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(pt) NOTA PÚBLICA DA FAG SOBRE A FRENTE ESTUDANTIL UNIVERSITÁRIA

From a-infos-pt@ainfos.ca
Date Sat, 13 Sep 2003 23:41:49 +0200 (CEST)


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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
http://ainfos.ca/ http://ainfos.ca/index24.html
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de http://www.fag.rg3.net/
Introdução
A FAG, através dessa nota, dá a conhecer a todos o que significa para nós
ter uma frente de trabalho no meio estudantil universitário. Em que medida
a universidade e os estudantes podem contribuir para um conjunto de
práticas sociais que contribuam para o processo de transformação social,
inserido em nossa estratégia?
Sentimos a necessidade de publicar esse texto como forma de esclarecer as
diferenças entre a nossa prática e a de outros grupos do movimento
estudantil que, embora tenham falas semelhantes às nossas, na prática são
grupos que nem de longe se afinam à dinâmica da frente estudantil da FAG.
Hoje, finda a última gestão do DCE da UFRGS, vimos mais uma vez confirmar
a avaliação que já fazemos há muito tempo: ocupar uma entidade estudantil,
alterar sua estrutura interna, não são garantia de novas práticas quando
não rompem com valores como individualismo, espontaneísmo, competição,
vaidade, entre outros, tão presentes no movimento estudantil universitário
que conhecemos. Quando não se rompe com esses valores, o que vemos é a
burocracia sugar a energia de todos, tanto de estudantes sinceros e
bem-intencionados, quanto de oportunistas e egocêntricos. Alguns se
orgulham em dizer que não pertencem a partido político nenhum, afirmando
que os militantes de partido disputam as entidades estudantis para
promover seu partido. No entanto, eles mesmos só estão na entidade para
brilhar, sedentos por um palco e um microfone, onde possam divagar e fazer
ouvir suas opiniões pessoais. Sem dúvida, dentro ou fora dos partidos
políticos, os vaidosos atrapalham muito o movimento estudantil.
A nota que segue foi escrita em novembro de 2002, mas continua, nove meses
depois, tão atual quanto no dia em que foi feita.


Nossa sala de aula é a favela; nossos professores, o povo em luta!



Em tese, a Universidade Pública é uma instituição de caráter público,
gratuito e autônomo. Na prática, a realidade nos mostra o contrário: a
universidade dita pública não produz conhecimento público. Ao contrário,
ela funciona para que o conhecimento produzido nela contribua na
manutenção das estruturas de dominação do sistema capitalista; a
universidade dita gratuita cobra taxas dos alunos desde a inscrição para
o vestibular até a solicitação de diploma; a universidade dita autônoma
não decide os temas e os rumos de suas pesquisas, pois quem tem esse
poder são as empresas, suas “parceiras”, além dos organismos financeiros
internacionais que ditam os rumos políticos das instituições de ensino
superior da América Latina.
É inegável a importância da universidade na produção de conhecimento e
tecnologia. Do contrário, o Banco Mundial não se preocuparia em escrever
uma cartilha sobre as universidades públicas latino-americanas e garantir
que os governantes cumpram à risca as suas “orientações”, segundo as
quais, os países pobres devem contar com poucos centros de excelência e
muitas instituições de ensino voltadas às necessidades imediatas do
mercado de acordo comcada região. Com isso, disponibilizarão funcionários preparados para o
trabalho nas empresas que se instalarem na América Latina a partir da
ALCA. Ao mesmo tempo, acabarão com a (pequena) produção científica e
tecnológica desses países, o que obrigará a América Latina a importar
ciência e tecnologia produzidas nos E.U.A. ou Canadá, tornando-a ainda
mais dependente.
Não temos dúvida da relevância de um espaço de investigação intelectual. O
conhecimento, pensado em abstrato, pode ser muito enriquecedor. O problema
é quem o administra como ferramenta. Os ricos têm seu lugar na
Universidade: são contemplados pelas pesquisas, pelo ensino e pela
extensão. O currículo, a abordagem dos temas em sala de aula, a pedagogia
e os projetos de extensão legitimam os valores e interesses da elite
dominante. Os pobres, por sua vez, são ignorados ou – em casos como o da
UFRGS – são lembrados apenas nas férias, quando os estudantes participam
de um projeto Convivência. Considerando que esse projeto, além de não
ultrapassar o assistencialismo e, algumas vezes, o turismo, tem duração de
duas semanas e não tem continuidade durante o semestre seguinte, é fácil
calcular: os ricos são contemplados durante os doze meses do ano, enquanto
os pobres são visitados por alguns dias. No entanto, a grande ironia é que
a maior parte dos recursos públicos que financiam a Universidade Pública
no Brasil, através do pagamento de impostos vem justamente da imensa
maioria das pessoas que não têm acesso nem ao conhecimento produzido na
universidade, nem às suas salas de aula. Frente a essa realidade, que
respostas têm dado o movimento estudantil?
De uns anos para cá, longe de significar um perigo para as classes
dominantes, uma parcela do movimento estudantil vem sendo identificada e
caracterizada pelo conjunto do movimento estudantil– principalmente na
UFRGS – como anarquista ou libertária. Alguns desses estudantes se valem
de discursos comuns aos nossos, extraídos da teoria anarquista, em que a
FAG também orienta sua prática. Não vemos nisso qualquer problema: quem
não ficaria feliz em encontrar um novo companheiro? Anarquista ou não, não
são as nomenclaturas que nos tornam companheiros, mas sim a prática
cotidiana. Reconhecemos um companheiro ou companheira naqueles estudantes
que se dedicam sinceramente em fazer do ME um instrumento de luta dos
estudantes e comprometido com a classe oprimida; naqueles estudantes que
se esforçam para colocar em prática as idéias em que acreditam. Por isso,
não há dúvida de que não estamos incluindo todos os estudantes que
participam do ME na mesma análise. Estaremos falando aqui dos discursos
que não se sustentam no dia-a-dia, da transformação social que é esquecida
assim que é largado o microfone, no momento em que as luzes se apagam.
Esses microfones, muitas vezes, já nos surpreenderam com discursos que
defendiam uma universidade comprometida com o povo que financia nossos
estudos. Panfletos chegaram a denunciar que o conhecimento acadêmico
estava fechado na universidade “quando deveria ser voltado à grande parte
da população que financia nosso estudo.” No início, ficamos felizes
pensando que encontramos novos companheiros. Logo depois, a frustração:
aquele que fala em extensão social, na prática inventa mil desculpas para
não colocar o pé no barro. As palavras não correspondem à ação, seja
porque o discurso é proferido pelos mesmos oportunistas (cuja única
preocupação é a própria promoção pessoal), seja porque falta garra para
abrir mão dos próprios privilégios e lutar pela tão falada transformação
social. Além disso, são muito mais fortes os apelos de um ME
espontaneísta, comprometido somente com festas e atividades culturais
esvaziadas de conteúdo político.
Pudera nossas diferenças terminassem aí. No entanto, também há
divergências no próprio discurso. Para alguns, descentralização do poder
significa atribuir a um indivíduo a responsabilidade de fazer o que quiser
(se quiser), quando e como estiver a fim, ou seja, responsabiliza-se
ninguém por coisa nenhuma. Ao invés de fomentar a articulação dos
estudantes em torno de lutas comuns a todos, buscando acumular conquistas
dos estudantes através da ação direta , ao contrário, o que se obtém com
isso é o isolamento: cada estudante ou cada centro acadêmico coloca seu
esforço na organização de atividades culturais, sem conteúdo político.
Reforça-se ainda mais a fragmentação e o corporativismo, contribuindo para
a despolitização da entidade estudantil. E definem isso como auto-gestão.
Também a noção de participação direta se diferencia: há quem pense que
participar do movimento estudantil não significa necessariamente assumir
compromisso com o fortalecimento de um movimento estudantil combativo, que
de fato lute pela educação pública e comprometida com o povo. A
organização de um show, a confecção de uma faixa assumem o sentido de
militância. E a participação direta não passa daí.
Sem dúvida, para nós da FAG não interessa um movimento estudantil
divertido, numeroso e nada mais. Sabemos que não somos os detentores de
Verdades irrefutáveis. O fato é que, enquanto organização política,
orientada por determinados princípios e objetivos, não poderíamos deixar
de ter propostas para as frentes de inserção social em que atuamos. E uma
proposta despolitizada e descompromissada de ME não é o que propomos. Não
nos esforçaríamos em construir um Movimento Estudantil com discursos
preocupados com a transformação social, que não encontram correspondência
na prática. Não. Sentimos a necessidade de uma tendência do movimento
estudantil que reúna os estudantes realmente interessados em partir para
ações concretas: estudantes que queiram organizar a luta pelos direitos
dos estudantes, tendo na entidade estudantil o espaço de articulação,
discussão política e encaminhamento prático das tarefas, sabendo que em
qualquer ação é necessário seriedade para cumprir as responsabilidades que
cada um assume; estudantes que queiram colocar seu conhecimento a serviço
do povo em luta, participando de projetos deextensão social com os movimentos sociais, organizações populares,
comunidades de periferia, rádios comunitárias...; estudantes que enxerguem
a necessidade de colocar em prática o seu discurso, que não fiquem
defendendo a luta pela Universidade Popular nas instâncias do ME, sem
fazer nada no dia-a-dia para construi-la. Pensamos que a função de quem
participa do ME é animar e fortalecer a luta dos estudantes seja na busca
pela deselitização da Universidade, seja na luta pelo comprometimento da
Universidade com o povo, e não com a elite que o explora. Quem lutará por
isso: a Reitoria que assina os convênios com as grandes empresas?; os
professores que forram os bolsos de dinheiro com a venda de suas
pesquisas? Certo que não. Serão os estudantes junto com as organizações
populares. Nesse sentido, encontramos na extensão social a forma de fazer
o ME se unir aos distintos setores da classe oprimida. Reconhecemos que é
preciso tomar contato com o concreto vivido pelos trabalhadores e o povo,
participar da construção de suas soluções, instrumentalizar nossos
princípios para cada situação sem perder de vista o protagonismo popular
como fator decisivo da revolução social, como definiu-se no IV Congresso
Geral da FAG.
Atualmente, há estudantes que atuam no ME tanto para as pautas de luta e
reivindicações internas, como alguns poucos grupos de extensão e centros
acadêmicos trabalham lado a lado com o povo, assumindo o compromisso
solidário de contribuir para o fortalecimento dos movimentos populares;
das rádios comunitárias; das associações de moradores; dos Comitês de
Resistência Popular, entre outros espaços de organização popular. Entender
que o movimento estudantil não pode se manter isolado em torno de
bandeiras corporativistas foi o primeiro passo que esses estudantes deram
para romper o isolamento. A partir daí, se tornou evidente a necessidade
do laço solidário entre os diferentes setores da classe oprimida. Outro
passo foi entender que os estudantes não são aqueles seres iluminados que
compreendem melhor do que todo mundo a realidade que não conhecem. Se um
estudante quiser arruinar todo o esforço de um grupo em seu trabalho de
extensão, basta chegar na comunidade, na organização popular, ou outro
espaço de atuação, e impor suas opiniões, argumentando que sabe mais
porque tem estudo. Pronto! O grupo de estudantes assume-se enquanto
vanguarda intelectual, e as demais pessoas tem seu poder de decisão
diminuído. Ao contrário disso, movimento estudantil e movimento popular
podem estar lado a lado, trabalhando ombro a ombro e é nisso que baseamos
nossa prática.
Não há dúvidas de que a Universidade Popular não é uma luta a ser travada
somente pelos estudantes. Lutar pela Universidade Popular é parte de uma
luta maior que não será travada pelos estudantes sozinhos, mas pelo povo
organizado. Lutar por uma universidade em que o povo defina os rumos do
ensino, da pesquisa e da extensão conforme suas necessidades inclui lutar
por um mundo em que igualdade não signifique essa falsa “igualdade de
oportunidades”, pregada pelo capitalismo; um mundo em que liberdade não
signifique a liberdade individual de cada um omitir-se diante da fortuna e
do conforto de uns às custas da dominação destes sobre a maioria, ou a
liberdade de calar-se diante da opressão para não ser reprimido. A
universidade popular não poderia ser descontextualizada de um objetivo
mais amplo, de transformação social. Para isso nos somamos à luta popular:
para que sejamos protagonistas de nossas vitórias.
APRENDER O QUE A UNIVERSIDADE NÃO ENSINA

COLOCAR O QUE APRENDEMOS A SERVIÇO DE QUEM REALMENTE PRECISA!
NÃO TÁ MORTO QUEM LUTA E QUEM PELEIA!


FEDERAÇÃO ANARQUISTA GAÚCHA




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