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(pt) Comunicados zapatistas em Cancun

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Date Mon, 22 Sep 2003 20:09:10 +0200 (CEST)


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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
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Tradução de Emilio Gennari dos Comunicados zapatistas enviados a Cancun
por ocasião dos protestos contra a reunião da OMC nos dias 10 a 14 de
setembro.
Exército Zapatista de Libertação Nacional. México.

Setembro de 2003.

Para: Via Campesina, Secretaria Executiva, Tegucigalpa, Honduras.

De: Subcomandante Insurgente Marcos, CCRI-CG do EZLN, México.



Irmãos e irmãs:

Recebam nossas saudações.

Comunico-lhes que recebemos a sua carta de 5 de agosto de 2003 na qual nos
convidam a participar do Fórum Internacional Camponês Indígena e das
jornadas de luta e resistência que ocorrerão, de 8 a 14 de setembro deste
ano, contra a Organização Mundial do Comércio que se reunirá em Cancun,
México.
Agradecemos pelo convite e saudamos a existência da Via Campesina, ou
seja, sua luta e sua resistência. Anexos à presente, vocês receberão três
discursos (gravados e escritos): um do Comandante David, outro da
Comandante Esther e outro ainda do Subcomandante Insurgente Marcos, todos
eles em nome do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral
do EZLN.
Achamos que os discursos poderiam ser apresentados em qualquer uma das
mobilizações de massa que se realizarão nestas datas, mas fica a critério
de vocês apresentá-los em fóruns e reuniões. Pedimos somente que, quando
possível, sejam mulheres que integrem a Via Campesina a apresentar cada um
dos discursos.
Esperamos que dê tudo certo e que, de fato, o trem da morte que a OMC
conduz seja descarrilado em Cancun e em qualquer lugar do mundo.
Oxalá, tenhamos logo mais notícias de vocês.

Valeu. Saúde e que a esperança continue sendo semeada, e crescendo, nos
campos dos cinco continentes.


Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Subcomandante Insurgente Marcos.



Exército Zapatista de Libertação Nacional. México.

Palavras da Comandante Esther.



Irmãs mulheres indígenas, camponesas e da cidade:

Enviamos uma saudação a todas as que participam desta grande mobilização
mundial contra a Organização Mundial do Comércio, sobretudo, àqueles que
participam das ações da Via Campesina.
Agradecemos por nos ter dado a oportunidade de dizer nossas palavras como
Exército Zapatista de Libertação Nacional.
Irmãs mulheres indígenas e camponesas. Queremos dizer a vocês que se
organizem para lutar contra o neoliberalismo que nos humilha, nos explora
e quer nos fazer desaparecer como indígenas, como camponesas e como
mulheres.
Porque não pagam o justo preço pelo produto que vendemos enquanto aumentam
cada vez mais o preço dos produtos deles. Tudo o que nós pobres compramos
está cada vez mais caro e só poucas pessoas se beneficiam e vivem melhor.
Enquanto isso, milhões de homens, mulheres e crianças pobres morrem de
fome e de doença. Por isso, não vamos permitir que façam livremente suas
covardias.
Não vamos permitir que homens, mulheres e crianças do mundo inteiro
continuem morrendo de fome e de doença. Porque nós sabemos que, como
mulheres indígenas e camponesas, somos nós que sofremos mais com nossos
filhos porque nós cuidamos deles e os mantemos, além disso, trabalhamos na
roça.
Devido a isso, devemos ter mais coragem para lutar e acabar com toda esta
exploração e humilhação. Também queremos dizer aos homens que respeitem os
nossos direitos como mulheres. Mas não vamos pedir isso como favor, mas
sim vamos obrigar os homens a nos respeitar. Porque muitas vezes os maus
tratos que recebemos não vêm só do rico explorador. A fazer isso são
também os homens que são pobres como nós, sabemos disso muito bem e não há
quem pode negá-lo.
Porque o rico quer nos humilhar porque somos mulheres, mas também o homem
que não é rico age assim, ou seja, o que é pobre como nossos maridos,
nossos irmãos, nossos pais, nossos filhos, nossos companheiros de luta, os
que trabalham conosco e estão na nossa organização.
Então, dizemos claramente que quando exigimos o respeito das mulheres, não
o reivindicamos só dos neoliberais, mas também vamos obrigar a isso os que
lutam contra o neoliberalismo, que dizem que são revolucionários, mas que
na própria casa são como Bush.
Queremos dizer também a todas as mulheres da cidade que se organizem para
lutarem juntas porque elas também sofrem da mesma situação, humilhação e
exploração. Porque as que trabalham nas fábricas como operarias,
empregadas, professoras, secretárias, têm um patrão ou patroa, porque as
mulheres ricas também nos humilham e nos desprezam. E o que ganham não dá
para elas cuidarem da saúde, da educação e da alimentação de seus filhos.
E têm que cumprir também o horário que lhes dão, e quando não o cumprem
perdem o trabalho e, contudo, não lhes pagam o justo salário.
E também as mulheres jovens que são perseguidas, molestadas e violentadas
e os homens usam como pretexto o como elas se vestem, mas nós não devemos
permitir isso porque cada um se veste como lhe dá vontade e nem por isso
deve ser molestado ou violentado.
E queremos falar também das mulheres que são assassinadas em Cidade Juarez
que é no Estado de Chihuahua, aqui no México. Aí, há muitas mulheres que
são seqüestradas, violentadas e assassinadas e são só mulheres jovens,
pobres e trabalhadoras. Seus familiares pedem justiça e os governos não
fazem outra coisa a não ser se fazer de bobos. E, como não há justiça, os
assassinatos continuam.
Se a serem seqüestrados, violentados e assassinados fossem homens e ricos,
vocês veriam com que rapidez o governo e seus policiais encontrariam o
culpado. Mas não, não fazem nada porque a morrer são mulheres e pobres.
Por isso, temos que nos organizar, para nos defender e obrigar ao respeito
dos nossos direitos; de nada adianta esperar que o governo faça algo
porque não faz outra coisa a não ser dar entrevistas no rádio, na
televisão e nos jornais.
Por isso, dizemos a vocês, irmãs indígenas, camponesas e da cidade, que as
convidamos a se organizarem para lutarmos juntas já que sofremos a mesma
humilhação por parte dos ricos e também dos nossos homens que não querem
nos respeitar como mulheres.
Mas chegou a hora de, juntas, obrigarmos os homens a nos respeitar pelo
que somos e como merecemos.


Viva as mulheres indígenas!

Viva as mulheres camponesas!

Viva as mulheres da cidade!

Viva as mulheres pobres!



Democracia! Liberdade! Justiça!



Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do
Exército Zapatista de Libertação Nacional.
Comandante Esther. México, setembro de 2003.



Exército Zapatista de Libertação Nacional. México.

Palavras do Comandante David.



México, setembro de 2003.



Irmãos e irmãs camponeses e indígenas do México, da América Latina e do
mundo:
Enviamos a todos e a todas a saudação dos homens, mulheres, crianças e
anciãos do Exército Zapatista de Libertação Nacional.
Em primeiro lugar, queremos agradecer pelo convite que a Via Campesina nos
fez de participar deste ato. Agradecemos também todos os que participam
desta importante mobilização e nos dão a oportunidade de dizer a nossa
palavra.
E nossa palavra, irmãos e irmãs, é de autonomia e de resistência. Diante
dos poderosos do dinheiro que agora se reúnem para fazerem acordos sobre
como acabar conosco, humilhar-nos e fazer-nos desaparecer, nós zapatistas
levantamos a autonomia e a resistência como armas e escudo pela humanidade
e contra o neoliberalismo. Porque nós, povos indígenas de qualquer parte
do México, da América Latina e de qualquer continente, temos sofrido
sempre todo tipo de injustiças. Sofremos pela expropriação de nossas
riquezas naturais, da água, dos bosques, dos rios, dos mananciais, das
pedras, do ar, até dos túmulos dos nossos mortos. Por toda parte nos
tratam com desprezo e humilhação.
Fazem gozações da nossa língua, da nossa cultura, da nossa roupa e de toda
a nossa maneira de ser. Fazem gozações da nossa cor porque somos da cor da
nossa mãe terra.
Desde a conquista espanhola, temos sido tratados com desigualdade e
injustiça. Não temos sido levados em consideração em todos os planos de
desenvolvimento e na hora de tomar as decisões. Como indígenas, não temos
direito à terra, à saúde, à educação, à alimentação e à moradia. Somos
escravos e explorados em nossa própria terra. Ou somos desalojados de
nossas próprias terras e obrigados a ficar na rua ou a irmos morrer nos
países estrangeiros.
É assim que temos sido obrigados a destruir nossa unidade, nossas idéias e
costumes coletivos. Somos atacados com idéias e costumes diferentes dos
nossos e assim querem destruir os nossos valores e querem acabar com a
convivência respeitosa de muitas culturas como as que nós indígenas
zapatistas proclamamos.
É assim que os poderosos querem nos matar. Mas nós queremos viver. Não
viver como escravos, mas sim viver com liberdade, com democracia e com
justiça.
Por isso, porque queremos viver, a resistência dos povos é uma de nossas
armas de luta diante dos planos e projetos de morte do mau governo e dos
poderosos. Ainda que a resistência não tenha sido e nem será fácil para os
nossos povos em resistência, porque eles têm que suportar todos os golpes
políticos, econômicos, ideológicos, culturais, militares e paramilitares
do mau governo.
Mas a resistência nos torna fortes e dignos, porque faz com que nós, povos
zapatistas, não nos rendamos e não nos vendamos diante das idéias e das
migalhas do supremo governo.
A resistência une os povos em luta que buscam uma vida justa e contra os
planos de morte e destruição dos poderosos. Assim, a partir da
resistência, os povos começam a desenvolver a sua vida política,
econômica, social, ideológica e cultural. Porque começam a desenvolver
coletivamente os seus trabalhos nas áreas de saúde, educação, na
comercialização e na organização das autoridades autônomas.
Somente assim, a partir da resistência, os povos podem começar a exercitar
seus direitos à autonomia, a partir dela os povos começam a pensar, a se
organizar e a decidir como querem viver e se governar sem que os políticos
intervenham na vida dos povos. Com a resistência, vamos defender nossos
direitos à autonomia e à livre determinação. Com a resistência vamos
defender nossas terras, as riquezas naturais, a cultura e nossas formas de
governo, ou seja, a nossa autonomia.
Porque para os povos indígenas, a autonomia é um elemento fundamental,
porque, com a autonomia, temos direito a pensar, a decidir, a nos
organizar e nos governar como povos, de acordo com nossa forma de
entender, de acordo com nossos conhecimentos da vida e do mundo, de acordo
com a nossa cultura de povos.
Os povos indígenas do México e de toda a América têm sabido se organizar
com inteligência e sabedoria, se governar e dirigir o seu próprio destino
e assim puderam desenvolver sua vida política, econômica, social e
cultural.
Por isso, a autonomia é um direito que devem ter todos os povos das
origens de cada país, para que possam viver com liberdade, com direito,
com igualdade e justiça como todos os seres humanos.
Por isso, nós zapatistas reivindicamos, exigimos e exercemos todo este
direito à autonomia e à livre determinação para todos os povos indígenas
do México e do mundo. Ninguém deve tirar este direito, porque tirar a
autonomia a um povo é tirar-lhe o direito à vida, à criatividade, à
organização e ao desenvolvimento. Sem autonomia, a vida dos povos será
submissão, dominação, humilhação e morte. Por isso, com a arma da
autonomia numa mão e a arma da resistência na outra, lançamos um apelo aos
camponeses do México e do mundo inteiro.
É um apelo que muitos anos atrás foi feito pelo general Emiliano Zapata
que disse que a terra é de quem a trabalha. A terra que trabalhamos é
nossa, não é dos bancos, nem dos que vendem adubos e inseticidas e
promovem os cultivos transgênicos. A terra não é de quem a vê como uma
mercadoria, a vende e a compra, a destrói e a mata.
A terra é nossa, dos camponeses e dos indígenas, e devemos tomá-la em
nossas mãos e fazê-la produzir para todos, não para um punhado de
vagabundos que da terra não conhecem nem a cor.
Por isso, deste canto digno da nossa pátria mexicana, lançamos um apelo a
todo o povo do México, a todos os povos da América Latina e a todos os
povos do mundo a unir-se à resistência e a apoiar a resistência de todos
os povos pobres do mundo que estão sendo golpeados e ameaçados para serem
destruídos pela globalização da morte.
Irmãos e irmãs do mundo, chamamos vocês a se unirem e a se organizarem na
resistência mundial.


Pela resistência!

Pela humanidade!

Contra o neoliberalismo!

Democracia! Liberdade! Justiça!



Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do
Exército Zapatista de Libertação Nacional.
Comandante David. México, setembro de 2003.



Exército Zapatista de Libertação Nacional. México.

Palavras do Subcomandante Marcos.



México, setembro de 2003.



Irmãos e irmãs do México e do mundo que se encontram em Cancun nesta
mobilização contra o neoliberalismo:
Recebam a saudação dos homens, mulheres, crianças e anciãos do Exército
Zapatista de Libertação Nacional.
Para nós, é uma honra que, no meio de suas reuniões, acordos e
mobilizações, criem um espaço para ouvir a nossa palavra.
O movimento mundial contra a globalização da morte e da destruição tem
hoje em Cancun uma de suas expressões mais brilhantes.
Perto de onde se realiza esta mobilização, um punhado de servidores do
dinheiro acordam as formas e os tempos para continuar com o suculento
crime da globalização. A diferenças entre eles e todos nós não está nos
bolsos de uns e de outros ainda que os bolsos deles transbordem de moedas
e os nossos de esperanças.
Não, a diferença não está nas notas, mas sim no coração.

Vocês e nós, temos no coração um amanhã que está por vir, ou seja, a ser
construído. Eles só têm um passado que querem repetir eternamente.
Nós temos a vida, eles a morte.

Nós lutamos pela humanidade, eles pelo neoliberalismo.

Nós queremos a liberdade, eles querem nos escravizar.

Não é a primeira vez, e nem será a última, que os que se acham donos do
planeta têm que se esconder por trás de seus altos muros e de suas
patéticas forças de segurança para fazer seus planos.
Como numa guerra, o alto comando deste exército transnacional que se
propõe a conquistar o mundo da única forma que lhe é possível
conquistá-lo, ou seja, destruindo-o, se reúne sob um esquema de segurança
tão grande quanto o seu medo.
Porque se antes os poderosos se reuniam às costas do mundo para maquinar
suas futuras guerras e expropriações, hoje têm que fazer isso não só
diante de todos, mas agora contra milhares em Cancun e milhões em toda a
terra.
Porque é disso que se trata. De uma guerra. De uma guerra contra a
humanidade.
A globalização dos que estão em cima nada mais é a não ser uma máquina
mundial que se alimenta de sangue e defeca dólares.
E no complexo balanço que transforma mortes em dinheiro, há um grupo de
serem humanos que é cotado a um preço muito baixo na carnificina global.
São os indígenas, os jovens, as mulheres, as crianças, os anciãos, os
homossexuais, as lésbicas, os migrantes, os diferentes. Ou seja, a imensa
maioria da humanidade.
A guerra mundial do poderoso quer transformar o planeta terra num clube
exclusivo no qual ele se reserva o direito de admissão.
A área de luxo e exclusiva na qual agora se reúnem, representa o seu
projeto de globo terráqueo: um complexo de hotéis, restaurantes, áreas de
lazer de luxo, protegido por exércitos e policiais.
Para o poderoso, todos nós temos a opção de estar no interior desta área
exclusiva, mas só como serviçais, ou ficarmos fora do mundo, ou seja, da
vida.
Mas não temos porque obedecer ou escolher entre viver como serviçais ou
morrer. Podemos construir um caminho novo, no qual viver seja viver com
dignidade. No qual viver seja viver com liberdade.
Construir esta alternativa é possível e é necessário.

Esta alternativa é necessária porque dela depende o futuro da humanidade.
Este futuro está em jogo em todos os cantos de cada um dos cinco
continentes.
E esta alternativa é possível porque no mundo inteiro há aqueles que sabem
que “Liberdade” é um termo que, ou se conjuga no plural, ou não deixa de
ser uma pobre desculpa para o cinismo.
Irmãos e irmãs:

No mundo inteiro há dois projetos de globalização em disputa.

O de cima, que globaliza o conformismo, o cinismo, a estupidez, a guerra,
o esquecimento.
E o de baixo que globaliza a rebeldia, a esperança, a criatividade, a
inteligência, a imaginação, a vida, a memória, a construção de um mundo
onde caibam todos os mundos. Um mundo com...
Democracia! Liberdade! Justiça!



Das montanhas do Sudeste Mexicano.

Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do
Exército Zapatista de Libertação Nacional.
Subcomandante Insurgente Marcos.

México, Continente Americano, Planeta Terra. Setembro de 2003.




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