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(pt) conferência de anarquistas não-brancos: relato de um brasileiro...

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Date Wed, 8 Oct 2003 10:40:57 +0200 (CEST)


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por via de m_reboucas-A-yahoo.com

A Conferência de anarquistas não-brancos em Detroit-EUA
Por Alessandro Campos
Aconteceu em Detroit-Michigan-EUA do dia 3 ao dia5 de outubro a
Conferência de Anarquistas Não-brancos, ou Conference Anarchist People of
Color. Estiveram presentes mais de 130 pessoas de muitas partes dos EUA e
de outros países. Pessoas de quase todos os estados norte-americanos, do
Texas e Califórnia até Seattle e Detroit, e também da Palestina, Iraque,
Marrocos, China, Índia, Coréia, Butão, México, Nicarágua, Porto Rico,
Jamaica, Colômbia, Brasil, Venezuela, Guatemala e Canada.

A proposta desta conferência foi feita a aproximadamente 1 ano e meio
atrás, em especial por alguns coletivos anarquistas de Nova York que já
haviam tido uma experiência desta natureza em sua cidade. A partir de um
encontro regional de anarquistas não-brancos pensaram como isso poderia
acontecer nacionalmente. Fizeram contatos com outros grupos anarquistas
que estavam de alguma forma pensando e discutindo as questões raciais
dentro do movimento libertário e na sociedade norte-americana. Aqui tenho
que abrir um parênteses porque existe uma condição fundamental para
continuar este relato. Muitas pessoas no Brasil questionaram a natureza
desta conferência com uma proposta de reunir anarquistas não-brancos
dentro do movimento libertário. Bem, de prontidão tenho que dizer que em
hipótese alguma se pode comparar o racismo brasileiro com o racismo
norte-americano, a não ser é claro que ambos são odiosos, sem se
contextualizar muitos elementos, que no caso se iniciam com as diferent!
es
colonizações, e isso eu não pretendo fazer agora. Não se discute muito
se
mulheres anarquistas devem ou não se reunir para discutir o feminismo e
sexismo, de uma maneira direta e tentando não ser reducionista, da mesma
maneira a identidade racial dentro do movimento anarquista faz muito
sentido que seja discutida por quem mais sofre o racismo aqui, que são as
pessoas não-brancas. Apesar de que este não era necessariamente o
objetivo da conferência. Isso não impediu também que anarquistas brancos
participassem da conferência, eles estavam lá.

A questão racial sempre foi foco de luta dos anarquistas em qualquer
parte do mundo, mas o que acontece aqui nos EUA é que o movimento
anarquista é esmagadoramente composto de pessoas brancas, e os
anarquistas estão sujeitos a influência do lugar em que vivem,
considerando que uma dose de realidade sempre é imprescindível para as
transformações que queremos. Acontece que esta influência social no
movimento anarquista não se dá pelo fato de você talvez ter racismo entre
anarquistas, nunca vi isso, mas pela condição e experiência de cada
pessoa. A realidade e a vida que levou e leva um anarquista branco de
classe média é muito diferente daquela de um anarquista negro e pobre. As
questões raciais foram determinantes em muitas destas coisas. Um exemplo
disso foram conversas com anarquistas brancos sobre o que achavam de uma
Conferência como esta. Todos com quem estive concordavam e apoiavam
incondicionalmente esta iniciativa, não pensavam que ela era
segregacionista ou discrimin!
atória,
mas que era sim uma contribuição a mais para todos os anarquistas. Em
uma
das oficinas apresentadas, com o tema sobre supremacia branca e
constituição norte-americana, ficou muito clara a compreensão de que
racismo e luta de classes estão juntos. Para se ter uma idéia do que
estou falando um sujeito chamado David Dooke foi eleito para o senado
pela Lusiania com mais de 600 mil votos. Acontece que ele era
simplesmente um dos responsáveis diretos pela organização de grupos
armadas (grupos paramilitares) antiimigrantes. Recentemente foi publicada
a biografia dele e é incrível a semelhança com o “minha luta” de Hitler.
Este senador tinha como plano de governo a extinção de imigração para os
EUA de toda pessoa não-branca ou de países de terceiro mundo. Não tenho a
intenção de justificar ou discutir a conferência aqui ou responder as
críticas que foram feitas, mas espero que estes exemplos sirvam para
parte desta compreensão.

Sobre a conferência então. No dia 3 (sexta-feira), o primeiro dia,
aconteceu o credenciamento dos participantes e o início das apresentações
individuais. Apenas no dia 4 (sábado) deram-se início as oficinas e
apresentações propostas. A variedade de trabalhos foi uma coisa evidente.
Pela manhã podemos conhecer o trabalho que os participantes realizavam em
rápidas e breves apresentações. A tarde aconteceram oficinas com os
temas: “Mulheres não-brancas e feminismo”, “Auto-defesa e auto-proteção”,
“Uma introdução e aplicação da Teoria Racial Crítica para anarquistas”,
“Meus poemas na rua: Explorando a identidade fronteiriça, história e
legado de mulheres lésbicas e bissexuais não-brancas”, “afro-punk: a
experiência do rocknroll negro”, “Organização contra repressão e
brutalidade policial”, “Para compor o congresso: nacionalismo branco nos
EUA”, “Direcionando o sexismo nos movimentos, na comunidade e em nós
mesmo”, “Olhando para os Direitos”, “Começando grupos locais de Copwat!
ch –
oficina de vídeo”, “Zona de direitos humanos no sul do Bronx e em
comunidades alternativas”, terminando o dia com uma assembléia.

Na verdade nem todas as oficinas aconteceram como estava na programação.
Existiram mudanças de horário e até de dia, porque alguns responsáveis
pelas oficinas não conseguiram chegar a tempo e foi necessário um
remanejamento de salas e horários. Por exemplo, acabei participando de
uma oficia sobre anarquistas na Palestina que estava marcada para o dia 5
(domingo), pois exatamente a oficina sobre Teoria racial iria acontecer
no domingo e não no sábado como estava marcada. De qualquer maneira isso
não impediu e nem prejudicou muito os debates. A qualidade das
discussões foi em grande parte muito construtiva, até porque a
experiência de trabalho e de ativismo que as pessoas possuíam não poderia
passar sem ser notada. Nos intervalos entre as oficinas e nas conversar
para tomar um café, pude me dar conta que o anarquismo continua atuante,
significativo e contestador. Muitas pessoas eram educadores, estavam
trabalhando com comunidades, em escolas, prisões, disseminando a chama
li!
bertária
por onde viviam. Outra coisa que chamou a atenção foi o fato de muitas
pessoas terem um trabalho nitidamente anarquista mas não necessariamente
valerem-se da ideologia anarquista, como por exemplo o trabalho que vem
sendo feito na Palestina. As organizações e assembléias que vem sendo
realizadas por lá possuem um caráter autogestionário e os anarquistas não
tem tido no foco de suas ações a preocupação em dizer que são anarquistas
ou não, mas procuram criar espaços genuinamente autônomos. Esta
diversidade de atuações apenas contribuiu para melhorar o que estava
sendo proposto. Mesmo assim acredito que alguns pontos poderiam adotar
uma postura mais radical. Falou-se pouco, por exemplo, sobre ação direta
e sobre a diferença e semelhança dos anarquistas não-brancos em trabalhos
com anarquistas brancos e como a questão racial poderia ser notada. Outra
oficina que participei foi sobre “nacionalismo branco e constituição
norte-americana”. A pessoa que coordenou a oficina, Eric Wa!
rd possui
um trabalho muito consistente na luta contra a soberania branca nos EUA.
Recentemente fizeram um levantamento de quantos grupos em favor da
soberania branca estavam em atuação nos EUA. A conclusão foi alarmante:
nada mais nada menos que 200 mil! Isto os mais atuantes, aqueles que
organização manifestações, jornais, periódicos, pois o número pode ser
muito maior. Vão desde skinheads que perambulam pelas ruas querendo
agredir as pessoas até presidentes de multinacionais e políticos da Casa
Branca. Um debate provocador porque trazia a idéia de que a raça nos EUA
tinha o poder de determinar que tipo de experiências uma pessoa teria na
vida. Dava o exemplo de comunidades brancas que estavam muito preocupadas
com a participação de pessoas não-brancas na polícia e na política.
Tinham (os brancos) uma clara compreensão de que os EUA está cada vez
mais se tornando um país de outras raças e não apenas branca. Uma coisa
um pouco complexa que coloca os brancos como sendo minoria. Um po!
nto que,
na minha opinião, deveria ser melhor tratado e que não vi, foi falarem
do
racismo de pessoas não-brancas. Porque aqui você pode encontrar, por
exemplo, pessoas negras falando contra os imigrantes latinos e se dar
conta que o discurso é idêntico aos nacionalistas direitistas brancos.
Depois pude assistir ao filme sobre identidade de pessoas negras na cena
punk-hardcore. Muitos depoimentos de diferentes partes dos EUA, o papel
político e a influência da música negra dentro do punk. Você começa a
pensar que Chuck Berry sem dúvida era punk, só faltava o moicano! Além
das cenas de um show do Bad Brains que dava vontade de dar um mosh no
meio das cadeiras! Você pode saber mais em www.afropunk.com.

A noite chegou e como não podia faltar teve uma festa. Dançando a noite
quase toda (até porque estava fazendo um frio muito grande!), ao som de
uma discotecagem totalmente faça-você-mesmo, que foi de salsa-merengue
até Sin Dios, os anarquistas mostraram que são bons de salão também.
Lógico que depois de algumas cervejas, não se falava tanto de Bakunin,
mas mesmo assim conversamos muito sobre a conferência e debates que
aconteceram. Resumindo: boa música, boas idéias, boa diversão, ou seja,
boa festa!

O dia 5 (domingo) e último. As oficinas aconteceram com temas sobre:
“herb, medicina popular”, “Começando uma coalizão multicultural”, “Libere
suas palavras: falando de liberação”, “Letras presas: espancando o
complexo industrial prisional”, “Começando a trabalhar por uma
organização de pessoas anarquistas não-brancas”, “A droga da Guerra:
anarquistas
não-brancos respondem”, “Organizando 101”, “anarquistas no movimento de
solidariedade a Palestina” (que aconteceu ontem), “O movimento
anti-guerra e o papel dos anarquistas não-brancos”, “ Continuação da
oficina de auto-defesa” , “Anti-ALCA e as preparações para Miami”.

Fui participar da oficina sobre o “Complexo industrial prisional”. Muito
interativa, a facilitadora do trabalho realizou uma adaptação inspirada
no Teatro do Oprimido de Augusto Boal. A idéia era criar um conceito e
uma intervenção no que significa Complexo Industiral Prisional. Depois
participei da discussão sobre os protestos que estarão acontecendo sobre
a ALCA em novembro em Miami. Não se falou nada de novo para quem esta
acompanhando os debates sobre a ALCA, mas ficou evidente a preocupação
com as ações em Miami, principalmente que tipo de ação direta será mais
eficaz. A Florida, onde esta Miami é um estado bem conservador e
estrategicamente um pouco mais difícil o acesso. Não se traçou planos de
ação ou alguma estratégia por uma questão clara de segurança, mas foram
feitos importantes contatos para melhorar o ato e possíveis ações
conjuntas em novembro. Por fim participei da continuação da oficina de
autodefesa. Técnicas de confronto corpo-a-corpo e pancadaria contra o
capitalismo! Como se defender de violência policial e também na rua
contra
qualquer pessoa que queira te agredir. Ótimo para quando encontrar
skinheads nazistas. Lembrei das minhas aulas de capoeira…

Por fim, a assembléia de resolução da conferência. Alguns pontos chaves:

- manter sempre a descentralização, coletivismo e cooperação na
organização;

- incentivar o crescimento das pessoas para terem seus trabalhos e ações
efetivados;

- iniciar e manter a contra-cultura usando todo tipo de comunicação para
resistir a ilegalidade da autoridade, racismo, sexismo e capitalismo,
criando alternativas contra a cultura de dominação;

- fortalecer a luta pela união de bairros e de comunidades;

- saber da história local e das lutes anti-racistas;

- revolução e cultura para as transformações;

- basear-se em modelos de revoluções e organização não-brancas;

- paciência e comunicação direta;

- desenvolver princípios de tolerância;

- reconhecer, analisar e destruir o imperialismo norte-americano;

- perseverança;

- priorizar a educação popular;

- discussão em grupo;

- criar e ampliar meios de comunicação para divulgação anarquista;

- incentivar laboratórios de novos métodos para a organização de espaços
comunitários e libertários;

De uma maneira geral as pessoas tiraram boas conclusões, fizeram bons
contatos e não houve maiores incidentes (existia uma certa tensão por
conta de ameaças feitas por agentes do FBI que durante a organização da
conferência ameaçaram impedi-la por considerarem um evento “suspeito e
subversivo”), e ficou uma pergunta principal no ar: devesse criar um
movimento de anarquistas não-brancos? O que definiria este movimento?
Suas atuação e participação dentro do movimento anarquista de uma maneira
mais ampla? Não seria possível tirar nenhuma resolução naquele momento.
Uma decisão como esta precisa de tempo e uma maior participação de
pessoas e grupos e nisso todos estiveram de acordo. Ficou também de se
criar fóruns de discussão e de apoio a todos aqueles que quiserem
realizar encontros locais. Outra conferência nacional seria realizada
daqui a aproximadamente 2 anos. A conferência teve o êxito de reunir
diferentes experiências em pouco tempo e espaço. E volto a dizer que ela
fez c!
ontribuir
com a pluralidade de idéias e de posturas sempre presente no meio
anarquista. A contribuição de todos para a realização da reunião, tanto
de pessoas brancas como não-brancas, mostra que o anarquismo tem
continuado a contribuir profundamente para a resistência contra qualquer
preconceito e contra o sistema capitalista que joga muito bem com isso.
Sempre em um encontro aonde você tem pessoas comprometidas com as
propostas feitas, te fazem crescer e animar um pouco mais, pois são
verdadeiros rebeldes e você sabe que pode contar com eles. Assim são os
autênticos anarquistas!

Paz e força para todos os que estiveram nesta conferência e que irão
compartilhar seus frutos com todo/as companheiro/as.

Saúde!

*Para mais informação você pode ver: www.illegalvoices.org e Anarchist
People of Color Zine: emelda@rebelgrrrl.org


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agência de notícias anarquistas-ana

a noite flutua

e as rosas dormem mimosas

aos beijos da lua

Humberto Del Maestro


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