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(pt) [Rússia] Parte I > Resistência antimilitarista em Pierm

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Date Tue, 24 Aug 2004 08:04:19 +0200 (CEST)


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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
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Chegamos em Pierm sexta à noite, dia 13 de agosto, um pouco cansados
(mas bem dormidos), após 24 horas de trem que atravessou o planalto da
Europa oriental. Pierm situa-se aos pés das montanhas Urais, que nós,
infelizmente, não tivemos tempo de ver por perto.
O objetivo da viagem à cidade de Pierm foi conhecer o movimento social
organizado localmente, que procura evitar a instalação de uma usina de
reciclagem de mísseis nucleares. Participamos de diversas conversas e de
alguns trabalhos propostos por grupos de ativistas que, em conjunto com
a população da cidade, procuram impedir a continuidade do programa de
queimamento de mísseis. Percebemos que tal luta transcende a questão
específica da usina, abarcando outros problemas derivados da gigantesca
estrutura da indústria bélica russa.
Da ferrovia fomos direto para a sede do acampamento no centro da cidade.
Lá estavam reunidas umas 20 pessoas, todo mundo ansioso, pois logo
iríamos encontrar na saída do Distrito Policial os companheiros presos
durante a ação de 10 de agosto, quando rolou o seguinte: o bloqueio da
administração regional de Pierm durou seis horas, 250 participantes do
protesto cercaram os ativistas que com seus próprios corpos bloquearam a
entrada do prédio da administração regional. A maior parte de pessoas
veio de Zakamsk (bairro de Pierm, no qual encontra-se a fábrica que
queima os mísseis). Na ida os ônibus foram parados pela polícia, mas aí
as velhinhas aposentadas (a parte mais revolucionária e fudida da
população russa) ameaçaram bloquear a única ponte para automóveis que
interliga os 2 lados da cidade (na realidade, a cidade de Pierm aglomera
várias cidades dispersas, pois o governo quis dar para Pierm o status de
cidade de 1 000 000 de habitantes, vários "bens sociais", agora a
extensão da cidade é de 70 km).

Com os gritos: "queimem os mísseis nos seus escritórios", "enquanto
estamos unidos somos invencíveis" e "no passaran", 20 pessoas se
acorrentaram às portas da entrada do prédio, isto foi às 17 horas. Com o
passar de tempo o protesto se dispersou e por volta das 23 horas, ao
escurecer, a polícia junto ao OMON (forças especiais da polícia)
baixaram, bateram muito na galera, usando eletrochoque e cacetetes, e
prenderam 18 pessoas. O objetivo da ação foi parar o programa de
queimamento de mísseis balísticos intercontinentais de combustível
sólido.

O problema

O programa de utilização dos mísseis balísticos intercontinentais de
combustível sólido em Pierm está sendo preparado durante um ano e meio
em 4 empresas locais (Fábrica de Kirov é uma delas). Apesar da ausência
da análise ecológica estatal alguns dos objetos do programa já foram
construídos (os painéis de queimação dos mísseis e o forno). A
informação que poderia ser usada para a vigilância pela comunidade é
escondida pelo governo. Foram apresentados os projetos de construção de
2 itens dos 10, os fornos e o galpão de estoque dos mísseis. Estes dois
projetos foram negados como perigosos para a população pelos analistas
independentes, professores da Universidade Estatal de Pierm, pelos
doutores em química e biologia.

Segundo os ecologistas, os principais problemas são os dióxidos que
contaminam a atmosfera da cidade e a alta periculosidade da ferrovia que
transporta os mísseis para a fábrica, atravessando a cidade. O governo
assume que já começou a queimar os mísseis. O diretor da fábrica
confirmou que já foram queimados 7 mísseis SS 24 (ou RS-22) de 98
toneladas.

O ex-governador de Pierm, Yuri Trutnev, que liberou o queimamento dos
mísseis muito rapidamente virou o ministro de recursos naturais do
governo russo. O Tchirkunov, seu vice, que está no poder agora, não
aceita as exigências da população e continua o queimamento criminoso.

Presos

Das 18 pessoas presas, 6 menores de idade foram liberados no dia
seguinte. Na sexta-feira saíram 6 pessoas, todo mundo se abraçando,
xingando os milicos e muito preocupado com os 3 companheiros que
pegaram de 5 a 7 dias de prisão. Alguns deles em greve de fome seca, em
protesto contra a violência policial.

Roman, que pegou 7 dias, após denunciar as atrocidades da polícia ao
juiz, negou responder às perguntas e durante todo o processo (que durou
o dia inteiro, e violando as normas constitucionais, não foi aberto) leu
as poesias de Brodsky (este poeta, que durante a URSS foi preso nos
campos de trabalho forçado pela acusação de ser poeta livre, figura na
peça "Liberdade, liberdade").

De sexta pro sábado dormimos na sede, pois já era muito tarde para ir ao
acampamento. Trocamos muita idéia com o pessoal que saiu da prisão,
bebemos cerveja quente na noite gelada, vimos às gravações dos protestos
anteriores e depois capotamos sem perceber que ia rolar a panfletagem e
a pichação da administração e do prédio do tribunal na madrugada.

Sábado passamos o dia pulando de um busão pro outro colando panfletos
chamando para a ação seguinte pelo fim de queimamento dos mísseis e
contra a violência policial. Acho que conhecemos todos os cobradores da
cidade, alguns simpáticos, outros nem tanto.

DS, que estava conosco, quase foi preso quando um polícia a paisana com
filhinho na mão quis abordá-lo por ter colado cartaz na via pública. No
fim da tarde chegamos ao acampamento, na frente à fronteira da fábrica,
três cercas de arame farpado, um deles elétrico, a faixa de terra e o
soldado em ronda com AK na mão, atrás hortas dos moradores de Zakamsk.

Montamos rapidinho a barraca e fomos pegar água nos arredores. Após um
modesto jantar de batata, pão e peixe defumado que algum vizinho trouxe,
participamos da reunião, planejando a ação da semana seguinte e o
funcionamento do acampamento. As pessoas acampadas são de várias cidades
da Rússia, algumas já se conhecem faz tempo e participaram juntos dos
protestos em Votkinsk, onde conseguiram barrar a construção da fábrica
similar de reciclagem de mísseis, e no Mar Azov, contra a reativação da
indústria química, outras estão se unindo ao movimento este ano. Junto
conosco estavam acampadas umas 10 pessoas e mais a galera de Pierm que
colava de dia. Cada noite e cada dia têm vigias e responsáveis pela
comida. Cada dia tem piquete no centro de Zakamsk, de Pierm e nas feiras
centrais com panfletagem e conversas com os moradores.

Em Zakamsk 2/3 de população de 100 000 trabalham na fábrica que está
sendo adaptada para o queimamento dos mísseis. Durante os últimos três
meses não pagam salários, mesmo assim, segundo os ativistas, a
possibilidade de organização de uma greve é muito pouca, pois o
desemprego cresce e os patrões usam o discurso de "mais emprego mais
dinheiro com os mísseis".

Segunda, dia 16, foi decidido fazer novamente um protesto na frente da
administração e pressionar o governador. Caso ele não apareça, declarar
que dia 30 de agosto a fábrica será bloqueada, pois se o governo não
parar até lá o queimamento, os ativistas e a população vão pará-lo com
seus próprios corpos.

Esta noite vimos as estrelas mais bonitas da Rússia, do hemisfério
norte, a noite foi fria e o ar transparente. Eu, feliz e ao lado de
pessoas recentemente conhecidas, mas que não pareciam desconhecidas.
Resumindo, senti naquele momento a esperança crescendo dentro do meu
peito, uma sensação rara na Rússia (para mim, pelo menos, talvez sou
pessimista demais).

Na segunda, com as bexigas, violão e um monte de panfletos com a cara do
vice-governador escrito "Procura-se", fomos para a administração. Foi
muito divertido, os moradores escrevendo nos panfletos o que eles
pensavam sobre o governo em relação ao queimamento dos mísseis e a
tentativa de entrar no prédio para entregar os "documentos". A polícia
estava presente, se escondendo no ônibus atrás das cortinas cor de rosa.
Até veio o chefe da polícia, tentando convencer todo mundo que não rolou
violência alguma durante o protesto anterior, foi vaiado, e conseguimos
marcar uma reunião aberta com ele para sábado.

O que me surpreendeu é a quantidade de polícias a paisana no protesto,
acho que para cada um dos ativistas tinha um vigia, muitos com as
câmeras filmando ou fingindo filmar na cara dura. Como o governador não
se pronunciou e nem apareceu, escondendo-se covardemente atrás das
costas de seus capangas, todo mundo gritou para ele que dia 30 a fábrica
será bloqueada.





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