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(pt) Entrevista com Pier Francesco Zarcone, militante da seção de Roma (Itália) e membro do Conselho dos Delegados da Federação de Comunistas Anarquistas (FdCA).

From a-infos-pt@ainfos.ca
Date Fri, 27 Feb 2004 23:01:24 +0100 (CET)


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[retirado de http://www.nodo50.org/insurgentes ]
Agência de Notícias Anarquistas > Faça uma breve trajetória da FdCA nestes
anos. Quantos grupos integram a FdCA?
Pier Francesco Zarcone > As duas perguntas são ligadas, e devemos fazer um
pouco de história. A Federação dos Comunistas Anarquistas de Itália foi
constituída em 1986 a partir de vários grupos pré-existentes. Declara-se
plataformista. Os leitores poderão consultar a sua página na Internet em:
http://www.fdca.it/. A FdCA nasceu da fusão entre a O.R.A. (Organização
Revolucionária Anarquista) e a UCAT (União dos Comunistas Anarquistas da
Toscana). Naquela altura a ORA tinha já 10 anos de vida e secções em
várias regiões de Itália; a UCAT 5-6 anos de vida na Toscana. A FdCA
constitui a mais recente e completa experiência organizativa dos
comunistas anarquistas italianos. É uma federação de militantes: os vários
militantes numa mesma cidade formam uma seção. É fundamento da organização
partilhar teses fundamentais: por isto há unidade de teoria, estratégia de
fundo e política, táctica. Acerca da estratégia política e táctica o
debate está sempre aberto e alimenta a definição do programa da
organização. A atividade política dos militantes desenrola-se no respeito
pela responsabilidade coletiva. O órgão de decisão é o Congresso Nacional.
Neste, tomam-se às decisões em maté ria de teses políticas, publicações,
órgãos internos (redação, comissões etc.), elege-se o Conselho dos
Delegados que coordena a gestão da organização entre um congresso e outro,
conforme as decisões tomadas no Congresso. O Conselho dos Delegados elege
no seu interior o Secretariado Nacional, com tarefas de representação e de
coordenação da atividade da Federação.
Os militantes mais idosos da FdCA entraram na cena política nos anos
68-69, anos de lutas do movimento operário e estudantil; e portanto
ressentiram o empurrão daquela altura: um empurrão libertário mas
sobretudo classista que estes movimentos expressavam. Estes militantes,
aproximando-se do anarquismo, encontraram uma organização de síntese, a
Federação Anarquista Italiana (FAI) que, se aparentemente oferecia espaço,
na realidade não era (nem é hoje) uma organização, mas um conjunto de
individualidades tendencialmente individualistas. As leituras históricas
sobre o anarquismo italiano e internacional mostravam, pelo contrário, uma
continuidade do anarquismo comunista e classista o que, desde a Primeira
Internacional, passava por: as lutas sociais em muitas pa rtes do mundo no
início do século XX, antes e depois da revolução russa; o biênio vermelho
em Itália; o anti-bolchevismo e anti-estalinismo; a revolução mexicana
primeiro e depois a espanhola. Em Itália, a continuidade do comunismo
anarquista foi quebrada por muitos acontecimentos, entre os quais o mais
desastroso foi, sem dúvida, a influência econômica do anarquismo
anti-organizativista e aclassista ítalo-americano ligado ao jornal de Nova
York “L’Adunata dei Refrattari”, durante o fascismo e no pós-IIª Guerra.
Uma “rebelião” contra aquela tendência que ocorreu no anarquismo italiano
nos anos 50 originou a organização de tendência chamada Grupos Anarquistas
de Ação Proletária (G.A.A.P.), com ótimos militantes que se dispersaram
após a “caçada” fora do anarquismo “oficial” feita pela F.A.I..
Felizmente, muitos destes militantes continuaram uma ação de classe apesar
da “excomunhão”, disponíveis para narrar, para reavaliar as experiências
de ontem e dos inícios dos anos 70. Neste mome nto, alguns companheiros
começaram a estudar a história do anarquismo italiano, partindo dos ótimos
estudos de Masini (não é por acaso que foi um dos militantes mais
destacados dos G. A. A. P.) e prosseguindo com a obra da nossa companheira
Adriana Dadá.
O seu livro, “O anarquismo na Itália: entre movimento e partido” foi um
virar de página nos estudos sobre o anarquismo italiano. Aí se põe em
evidência, não apenas as bases comunistas do anarquismo, mas também a
teorização inicial do dualismo de organização na própria Itália durante a
Primeira Internacional, com os seus teóricos máximos, desde Bakunin a
alguns dos seus correspondentes tais como Celso Cerretti, a quem Bakunin
escreve uma carta esclarecedora sobre esta temática. Acerca do
plataformismo na área italiana, Dadá conseguiu trazer à luz novos
materiais que logo trouxeram novos elementos para a história do
anarquismo, até então toda ela centrada em torno do papel de Malatesta -
mediador sintetista de todas as tendências. Adriana Dadà descobriu que os
p róprios Fabbri, Fedeli e outros tinham estado em contato com Archinov,
com a publicação das atas de reuniões realizadas na região parisiense.
Também os estudos sobre o período fascista, quer sobre companheiros presos
ou sobre o exílio daqueles que se expatriaram para fugir à morte, vieram
demonstrar recentemente a continuidade entre o anarquismo comunista e
classista de uma boa parte do movimento libertário de antes do fascismo e
dos debates nesses anos. Os companheiros da tendência comunista
anarquista, renascida nos inícios dos anos ‘70, na maior parte não se
deixaram atrair pela FAI, apesar das polemicas com as quais esta
organização tentou então cercear esta iniciativa, e deram continuidade ao
seu projeto desde então até hoje. A FAI, sendo sintetista e reagrupando
elementos heterogêneos entre si, enquanto tal, não é operativa e não
decide de nada, e muito menos nos seus congressos. Em conseqüência disso,
a contribuição dos seus elementos acaba por ser em boa parte inutilizada,
p ois se trata de uma organização apenas formalmente presente: a sua
atividade e presença é apenas a dos seus membros individuais. Embora
numericamente maior e dotada de um semanário, a FAI sempre se manteve
longe de uma prática de classe e do movimento operário. Recentemente, tem
mostrado maior atenção pela luta sindical, pelo que iniciamos um percurso
de debate e iniciativas comuns, quando possível, entre a FAI e a FdCA.
O plataformismo inspira a nossa atividade em 4 aspectos:

- forte abordagem de classe e tendência à unidade de classe nas lutas

- análise atenta e aprofundada dos sujeitos em questão na luta e das
situações objetivas
- procura de uma linha comum e coletiva fruto de um debate nas secções

- prática do dualismo de organização, pelo qual se têm dado competências e
papeis distintos às organizações de massas do proletariado e à organização
política dos comunistas anárquicos, de modo a evitar confusões e
sobreposições entre estas duas organizações
Cada secção da FdCA tem a sua atividade em relação com o território na
qual se encontra, embora a Federação se ponha enquanto força política em
relação com os movimentos e com outras realidades políticas.
ANA > Mas esse dualismo permite que militantes da FdCA participem de
partidos políticos?
Pier > Não, somos militantes anarquistas, e neste assunto vale o
pensamento anarquista com respeito aos partidos políticos.
ANA > A FdCA está implantada em toda Itália?

Pier > Não. Temos seções e militantes nestas cidades: Genova, Fano,
Pesaro, Cremona, Crema, Bologna, Roma, Firenze, Bari, Mantova, Rovereto,
San Vito al Tagliamento, Palermo. Concretamente a presença maior fica no
norte/centro de Itália.
ANA > Quais as principais lutas que estão levando a cabo neste momento?

Pier > A FdCA está ativa sobretudo no campo sindical, antimilitarista,
ambientalista, nas lutas por espaços sociais autogeridos e no movimento
anti-globalização, mas não fazemos parte d o fórum social. Uma boa parte
dos seus militantes é ativista sindical (e através deles, a Federação age
no mundo do trabalho) quer na CGIL, quer nos sindicatos de base, quer na
promoção de associações e de coordenações de base dos trabalhadores ou
sindicalizados. A classe está hoje distribuída entre três confederações
tradicionais e 5-6 confederações de base. Num plano específico e pequeno a
USI mantém um caráter ideologicamente anarquista. A nós não nos interessa
uma guerra entre sindicatos porque retemos como estrategicamente
fundamental a unidade da classe, para lá das siglas sindicais. Eis porque
procuramos promover coordenações de delegados, coordenações territoriais,
coordenações de ativistas sindicais libertários, para dar força a um
sindicalismo conflitual de prática libertária.
Contra os ataques do governo Berlusconi, a FdCA foi e está presente com as
suas posições e a sua luta através das quais se manifesta, como o
demonstrou empenhando-se ativamente na campanha do referendo para alargar
o Estatuto dos Trabalhadores a todas as empresas, tema acerca do qual a
FAI permaneceu dividida no seu interior entre aqueles que eram contrários
e os que eram favoráveis a participar no voto. E sobre o assunto não vi
que fosse tomada uma posição pela FAI.
ANA > A USI juntamente com outros sindicatos de base estão convocando uma
greve geral para o próximo dia 7 de novembro contra os ataques do governo
berlusconi aos direitos adquiridos dos trabalhadores, a aposentadoria e
contra a guerra em curso no Iraque. Vocês também estarão se mobilizando
neste dia?
Pier > A FdCA apoia as duas greves, ficando claro que como federação
política se põe além das siglas sindicais. De qualquer maneira a greve do
dia 7 de novembro não é só da USI, mas sobre tudo da mais grande
Confederação Unitária de Base (CUB). Acerca da oportunidade duma greve de
alguns sindicatos num dia diferente, não faltaram críticas da nossa
Federação.
ANA > É verdad e que o governo quer criar uma nova lei que impeça que
sindicatos como a USI e de base convoquem greves gerais?
Pier > Acerca deste assunto existe uma proposta da ARAN (a Agência
governamental pela negociação no setor do Emprego Público) para limitar o
exercício do direito de greve estabelecendo procedimentos de pré-aviso
muit o complexos. Isto afetaria todos os sindicatos, mas sobre tudo –
naturalmente – os como a USI que, conforme a lei atual, não fazem parte da
categoria dos “sindicatos representativos”.
ANA > Regula rmente recebo notícias do seu país relatando casos de
violência policial contra anarquistas, com invasões de residenciais,
prisões e tudo mais. Essa violência me parece que atinge mais os
anarquistas "insurrecionalistas", não?
Pier > Já quando tínhamos o governo de centro/esquerda a violência dos
polícias começou a atingir os militantes esquerdistas como tais (por
exemplo, quando chegou a Roma o Heider, ou em Nápoles pouco antes do G8 em
G enova), e nas fileiras da polícia italiana há muitos nazi/fascistas
protegidos, nas suas ações contra a lei, pelos superiores hierárquicos.
Hoje – como sempre – os anarquistas representam um alvo cômodo para a
repressão, e sobre tudo os chamados “insurrecionalistas”.
ANA > Fale um pouco do atual panorama anarquista italiano. Aí, como em
outros países, existe muita divisão entre os grupos e organizações
anarquistas, não?
Pier > Infelizmente sim. O atual panorama compreende grupos não federados,
e grupos federados. Os grupos federados são: a Federação Anarquista
Italiana (FAI): temos falado dela respondendo à primeira pergunta; a FdCA;
na ilha de Sicília há a Federação Anarquista Siciliana (FAS), que como
orientação está muito perto da FAI; uma pequena federação que trabalha na
região da Lombardia: a União Anarquista Italiana; desta não sei muito.
A divisão existe, e tem raízes históricas: não parece ser possível em meio
prazo chegar a uma ultrapassagem dela. Mas o problema verdadeiro não é
este. O problema é atuar para que os anarquistas possam ter raízes
profundas no mundo do trabalho e na sociedade. Se a divisão fosse entre
grupos que atuem todos neste sentido a situação estava muito melhor.
ANA > O que vocês conhecem do atual "movimento" anarquista brasileiro?

Pier > A Federação Anarquista Gaúcha, a Federação Anarquista Cabocla e a
Federação Anarquista Insurreição. De outras organizações só os nomes e
muito pouco. Mas sabemos que o panorama anarquista brasileiro está mais
articulado, e gostaríamos de saber mais.
ANA > Para terminar, no meio deste caos generalizado, vocês acreditam que
o anarquismo continua carregado de sentido?
Pier > A resposta é positiva num sentido geral, porque a nosso juízo as
razões do anarquismo mantêm uma validade substancial. Hoje mais do que
ontem. De cada maneira o movimento anarquista europeu na sua história
recente foi afetado e estragado pelas vitórias do bolchevismo e do
fascismo, gerações de militantes encontraram morte, prisão, exílio, e os
que sobreviveram ficaram num mundo dividido pela guerra fria, vivendo uma
situação de hegemonia dos marxistas-leninistas dentro do proletariado que
não deixava espaço nenhum. A derrota do marxismo no leste da Europa
aconteceu quando o proletariado já tinha perdido esperanças, força e
desejo de mudar radicalmente o mundo, e derrotar o capitalismo. Agora o
nosso trabalho político desenrola-se entre os escombros da sociedade
moderna e da nossa história: não se trata dos escombros da sociedade
burguesa dos quais falava Durruti, mas seguimos levando nos nossos
corações um mundo novo, tendo bem claro que não temos mais movimentos
anarquistas ou sindicatos anarquistas de massa, e o nosso trabalho de hoje
parte desde um “grau zero” até... não sabemos. Só sabemos que este mundo é
injusto e outra realidade social e pessoal é possível. A luta continua!
agência de notícias anarquistas-ana

limpo e lavo o túmulo,
mas no fundo de minha alma,
meus íntimos vivem...

H.Masuda Goga








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