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(pt) FÓRUM $OCIAL BRA$ILEIRO: RESPEITÁVEL PÚBLICO, O ESPETÁCULO DEVE CONTINUAR!

From "Karina Lima" <rhdiego@onmail.com.br>
Date Fri, 31 Oct 2003 20:31:20 +0100 (CET)


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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
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Mais de seis meses se passaram e novamente nos encontramos
na necessidade de manter recente a afirmação de nosso repúdio
e negação radicais às táticas dos capitalistas de sucção das
rebeldias gritantes da atualidade através de mecanismos como
Fóruns $ociais, difusores da falsidade democrática e do pacto
cidadão colocados em mesa aos povos do mundo.

Antes a cunho mundial, sob o desígnio de um Fórum $ocial
Mundial, para a discussão de questões sociais, econômicas,
culturais no mundo, esse posicionamento tático de Estados e
das esquerdas do capital frente aos movimentos sociais ofensivos
– desde os já existentes das necessidades cotidianas mais
imediatas, como os movimentos de trabalhadores pela
ocupação de espaços, até os movimentos de rua surgidos do
calor das mobilizações antiglobalização, contra as reuniões de
cúpula, iniciados em Seattle em novembro de 1999 – aparece como
resposta obscena às exibições de autonomia, autogestão e
afronta à forma de dominação vigente em eras de
modernização. Hoje a cunho local, o mesmo evento se
repete, auto-intitulando-se Fórum $ocial Bra$ileiro, como
atratividade seca e insípida, com os discursos prontos e
cheios de impacto, preparados para nos convencer de que estamos
errados por nos auto-organizar e buscar diretamente atracar
nossos corpos e desejos contra os espaços do simulacro
estatal-mercantil. Sabemos que os Fóruns $ociais são
espaços que aparecem como prolongamento dos empreendimentos
burgueses que visam a farsa de serem espaços da pluralidade
para que, através desses empregos, se conclua
a cooptação e desarticulação das resistências em autonomia
frente ao Estado e suas instituições. Como face suavizada de
encontros de cúpula como OMC, BM, BID, FMI, FEM, os Fóruns
$ociais complementam o comboio dos gângsteres corporativos
para a interminável ressurreição do capital, ocorrendo de
forma maquiada e eufemística para a atração e o
enfraquecimento das iniciativas despegadas dos meios
institucionais.

As táticas de arrebanhamento por parte desses burocratas
falsários – tanto a ala empresarial como a estatal – mantêm
seu rumo, com o endosso essencial da esquerda reformista; essa
mesma esquerda que, na cínica cartilha democrática burguesa
quer negociar o pacto de classes, querendo silenciar a tortura
que sofremos a cada dia, ao cedermos nossa criatividade em troca
de ceder mais criatividade aos que se apropriam do que produzimos –
tentando nos convencer de que “outro mundo é pó$$ível”
sob as linhas tortas traçadas no capital.

Nos resta questionar se realmente devemos saltar de cabeça
nessas ridículas alternativas de coerção, construídas pela mesma
laia que aplica esforços maiores para atacar constantemente as
iniciativas de ocupação e gestão direta e autônoma de espaços que
contraponham, longe do território burocrático-corporativista,
às concessões da ordem dominante. Já é satisfatório se conseguirmos
enxergar que participar de um evento como esse – nos espaços
especializados ou nos acampamentos paralelos ao Fórum –
significa legitimar a absorção, por parte do Estado e dos
patrocínios capitalistas, dos potenciais autônomos urgentes para
espaços edificados justamente para despotencializá-los. É
satisfatório, pois, a partir daí, enxergaremos que o equívoco não é
inocente. O Fórum simplesmente não se encontra, em momento algum, na
postura de representar coisa qualquer: jamais representará os
levantes nas ruas de Seattle, Quebec,Gênova, São Paulo, nem a
rebelião argentina, como ousam discursar seus concessionários, mas
representa, sim, mais um motivo para que ocupemos as ruas contra ele
próprio, nós que já o fazemos contra a OMC, o FMI, o BM e companhia.


Os movimentos sociais no Fórum: cooptação proclamada pelos
capitalistas, a democracia burguesa dando seus passos rumo ao
aniquilamento da resistência

"O I Fórum Social Brasileiro é um espaço político,
democrático e plural de debates da sociedade civil e é parte
do processo do Fórum Social Mundial –FSM.”
(Relato de indivíduo pró-F$B sobre primeiro seminário de
organização cultural do Fórum $ocial Bra$ileiro
em agosto de 2003.)

A clareza vista no discurso da organização do Fórum é a
mesma que torna mais visível a forma como este aparece enquanto
método estratégico de sufocação do grito da radicalidade e conter o
potencial autogestionário que se transfigurou mais visivelmente desde
Seattle, nas ruas.

Quando em fevereiro de 1998 foi lançada a coordenação
geral de ações globais contra a globalização do capital – a AGP (Ação
Global dos Povos) – em Genebra, um novo caminho era seguido no cenário
contestatório mundial frente ao capital e sua manutenção pelos Estados.
Um compromisso ainda mais radicalizado era assumido, com os povos
tomando as ruas e, violenta ou pacificamente, colocando suas caras a
tapa frente às reuniões de cúpula das grandes corporações mundiais. Após
tal investida, o mais adequado era criar formas mais eficazes do que a
repressão para conter a urgência desses movimentos sociais frente
ao momento histórico em que nos situamos.
Essas “formas eficazes” seriam nada mais, nada menos que
um espaço materializado sob todos os tipos de discursos
pró-democrático, pró-autogestão, pró-alternativo e ocupacionista que
poderiam ser utilizados para seduzir as lutas latentes, e ainda
patrocinado por algumas das muitas corporações contra as quais se
colocam alguns dos movimentos sociais do mundo inteiro que vão ao Fórum.

Um espaço paralelo é gerado para as “Juventudes”, que
atuam nestes convictos de que não estão inseridos na totalidade do
programa do Fórum; uma ilusão, já que a programação estimada pelos
organizadores do Fórum consiste exatamente em atrair para seus
discursos, de todas as formas possíveis, esses focos de resistência
que consentem com a legitimidade do Fórum em acampamentos que
ocorrem no interior deste, num espaço cedido pelo Estado e pelos
financiadores do cassino global capitalista. Esses acampamentos
paralelos são apenas a reprodução de qualquer falsidade democrática que
venha a afirmar que todos têm um lugar quando se diz respeito a
reconstruir o capital. Os acampamentos da juventude são parte
dos esforços empregados pelas esquerdas ortodoxas e pelos
capitalistas para puxar para o terreno deles o que resta da resistência
emergente, a fim de enfraquecer as lutas e tirá-las do ambiente
público e vulgar das ruas, onde a revolta se figuraria explícita demais.

A carta de princípios do F$M, por exemplo, por ter sido
plagiada, em grande parte de suas teses, do manifesto da AGP, cai em
imensas contradições quando busca suavizar a idéia aplicando
termos humanizadores em meio às frases de impacto. Ao mesmo tempo em que
cita o fato de se posicionar “contra a dominação do mundo pelo capital”,
fala em “reforçar iniciativas humanizadoras em curso” e deixa esclarecido
que o F$M quer alternativas à globalização capitalista, almejando uma
lógica econômico-política que possa ser justa para todos; desejo
fantasioso e nocivamente enganador. Ainda toca descaradamente na
intenção de apaziguar as resistências, o que as tornaria amáveis às
lentes midiáticas e aos olhos patronais, já que a AGP assume, de forma
declarada, “uma atitude de confronto, por não acreditar que o diálogo
possa ter algum efeito em organizações tão profundamente antidemocráticas
e tendenciosas, nas quais o capital transnacional é o único sujeito
político real” (Item 3 da carta de princípios da AGP).


Reacionarismo representativo e anti-revolução

“(...) O Fórum $ocial Mundial (...) não expressou só a ‘conspiração’ do
Estado, do capital e seus reformistas tentando se apropriar
do movimento antiglobalização. Essa é, desde sempre, a astúcia própria
do sistema que busca integrar a si toda forma de contestação, tal qual a
mercadoria faz com tudo o que pode ter uso real ou ilusório: integra o
outro, destruindo-o enquanto outro, submetendo-o à sua loucura
identitária, onde toda a potencialidade de conflito deve ser dissolvida.
(...)”
(Considerações extemporâneas sobre nossa não ida ao F$M –
Nota coletiva assinada por grupos anticapitalistas de Belo Horizonte,
Fortaleza e Santa Maria em 2001.)

Sabendo que, em tempos atuais, é colocada à mesa a relação
de explícita apropriação da crítica prática que ainda restou em tensões
de rua, os coordenadores do F$ não perdem tempo em amaciar o teor
discursivo – que, por sinal, é a parte mais atrativa do Fórum, juntamente
com a milionária campanha midiática que segue na linha de frente –
colocando-se, de forma pretensiosa, enquanto representante de um tal
movimento de movimentos que em momento algum obteve a participação
efetiva de seus assinantes. O passo essencial da esquerda do capital e
demais pactuantes em direção a mais real demolição das lutas que foram
construídas até então vem de sua necessidade incômoda de se colocar na
frente dos movimentos que se formam e se sustentam PELA luta – e não
conquistam cargos para viverem ATRAVÉS dela, como o faz grande parte das
traíras burocratas esquerdistas.

Conseguindo um grande magnetismo diante das forças ainda
fixas em ideais e práticas, a esquerda, o Estado, as corporações, enfim,
todos por trás desta farsa política e social que envolve o F$B, agora
querem colocar em discussão, no mesmo evento, uma aliança cooperativa e
cooptativa dos movimentos sociais que se entregaram ao canto harmônico do
espaço cedido pelos capitalistas para o Fórum, enquanto esses mesmos
movimentos vão sofrendo, gradualmente, degeneração crônica.

Sem se criticar, de modo qualquer, o modo como as relações
de produção e reprodução vitais no capital se dão baseadas na mais
grosseira exploração de nossos cascos objetivando lucros intermináveis
para meia dúzia de iluminados, enquanto não temos controle sobre
absolutamente nada daquilo que ocorre dentro deste mesmo processo, os
espaços que eles nos cedem se desenvolvem exatamente para que essas
realidades sejam ocultadas e favorecidas ao desprezo. Eles querem
alternativas a um sistema que se baseia unicamente na acumulação
econômica e nega de todas as formas o que se afirme para o ser humano!
Uma piada ou um simples jogo de paciência com nossas caras! Enquanto eles
negociam o resgate de um capitalismo eficiente como em tempos passados,
quando as forças produtivas ainda começavam a se desdobrar de forma
eficiente, as gerações passadas e futuras continuam a ser sacrificadas
sob seus discursos humanitários e participativos, que simplesmente nos
colocam à frente dos bombardeios para confirmar-lhes sucesso.

Eles querem dizer que é ali que se forma um movimento
real,no espaço deles, na estrutura luxuosa e especialista de suas
consecuções, onde as redes nacionais de TV podem, sem espiar, pular como
abutres sobre a carcaça da resistência, e até mesmo deixar claro o quanto
aqueles “seres desordeiros e incontroláveis” ou – como diria o pelego
José Genoíno, patrono do PT – “anarquistas”, foram, com êxito,
surrupiados, enganados, domados pelo discurso integrador e
falso-coercitivo. Podem chamar-nos do que quiserem, até mesmo selar em
nossos traseiros qualquer estereótipo ideológico que os caibam à mente,
os fatos não mentem: seus tempos de glória estão ameaçados, pois não nos
cansaremos de, em nosso cotidiano, cutucar suas espinhas e ocupar e
autogerir nossos próprios espaços!


Ao extremo da hipocrisia: uma conferência sobre e pela cooptação

“(...) Diz-se que a ‘democracia está realizada’. Tal
afirmação soa de um modo tão constipador quanto a oferta neoliberal de
emprego: ‘Qualquer emprego é melhor que nenhum!’. Enquanto isso, os
traços de luta ainda combativos, mas seduzidos pela eloqüência de
qualquer discurso pró-democrático, se afogam em seu próprio grito:
‘Qualquer participação é melhor que nenhuma!’. Não é de se surpreender
que o ambiente do Fórum, dentro e fora, apresenta de forma ainda mais
nítida a mercadoria que se tornou o ato de se ‘fazer política’, e o modo
como se pode adestrar os elos ofensores da ordem de um modo tão viável.
(...)” (O Fórum $ocial Mundial: A Atração Inacabada – Panfleto lançado em

fevereiro de 2003 pela Rede Anticapitalista de Belo Horizonte.)


A ousadia dos reformistas pelegos do F$B chega a tal ponto
que, no limite da mentira, se inclui num programa de explícita absorção
dos movimentos radicalizados, uma conferência sobre cooptação,
vinculando o Estado e os movimentos sociais. O título é: Estado e
Movimentos Sociais: cooperação, repressão e cooptação. Tudo está muito
claro; é apenas mais uma tentativa de, em tempos de completa anemia no
seio das tendências de luta não apegadas ao Estado – ao menos em solo
brasileiro, ao menos quando se diz respeito ao fato de muito mais da
metade dos focos que se propõem anticapitalistas irem ao Fórum, talvez
até com uma expectativa de transformação em alguma coisa – rebuscar a
mera escassez de força ainda contida nesses movimentos para o interior
do ambiente do Estado e da crítica modernizadora de capitais. As emendas
sob as quais se limita o Fórum são as mesmas rezadas durante toda a
história para a humanidade, durante todo o desenvolvimento da
forma-mercadoria, que, por sinal, somente foi efetivado a partir das
ações objetivas desta mesma humanidade.

Com toda a certeza, virão, a partir daí, todos os discursos que
dignifiquem a existência de um comboio conspirativo o qual é
o F$B; desde o resgate da soberania cidadã, até uma construção
democrática de alternativas para a globalização do capital. Todos esses
discursos pomposos para elevar aos sonhos social-democratas o mesmo lucro
do qual vivem os magnatas de hoje. A questão nacional, sempre colocada em
destaque, é a melhor forma de contundir as massas e levá- las ao
desespero pela participação em qualquer circo que aparecer. Sim, a
democracia está, de fato, realizada, e o que leva à constipação é
exatamente o fato de ela constar, por si só, substancialmente, na nossa
própria condenação à incapacidade, e na nossa auto-afirmação enquanto
escravos em legítima aceitação.

Com essa amostra mais descarada da hipocrisia que o Fórum
representa, ainda pode-se notar, além do conteúdo, a forma
completamente verticalizada como se colocam os espaços do Fórum. Claro,
óbvio. Se as relações sociais que se determinam sob um aparelho do Estado
e sob as designações mercantis se dão de tal forma, o espaço do F$B, que
é exatamente o reflexo mais nítido de tudo o que já existe no mundo de
mercado, não seria diferente.
Estudantes (secundaristas, calouros, mestrandos, etc.), a
trupe das ideologias (“istas” em geral), democratas, empresários
(pequenos, grandes, médios), cristãos, sem-teto/terra, amantes de Lula,
etc. estarão todos a interagir numa só cabine de falsidades, onde essa
diferença, completamente abstraída pelos conceitos mercadológicos, é
colocada a ver, quando somos diferentes apenas porque temos a coloração
de pele ou a ideologia ou a opção sexual diversificados e quando somos
iguais, pois somos cidadãos. Os de baixo escutam, enquanto os
exploradores e especialistas vomitam seus dogmas reformistas. Um
acampamento paralelo é criado para abrigar e bajular os “desajustados”,
as possíveis ameaças, os que complementam a festa com suas presenças
ainda mais lamentáveis. E assim está concebido o mais efetivo mecanismo
de pacto social já proposto – para além das fábricas, campos e escolas –
em todos os tempos. A festa
dramaturga, onde as marionetes estão propostas a ser nós mesmos.


Paraíso de reformista é a miséria

“(...) Seguindo o mesmo fio condutor desses ‘democratas’,
que não é outro senão o que vai da rendição à traição, se afirma que já
não há que exigir justiça para os crimes do Estado, e sim cobrar o
dinheiro que ele paga como reparação. Ou que já não se trata de acabar
com a riqueza, e sim combater a pobreza, omitindo que na primeira está a
origem da segunda.
(...)” (Mais Contra o F$M – Texto publicado pelas Madres
de Plaza de Mayo argentinas, em janeiro de 2003.)

Enquanto isso o discurso da pobreza, suavemente, integra
as corporações de terceira via e não-governamentais para o patrocínio do
êxito desses projetos das esquerdas mercantis, do Estado e seus braços.
Essa mesma pobreza é colocada nas telas de redes de TV mundiais,
quando se intenta que o Fórum $ocial Mundial circule pelo mundo, pelos
países intitulados subdesenvolvidos, mesmo que se tente ao máximo ocultar
suas cenas mais deploráveis através de projetos de maquiagem das favelas
e das senzalas exploratórias desses locais, assim como planejam em Belo
Horizonte, durante o Fórum $ocial Bra$ileiro. No entanto, é esse
mesmo dialeto da pobreza o mais cabível aos gerentes da exploração
humana. Pois, se um estado-nacional apresenta sinais de pobreza, não
necessariamente quer dizer que as pessoas que sob ele vivem são incapazes
de produzir riquezas.
Enquanto é apregoada a miséria e a despossessão de 90% da
humanidade dos frutos da atividade produtiva humana, a sociedade de
mercados, essa separada em classes, continua a se encaminhar através
desse paraíso que são as ações financeiras e o escoamento de mercadorias
em cima das camadas sociais que vendem sua criatividade em nome do lucro
de outras minorias.
Se há possibilidades de se condicionar a existência de uma
categoria social que, por si mesma, propicia a apropriação do que
produzimos, os estados-nações não passam de conglomerados de força
produtiva submetidos a uma forma de domínio de classe que reduz as
pessoas, assim, à neutralidade cidadã pela representação estatal.

A manutenção da estrutura produtora de mercadorias se dá
exclusivamente em torno de nossa auto-submissão aos preceitos que se
mantêm para mover um estabelecimento de mercados. O Estado se encarrega
de seu papel salvador, exercido em atos de assistência aos nulos cidadãos
conformados e “excluídos” e em atos de administração da existência
desses mesmos. A pobreza é o único paraíso para a permanência do que já
existe. O que fundamenta e concretiza a fome, a miséria e a nossa não
posse sobre absolutamente tudo do que nos cerca é exatamente a mão
invisível que ora aumenta 2% no salário, ora gera alternativas de
atendimentos sociais de saúde, moradia, etc. e, em tempos de euforia,
reprime, à base de extrema truculência, os desejos da humanidade,
cortando funções ou mesmo conduzindo às suas masmorras do esquecimento –
prisões ou asilos de isolamento. É para que se mantenha tal paraíso, que
os
reformistas administradores buscam ao máximo perpetuar um pacto social
que impele esses ditos “cidadanizados” a participarem de sua própria
imbecilização, pagando impostos ou participando das farsas de programas
democráticos.

Se continuar sendo a função de todos nós buscar formas de
administração mais adequadas para esse modo de produção que predomina,
estaremos simplesmente gritando para nós mesmos a nossa condição de
extremo masoquismo. A história do capital foi, até hoje,
construída às custas da cegueira de gerações que se colocaram presas ao
nó do desenvolvimento da mercadoria. Já é tempo de se reverter por
completo esse processo histórico de espoliação e buscarmos gerir, nós
mesmos, oprimidos em geral, uma luta que apenas nós queremos travar, a
todo instante.


Uma única pergunta: por que não estamos nas ruas?

“(...) Poderá ser autônomo um espaço construído à sombra
do manto dos reis e dos padres? Poderá ser efetivamente autônomo um
espaço construído à sombra do mercado e do Estado? Acreditamos
decididamente que não. A ida ao F$M ‘aproveitando’ a estrutura montada
pela esquerda do capital compromete a capacidade autônoma de gerir as
lutas por nós instituídas na medida em que nos põe concretamente a
reboque das
iniciativas da esquerda do capital. A necessidade de ir ao Fórum,
aproveitando sua estrutura para subvertê-la não é mais do que a confissão
de nossa própria incapacidade de autonomamente construir espaços de
socialização no antagonismo real ao capital. (...)” (Mais do Mesmo –
Folheto publicado pelo Coletivo Acrático Proposta, em janeiro de 2002,
sobre a não ida do coletivo ao F$M.)

Torna-se notória a condição mantida a nós quando nos
colocamos frente a frente a tamanha contradição – uma negável e superável
contradição. O fato de termos que nos adaptar às exigências advindas dos
métodos dos Estados e das administrações mercantis para conterem
efetivamente o que os contrapõe – porque, por sinal, os espaços não são
mais conquistados por nós, mas sim cedidos por eles (nossos chefes,
cobradores, superiores) a nós – é a fresca expressão da nossa
vulnerabilidade diante da baixeza das pregações pelego-burocráticas
desses empreendedores. Enquanto convocaram toda a “sociedade civil” para
a verdadeira sabotagem – que é o Fórum $ocial Mundial – aos movimentos
sociais autônomos, os economistas e chefes de Estado do mundo se
encontravam na cúpula do Fórum Econômico Mundial para tomarem decisões
sobre o que investirem contra os mesmos que marcaram presença no seu
subproduto: o F$M. Os que foram às ruas em Nova Iorque e Davos, contra o
FEM, sofreram desfalque, quando grande parte de seus solidarizados haviam
sido eficientemente sedados pelas falas retóricas do F$M. Ambos os lados
- $ocial e econômico – estão colocados em uma mesma moeda, em que a
falsidade se complementa. Essa contradição é completada pela extrema
confusão de identidade dos próprios movimentos que são a legitimidade do
F$M: nas ruas, contra as cúpulas mundiais, vão contra certas corporações;
no F$M, se cegam frente a elas mesmas que o
patrocinam. Dois míseros exemplos: Fundação Ford e Banco
do
Bra$il.

Enquanto são investidos esforços para serem construídos
acampamentos para as verdadeiras massas de manobra das esquerdas
institucionais, o fogo fervilha a rebeldia que se trava nas ruas mundiais
contra o FEM. Outras metades se alojam nos entremeios do F$M para
discutir um “capitalismo humano”. Semelhante a um jogo de escolhas, onde
se deve escolher, entre duas opções, a menos pior ou a mais simpática, os
partidários do Fórum dão o xeque-mate na potencialidade combativa dos
movimentos sociais, para discutir alternativas ao capital e para produzir
um espetáculo de diferenças “unanimemente” ocorrido sob essa diversidade
pasteurizada do mundo de mercados. Então, a pergunta ressoa pelos ares:
por que não estamos nas ruas?

A intensidade como chega o desapontamento causado pelos
companheiros de luta que se entregaram de peito para tal perspectiva, é a
que nos leva a (re)afirmar que não estamos nos colocando contra os
movimentos sociais que aderem a essa posição de acatamento às demandas do
Fórum, mas justamente contra O Fórum e o que ele representa frente a nós.
É esse desapontamento o que nos leva a estar convocando esses
companheiros para a elaboração de meios de intercâmbio que superem por
completo esse apego às instituições do Estado e do mercado e que busquem
radicalmente a construção de novos meios de relação. É essa radicalidade
a mesma que assusta e retrai os patrões e corporações mercantis e
estatais, levando-os a criarem estratégias como o F$ para tornar um pouco
mais agradável a interação para com esses movimentos e tomarem para si
os espaços que deveriam estar em nossas mãos.

O Fórum $ocial Bra$ileiro tende a ser um prolongamento da
festa da cooptação, que termina quando todas as fases da
resistência estiverem aniquiladas por completo. A resposta já está dada:
o Fórum nos ocupa demais para estarmos nas ruas. A prioridade que vemos
os movimentos globais dando a essa farsa descarada nos faz ir de
encontro à nossa crítica prática e chamá-los de encontro à NOSSA
convergência PELA luta anticapitalista. Esse encontro à convergência tem
se dado desde o nosso dia-a-dia, quando estamos nas filas, nos cruzamos
nas ruas urbanas, estamos juntos a trabalhar na terra que sofre
especulação, até os dias de ações globais, que estão a fortalecer ainda
mais a
solidariedade mundial contra o capital. Nosso palco está onde “as ruas,
as escolas, os meios de trabalho em geral expressam nossa incapacidade de
gestão de nossa produção, de nossos espaços, de nosso tempo histórico que
se torna pó nas mãos dos carrascos”, incapacidade que é destruída quando
buscamos, através de ações reais inverter por completo essa lógica de
mundo que aí está. Ao irmos ao Fórum estaríamos, num simples ato, a
aceitar a legitimidade de nossa penúria e de nosso estado de nulidade na
história que nos leva, assim como ela vem sendo contada há séculos, a
estar coletivamente sendo parte do processo de sua construção e, também
coletivamente, estarmos sucumbindo sob ela.

Os tapas já foram fortes o suficiente para que, frente aos
imediatismos que surgem na Argentina, na Bolívia, em Chiapas, anulemos o
que foi correspondido em Seattle, São Paulo, Quebec, Praga,
Gênova, etc. para que o F$B passe a responder por essas circunstâncias. O
Fórum $ocial Bra$ileiro é a resposta que eles têm conseguido – com
sucesso – dar à autonomia anti-representativa das ações mundiais dos
povos em suas localidades. Agora nos resta voltar nossas discussões na
direção de tais investidas, colocando-as em xeque para criarmos, nós
mesmos, nossos espaços, os espaços da autonomia e da construção direta da
luta. Espaços que estejam todos os dias contra o capital e contra os
esforços dos capitalistas de destruírem a combatividade dos movimentos
sociais globais; espaços que vão contra o Fórum, do mesmo modo que foram,
durante tempos, contra as cúpulas mundiais.

NOS VEMOS NAS RUAS!

NÃO-COOPTADOS, CONTRA O ESTADO E O MERCADO

ANTI CAPITALISTAS DE BELO HORIZONTE


“O direcionamento está sendo em lucrar em cima disso. O
Fórum Social Mundial na verdade nunca existiu, na realidade é um fórum
comercial. Visando lucrar com a rotatividade de pessoas num período de
férias. Tive oportunidade de estar no Fórum anterior, trocar e-mails,
debater, obter informações. Acredito num mundo melhor (...), sem o
oportunismo.” (Relato de Carlos 26, estudante, Poá /SP.)




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