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(pt) Opinião Anarquista #11: BOLÍVIA, TERRA ONDE CAMPEIA A VALENTIA DO POVO!

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Date Sun, 2 Nov 2003 14:10:01 +0100 (CET)


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Derrubaram um entreguista mas a luta continua!

La Paz, Bolívia, 17 de outubro de 2003. Na tarde de uma sexta-feira, o
presidente gringo da Bolívia, Gonzalo Sánchez de Lozada renuncia. Era a
vitória pontual de um processo de 3 semanas de lutas de rua,
manifestações, enfrentamentos, barricadas, passeatas, pedradas e paus
contra tiros de 12 e fuzis na defesa do patrimônio popular do país mais
pobre da América do Sul.
Assim era o chamado: “Grande Marcha nesta quarta dia 15. Pedimos pro povo
sair nas ruas apoiando os bloqueios. Organizemos a resistência popular
caso venha a repressão” dizia a convocatória da Coordenação em Defesa do
Gás. As ruas de La Paz, a cidade metropolitana de El Alto, Cochabamba e
dezenas de outras na Bolívia já viviam a situação de insurreição social. A
ruptura não se deu, também não se iniciou um combate mais intenso através
de organizações guerrilheiras. Mas o combate popular de rua já tinha
conseguido antes do dia 15/10 que o projeto de exportação de gás natural
através de um porto chileno fosse suspenso. O presidente que foi criado
nos EUA anunciou um plebiscito para decidir se o gás seria ou não
exportado. O povo se antecipou e botou o gringo pra correr do palácio.
Assume o vice Carlos Mesa. Se diz jornalista e documentarista mas é dono
de um dos maiores grupos de comunicação da Bolívia, a Rede TV PAT. Era
vice-presidente sem partido de Lozada, o ex-presidente que é dono de um
grupo minerador (o país é rico em estanho, prata, gás e cobre). Assume com
uma bandeira de trégua, de guarda baixa e de olho na organização popular.
Com discurso de liberal, aponta uma democracia que inclua a massa de
indígenas, que são a maioria do país, a quase-totalidade dos camponeses e
os mais pobres do país que é deles.
A proposta de vender o gás natural boliviano, in natura, foi a gota d’água
de um processo de repressão, caos econômico, pobreza e dignidade popular
que já se vive há mais de uma década. Sim, é certo que a Bolívia é sempre
instável politicamente. Mas também é certo que hoje se vive um processo de
protagonismo popular sem quase nenhum vínculo com as elites dirigentes
(brancas e entreguistas), e isso é relativamente novo. O lucro estimado
pelas transnacionais “parceiras” do governo na entrega do gás seria de US$
27 bilhões de dólares ao longo de 20 anos! Esta é a ponta de um período e
governo onde se fumegava com veneno as plantações de coca (única atividade
econômica rentável no campo boliviano). Onde se tentou vender a água do
país e por isso houveram diversas rebeliões populares (como a chamada
Guerra da Água), que expulsaram as multinacionais Coca-Cola e McDonald’s
do país e vêm construindo uma idéia bem concreta de soberania com Poder
Popular.
Na Guerra do Gás, as modalidades de luta foram marchas, greve geral por
tempo indeterminado, corte e bloqueio de estradas (em todo o Altiplano
boliviano), mobilização e luta nas ruas, no altiplano e na zona
amazônica. O povo se sente convocado pelas entidades da Coordenação do
Gás, a Central Operária Boliviana (COB), a Central Sindical Única de
Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSTUCB, que organiza agricultores,
especialmente os cocaleros), as organizações de esquerda popular (como o
Movimento ao Socialismo, MAS, de base indígena), de juventude (como
nossos companheiros da Red Tinku juvenil), do Movimento pela Soberania
dos Povos e outras mais. De uma luta pontual, o povo da Bolívia
transformou o protesto pela não-entrega do gás para as transnacionais e a
exigência da renúncia do governo (fantoche e marionete dos gringos) de
Sánchez de Lozada em mais uma rebelião popular, de caráter insurrecional.
Se o boneco dos EUA não renunciasse dia 17/10, tomasse um helicóptero
para Santa Cruz de la Sierra e de lá um avião para casa (sim, sua casa)
em Miami, qualquer coisa podia acontecer.
As Forças Armadas ameaçavam se partir ao meio com a polícia e o Exército
matando indiscriminadamente nas ruas; os políticos profissionais saíram
fora do governo assim que se deram conta que a saída era a renúncia, um
golpe, ou quem sabe uma Insurreição Popular completa. A classe oprimida
boliviana já entende que não há saída legal nesse sistema e que a única
solução verdadeira é uma revolução social que realize uma profunda
transformação das estruturas econômicas e políticas. Muitos setores
organizados sentem que pode ser a hora do povo. A repressão também sabe
disso e massacra de forma generalizada. O povo resiste como pode,
disputando quadra a quadra, esquina por esquina. O poder do povo renasce
atrás de uma barricada. O condor da libertação ainda cruza o céu do
altiplano.
Mais de 75 assassinatos e centenas de feridos é o resultado da sangrenta
repressão destas 3 semanas de peleia camponesa, juvenil e operária.
Somente na segunda-feira dia 14/10 foram 14 mortos e uma centena de
feridos. Um verdadeiro massacre. Ainda assim nada comparado com o dia-dia.
Dos 8 milhões e 800 mil bolivianos, 64% vivem abaixo da linha de pobreza
(mais de 5 milhões); a renda individual ao ano é de US$ 950 (a mais pobre
da América do Sul e das mais pobres de toda América Latina); a pobreza no
campo atinge mais de 80 % dos camponeses (de maioria indígena); a cidade
foco do conflito El Alto (na zona metropolitana de La Paz) é das mais
pobres do país; mais da metade dos bolivianos não tem água nem luz e morre
mais gente de fome por semana do que morreu em 3 semanas peleando numa
rebelião altiva e corajosa.
Como se esperava, o Império através do governo Bush, primeiro expressou
seu apoio ao governo de Sánchez Lozada e a OEA respalda ainda mais,
realizando uma reunião em sua sede em Washington. A democracia
liberal-burguesa tem de ser mantida para garantir às transnacionais o
controle sobre o gás e o petróleo bolivianos. De sua parte, o governo
brasileiro através do Itamaraty teve, junto do governo argentino, o papel
vergonhoso que já era esperado. Enviaram o palhaço chamado Marco Aurélio
Garcia, que fantasiado de lorde inglês, foi ajudar a salvar o regime dos
ricos no país vizinho. Nenhuma novidade, tanto aqui como nos países
hermanos, a função do governo Lula é frear a luta de classes, custe o que
custar. Chegaram os enviados brasileiro e argentino para tentar salvar o
governo de Lozada e terminaram apadrinhando o tapa-buraco Carlos Mesa. Já
convidaram o empresário-presidente a vir ao Brasil e este já aceitou.
Dessa vez foi por pouco. A bola bateu raspando na trave e a direita sabe
disso. Se Lozada não renuncia, a rebelião popular poderia se alçar na
condição de insurreição armada, e qualquer coisa podia acontecer,
inclusive o melhor, a vitória do povo boliviano!
Não foi a primeira nem será a última vez que nossos chutes passam raspando
na trave. Os oprimidos da América Latina em menos de 10 anos fizeram duas
rebeliões populares no Equador (derrubando aos planos neoliberais de
Abucaram e Mauad); destituíram ao ditador Fujimori no Peru (e logo depois
já foram pro pau contra o gringo-presidente Alejandro Toledo, na defesa do
sistema elétrico e em greves nacionais); a valente rebelião piquetera
derrubou o governo De la Rua-Caballo e o arrocho do FMI em dezembro de
2001 e agora a classe oprimida boliviana concreta um acúmulo de forças de
quase uma década de aglutinação popular e enfrentamento de massas direto
contra o Império, seus agentes econômicos e repressores. No caso especial
da Bolívia, este país já foi saqueado pela invasão espanhola há 500 anos,
depois retalhado pelo Chile na Guerra do Pacífico (quando perdeu o acesso
ao Pacífico, 1879-1884), na Guerra do Acre perdeu este estado para o
Brasil (1903) e depois na Guerra do Chaco perdeu quase a metade do país
para o Paraguai (1932-1935). Em todas estas malditas guerras entre
vizinhos, sempre havia o interesse de potências estrangeiras e suas
transnacionais por detrás.
O aprendizado da luta de massas com protagonismo popular vai ensinar a nós
mesmos que derrotar a um governo corrupto é parte da guerra, é uma
batalha, mas não é a vitória na guerra de classes. Para vencer, temos de
fazer uma revolução social, antes acumulando forças nos movimentos de base
e organizações de esquerda revolucionária num processo de construção do
Poder Popular. Esta batalha o povo boliviano venceu, para glória da
América Latina e na defesa de seu próprio futuro. Outras batalhas virão e
outras vitórias também. Estamos solidários e gratos com o exemplo de
nossos irmãos e irmãs de classe do país hermano.
Povo boliviano, tua luta é o orgulho e a esperança de todos os oprimidos
da América Latina!
Outubro de 2003




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