A - I n f o s
a multi-lingual news service by, for, and about anarchists **

News in all languages
Last 40 posts (Homepage) Last two weeks' posts

The last 100 posts, according to language
Castellano_ Català_ Deutsch_ Nederlands_ English_ Français_ Italiano_ Polski_ Português_ Russkyi_ Suomi_ Svenska_ Türkçe_ The.Supplement
{Info on A-Infos}

(pt) Fórum $ocial Bra$ileiro: Contra a festa da cooptação

From a-infos-pt@ainfos.ca
Date Thu, 23 Oct 2003 22:21:23 +0200 (CEST)


______________________________________________________
A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
http://ainfos.ca/ http://ainfos.ca/index24.html
________________________________________________

Por Não-Cooptados, Contra o Mercado e o Estado
Seremos diretos: SOMOS CONTRA O F$B!!!

FÓRUM $OCIAL BRA$ILEIRO:
RESPEITÁVEL PÚBLICO, O ESPETÁCULO DEVE CONTINUAR!

Mais de seis meses se passaram e novamente nos encontramos na necessidade
de manter recente a afirmação de nosso repúdio e negação radicais às
táticas dos capitalistas de sucção das rebeldias gritantes da atualidade
através de mecanismos como Fóruns $ociais, difusores da falsidade
democrática e do pacto cidadão colocados em mesa aos povos do mundo.
Antes a cunho mundial, sob o desígnio de um Fórum $ocial Mundial, para a
discussão de questões sociais, econômicas, culturais no mundo, esse
posicionamento tático de Estados e das esquerdas do capital frente aos
movimentos sociais ofensivos – desde os já existentes das necessidades
cotidianas mais imediatas, como os movimentos de trabalhadores pela
ocupação de espaços, até os movimentos de rua surgidos do calor das
mobilizações antiglobalização, contra as reuniões de cúpula, iniciados em
Seattle em novembro de 1999 – aparece como resposta obscena às exibições
de autonomia, autogestão e afronta à forma de dominação vigente em eras de
modernização. Hoje a cunho local, o mesmo evento se repete,
auto-intitulando-se Fórum $ocial Bra$ileiro, como atratividade seca e
insípida, com os discursos prontos e cheios de impacto, preparados para
nos convencer de que estamos errados por nos auto-organizar e buscar
diretamente atracar nossos corpos e desejos contra os espaços do simulacro
estatal-mercantil. Sabemos que os Fóruns $ociais são espaços que aparecem
como prolongamento dos empreendimentos burgueses que visam a farsa de
serem espaços da pluralidade para que, através desses empregos, se conclua
a cooptação e desarticulação das resistências em autonomia frente ao
Estado e suas instituições. Como face suavizada de encontros de cúpula
como OMC, BM, BID, FMI, FEM, os Fóruns $ociais complementam o comboio dos
gângsteres corporativos para a interminável ressurreição do capital,
ocorrendo de forma maquiada e eufemística para a atração e o
enfraquecimento das iniciativas despegadas dos meios institucionais.
As táticas de arrebanhamento por parte desses burocratas falsários – tanto
a ala empresarial como a estatal – mantêm seu rumo, com o endosso
essencial da esquerda reformista; essa mesma esquerda que, na cínica
cartilha democrática burguesa quer negociar o pacto de classes, querendo
silenciar a tortura que sofremos a cada dia, ao cedermos nossa
criatividade em troca de ceder mais criatividade aos que se apropriam do
que produzimos – tentando nos convencer de que “outro mundo é pó$$ível”
sob as linhas tortas traçadas no capital.
Nos resta questionar se realmente devemos saltar de cabeça nessas
ridículas alternativas de coerção, construídas pela mesma laia que aplica
esforços maiores para atacar constantemente as iniciativas de ocupação e
gestão direta e autônoma de espaços que contraponham, longe do território
burocrático-corporativista, às concessões da ordem dominante. Já é
satisfatório se conseguirmos enxergar que participar de um evento como
esse – nos espaços especializados ou nos acampamentos paralelos ao Fórum –
significa legitimar a absorção, por parte do Estado e dos patrocínios
capitalistas, dos potenciais autônomos urgentes para espaços edificados
justamente para despotencializá-los. É satisfatório, pois, a partir daí,
enxergaremos que o equívoco não é inocente. O Fórum simplesmente não se
encontra, em momento algum, na postura de representar coisa qualquer:
jamais representará os levantes nas ruas de Seattle, Quebec, Gênova, São
Paulo, nem a rebelião argentina, como ousam discursar seus
concessionários, mas representa, sim, mais um motivo para que ocupemos as
ruas contra ele próprio, nós que já o fazemos contra a OMC, o FMI, o BM e
companhia.

Os movimentos sociais no Fórum: cooptação proclamada pelos capitalistas, a
democracia burguesa dando seus passos rumo ao aniquilamento da resistência
"O I Fórum Social Brasileiro é um espaço político, democrático e plural de
debates da sociedade civil e é parte do processo do Fórum Social Mundial –
FSM.” (Relato de indivíduo pró-F$B sobre primeiro seminário de organização
cultural do Fórum $ocial Bra$ileiro em agosto de 2003.)
A clareza vista no discurso da organização do Fórum é a mesma que torna
mais visível a forma como este aparece enquanto método estratégico de
sufocação do grito da radicalidade e conter o potencial autogestionário
que se transfigurou mais visivelmente desde Seattle, nas ruas.
Quando em fevereiro de 1998 foi lançada a coordenação geral de ações
globais contra a globalização do capital – a AGP (Ação Global dos Povos) –
em Genebra, um novo caminho era seguido no cenário contestatório mundial
frente ao capital e sua manutenção pelos Estados. Um compromisso ainda
mais radicalizado era assumido, com os povos tomando as ruas e, violenta
ou pacificamente, colocando suas caras a tapa frente às reuniões de cúpula
das grandes corporações mundiais. Após tal investida, o mais adequado era
criar formas mais eficazes do que a repressão para conter a urgência
desses movimentos sociais frente ao momento histórico em que nos situamos.
Essas “formas eficazes” seriam nada mais, nada menos que um espaço
materializado sob todos os tipos de discursos pró-democrático,
pró-autogestão, pró-alternativo e ocupacionista que poderiam ser
utilizados para seduzir as lutas latentes, e ainda patrocinado por algumas
das muitas corporações contra as quais se colocam alguns dos movimentos
sociais do mundo inteiro que vão ao Fórum.
Um espaço paralelo é gerado para as “Juventudes”, que atuam nestes
convictos de que não estão inseridos na totalidade do programa do Fórum;
uma ilusão, já que a programação estimada pelos organizadores do Fórum
consiste exatamente em atrair para seus discursos, de todas as formas
possíveis, esses focos de resistência que consentem com a legitimidade do
Fórum em acampamentos que ocorrem no interior deste, num espaço cedido
pelo Estado e pelos financiadores do cassino global capitalista. Esses
acampamentos paralelos são apenas a reprodução de qualquer falsidade
democrática que venha a afirmar que todos têm um lugar quando se diz
respeito a reconstruir o capital. Os acampamentos da juventude são parte
dos esforços empregados pelas esquerdas ortodoxas e pelos capitalistas
para puxar para o terreno deles o que resta da resistência emergente, a
fim de enfraquecer as lutas e tirá-las do ambiente público e vulgar das
ruas, onde a revolta se figuraria explícita demais.
A carta de princípios do F$M, por exemplo, por ter sido plagiada, em
grande parte de suas teses, do manifesto da AGP, cai em imensas
contradições quando busca suavizar a idéia aplicando termos humanizadores
em meio às frases de impacto. Ao mesmo tempo em que cita o fato de se
posicionar “contra a dominação do mundo pelo capital”, fala em “reforçar
iniciativas humanizadoras em curso” e deixa esclarecido que o F$M quer
alternativas à globalização capitalista, almejando uma lógica
econômico-política que possa ser justa para todos; desejo fantasioso e
nocivamente enganador. Ainda toca descaradamente na intenção de apaziguar
as resistências, o que as tornaria amáveis às lentes midiáticas e aos
olhos patronais, já que a AGP assume, de forma declarada, “uma atitude de
confronto, por não acreditar que o diálogo possa ter algum efeito em
organizações tão profundamente antidemocráticas e tendenciosas, nas quais
o capital transnacional é o único sujeito político real” (Item 3 da carta
de princípios da AGP).

Reacionarismo representativo e anti-revolução

“(...) O Fórum $ocial Mundial (...) não expressou só a ‘conspiração’ do
Estado, do capital e seus reformistas tentando se apropriar do movimento
antiglobalização. Essa é, desde sempre, a astúcia própria do sistema que
busca integrar a si toda forma de contestação, tal qual a mercadoria faz
com tudo o que pode ter uso real ou ilusório: integra o outro,
destruindo-o enquanto outro, submetendo-o à sua loucura identitária, onde
toda a potencialidade de conflito deve ser dissolvida. (...)”
(Considerações extemporâneas sobre nossa não ida ao F$M – Nota coletiva
assinada por grupos anticapitalistas de Belo Horizonte, Fortaleza e Santa
Maria em 2001.)
Sabendo que, em tempos atuais, é colocada à mesa a relação de explícita
apropriação da crítica prática que ainda restou em tensões de rua, os
coordenadores do F$ não perdem tempo em amaciar o teor discursivo – que,
por sinal, é a parte mais atrativa do Fórum, juntamente com a milionária
campanha midiática que segue na linha de frente – colocando-se, de forma
pretensiosa, enquanto representante de um tal movimento de movimentos que
em momento algum obteve a participação efetiva de seus assinantes. O passo
essencial da esquerda do capital e demais pactuantes em direção a mais
real demolição das lutas que foram construídas até então vem de sua
necessidade incômoda de se colocar na frente dos movimentos que se formam
e se sustentam PELA luta – e não conquistam cargos para viverem ATRAVÉS
dela, como o faz grande parte das traíras burocratas esquerdistas.
Conseguindo um grande magnetismo diante das forças ainda fixas em ideais e
práticas, a esquerda, o Estado, as corporações, enfim, todos por trás
desta farsa política e social que envolve o F$B, agora querem colocar em
discussão, no mesmo evento, uma aliança cooperativa e cooptativa dos
movimentos sociais que se entregaram ao canto harmônico do espaço cedido
pelos capitalistas para o Fórum, enquanto esses mesmos movimentos vão
sofrendo, gradualmente, degeneração crônica.
Sem se criticar, de modo qualquer, o modo como as relações de produção e
reprodução vitais no capital se dão baseadas na mais grosseira exploração
de nossos cascos objetivando lucros intermináveis para meia dúzia de
iluminados, enquanto não temos controle sobre absolutamente nada daquilo
que ocorre dentro deste mesmo processo, os espaços que eles nos cedem se
desenvolvem exatamente para que essas realidades sejam ocultadas e
favorecidas ao desprezo. Eles querem alternativas a um sistema que se
baseia unicamente na acumulação econômica e nega de todas as formas o que
se afirme para o ser humano! Uma piada ou um simples jogo de paciência com
nossas caras! Enquanto eles negociam o resgate de um capitalismo eficiente
como em tempos passados, quando as forças produtivas ainda começavam a se
desdobrar de forma eficiente, as gerações passadas e futuras continuam a
ser sacrificadas sob seus discursos humanitários e participativos, que
simplesmente nos colocam à frente dos bombardeios para confirmar-lhes
sucesso.
Eles querem dizer que é ali que se forma um movimento real, no espaço
deles, na estrutura luxuosa e especialista de suas consecuções, onde as
redes nacionais de TV podem, sem espiar, pular como abutres sobre a
carcaça da resistência, e até mesmo deixar claro o quanto aqueles “seres
desordeiros e incontroláveis” ou – como diria o pelego José Genoíno,
patrono do PT – “anarquistas”, foram, com êxito, surrupiados, enganados,
domados pelo discurso integrador e falso-coercitivo. Podem chamar-nos do
que quiserem, até mesmo selar em nossos traseiros qualquer estereótipo
ideológico que os caibam à mente, os fatos não mentem: seus tempos de
glória estão ameaçados, pois não nos cansaremos de, em nosso cotidiano,
cutucar suas espinhas e ocupar e autogerir nossos próprios espaços!

Ao extremo da hipocrisia: uma conferência sobre e pela cooptação

“Diz-se que a ‘democracia está realizada’. Tal afirmação soa de um modo
tão constipador quanto a oferta neoliberal de emprego: ‘Qualquer emprego é
melhor que nenhum!’. Enquanto isso, os traços de luta ainda combativos,
mas seduzidos pela eloqüência de qualquer discurso pró-democrático, se
afogam em seu próprio grito: ‘Qualquer participação é melhor que
nenhuma!’. Não é de se surpreender que o ambiente do Fórum, dentro e fora,
apresenta de forma ainda mais nítida a mercadoria que se tornou o ato de
se ‘fazer política’, e o modo como se pode adestrar os elos ofensores da
ordem de um modo tão viável.” (O Fórum $ocial Mundial: A Atração Inacabada
– Panfleto lançado em fevereiro de 2003 pela Rede Anticapitalista de Belo
Horizonte.)

A ousadia dos reformistas pelegos do F$B chega a tal ponto que, no limite
da mentira, se inclui num programa de explícita absorção dos movimentos
radicalizados, uma conferência sobre cooptação, vinculando o Estado e os
movimentos sociais. O título é: Estado e Movimentos Sociais: cooperação,
repressão e cooptação. Tudo está muito claro; é apenas mais uma tentativa
de, em tempos de completa anemia no seio das tendências de luta não
apegadas ao Estado – ao menos em solo brasileiro, ao menos quando se diz
respeito ao fato de muito mais da metade dos focos que se propõem
anticapitalistas irem ao Fórum, talvez até com uma expectativa de
transformação em alguma coisa – rebuscar a mera escassez de força ainda
contida nesses movimentos para o interior do ambiente do Estado e da
crítica modernizadora de capitais. As emendas sob as quais se limita o
Fórum são as mesmas rezadas durante toda a história para a humanidade,
durante todo o desenvolvimento da forma-mercadoria, que, por sinal,
somente foi efetivado a partir das ações objetivas desta mesma humanidade.
Com toda a certeza, virão, a partir daí, todos os discursos que
dignifiquem a existência de um comboio conspirativo o qual é o F$B; desde
o resgate da soberania cidadã, até uma construção democrática de
alternativas para a globalização do capital. Todos esses discursos
pomposos para elevar aos sonhos social-democratas o mesmo lucro do qual
vivem os magnatas de hoje. A questão nacional, sempre colocada em
destaque, é a melhor forma de contundir as massas e levá-las ao desespero
pela participação em qualquer circo que aparecer. Sim, a democracia está,
de fato, realizada, e o que leva à constipação é exatamente o fato de ela
constar, por si só, substancialmente, na nossa própria condenação à
incapacidade, e na nossa auto-afirmação enquanto escravos em legítima
aceitação.
Com essa amostra mais descarada da hipocrisia que o Fórum representa,
ainda pode-se notar, além do conteúdo, a forma completamente verticalizada
como se colocam os espaços do Fórum. Claro, óbvio. Se as relações sociais
que se determinam sob um aparelho do Estado e sob as designações mercantis
se dão de tal forma, o espaço do F$B, que é exatamente o reflexo mais
nítido de tudo o que já existe no mundo de mercado, não seria diferente.
Estudantes (secundaristas, calouros, mestrandos, etc.), a trupe das
ideologias (“istas” em geral), democratas, empresários (pequenos, grandes,
médios), cristãos, sem-teto/terra, amantes de Lula, etc. estarão todos a
interagir numa só cabine de falsidades, onde essa diferença, completamente
abstraída pelos conceitos mercadológicos, é colocada a ver, quando somos
diferentes apenas porque temos a coloração de pele ou a ideologia ou a
opção sexual diversificados e quando somos iguais, pois somos cidadãos. Os
de baixo escutam, enquanto os exploradores e especialistas vomitam seus
dogmas reformistas. Um acampamento paralelo é criado para abrigar e
bajular os “desajustados”, as possíveis ameaças, os que complementam a
festa com suas presenças ainda mais lamentáveis. E assim está concebido o
mais efetivo mecanismo de pacto social já proposto – para além das
fábricas, campos e escolas – em todos os tempos. A festa dramaturga, onde
as marionetes estão propostas a ser nós mesmos.

Paraíso de reformista é a miséria

“Seguindo o mesmo fio condutor desses ‘democratas’, que não é outro senão
o que vai da rendição à traição, se afirma que já não há que exigir
justiça para os crimes do Estado, e sim cobrar o dinheiro que ele paga
como reparação. Ou que já não se trata de acabar com a riqueza, e sim
combater a pobreza, omitindo que na primeira está a origem da segunda.”
(Mais Contra o F$M – Texto publicado pelas Madres de Plaza de Mayo
argentinas, em janeiro de 2003.)
Enquanto isso o discurso da pobreza, suavemente, integra as corporações de
terceira via e não-governamentais para o patrocínio do êxito desses
projetos das esquerdas mercantis, do Estado e seus braços. Essa mesma
pobreza é colocada nas telas de redes de TV mundiais, quando se intenta
que o Fórum $ocial Mundial circule pelo mundo, pelos países intitulados
subdesenvolvidos, mesmo que se tente ao máximo ocultar suas cenas mais
deploráveis através de projetos de maquiagem das favelas e das senzalas
exploratórias desses locais, assim como planejam em Belo Horizonte,
durante o Fórum $ocial Bra$ileiro. No entanto, é esse mesmo dialeto da
pobreza o mais cabível aos gerentes da exploração humana. Pois, se um
estado-nacional apresenta sinais de pobreza, não necessariamente quer
dizer que as pessoas que sob ele vivem são incapazes de produzir riquezas.
Enquanto é apregoada a miséria e a despossessão de 90% da humanidade dos
frutos da atividade produtiva humana, a sociedade de mercados, essa
separada em classes, continua a se encaminhar através desse paraíso que
são as ações financeiras e o escoamento de mercadorias em cima das camadas
sociais que vendem sua criatividade em nome do lucro de outras minorias.
Se há possibilidades de se condicionar a existência de uma categoria
social que, por si mesma, propicia a apropriação do que produzimos, os
estados-nações não passam de conglomerados de força produtiva submetidos a
uma forma de domínio de classe que reduz as pessoas, assim, à neutralidade
cidadã pela representação estatal.
A manutenção da estrutura produtora de mercadorias se dá exclusivamente em
torno de nossa auto-submissão aos preceitos que se mantêm para mover um
estabelecimento de mercados. O Estado se encarrega de seu papel salvador,
exercido em atos de assistência aos nulos cidadãos conformados e
“excluídos” e em atos de administração da existência desses mesmos. A
pobreza é o único paraíso para a permanência do que já existe. O que
fundamenta e concretiza a fome, a miséria e a nossa não posse sobre
absolutamente tudo do que nos cerca é exatamente a mão invisível que ora
aumenta 2% no salário, ora gera alternativas de atendimentos sociais de
saúde, moradia, etc. e, em tempos de euforia, reprime, à base de extrema
truculência, os desejos da humanidade, cortando funções ou mesmo
conduzindo às suas masmorras do esquecimento – prisões ou asilos de
isolamento. É para que se mantenha tal paraíso, que os reformistas
administradores buscam ao máximo perpetuar um pacto social que impele
esses ditos “cidadanizados” a participarem de sua própria imbecilização,
pagando impostos ou participando das farsas de programas democráticos.
Se continuar sendo a função de todos nós buscar formas de administração
mais adequadas para esse modo de produção que predomina, estaremos
simplesmente gritando para nós mesmos a nossa condição de extremo
masoquismo. A história do capital foi, até hoje, construída às custas da
cegueira de gerações que se colocaram presas ao nó do desenvolvimento da
mercadoria. Já é tempo de se reverter por completo esse processo histórico
de espoliação e buscarmos gerir, nós mesmos, oprimidos em geral, uma luta
que apenas nós queremos travar, a todo instante.

Uma única pergunta: por que não estamos nas ruas?

“(...) Poderá ser autônomo um espaço construído à sombra do manto dos reis
e dos padres? Poderá ser efetivamente autônomo um espaço construído à
sombra do mercado e do Estado? Acreditamos decididamente que não. A ida ao
F$M ‘aproveitando’ a estrutura montada pela esquerda do capital compromete
a capacidade autônoma de gerir as lutas por nós instituídas na medida em
que nos põe concretamente a reboque das iniciativas da esquerda do
capital. A necessidade de ir ao Fórum, aproveitando sua estrutura para
subvertê-la não é mais do que a confissão de nossa própria incapacidade de
autonomamente construir espaços de socialização no antagonismo real ao
capital. (...)” (Mais do Mesmo – Folheto publicado pelo Coletivo Acrático
Proposta, em janeiro de 2002, sobre a não ida do coletivo ao F$M.)
Torna-se notória a condição mantida a nós quando nos colocamos frente a
frente a tamanha contradição – uma negável e superável contradição. O fato
de termos que nos adaptar às exigências advindas dos métodos dos Estados e
das administrações mercantis para conterem efetivamente o que os contrapõe
– porque, por sinal, os espaços não são mais conquistados por nós, mas sim
cedidos por eles (nossos chefes, cobradores, superiores) a nós – é a
fresca expressão da nossa vulnerabilidade diante da baixeza das pregações
pelego-burocráticas desses empreendedores. Enquanto convocaram toda a
“sociedade civil” para a verdadeira sabotagem – que é o Fórum $ocial
Mundial – aos movimentos sociais autônomos, os economistas e chefes de
Estado do mundo se encontravam na cúpula do Fórum Econômico Mundial para
tomarem decisões sobre o que investirem contra os mesmos que marcaram
presença no seu subproduto: o F$M. Os que foram às ruas em Nova Iorque e
Davos, contra o FEM, sofreram desfalque, quando grande parte de seus
solidarizados haviam sido eficientemente sedados pelas falas retóricas do
F$M. Ambos os lados - $ocial e econômico – estão colocados em uma mesma
moeda, em que a falsidade se complementa. Essa contradição é completada
pela extrema confusão de identidade dos próprios movimentos que são a
legitimidade do F$M: nas ruas, contra as cúpulas mundiais, vão contra
certas corporações; no F$M, se cegam frente a elas mesmas que o
patrocinam. Dois míseros exemplos: Fundação Ford e Banco do Bra$il.
Enquanto são investidos esforços para serem construídos acampamentos para
as verdadeiras massas de manobra das esquerdas institucionais, o fogo
fervilha a rebeldia que se trava nas ruas mundiais contra o FEM. Outras
metades se alojam nos entremeios do F$M para discutir um “capitalismo
humano”. Semelhante a um jogo de escolhas, onde se deve escolher, entre
duas opções, a menos pior ou a mais simpática, os partidários do Fórum dão
o xeque-mate na potencialidade combativa dos movimentos sociais, para
discutir alternativas ao capital e para produzir um espetáculo de
diferenças “unanimemente” ocorrido sob essa diversidade pasteurizada do
mundo de mercados. Então, a pergunta ressoa pelos ares: por que não
estamos nas ruas?
A intensidade como chega o desapontamento causado pelos companheiros de
luta que se entregaram de peito para tal perspectiva, é a que nos leva a
(re)afirmar que não estamos nos colocando contra os movimentos sociais que
aderem a essa posição de acatamento às demandas do Fórum, mas justamente
contra O Fórum e o que ele representa frente a nós. É esse desapontamento
o que nos leva a estar convocando esses companheiros para a elaboração de
meios de intercâmbio que superem por completo esse apego às instituições
do Estado e do mercado e que busquem radicalmente a construção de novos
meios de relação. É essa radicalidade a mesma que assusta e retrai os
patrões e corporações mercantis e estatais, levando-os a criarem
estratégias como o F$ para tornar um pouco mais agradável a interação para
com esses movimentos e tomarem para si os espaços que deveriam estar em
nossas mãos.
O Fórum $ocial Bra$ileiro tende a ser um prolongamento da festa da
cooptação, que termina quando todas as fases da resistência estiverem
aniquiladas por completo. A resposta já está dada: o Fórum nos ocupa
demais para estarmos nas ruas. A prioridade que vemos os movimentos
globais dando a essa farsa descarada nos faz ir de encontro à nossa
crítica prática e chamá-los de encontro à NOSSA convergência PELA luta
anticapitalista. Esse encontro à convergência tem se dado desde o nosso
dia-a-dia, quando estamos nas filas, nos cruzamos nas ruas urbanas,
estamos juntos a trabalhar na terra que sofre especulação, até os dias de
ações globais, que estão a fortalecer ainda mais a solidariedade mundial
contra o capital. Nosso palco está onde “as ruas, as escolas, os meios de
trabalho em geral expressam nossa incapacidade de gestão de nossa
produção, de nossos espaços, de nosso tempo histórico que se torna pó nas
mãos dos carrascos”, incapacidade que é destruída quando buscamos, através
de ações reais inverter por completo essa lógica de mundo que aí está. Ao
irmos ao Fórum estaríamos, num simples ato, a aceitar a legitimidade de
nossa penúria e de nosso estado de nulidade na história que nos leva,
assim como ela vem sendo contada há séculos, a estar coletivamente sendo
parte do processo de sua construção e, também coletivamente, estarmos
sucumbindo sob ela.
Os tapas já foram fortes o suficiente para que, frente aos imediatismos
que surgem na Argentina, na Bolívia, em Chiapas, anulemos o que foi
correspondido em Seattle, São Paulo, Quebec, Praga, Gênova, etc. para que
o F$B passe a responder por essas circunstâncias. O Fórum $ocial
Bra$ileiro é a resposta que eles têm conseguido – com sucesso – dar à
autonomia anti-representativa das ações mundiais dos povos em suas
localidades. Agora nos resta voltar nossas discussões na direção de tais
investidas, colocando-as em xeque para criarmos, nós mesmos, nossos
espaços, os espaços da autonomia e da construção direta da luta. Espaços
que estejam todos os dias contra o capital e contra os esforços dos
capitalistas de destruírem a combatividade dos movimentos sociais globais;
espaços que vão contra o Fórum, do mesmo modo que foram, durante tempos,
contra as cúpulas mundiais.
NOS VEMOS NAS RUAS!

NÃO-COOPTADOS, CONTRA O ESTADO E O MERCADO

“O direcionamento está sendo em lucrar em cima disso. O Fórum Social
Mundial na verdade nunca existiu, na realidade é um fórum comercial.
Visando lucrar com a rotatividade de pessoas num período de férias. Tive
oportunidade de estar no Fórum anterior, trocar e-mails, debater, obter
informações. Acredito num mundo melhor (...), sem o oportunismo.” (Relato
de Carlos 26, estudante, Poá /SP.)
Email:: redeanticapitalistabh@yahoogrupos.com.br
URL:: http://www.riseup.net/fsb




*******
****** Serviço de Notícias A-Infos *****
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
******
INFO: http://ainfos.ca/org http://ainfos.ca/org/faq.html
AJUDA: a-infos-org@ainfos.ca
ASSINATURA: envie correio para lists@ainfos.ca com a frase no corpo
da mensagem "subscribe (ou unsubscribe) nome da lista seu@enderço".

Indicação completa de listas em:http://www.ainfos.ca/options.html


A-Infos Information Center