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(pt) Conferência de John Holloway, o autor de 'Mudar o mundo sem tomar o poder' sustenta: “a esquerda sempre fracassará, enquanto não superar a democracia representativa”

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Date Tue, 14 Dec 2004 21:07:36 +0100 (CET)


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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
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O que fazer com a desilusão? O que fazer quando a democracia não funciona?

O Brasil é um país muito especial para formular essa pergunta. Há apenas
dois anos, a esquerda mundial festejou o triunfo de Lula nas eleições.
Houve uma grande vitória para a democracia, uma vitória real para a
esquerda . E não qualquer esquerda, mas um partido de militância
comprovada, com um líder trabalhador de miltância comprovada. Aqui,
finalmente, todo mundo podia ver que era possível mudar a sociedade
através de eleições democráticas.
E agora? Dois anos depois, desilusão total. A eleição de Lula não mudou o
Brasil, o governo segue implementando as mesmas políticas do capitalismo
neoliberal.
O que farão então com a desilusão? Escolher outro líder e esperar que seja
melhor que Lula? Formar outro partido e esperar que seja melhor que o PT?
Isto é o terrível dos governos de esquerda: quando fracassam (e sempre
fracassam) parece que não há nenhuma solução e se instala a depressão.
O fracasso de Lula não é simplesmente um fenômeno brasileiro. É a
repetição, no Brasil, de uma experiência mundial. Há uma palavra que
ocorre uma e outra vez na história da esquerda estadocêntrica em todo o
mundo: traição. O fato da traição repetir-se tão seguidamente faz com que
o conceito de “traição” se torne ridículo. O fracasso da esquerda não pode
ser simplesmente questão de traição, da culpa de um líder nem de um
partido: tem a ver com as mesmas estruturas. O fato de que não é apenas
uma experiência brasileira significa que temos que ir mais além de uma
crítica a Lula ou ao PT.
II

O problema não é Lula nem o PT, mas a democracia participativa.

A democracia representativa não é nossa democracia, é a democracia deles,
a democracia do capital. Não articula nosso poder, articula o poder deles,
o poder do capital e dos poderosos.
Nosso poder não é como o poder dos poderosos. É completamente distinto.

Nosso poder é o poder-fazer, o poder criativo. Nosso poder-fazer é o poder
de produzir e reproduzir a vida, porém, também o de fazer as coisas de
outra maneira, o poder de mudar o mundo. Este é o poder que sentimos em um
evento como este: uma confiança coletiva de que podemos fazer as coisas de
outra maneira.
Nosso poder é coletivo e social. O fazer é o centro de nosso poder, e é
impossível imaginar um fazer que não seja social, que não dependa dos
fazeres de outros, no passado ou no presente. Nosso fazer é sempre parte
de um fluxo social do fazer. O desenvolvimento de nosso poder sempre
implica o reconhecimento explícito da sociedade do fazer, implica, em
outras palavras, um movimento de reunir e afirmar uma subjetividade
social, um nós criativo.
O poder dos poderosos é todo o contrário. Por trás de suas armas e bombas
há um movimento de separação e fragmentação. O capital é um movimento de
separação que fragmenta a sociedade do fazer. O capital toma o que os
fazedores fizeram e diz: “isto é meu!”. O capitalista rompe o fazer,
separa o feito do fazer e do fazedor, e com isso tudo se rompe, cada
aspecto da vida. A respeito de tudo estamos rotos. Nós estamos rotos como
sujeito social, despedaçados em milhões de indivíduos atomizados. O
capital é a ruptura do fazer social, e quando o fazer se rompe, o ser
impõe-se, o que é domina.
Vemos os horrores do mundo, as crianças que morrem, a pobreza e a
injustiça, as bombas que caem, e gritamos “Não! Não pode ser. Temos que
mudar o mundo, temos que fazer outro mundo” E eles riem: Vocês são nada
mais que um grupo de indivíduos. Não podem mudar o mundo porque o mundo é
assim, assim são as coisas”.
Estão evidentemente equivocados. O que é, somente é porque nós o fizemos e
o seguimos fazendo. O que é depende de nosso nosso fazer. O capital
depende de nós. O capital se vê estável e eterno. Porém, não é. Existe
somente porque nós o criamos. Não porque o criamos há duzentos anos, mas
porque o criamos hoje. O problema não é abolir o capitalismo, o problema é
deixar de criá-lo.
O conflito entre nosso poder e o deles (nosso poder-fazer e o poder-sobre
o deles) não é simplesmente um conflito entre o poder de baixo e o de
cima. Nosso poder é o de poder fazer, de criar, da sociabilidade. O poder
deles é o de separar, individualizar, o poder do que é. Nosso poder se
dissolve; o deles, se enraíza. São dois movimentos muito distintos, duas
lógicas muito distintas, duas linguagens distintas, duas formas de
organização opostas.
É importante reconhecer isto, porque eles (os poderosos, os capitalistas)
sempre estão tratando de nos fazer devorar sua lógica, sua linguagem, sua
forma de fazer e pensar. Fazem isso de muitas maneiras, e uma das maneiras
mais importantes é através da democracia, convidando-nos a jogar seu jogo
da democracia.
III

Nossa democracia não é como a democracia dos poderosos.

Da mesma forma em que há dois tipos de poder, também há dois tipos de
democracia: a deles, dos poderosos; e nossa democracia, a da resistência.
Representação é o princípio da democracia deles: deixe que alguém tome seu
lugar!
Participamos nas decisões do Estado, dizem, escolhendo nossos
representantes. Não há outra forma, porque os estados não são como as
pólis gregas. Seria impossível reunir cinqüenta ou cem milhões de pessoas
em uma assembléia, portanto, a única forma em que a democracia pode
funcionar é através da eleição de representantes, dizem. Portanto, nas
sociedades modernas, a democracia significa representação. Nas eleições
escolhemos livremente quem vai falar por nós, nos representar no
parlamento e formar o governo. Se não gostarmos, podemos trocá-los depois
de três ou quatro anos. Votando participamos no governo do país. A
representação significa democracia e democracia é boa, dizem.
Mas então, por que é um desastre? Por que não funciona? Por que nos
sentimos excluídos? Por que, sob Bush e Blair, a democracia converteu-se
em uma arma de destruição massiva? Por que elegemos Lula, para mudar a
sociedade, e não se passa nada?
É porque a representação nos exclui no lugar de incluir-nos. Nas eleições,
escolhemos alguém para falar por nós e tomar nosso lugar. Excluímos a nós
mesmos. Criamos uma separação entre aqueles que representam e nós, os
representados. E congelamos essa separação no tempo, dando-lhe uma
duração, excluindo-nos como sujeitos até que tenhamos a oportunidade de
renovar a separação nas próximas eleições. Cria-se um mundo da política,
separado da vida cotidiana da sociedade, um mundo da política povoado por
uma casta distinta de gente que fala sua própria linguagem e tem sua
própria lógica, a lógica do poder. Não é que esta gente esteja totalmente
separada da sociedade e seus antagonismos: precisam preocupar-se com a
próxima eleição, as pesquisas de opinião pública e os grupos organizados
de pressão. Porém, veêm e escutam somente aquilo que está traduzido no seu
mundo, sua linguagem e lógica. Ao mesmo tempo, cria-se um mundo da ciência
política e jornalismo científico, que nos ensina a linguagem e lógica
peculiares dos políticos e nos ajuda a ver o mundo através de seus olhos
cegos.
A representação é parte do processo geral de separação que é o
capitalismo. É totalmente falso pensar no governo representativo como um
desafio ou como desafio potencial ao capital. A democracia representativa
não é oposta ao capitalismo: é mais uma extensão do capital. Projeta o
princípio da dominação capitalista (ou seja, a separação) dentro de nossa
oposição ao capital. A representação consolida a atomização dos indivíduos
(e a fetichização do tempo e espaço) que o capital impõe. A representação
separa os representantes dos representados, os líderes das massas, e impõe
estruturas hierárquicas. A esquerda sempre acusa os líderes e os
representantes de traição, mas não há nenhuma traição. A traição não é um
ato dos líderes que são parte intregrante do processo de representação.
Traímos a nós mesmos quando dizemos à alguém: “Tome você meu lugar, fale
por mim”. Eleição é traição.
IV

Já basta de representação! Já basta de representantes! Que se vayan todos!
O grito dos argentinos é um grito contra os políticos, contra todos
aqueles que desejam nos representar e querem tomar nosso lugar. Que se
vayan todos é um grito que ressoa em todo o mundo, porque em todo mundo as
pessoas estão fartas dos políticos profissionais, aqueles miseráveis que
tomam nosso lugar e nos representam
Não é um grito contra a democracia, mas por outro tipo de democracia: uma
democracia sem representantes, que não nos exclua e que seja nossa.
Estamos reinventando a democracia.
Temos que começar outra vez, desde o princípio, e o princípio é o grito, o
grito de não à sociedade como existe. O grito de não ao capitalismo. O
grito é tão óbvio no Brasil como no México: um grito de não a este
contraste terrível entre uma potência humana tão exuberante e uma miséria
tão espantosa. A única forma em que podemos viver como humanos é dizendo
não, gritando não.
Porém o não contém um sim, um projeto, uma projeção de outro mundo. Gritar
não a este mundo é dizer que outro mundo é possível. Outro mundo é
possível porque nós podemos fazê-lo diferente. Podemos fazer diferente se
trabalharmos para determinar nosso próprio fazer. O grito de não e o
projeto que contém outro mundo implica um impulso à auto-determinação.
Não, vocês não vão decidir por nós. Nós mesmos vamos decidir. Reinventar a
democracia significa articular este impulso à auto-determinação.
O impulso à auto-determinação não é a auto-determinação: não pode haver
auto-determinação em uma sociedade capitalista, simplesmente porque o
capitalismo está baseado na negação da auto-determinação. Esse impulso é
um movimento, um mover, baseado na negação, no não. Não temos uma
auto-determinação, o que temos é um não à determinação alheia e o impulso
à auto-determinação. Começamos no não e nos movemos para fora. Em outras
palavras, começamos nas fissuras, nas fendas da dominação capitalista.
Começamos no não, desde as negações, as insubordinações, as projeções
contra-e-mais-além que existem por todos os lados. O mundo está cheio de
fissuras desse tipo, de negações. Em todas as partes do mundo há pessoas
dizendo, invidualmente ou coletivamente “Não, não vamos fazer o que o
capitalismo nos diz: vamos moldar nossas vidas como queremos”. Às vezes,
estas fissuras são tão pequenas que nem os rebeldes, mesmo, estão
conscientes de sua própria rebedia. Às vezes, são tão grandes como a Selva
Lacandona – e quanto mais nos concentramos nelas, mais começamos a ver o
mundo. Não como um sistema fechado de dominação total capitalista, mas
como um mundo cheio de fissuras, negações e resistências. Um mundo grávido
de outro mundo. Cada fissura é um impulso rumo a esse outro mundo -- ou
seja, um impulso à auto-determinação. Nossa luta é para estender,
multiplicar, aprofundar e fortalecer essas fissuras. Estamos falando de
revolução. Porém, na única forma pela qual é possível concebê-la agora,
como uma revolução intersticial, molecular, através das fissuras.
Esta é a reinvenção da democracia, uma reinvenção que já está em
andamento. Este é um processo fragmentado; porém, universal e com raízes
profundas. Suas raízes estão na prática cotidiana das pessoas.
Normalmente, vamos até as pessoas que queremos. Discutimos, buscamos um
consenso, desenvolvemos formas coletivas de tomar decisões, formas
horizontais. Este é o significado da amizade e companheirismo. Muitas das
lutas atuais contra o capitalismo no mundo tomam como princípio básico a
idéia de que o movimento deveria ser uma extensão das relações de amizade
e companheirismo desse tipo. A meta básica da organização é criar formas
coletivas e horizontais de tomar decisões. Onde alguma forma de delegação
for necessária, é importante que seja possível revogar a delegação de
imediato, que seja de curta duração e, na medida do possível, que haja um
revezamento de delegados.
A reinvenção da democracia é, portanto, a renovação de uma larga tradição
de organização na luta anti-capitalista. É a tradição da democracia
conselheira, comunista ou assembleísta, discutida na análise de Marx sobre
a Comuna de Paris. Que se pode encontrar nos sovietes da revolução russa,
nos conselhos comunitários dos zapatistas, nas assembléias de bairro
argentinas e em muitos outros movimentos.
Dizer que a democracia representativa não é uma forma de organização
adequada para o impulso à auto-determinação não significa, certamente, que
a democracia direta ou de conselhos não tenha seus problemas. A distinção
entre delegados e representantes é crucial, mas sempre vai depender, na
prática, da participação ativa das pessoas. Em uma comunidade pequena,
também, há muitos problemas práticos relacionados àquelas pessoas que não
podem ou não querem participar ativamente no processo, o peso
desproporcional que adquirem as pessoas mais ativas ou articuladas, etc.
Provavelmente, problemas desse tipo são inevitáveis, na medida em que um
sistema perfeito de democracia direta implicaria a participação de pessoas
emancipadas. Porém, não somos (ainda) emanciapados. Parecemos mais como
portadores de deficiências, que se ajudam uns aos outros a caminhar, e
caem freqüentemente. Sem dúvida alguma, há alguns que podem caminhar
melhor que outros. Nesse sentido, a existência de algum tipo de vanguarda
provavelmente não pode ser evitada. A pergunta é: estes semi-deficientes
deveriam avançar correndo – como vanguarda –, deixando os outros
engatinhando no chão e gritando “não se preocupem, vamos fazer a revolução
e resgataremos vocês”? (sabemos que não vão fazê-lo). Ou tratamos de
avançar no mesmo passo, ajudando os mais lentos?
Provavelmente, não se pode pensar na democracia direta como um modelo ou
uma série de regras -- mas como orientação, como luta incessante para
destilar o impulso à auto-determinação social que existe dentro de nós.
Não pode haver modelo fixo precisamente porque o impulso à
auto-determinação é o movimento de uma pergunta. O que é importante não é
o detalhe, mas o sentido do movimento: contra a separação e substituição,
pelo fortalecimento da comunidade de luta baseada no reconhecimento mútuo
da dignidade humana.
V

O que fazer, então, com nossa desilusão? Em todo o mundo existe o mesmo
desencanto, uma crise de confiança no Estado e na possibilidade de
conseguir mudanças através da democracia representativa. Uma crise de
confiança nos partidos políticos. A pergunta para nós é como reagimos a
essa crise. Dizemos: “vamos lutar por um Estado justo com uma democracia
representativa genuina e fundar um partido político novo e honesto, que
realmente represente os interesses de seus membros”. Ou dizemos
simplesmente “Não ao Estado, não à democracia representativa, não aos
partidos políticos”?
A resposta é clara. Dizemos não ao Estado, à democracia representativa,
aos partidos políticos. Não podemos mudar o mundo através do Estado, nem
através da democracia representativa e dos partidos políticos. Estas são
formas de organização que nos excluem, não articulam o impulso à
auto-determinação. Não estou dizendo que nunca deveríamos votar.
Provavelmente, em algumas circunstâncias há sentido em fazê-lo. Porém,
está claro que não podemos mudar o mundo através das eleições. A crise da
democracia e dos partidos não é um problema: é uma oportunidade de
reinventar a democracia e mudar o mundo.
Tradução: Bárbara Ablas

07/12/2004

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http://www.midiaindependente.org/pt/blue//2003/11/268075.shtml



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