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(pt) A Neurose “Revisionista”(retirado do jornal anarquista Libera)

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Date Mon, 5 Jul 2004 09:55:56 +0200 (CEST)


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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
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[de anarquismo.org]
Segundo o semiólogo anarquista Roland Barthes, ao se referir a certas
peculiaridades da linguagem: “Mas a língua, como desempenho de toda
linguagem, não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente:
fascista; pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer”.
Dessa forma Barthes tentava chamar a atenção para um fenômeno que, longe
de ser invulgar, governa efetivamente muito do que se diz nos âmbitos
público e privado. A carga de significação, as vezes involuntária, em
determinados termos e conceitos pode ser analisada também a partir deste
prisma sugerido pelo semiólogo.
Tal metodologia pode ser aplicada também ao vocabulário político das
“esquerdas”, e certamente encontraremos nele diversas incongruências entre
o que se quer dizer e o que realmente se diz. Entretanto, para o melhor
entendimento das palavras e o que, com elas, realmente se pretende
comunicar é um enorme desafio.
Para a elucidação de tal dificuldade podemos escolher o termo,
infelizmente cada vez mais empregado nos meios “libertários”, de
“revisionismo”. E, para tal tarefa, iremos intentar uma pequena genealogia
histórica da sua origem.
O rótulo de “revisionista”, no seu sentido “positivado”, poderia ser
atribuído a todo o teórico que, a partir de 1883, tentou interpretar ou
explicar os escritos de Marx, à luz de um determinado contexto histórico e
até mesmo geográfico. Seria justo dizer que, nesse caso, se encontram
figuras como Rosa de Luxemburgo, Lenin, Stalin, Trotsky e o próprio
Engels. Assim, ser revisionista era apenas possuir uma leitura singular ou
“atualizada” dos escritos do “mestre” Marx.
Posteriormente, em particular após as disputas internas na social
democracia alemã, a partir de 1890, na qual estiveram envolvidos Eduard
Bernstein e Rosa de Luxemburgo, a idéia de “revisionismo” passou
“pejorativamente” a ser utilizada como sinônimo de “reforma”. A partir de
1914, mais especificamente, seria atribuída a pensadores e políticos que,
mesmo adotando premissas do marxismo, duvidavam das previsões de Marx, em
relação às crises do capitalismo. Nesse momento, e isso se acentua após o
triunfo bolchevista na Rússia, em 1921, a canonização do pensamento de
Marx, garante para o termo lugar de suma importância no vocabulário
político comunista.
Após 1945, com o triunfo do stalinismo sobre o nazismo, os partidos
comunistas passaram, sob forma de anátema, a utilizar o rótulo
“revisionista” para todo e qualquer PC não inteiramente submisso a Moscou.
Nesse contexto, o termo passou a aparecer ainda mais sistematicamente nos
relatórios e panfletos da ortodoxia stalinista. Unido por uma lógica
perversa a outros termos, o “revisionismo” aparecia sempre dentro de um
universo semântico associado a acusações, calúnias e difamação. Muitos
expurgos e perseguições foram legitimados a partir da simples associação
de pessoas, livros ou discursos ao referido termo. Tempos terríveis
aqueles...
O maio de 1968, na sua expressão libertária viria exumar grande parte
desses cadáveres conceituais que, segundo os estudantes, não tinham
rigorosamente nenhuma relação com a Revolução Social de fato. Muito do
vigor anarquista seria reconquistado nessa época, o próprio historiador
marxista Eric Hobsbawn reconheceria, no seu livro Era dos Extremos, que,
no maio de 68, encontrava- se verdadeiramente o espírito de Bakunin. As
transformações desse período traziam também a renovação do vocabulário
político da “esquerda”. Até alguns marxistas com o mínimo de dignidade,
com J. P. Sartre, perceberam o equívoco de suas posições e transigiram.
Dessa forma, apesar de algumas limitações, o movimento de 68 logrou a
reconstituição de um novo universo vocabular no qual não existia mais
lugar para o famigerado “revisionismo”.
Após essa grande transformação operada não apenas no plano político como
também no psicológico, parecia que os novos ventos tinham varrido de vez a
espessa e negra nuvem que cobria as idéias sempre caras aos socialistas
libertários, desde os primeiros tempos das lutas pela revolução. Parecia
ridícula, ao menos para os sinceros combatentes pela liberdade, a
possibilidade de uma reabilitação de tão decrépitos termos, associados
historicamente, aos inimigos da causa libertária. Termos que haviam
servido a instauração de ditaduras “racionalmente” calcadas na “verdade”
do socialismo científico.
Mas o “Ovo da Serpente” como nefasta alegoria está novamente entre nós.
Para a sua incubação, ganhou o calor dos discursos mais “radicais” e
pretensamente revolucionários. Das línguas, muitas delas academicamente
treinadas, apesar da tentativa de ocultação do fato, brota a peçonha que
envenena e cria a cisão interna. Como diria Brecht, ao referir-se ao
nazismo, “a besta ainda tem suas entranhas férteis”. Desaparecendo com
cartazes de seus “inimigos internos”, escrevendo calúnias nas propagandas
de seus “desafetos”, fazendo “incursões punitivas” em eventos dos outros
libertários, destilando veneno em grupos ou coletivos estes filhos de
Torquemada trazem para o campo anarquista uma prática totalmente estranha
à nossa cultura política.
Profética foi a afirmação do companheiro magonista, Raul Gatica, no Fórum
Anarquista de Porto Alegre, em 2003. No âmbito da organização de grupos
autônomos, promovido com muito trabalho pela FAG, Gatica, com a calma e
serenidade de quem várias vezes enfrentou a morte pela causa magonista no
México, diria dos termos utilizados para a versão prévia da carta final do
encontro: “Ela está muito stalinista. Precisamos de um vocabulário
político nosso.” Tal declaração que dividiu a plenária, desnudava com
exemplar simplicidade o processo que hoje se encontra acelerado.
Nesse momento, com as enormes dificuldades que temos para a nossa
organização e tarefas, não menos complexas, ainda temos que lidar com o
retorno do velho marxismo que para existir precisa negar e, para agir,
precisa perseguir. O Ano Zero do Khmer Vermelho, instituído para condenar
o que vinha antes e conferir glória aos novos adeptos, parece ter sinceros
seguidores no movimento tupiniquim. E para isso, dispõem de uma “nova”
fórmula, a saber, identificar no interior do movimento anarquista os
“revisionistas




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