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(pt) O GRANDE OUTUBRO NA UCRÂNIA - Nestor Makhno

From a-infos-pt@ainfos.ca
Date Sun, 22 Aug 2004 16:11:57 +0200 (CEST)


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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
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[de CMI Brasil]
O mês de Outubro de 1917 é uma grande etapa histórica da Revolução russa.
Esta etapa consiste na tomada de consciência dos trabalhadores - das
cidades e do campo - dos seus direitos de controlar as suas próprias vidas
e o seu património social e económico: o cultivo da terra, as habitações,
as fábricas, as minas de carvão, os transportes e, enfim, a instrução, que
servia outrora para destituir os nossos antepassados de todos esses bens.Entretanto, do nosso ponto de vista, dar a Outubro todo o conteúdo da
Revolução russa seria afastar-se muito da realidade. A Revolução russa foi
preparada durante os meses que precederam Outubro, período no qual os
camponeses e os operários se apoderaram do mais importante. A Revolução de
Fevereiro pode servir de símbolo para os trabalhadores da sua libertação
ulterior do jugo económico e político aos quais estavam submetidos.
Constataram, sem hesitar, que a Revolução de Fevereiro tomou, na sua
evolução, a forma degenerada de um produto da burguesia liberal, e, como
tal, foi incapaz de se colocar na via da acção social. Os trabalhadores
ultrapassaram imediatamente os limites instaurados pela Revolução de
Fevereiro, e puseram-se a romper às claras todos os elos com o seu aspecto
pseudo-revolucionário e os seus objectivos.Esta acção revestiu dois aspectos na Ucrânia: no momento em que o
proletariado das cidades, devido à fraca influência exercida sobre ele
pelos anarquistas, por um lado, e a falta de informação, por outro, sobre
as posições reais e os problemas internos dos partidos, considerava que
colocar os bolcheviques no poder era o dever mais importante na luta
iniciada para o desenvolvimento da revolução, a fim de substituir a
coligação dos socialistas- revolucionários de direita e da burguesia.Durante esse tempo, no campo, em particular na parte zaporogue da Ucrânia,
lá onde a autocracia nunca pôde abolir inteiramente o espírito livre, o
campesinato trabalhador revolucionário considerava como o seu dever mais
imperativo e importante o facto de empregar a acção revolucionária directa
para se libertar o mais rápido possível dos pomestchikis e dos kulaks(1),
estimando que esta emancipação facilitaria a vitória contra a coligação
político-social-burguesa.É por isso que os camponeses começaram, na Ucrânia, a sua ofensiva, ao
confiscar as armas dos burgueses (a marcha do general Kornilov sobre
Petrogrado em muito contribuiu para isto, em Agosto de 1917), recusando
pagar, em seguida, a segunda parcela anual de impostos sobre a terra aos
proprietários e kulaks.Essa terra, que os agentes da coligação se esforçavam, com zelo, para
retirar das mãos dos camponeses, para a conservar nas mãos dos
proprietários, com o pretexto de que o governo devia observar o status quo
até à decisão da Assembleia Constituinte.Os camponeses puseram-se, então, a expropriar directamente os
pomestchikis, kulaks, dos mosteiros e das terras do Estado, assim como do
gado, instituindo, sempre directamente, comités locais de gestão desses
bens, para a sua repartição entre os diferentes vilarejos e comunas.Um anarquismo instintivo transparecia em todas as intenções dos camponeses
da Ucrânia naquele momento, exprimindo um ódio não-dissimulado por toda a
autoridade estatal, acompanhada de uma aspiração a dela se libertar.Esta aspiração era muito forte entre os camponeses. Consistia, em
substância, em libertar-se das instituições da polícia, do juiz enviado do
centro pela burguesia, e assim por diante. Essa aspiração exprimia-se, na
prática, em muitas regiões da Ucrânia. Há inúmeros exemplos testemunhando
de que maneira os camponeses das províncias de Ekaterinoslav, de uma parte
de Tavripol e de Kherson, de Poltava e Kharkov expulsaram a polícia dos
vilarejos, ou, então, retiraram-lhe o direito de prender, sem antes se
dirigir aos comités de camponeses e às assembleias dos vilarejos; os
polícias estavam reduzidos a representar o papel de mensageiros das
decisões tomadas... O mesmo ocorria com os juizes.Os próprios camponeses julgavam todos os delitos, durante as assembleias
ou reuniões, privando de todo o direito de jurisdição os juizes enviados
pela autoridade central. Os juizes caíam, às vezes, em tal desgraça junto
aos camponeses que, amiúde, eram obrigados a fugir e a esconder-se.Tal comportamento dos camponeses para com os seus direitos individuais e
sociais obrigou-os naturalmente a temer que a palavra de ordem "Todo o
poder aos sovietes" se transformasse num poder de Estado: estes temores
não se manifestavam, talvez, tão claramente no proletariado das cidades,
que estava mais sobre influência dos social-democratas e dos bolcheviques.Para os camponeses, o poder dos sovietes locais significava transformar
esses órgãos em unidades territoriais autónomas, sobre a base do
agrupamento revolucionário e autogestionário socio-económico dos
trabalhadores, na via da construção de uma nova sociedade. Assim
compreendendo esta palavra de ordem, os camponeses fizeram-na sua,
aplicaram-na, desenvolveram-na e defenderam-na contra os ataques dos
socialistas-revolucionários de direita, dos cadetes e da contra-revolução
monarquista.Outubro ainda não havia ocorrido quando os camponeses, em inúmeras
regiões, recusaram-se a pagar os impostos de arrendamento aos pomestchikis
e aos kulaks, confiscaram-lhes as terras e o gado, em nome das suas
colectividades, enviaram, em seguida, delegados ao proletariado das
cidades para se entender com ele quanto ao controle das fábricas,
empresas, etc., e estabelecer elos fraternos a fim de construírem ,
juntos, a nova e livre sociedade dos trabalhadores.Naquele momento, a aplicação prática das ideias do "grande Outubro" não
tinha sido adoptada pelos seus inimigos, e era muito criticada nos grupos,
organizações, partidos, e seus comités centrais. Desse modo, o grande
Outubro, na sua designação cronológica oficial, aparece aos camponeses
revolucionários da Ucrânia como uma etapa já alcançada.Durante as jornadas de Outubro, o proletariado de Petrogrado, Moscovo e
outras grandes cidades, assim como os soldados e camponeses se avizinhavam
destas cidades, sob a influência dos anarquistas, dos bolcheviques e dos
socialistas revolucionários de esquerda, regularizaram e expressaram
politicamente com maior precisão o motivo que levou os camponeses
revolucionários de inúmeras regiões da Ucrânia a lutar activamente, já a
partir do mês de Agosto, em condições muito favoráveis do ponto de vista
do proletariado urbano.As repercussões da vontade proletária de Outubro chegaram à Ucrânia com um
mês e meio de atraso. Ela manifestou-se, inicialmente, por apelos de
delegados e partidos, em seguida, por decretos do Soviete dos Comissários
do Povo, em relação ao qual os camponeses ucranianos se conduziram com
desconfiança, não tendo participado na sua designação.Grupos de guardas vermelhos apareceram em seguida, vindos em parte da
Rússia, atacando, em todos os lugares, os nós de comunicação e as cidades,
para expulsar as tropas contra-revolucionárias dos cossacos da Rada(2)
central ucraniana, tão contaminada pelo chauvinismo que não pôde ver nem
compreender com quem e a que se aparentava a população trabalhadora
ucraniana, nem o seu espírito revolucionário manifestado no combate pela
sua independência social e política.Ao fazer esta análise do grande Outubro, no seu 10º aniversário, devemos
ressaltar que o que fazíamos na Ucrânia, nos campos, integrou-se
perfeitamente, ao fim de dois meses, às acções dos trabalhadores
revolucionários de Petrogrado, de Moscovo e das outras grandes cidades.Tanto estimamos a fé revolucionária e o orgulho manifestado pelos
camponeses ucranianos antes de Outubro, como celebramos, também, e nos
inclinamos diante das ideias, da vontade e da energia manifestadas pelos
operários, camponeses e soldados russos durante as jornadas de Outubro.É verdade que, ao tratar do passado, não é possível passar ao lado do
presente, ligado de um modo ou de outro a Outubro.Não podemos deixar de exprimir uma profunda dor moral pelo facto de, após
dez anos, as ideias que encontraram a sua expressão em Outubro serem
achincalhadas por aqueles, que em seu nome, chegaram ao poder e dirigem a
partir daí a Rússia.Nós exprimimos a nossa solidariedade entristecida por todos aqueles que
lutaram connosco pelo triunfo de Outubro, e que apodrecem actualmente nas
prisões e nos campos de concentração, cujos sofrimentos, sob a tortura e a
fome, chegam até nós, e obrigam-nos a sentir, em vez de alegria pelo 10ª
aniversário do grande Outubro, uma profunda aflição.Por dever revolucionário, elevamos mais uma vez a nossa voz para além das
fronteiras da URSS: devolvam a liberdade aos filhos de Outubro,
devolvam-lhes os seus direitos de se organizar e propagar as suas ideias.Sem liberdade e sem direitos para os trabalhadores e para os militantes
revolucionários, a URSS asfixia-se e mata tudo aquilo que tem de melhor
nela. Os seus inimigos alegram-se com isso, e preparam-se em todos os
lugares do mundo, com a ajuda de todos os meios possíveis, para esmagar a
Revolução e a URSS com ela.
(1) Pomestchikis: grandes proprietários de terras; kulaks: ricos fazendeiros
(2) Rada: Assembleia Constituinte dos deputados na Ucrânia em 1918.
Texto extraído de Os Anarquistas na Revolução Russa, organizado por
Alexandre Skirda

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