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(pt) Chomsky - "os E.U. são um Estado Terrorista Principal"

From Worker <a-infos-pt@ainfos.ca>
Date Mon, 3 Mar 2003 22:27:12 +0100 (CET)


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 21.02.03 | Entrevista a Chomsky : "os E.U. são um Estado
Terrorista Principal"
(tradução tirada de azine.org, por "Noosfera")
Mark Thomas: Se pudermos começar pela política estrangeira dos
E. U. com relação ao Iraque e à guerra ao terror, que é que
pensa estar a acontecer neste momento?

Noam Chomsky: Antes de tudo penso que temos de ser muito
cautelosos ao usar a frase ' guerra ao terror '. Não pode haver
uma guerra ao terror. É uma impossibilidade lógica. Os E. U. são
um dos estados terroristas principais no mundo. Todos os tipos
que estão no poder neste momento são todos condenados por
terrorismo pelo tribunal do mundo. Condenados pelo Conselho de
Segurança das N.U. a não ser que vetem a definição, com a
abstenção da Grã Bretanha, naturalmente. Estes tipos não podem
conduzir uma guerra ao terror. Está simplesmente fora de
questão. Declararam uma guerra ao terror há 20 anos há e nós
sabemos o que foi que fizeram. Destruíram a América central.
Mataram um milhão e meio de pessoas na África do Sul. Podemos ir
por aí fora através da lista. Portanto, não há nenhuma ' guerra
ao terror '.

Houve um acto terrorista, o 11 de Setembro, muito incomum, um
autêntico acontecimento historico, a primeira vez na história
que o Ocidente recebeu o tipo de ataque que faz rotineiramente
no resto do mundo. O 11 de Setembro mudou a política
indubitàvelmente, não apenas para os E. U., mas através do
quadro todo. Cada governo do mundo viu-o como uma oportunidade
de intensificar as suas próprias repressões e atrocidades, da
Rússia e da Chechénya até ao ocidente, impondo mais disciplina
às suas populações.

Isto teve grandes efeitos - Tome-se o Iraque como exemplo. Antes
do 11 de Setembro, havia um interesse de longa data dos E. U.
pelo Iraque, que é quem tem as segundas maiores reservas de
petróleo no mundo. Assim, duma maneira ou doutra, os E. U. iam
fazer alguma coisa para chegar a ele, isso é claro. O 11 de
Setembro deu o pretexto. Há uma mudança na retórica a respeito
de Iraq após o 11 de Setembro - ' nós temos agora uma desculpa
para ir adiante com o que estamos a planear.'

Isso a modos que permaneceu assim até Setembro deste ano, em que
o Iraque de repente se deslocou para... ' uma ameaça iminente à
nossa existência.' Condoleeza Rice (conselheiro da segurança
nacional dos E. U.) saiu com o seu aviso de que a evidência
seguinte de uma arma nuclear seria uma nuvem em cogumelo sobre
Nova-Iorque. Houve uma grande campanha nos média com figuras
políticas - temos de destruir Saddam este inverno ou nós todos
ficaremos inoperantes. Temos mais ou menos de admirar as classes
intelectuais por não observarem que o único povo no mundo que
está receoso de Saddam Hussein é o americano. Todos o odeiam e
os iraquianos estão indubiátàvelmente com medo dele, mas fora o
Iraque e os Estados Unidos, ninguém mais tem medo dele. Nem o
Kuwait, nem o Irão, nem Israel, nem a Europa. Odeiam-no, mas não
o receiam.

Nos Estados Unidos as pessoas estão muito receosas, não há
nenhuma dúvida disso. O apoio que se pode ver em votações nos
E.U. em relação á guerra é ténue, mas é baseado no medo. É uma
história velha nos estados unidos. Quando os meus miúdos andavam
na escola primária, há 40 anos, foram ensinados a esconder-se
sob as mesas em caso de um ataque de bomba atómica. Não estou a
brincar. O país está sempre com medo de tudo. Do crime, por
exemplo: O crime nos estados unidos é aproximadamente comparável
com outras sociedades industriais, tendendo para o lado mais
elevado do espectro. Por outro lado, o medo do crime está muito
para além do que é sentido noutras sociedades industriais...

È conscienciosamente engendrado . Estes tipos agora instalados
nos gabinetes, recordem que são quase inteiramente dos anos 80.
Já passaram por isto tudo e sabem exatamente jogar o jogo.
Durante toda a década de 80 fizeram periòdicamente campanhas
para estarrecer a população.

Criar o medo não é assim tão difícil. Mas desta vez a sincronia
esteve tão óbviamente do lado da campanha congressional que até
mesmo os comentadores políticos captaram a mensagem. A campanha
presidencial vai começar a meio do ano seguinte. Eles têm de ter
uma vitória debaixo do cinto. E vamos à aventura seguinte. Se
não, a população vai prestar atenção ao que lhe está a
acontecer, que é um assalto grande, um assalto maioritário à
população, exactamente como nos anos 80. Estão a repetir a
gravação quase exactamente. A primeira coisa que fizeram nos 80,
em 1981, foi conduzir o país a um grande déficit. Desta vez
fizeram-no com um corte nos impostos para os ricos e o maior
aumento em gastos federais desde há 20 anos.

Acontece ser esta uma administração invulgarmente corrupta, do
tipo da administração de Enron, por isso há uma quantidade
tremenda de lucro que entra nas mãos de um grupo invulgarmente
corrupto de gangsters. Não se pode realmente ter todo este
material nas primeiras páginas, portanto é preciso empurrar
essas coisas para fora delas. É preciso evitar que as pessoas
pensem sobre isso. E há somente uma maneira que alguém tenha
desde sempre imaginado para assustar as pessoas e eles são bons
nisso.

Assim, há factores políticos domésticos que têm a ver com
sincronismo. O 11 de Setembro deu o pretexto e há um interesse a
longo prazo, um sério interesse (no Iraque). Portanto têm de ir
para a guerra... a minha especulação seria que gostariam de ter
acabado a coisa antes da campanha presidencial.

O problema é que quando se está em guerra, não se sabe o que vai
acontecer. As possibilidades são de que será um assalto rápido e
pode ser, não há exército iraquiano, o país desmoronará
provavelmente em dois minutos, mas não se pode ter a certeza. Se
se fizer um exame sério dos avisos da CIA, eles são
considerávelmente sinceros acerca disso. Dizem que se houver uma
guerra, o Iraque pode responder com actos de terrorismo.

O aventureirismo dos E. U. consiste em levar países a
desenvolver armas de destruição maciça como impedimento de
defesa - não têm nenhuma outra defesa. As forças convencionais
não trabalham, obviamente, não são nenhum impedimento externo. A
única maneira como qualquer um pode defender-se é com terror e
armas de destruição maciça. Assim sendo, é plausível supôr que o
estejam a fazer. Eu suponho que é essa a base para a análise da
CIA e suponho que a inteligência britânica diz a mesma coisa.

Mas não se quer que isso aconteça no meio de uma campanha
presidencial... Há o problema do que fazer com os efeitos da
guerra, mas esse é fácil. Conta-se com os jornalistas e com os
intelectuais para não falarem sobre isso. Quantas pessoas falam
sobre o Afeganistão? O Afeganistão regressado a onde estava,
governado por senhores da guerra e gangsters e quem está a
escrever sobre isso? Quase ninguém. Se voltar a tornar-se no que
era antes da guerra, ninguém se importa e toda a gente se
esqueceu.

Se o Iraque se tornar numa matança das pessoas umas às outras,,
eu poderia escrever os artigos agora mesmo. "pessoas
retrógradas, nós tentámos salvá-las mas querem assassinar-se
mútuamente porque são árabes sujos.' Nessa altura, presumo,
estou apenas a adivinhar, eles (os E.U.) já estarão na próxima
guerra, que será provávelmente contra a síria ou contra o Irão.

O facto é que a guerra com o Irão está provávelmente a caminho.
Sabe-se que aproximadamente 12% da força aérea israelita estão
estacionados no sul da Turquia oriental. Estão lá porque se
estão a preparar para a guerra contra o Irão. Não se importam
com o Iraque. O Iraque afigura-se-lhes como um assalto rápido,
mas o Irão foi sempre um problema para Israel. É o único país na
região que não podem controlar e andam atrás dos E. U. para o
tomar há anos. De acordo com um relatório, a força aérea
israelita anda a voar na região fronteiriça do Irão para serviço
de Inteligência (espionamento), provocação e por aí fora. E não
é uma força aérea pequena. É maior do que a britânica, maior do
que todo o poder da OTAN à excepção dos E. U. . Portanto está
provávelmente a caminho de forma encoberta. Há umas
reivindicações sobre esforços para agitar o separatismo Azeri, o
que faz algum sentido. É o que os russos tentaram fazer em 1946,
e isso separaria o Irão, ou o que resta dele, dos centros de
produção de petróleo do Cáspio. Então poder-se-ia dividi-lo.
Isso estará provavelmente a vir por aí encoberto no tempo.

Campanha contra o comércio de armas: em que dimensão vê
contribuir o facto de a América ser a vasta máquina de produção
militar que é , o que requer a guerra como uma propaganda para
seu equipamento?

Chomsky: É preciso recordar que o que é chamado a indústria
militar é justamente a indústria da alta tecnologia. As forças
armadas são uma espécie de coberta para o sector do estado na
economia. No MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts )
onde eu estou, todos sabem disso excepto talvez alguns
economistas. Todos o sabem porque é o que paga os salários. O
dinheiro entra em lugares como o MIT sob contracto militar para
produzir a geração seguinte da economia de hi-tech. Se der uma
olhada ao que é a chamada nova economia - computadores, Internet
- vem tudo saído directamente de lugares como o MIT sob
contractos federais para a pesquisa e o desenvolvimento a
coberto da produção militar. Então é entregue à IBM quando se
pode vender alguma coisa.

No MIT a área circunvizinha costumava ter firmas pequenas de
electrónica. Agora tem firmas pequenas de biotecnologia. A razão
é que o próximo fio de corte da economia será baseado na
biologia . Assim, o financiamento governamental para a pesquisa
baseada na biologia está a aumentar enormemente. Se quiser ter
uma pequena companhia de começo que lhe faça uma quantidade
enorme do dinheiro quando alguém a comprar um dia, você fá-la na
engenharia genética, biotecnologia e assim por diante. Isto é um
facto que atravessa a direito pela história. É geralmente um
sector dinâmico do estado que põe as economias em andamento.

Uma das razões porque os E. U. querem controlar o petróleo é
porque os lucros fluem de volta, e fluem de muitas maneiras. Não
são apenas lucros do petróleo, são também vendas militares. O
maior cliente das armas dos E. U. e provavelmente das dos
britânicos é a Arábia Saudita ou os Emiratos Árabes Unidos, um
dos ricos produtores de petróleo. Eles levam a maior parte das
armas e isso significa lucro para a alta tecnologia dos Estados
Unidos. O dinheiro vai direitinho de volta aos cofres dos E.U. e
das seguranças dos E.U.. De várias maneiras, isto contribui para
incrementar primeiramente as economias dos E.U. e as britânicas.

Não sei se olhou para os registros, mas em 1958, quando o Iraque
quebrou o condomínio Anglo-Americano na produção de petróleo, a
Grâ Bretanha ficou totalmente louca. Os Ingleses nesse tempo
eram ainda muito dependentes de lucros do kuwait. A Grâ Bretanha
necessitava dos petrodolars para suportar a economia britânica e
achou que o que aconteceu ao Iraque podia espalhar-se para o
Kuwait. Assim, nesse ponto, a Grâ Bretanha e os E. U.
decidiram-se a conceder ao Kuwait autonomia nominal, até então
era apenas uma colónia. Disseram-lhes, podem gerir o vosso
próprio posto de correio, fazer de conta que têm uma bandeira,
esse tipo de coisas. Os Ingleses disseram que, se alguma coisa
corresse mal, interviriam sem reservas para assegurar a
manutenção do controle e os E. U. concordaram no mesmo
relativamente à Arábia saudita e aos Emiratos.

CAAT: Há também a sugestão de que é uma maneira da América
controlar a Europa e a orla do pacífico.

Chomsky: Absolutamente. Tipos mais espertos como George Kennen
indicavam que o controle sobre os recursos de energia do Oriente
Médio dá aos E. U. o que chamou ' poder de veto ' sobre outros
países. Ele estava a pensar particularmente no Japão. Agora os
japoneses sabem disso perfeitamente assim como têm trabalhado
muito duramente para tentar ganhar o acesso independente ao
petróleo, essa é uma das razões porque tentaram intensivamente,
e tiveram sucesso até certo ponto, estabelecer relações com a
Indonésia e o Irão e outros países, para sair do sistema
controlado pelo Ocidente.

Realmente, uma das finalidades do Plano Marshall (post 2a grande
guerra), este grande e benevolente plano, era deslocar a Europa
e o Japão do carvão para o petróleo. A Europa e o Japão, ambos
tiveram recursos de carvão indígena mas mudaram para o petróleo
a fim de dar o controle aos E. U.. Cerca de dois dos três
biliões de dólares do Plano Marschall foram directamente para
ajudar as companhias de petróleo a converter a Europa e Japão a
economias baseadas no petróleo. Para o poder, é enormemente
significativo controlar os recursos e o petróleo que se espera
serem o recurso principal para o par de gerações seguintes.

O Conselho Nacional da Inteligência (sobrevisionamento), que é
uma colecção de várias agências de inteligência, publicou uma
previsão em 2000 ' tendências globais 2015.' Fazem a predição
interessante que o terrorismo vai aumentar em conseqüência da
globalização. Dizem-no realmentede forma directa. Dizem que o
que chamam globalização conduzirá a um divisão económica
alargada, o que é apenas o oposto de que teoria económica
prediz, mas são realistas, e assim dizem que isso irá conduzir á
desordem, à tensão, à hostilidade e à violência aumentadas,
muita delas dirigida contra os Estados Unidos.

Predizem também que o petróleo do golfo persa será cada vez mais
importante para a energia do mundo e os sistemas industriais mas
que os E. U. não confiarão neles. Mas tem que controlá-lo.
Controlar os recursos de petróleo é mais importante que ter-lhe
acesso. Porque controle é igual a poder.

MT: Em que é que o movimento anti-guerra actual que se está a
formar se compara com o do Vietname? Que é que pensa que
poderemos conseguir como pessoas envolvidas na acção e no
protesto directos? Acha que há uma possibilidade de evitar que a
guerra ocorra?

NC: Penso que é muito difícil porque o tempo é mesmo curto.
Pode-se dificultar as coisas (torná-las caras), o que é
importante. Mesmo que não evite a guerra, é importante a guerra
sair cara para tentar evitar a próxima.

Comparado com o movimento contra a guerra do Vietname, este
movimento é apenas incomparávelmente mais adiantado. As pessoas
falam sobre o movimento da guerra do Vietname, mas esquecem-se
ou não sabem como é que ele foi realmente. A guerra no Vietname
começou em 1962, públicamente, com um ataque público ao Vietname
do sul - força aérea, guerra química, campos de concentração, o
negócio inteiro. Nenhum protesto... o protesto que apareceu
quatro ou cinco anos mais tarde foi na maior parte sobre o
bombardeio do norte, que foi terrível mas foi um show à parte. O
ataque principal era contra o Vietnam do sul e nunca houve
qualquer protesto sério contra isso.

Desta vez existe protesto antes mesmo da guerra ter começado.
Não consigo pensar num único exemplo na historia inteira da
Europa, incluindo dos Estados Unidos, em que tenha havido um
protesto de qualquer nível substancial antes duma guerra. Agora
tivémos protesto maciço antes mesmo da guerra começar. É um
tributo tremendo às mudanças na cultura popular que ocorreram em
países ocidentais nos últimos 30 ou 40 anos. É simplesmente
fenomenal.

SchNEWS: Parece às vezes que assim que o protesto ultrapassar
confins completamente estreitos, uma marcha em cada seis meses
talvez, se começa a ser atacado. As pessoas que protestaram
contra a guerra recentemente em Brigghton foram atacadas com
pimenta pulverizada e espancadas a cassetete apenas por se
sentarem na rua.

Chomsky: Quanto mais protesto, mais apertado vai ser, isso é
rotina. Quando o protesto contra a guerra do Vietname realmente
começou a crescer, a repressão fez o mesmo. Eu estive muito
perto de uma longa sentença de cadeia que foi parada pela
ofensiva de Tet. Após a ofensiva de Tet, o sistema voltou-se
contra a guerra e suspenderam os julgamentos. Agora mesmo, uma
data de gente pode ir parar à baía de Guantanamo e as pessoas
estão cientes disso.

Se houver protesto num país, então irá haver repressão. Podem ir
para a frente com isso? - depende muito da reacção. Nos começo
dos anos 50 nos E. U., houve o que foi chamado Macarthismo e a
única razão porque sucedeu foi não ter havido qualquer
resistência. Quando tentaram a mesma coisa nos anos 60
desmoronou imediatamente porque as pessoas riram-se simplesmente
e assim uão poderam fazê-lo. Mesmo uma ditadura não pode fazer
tudo o que queira. Tem que ter algum grau de apoio popular. E
num país mais democrático, há um sistema de poder muito frágil.
Não há nada secreto nisto, é a história. A questão nestas coisas
todas é de quanta resistência popular vai haver.




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