Colaborei com o grupo Tierra y
Liberdad e fui muito amigo dos velhos anarquistas espanhóis,
como Ricardo Mestre, Cano Ruiz, Ismael Viadiu, Fidel Miró... Na
época acreditava - e hoje ainda continuo a acreditar - que a
proposta anarquista de convivência baseada na igualdade efetiva
e social e liberdade é a opção mais valida.


ANA : Quais os livros que você escreveu até agora?

Ignacio : Em 1979, com meu carinhoso amigo José Angel González
Sainz, que hoje é um dos melhores narradores em língua espanhola
da sua geração, iniciamos um projeto de entrevistas,
investigações e reflexões sobre o pensamento libertário que nos
levou a manter muitas conversas e correspondência com
pensadores, escritores, artistas e militantes libertários. Tudo
isso foi um copioso material que organizamos em três volumes com
o título de “Porque nunca se sabe. Indagaciones criticas sobre
el poder” e de onde só veio a ser publicado o primeiro volume em
1984. Posteriormente, em 1991, fui de viagem a Rússia e pude
participar da chamado “Revolução de Agosto”. Sempre me
interessou a cultura e a história Russa, e claro, ao chegar em
São Petersburgo, a Moscou, me emocionei. Andei pelas ruas de
Dostoievski, os cenários da revolução de 17... E por último pude
estar com os companheiros Russos nas barricadas, mesmo um dia.
Compreendi que não resistiria a contar tudo aquilo. De modo que
escrevi esta espécie de crônica de viagem que é “El último
verano soviético”.


ANA : Além de escritor, filósofo, você é membro do "Ateneu
Estrela Negra" de Mallorca, editor da revista "Polêmica"...

Ignacio : Bom, tenho que fazer uma precisão. Eu não sou
filósofo, limito-me a tentar ensinar filosofia aos jovens
estudantes. Da mesma maneira que cozinho a cada dia, mas eu não
sou cozinheiro. E embora escreva freqüentemente coisas, tampouco
sou “escritor”.

Desde 1984 vivo na Ilha de Mallorca, e em 1987 um grupo de
companheiros decide criar um Ateneo, que é o nome que
historicamente o movimento libertário espanhol deu aos centros
de estudo e convivência. Realizamos conversas, debates,
exposições... Também há mais de sete anos que publicamos
mensalmente um pequeno boletim que divulgamos gratuitamente, e
participamos em movimentos e ações de tipo combativo. Em
Mallorca o grande problema é o ecológico, pois a especulação
imobiliária está destruindo o meio-ambiente. E também é muito
importante, como não, desenvolver uma atividade de crítica às
formas de cultura autoritária. Como vê, é muito o trabalho que
temos que fazer.

Com respeito à revista “Polémica”, acredito que hoje é a revista
libertária mais velha das tantas que são publicadas na Espanha.
Pode-se discutir a regularidade dela. Começou sendo, em 1981,
uma iniciativa do velho companheiro Manuel Salas, e depois da
sua morte conseguimos continuar com uma nova equipe, e agora
vivemos um bom momento e queremos chegar a faze-la
bimestralmente a partir do próximo ano. Acredito que é
importante saber manter a tradição e, ao mesmo tempo, ser capaz
de continuar inovando. Confio em quem fazemos a revista, e que
estejamos à altura deste propósito. Devemos melhorar a difusão e
distribuição, especialmente na América Latina. Exatamente do
Brasil nós contamos com a contribuição do velho companheiro
exilado Obach, e recebemos as novidades editoriais do
infatigável Edgar Rodrigues.


ANA : A seu ver qual é o papel de um "intelectual" anarquista?

Ignacio : Felizmente no movimento libertário não tivemos isso
que se deu em chamar “intelectual orgânico”. Fiéis aos
postulados autoemancipadores, os libertários geraram seus
próprios “intelectuais”, que entenderam que seu trabalho era
esclarecer, difundir e dar a conhecer ao demais o que sabiam
para dotar a todos das mesmas possibilidades de reflexão e ação,
com o fim de que todos igualmente pudessem participar de um
mesmo processo social de emancipação.

Ao contrário de outros movimentos, os libertários não pretendem
estabelecer nenhuma elite nem vanguarda que dirija o resto.
Tampouco deseja conferir um status superior a quem se dedica a
tarefas “intelectuais”, concernentes de quem se ocupa das
“manuais”. Há um texto excelente sobre isso de Kropotkin em seu
livro “Campo, fábricas e talleres”. Agora bem, quem desempenha
tarefas “intelectuais” é muito importante que tenha presente que
aquilo que possa ir aprendendo não sirva mais que a fins
egoístas, mas sim a difusão e compartilhamento com os outros. O
saber para si mesmo é como a água estagnada, apodrece e destrói
a possível vida que pode abrigar. De modo que um “intelectual”
tem que evitar o narcisismo solipso e ser consciente da sua
responsabilidade. Qual? Não mentir nem ocultar, ser honesto para
ir à procura da coerência entre o que diz e o que faz, e ser
corajoso para atrever-se a dizer o que talvez não agrade seus
possíveis leitores do que é dito. Portanto, deve estar prevenido
contra o próprio poder que ele mesmo gera fruto da difusão e eco
das suas opiniões. Um “intelectual” deve ser capaz de provocar,
em alguma medida, seus leitores, não fazer doutrina, mas
pensamento.


ANA : Quais as diferenças que você vê num anarquista de "36",
com um anarquista atual, da nova geração?

Ignacio : Cada sociedade, em cada época, fabrica um protótipo de
ser humano. Desde o século XIX se denomina anarquismo a crítica
à exploração é ao controle político existente. Então os
anarquistas foram negando em cada momento os esquemas de
injustiça e poder imperantes. Mas o ser anarquista não nos faz
impermeáveis à sociedade que nos tem “fabricado”, e contra a
qual temos nos rebelado. Uma forma de obediência ao poder pode
ser também à mera negação. Portanto em cada momento há que se
saber o que é negado e como pode ser esf em que afirmamos a
negação.

Os companheiros que protagonizaram a revolução de 36 tinham
negado a sociedade que os tinha fabricado para que fossem
analfabetos, bestas de cargas e devotos, e eles tiveram a
suficiente inteligência e coragem de fazer a revolução,
estabelecer alguns laços solidários entre eles. Amavam a criação
cultural, a leitura, o teatro e negavam o álcool, o tabaco...

Os seres humanos de hoje foram fabricados para ser analfabetos
funcionais, sabem ler obrigatoriamente, mas isso não os agrada.
Educados diante do televisor e submetidos a todas as mídias de
massa, foi fabricado para a abulia e o egoísmo lúdico. Os
regimes de pseudodemocracia são por essência desmobilizadores...
E os anarquistas de hoje temos em nosso próprio ser
contemporâneo as contradições de todos. Devemos saber nega-las e
ter precaução com o que afirmamos. Mas o mais importante, a meu
ver, o que mais falta entre os que eram os velhos companheiros e
o que somos os de hoje é a sensibilidade para a dor do outros,
primeira condição para a solidariedade, e a procura de um
compromisso responsável no nosso agir. É tão difícil de
conseguir!


ANA : O anarquismo continua sendo uma ótima ferramenta para
interpretar e mudar o mundo?

Ignacio : Bom, acredito que sim. Tinham razão os anarquistas ao
afirmar que o tema fundamental para analisar cada uma das
sociedades era o Poder. Saber quem manda e por quê, qual é a
legitimação do domínio, qual a do privilégio. Distinguir a
igualdade social da identidade humana. Todos somos iguais, mas
não idênticos, felizmente. Ir a busca de situações de
convivência sem supremacias. Estabelecer como postulado ético a
rebelião contra a subjugação e a renúncia a se submeter aos
outros. Apresentar a vida como uma liberação do trabalho e não o
contrário. Confiar na capacidade criativa das pessoas e propor
sempre as estruturas de convivência como aleatórios,
provisórios, cambiáveis, para evitar o nascimento da
discriminação. Acredito que o mundo necessita de um pensamento e
uma sensibilidade libertária. Claro que há muitos perigos e nos
espera múltiplos erros. Podem ser feitas muitas coisas, mas com
a condição de não ser contraditório, porque então cairíamos no
absurdo, o impensável, e o esforço seriam nulos.


ANA : O que envelheceu nas idéias anarquistas?

Ignacio : O núcleo, o coração, do pensamento anarquista não
envelheceu. Envelhecemos quando criticamos o regime político de
hoje como se fosse o de outras épocas. Envelhecemos quando nos
fechamos em guetos e desprezamos as pessoas alienadas, quando
nos sentimos superiores aos outros, quando abraçamos o
anarquismo como se fosse uma ideologia ou uma religião que já
pensa por nós... E nos mantemos jovens graças à autocrítica e a
ser receptivos as criticas dos outros. Mantemo-nos jovens se não
renunciamos a sentir o entusiasmo pela liberdade que é o amor à
vida.

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