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(pt) Da Resistência à Revolução

From Worker <a-infos-pt@ainfos.ca>
Date Tue, 10 Jun 2003 16:55:42 +0200 (CEST)


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Da Resistência à Revolução:
substituindo o capitalismo por redes de espaços livres,
autônomos e auto-suficientes(1)

Uma perspectiva européia ocidental(2)
Quando este livro(3) estava para ser finalizado, o editor propôs
um título que incluísse a palavra ‘Revolução’ para os autores
dos capítulos, os quais estão, na sua maioria, ativamente
envolvidos em movimentos anticapitalistas na Europa Ocidental.
Alguns expressaram reservas bastante sérias em relação à
inclusão dessa palavra e esperavam que ela não fosse incluída.
Argumentavam que ela era muito associada às terríveis
atrocidades e ao despotismo das ditaduras comunistas, ou que se
falar de revoluções neste continente estaria muito fora da
realidade. Uma pessoa chegou a dizer que retiraria seu capítulo
se essa palavra fosse incluída no título do livro.

Essa história revela a extensão da apropriação de um conceito
bastante fundamental e necessário pelos defensores de
burocracias despóticas e hierárquicas. Como conseqüência,
aqueles que sustentam idéias revolucionárias neste continente
são vistos pela maioria das pessoas como violentos nostálgicos
de cinzentas tiranias, como fãs anacrônicos e demagógicos do
poder. Mesmo para pessoas que acreditam que necessitamos de ‘uma
drástica transformação de longo alcance na maneira de pensar e
se comportar’, em outras palavras... uma revolução.

Isso é mais do que um problema semântico. As conotações
negativas desse termo levaram a uma erosão sem precedentes da
nossa imaginação revolucionária, a qual, junto com as condições
objetivas que torna impraticável a transformação social em larga
escala na Europa Ocidental, levaram muitas pessoas que possuem
convicções anticapitalistas e anti-autoritárias a construírem
suas próprias alternativas longe do resto da sociedade, ou a
focalizarem suas atividades em áreas restritas onde sentem que
podem pelo menos alcançar alguns resultados concretos (como
denunciar as práticas de certas corporações transnacionais,
trabalhar em lojas de comércio justo, fazer campanhas contra
agências de emprego temporário, se engajar em questões
ambientais bem específicas etc.). Consequentemente, uma grande
parte da energia e criatividade potencialmente revolucionárias
terminam em lugares remotos com muito pouca interação com o
resto do mundo, ou seguindo processos de transformação gradual
dentro da arquitetura do poder vigente, ao invés de agir na
direção da construção coletiva de relações políticas, econômicas
e sociais totalmente diferentes.

Este artigo procura encorajar aqueles que rejeitam a ordem
social vigente, mas que também se opõem a estruturas de poder
centralizadas e regimes hierárquicos, a reclamar o conceito de
revolução e redefini-lo através de práticas que possam ir além
do quadro dos Estados-Nação e de clássicas (e cada vez mais
obsoletas) concepções sobre a classe trabalhadora. Ele toma uma
firme posição em favor de estratégias revolucionárias diversas,
autodeterminadas e descentralizadas (mas interligadas) para
criar espaços livres, autônomos que se relacionem entre si sobre
a base do respeito e da igualdade. Ele não dá receitas de como
esses espaços se pareceriam ou de qual seria o processo para
construí-los, uma vez que propõe a autonomia e a
descentralização com respeito a ambos, mas analisa alguns
fatores cruciais que poderiam obstruir o processo.

Mas acima de tudo, este artigo convida aqueles que se
identificam com o novo, e em rápido crescimento, ‘movimento’
contra a ‘globalização’ capitalista, a refletir coletivamente
sobre como podemos ir da resistência contra as instituições que
corporificam o capitalismo à construção de relações diferentes
entre os seres humanos e com o meio-ambiente. Sobre quais
processos organizacionais poderiam estimular o tipo de
transformação social de que tão freqüentemente falamos. E sobre
como expressar tudo isso em uma linguagem que seja compreendida
pelas pessoas em nossa volta e numa praxis que dê espaço e
estimule um grande número de pessoas de diferentes formações a
participar.

Este apelo não é motivado por romantismo, por razões estéticas
ou dogmáticas. É motivado pela convicção de que a devastação
social e ecológica causada pelo nosso sistema econômico
continuará a piorar a uma taxa crescente nos próximos anos,
atingindo grande parte da população da Europa Ocidental,
provocando uma crise de legitimidade política sem precedentes
desde a criação dos Estados-Nação no nosso continente. Esse
processo já está abrindo espaços políticos com um tremendo
potencial para transformar a sociedade, manifestado
principalmente no assim chamado ‘movimento antiglobalização’.
Mas se não analisarmos e agirmos para criarmos alternativas
rápido o suficiente, esses espaços podem muito bem serem
ocupados (do modo como já está acontecendo) por ideologias
hierárquicas e autoritárias que possuem uma abordagem coercitiva
e de cima para baixo da transformação social, e um comprovado
registro de desastres, atrocidades e opressão.

Talvez uma discussão sobre revolução não seja o melhor ponto de
partida para esse debate. Em qualquer caso, espera-se que seja
controverso o suficiente para estimular um intenso debate.

A morte de uma ilusão

Os escravos do século XXI não precisam ser caçados,
transportados e leiloados através de complexas e problemáticas
redes comerciais de corpos humanos. Existe um monte deles
formando filas por uma oportunidade de trocar suas vidas por um
salário de miséria em circuitos de produção para exportação do
Sul, os quais a maioria das vezes preferem explorar mulheres
jovens. Outros hipotecam seu futuro a agiotas de modo a
financiar a arriscada viagem às regiões de acentuado
desenvolvimento capitalista no Norte, se aventurando como
imigrante ilegal nas obscuras profundezas da clandestinidade, da
vulnerabilidade e exploração. Os governos dos países que eles
deixam para trás, as ex-colônias onde as nações ocidentais
empregavam táticas desumanas para obter acesso a recursos e
tomar o controle da economia, onde tantas pessoas sacrificaram
suas vidas pela ‘libertação nacional’, estão agora competindo
entre si para atrair o investimento estrangeiro (o mesmo capital
que as violentaram por séculos), descobrindo novas maneiras de
ajudar qualquer um disposto a ‘investir’ alguns dólares com o
intuito de multiplicá-los maltratando trabalhadores, destruindo
a natureza e controlando a vida das pessoas.

É isso o que o ‘desenvolvimento’ capitalista está levando para a
maior parte da humanidade hoje em dia. Ele alcançou um tal nível
de sofisticação e crueldade que a maioria das pessoas no mundo
tem que competir para serem explorados, prostituídos ou
escravizados, se pretendem sobreviver.

Desde a Segunda Guerra Mundial, a maior parte da população da
Europa Ocidental tem se beneficiado dos resultados materiais
desse modelo. Nossos países concentram uma grande parte da
riqueza saqueada pelas interações econômicas globais, pela
contínua deterioração dos termos comerciais para as mercadorias
produzidas pelos países do Sul(4). O Estado de bem-estar
distribuiu uma mínima parte desse afluxo, suficiente para
proteger a maioria dos europeus ocidentais das mais rudes formas
de exploração capitalista e ao mesmo tempo promover o
consumismo.

Nesse período, a maioria dos governos da Europa Ocidental também
devotaram substanciais parcelas de seus orçamentos a políticas
que visavam equilibrar as desigualdades entre diferentes
regiões, de modo a compensar parcialmente a tendência natural do
capital de se concentrar onde ele encontra as melhores
condições. A competição já concentrou a maior parte da produção
e do consumo em regiões privilegiadas e áreas metropolitanas da
Europa, fazendo o resto ficar cada vez mais dependente de
subsídios.

Mas as políticas redistributivas que limitavam as disparidades
sociais e regionais estão rapidamente desaparecendo. A acelerada
expansão do capital, provocada por um sistema econômico que
requer o contínuo crescimento e acumulação para sobreviver, fez
até mesmo os maiores mercados nacionais e regionais pequenos
demais para a maioria das indústrias sobreviverem.
Consequentemente, o quadro no qual os negócios operam foi muito
além dos quadros nacionais e regionais onde a política é feita,
obrigando os governos a orientar suas políticas de acordo com as
necessidades do capital, na tentativa de manter a maior fatia do
bolo possível dentro dos seus países. O principal fator para a
tomada de decisão das empresas é a lucratividade, que é
naturalmente reduzida pelos impostos necessários para financiar
as políticas redistributivas. Portanto, não vai demorar muito
até essas políticas se tornarem parte da história. Junto com
elas, as regulações sociais e ambientais que restringem a
‘liberdade’ de explorar e destruir estão aos poucos sendo
removidas para promover a competitividade.

A eliminação das políticas redistributivas e ambientais na
Europa está ainda nos estágios iniciais, mas já está causando
conseqüências devastadoras para muitas pessoas (principalmente
mulheres, idosos e crianças) e regiões. Por fim, as relações
sociais provavelmente serão determinadas inteiramente pela
competição entre pessoas e regiões, e um crescente número de
europeus se verá excluído dos processos de produção e consumo,
ou ocupará uma posição dentro destes processos que não garantirá
uma vida digna. Essa tendência certamente se intensificará nos
próximos anos, estimulada pelo papel desempenhado pelo
crescimento econômico das tecnologias e do conhecimento
altamente sofisticados, os quais possuem uma tendência ainda
mais acentuada para se concentrar em regiões específicas (as
assim chamadas ‘cidades globais’) do que as indústrias
tradicionais. Tendência que é também uma fenômeno normal num
mundo onde a expansão do capital atingiu os limites geográficos
(uma vez que praticamente não existem novos territórios para
serem conquistados e explorados) e em que a acumulação ocorre
cada vez mais através da concentração do mercado, pela falência,
fusão ou compra dos competidores. Isso exacerba e tendência
existente para a formação de oligopólios globais, tornando os
donos do capital cada vez mais poderosos.

Portanto, a menos que alguma coisa muito excepcional aconteça
nos próximos anos, muitas pessoas na Europa Ocidental logo
enfrentarão condições similares as enfrentadas atualmente pelos
pobres no Sul, como já é o caso nos EUA. Os governos do Norte
seguramente continuarão usando uma ampla variedade de mecanismos
para se assegurarem que o enorme fosso macroeconômico entre o
Norte e o Sul continue a crescer, de acordos comerciais à
utilização direta da força militar, disfarçada como
‘intervenções humanitárias’ ou como ‘guerra contra as drogas’.
Mas isso não se traduzirá em uma vida agradável para a maioria
da população do Norte, somente expandirá o influxo de refugiados
econômicos. As tensões sociais aumentarão dramaticamente na
medida que as riquezas se concentram em cada vez menos mãos e
regiões, tornando crescentes setores da população incapazes de
satisfazer suas necessidades básicas e forçando-os a viver em
horríveis condições ambientais(5). A ilusão do Estado
benevolente e do capitalismo socialmente e ambientalmente
sensível que podem fornecer bem-estar, abundância e harmonia
para todos, já severamente questionada, irá logo com toda
certeza desaparecer. Sua decadência já está proporcionando um
contexto perfeito para o crescimento do fascismo, da xenofobia e
do nacionalismo exacerbado, já revigorados em toda a Europa.

Tudo isso não é somente (nem mesmo principalmente) causado pela
escolha política de governos nacionais. Esses últimos são, é
claro, responsáveis por suas decisões, especialmente os governos
que aplicam políticas neoliberais com uma dedicação sadística
desnecessária e aqueles que promovem, seja direta ou sutilmente,
reações nacionalistas e xenófobas. Mas o principal motor desses
processos é puramente econômico. O único modo de parar a
desconstrução social e ambiental da Europa Ocidental seria
parando a expansão do capital, o que significa abandonar o
capitalismo e o substituir por um outro sistema econômico.
Qualquer governo que quisesse fazê-lo tornaria a sua economia um
alvo de ataque maciço por todas as grandes forças econômicas do
mundo, as quais não tolerariam um desafio deste tipo
(principalmente na Europa Ocidental). Esse é um preço que nenhum
governo está preparado a pagar, a despeito de sua pretensa
ideologia. Consequentemente, a ‘democracia representativa’ está
se tornando, mais do que nunca, um conjunto de rituais inúteis
(eleições, referendos etc.) e organismos (parlamentos, senados
etc.) com cada vez menos espaço de manobra para tomar decisões
independentes nas esferas de ação mais importantes. A manutenção
da sua existência responde à necessidade de legitimar a máquina
repressiva do Estado, cada vez mais ativa nesses tempos de
tensões sociais globais.

Do mesmo modo, o desaparecimento da política social e ambiental
na Europa Ocidental não é de fato uma conseqüência das políticas
de instituições multilaterais como o Banco Mundial, o Fundo
Monetário Internacional ou a Organização Mundial do Comércio (as
quais possuem muita responsabilidade pela acelerada
desintegração da maioria dos países do Oeste e do Sul), nem
mesmo da Comissão Européia ou de qualquer outro organismo da
União Européia. Essas instituições são instrumentos e símbolos
essenciais, mas não originadores, dos processos econômicos
descritos acima. Mesmo se quisessem, elas não seriam capazes de
frear esses processos, muito menos dar um ‘rosto humano’ ao
capitalismo o regulando em nível global, como defendido pelos
sindicatos dominantes, a maioria das ONGs etc. O melhor exemplo
dessa impossibilidade é o fato dos pouquíssimos compromissos
positivos resultantes do ciclo de conferências realizado pelas
Nações Unidas no final dos anos 80 e início dos anos 90, estarem
se tornando instrumentos para legitimar futuras destruições e
explorações, como no caso da Convenção sobre o Clima. Do mesmo
modo, se o Banco Mundial e o FMI subitamente pararem todos os
Programas de Ajuste Estrutural, quase nada mudaria uma vez que o
mesmo papel que essas instituições estão desempenhando nos anos
80 e 90 tem sido adotado, de modo muito mais eficiente e menos
visível, pelas convenientemente privadas Agências de Avaliação
de Crédito que determinam o comportamento dos grandes fundos de
investimento que moldam a economia global(6).

Consequentemente, todos os esforços para reformar ou
‘democratizar’ as instituições supranacionais são, na melhor das
hipóteses, uma completa perda de tempo. Embora se apresentem
como ‘pragmáticas’ e ‘orientadas pelos resultados’, elas não
mudaram em nada a natureza das políticas que são designadas a
satisfazer as necessidades do capital global.

A resistência autônoma global

Essas necessidades ainda existirão, e continuarão a ser
igualmente dominantes, caso as instituições internacionais que
as satisfazem desaparecessem. Mas os recentes Dias de Ação
Global contra organismos como a OMC, o FMI e o Banco Mundial,
por atacarem com sucesso sua legitimidade e questionarem sua
existência, abriram um espaço para se pensar e se agir contra o
capitalismo que seria inconcebível no Norte a apenas três anos
atrás. Cada uma dessas mobilizações motivaram um crescente
número de pessoas (principalmente jovens) a se organizarem em
grupos de ação autônomos, e despertaram a consciência de amplos
setores da população que lhes depositaram sua simpatia, devido
ao transtorno que causaram a instituições e governos bastante
poderosos.

As redes de intercâmbio anticapitalistas através das quais esses
grupos têm se coordenado e preparado os dias de ação global,
principalmente a Ação Global dos Povos (AGP), têm possibilitado
uma grande quantidade de grupos e ativistas do Norte e uma
diversidade de experientes movimentos populares do Sul se
conhecerem e ampliarem os contatos. Essas redes e a série de bem
sucedidas ações globais que ocorreram desde 1998 colocaram em
prática o slogan ‘Nossa Resistência será tão Transnacional
quanto o Capital’, o qual se tornou globalmente conhecido
durante o segundo Dia de Ação Global em 18 de junho de 1999.
Agora todas as instituições que simbolizam o capitalismo global
sabem que, não importa onde forem, seus encontros serão
perturbados pela desobediência civil descentralizada e ações
diretas.

O sucesso dessas ações globais e redes vem em grande medida do
fato de sua articulação ser baseada na autonomia e
descentralização, não nas estruturas burocráticas e relações de
poder injustas. Essa filosofia é também refletida no manifesto
da AGP:


"Existem inúmeras formas de resistência contra a globalização
capitalista e suas conseqüências. A nível individual, precisamos
transformar nossas vidas cotidianas, nos libertando das leis de
mercado e da busca do lucro privado. A nível coletivo,
precisamos desenvolver uma diversidade de formas de organização
a diferentes níveis, reconhecendo que não há uma única forma de
resolver os problemas que enfrentamos. Tais organizações têm que
ser independentes das estruturas governamentais e dos poderes
econômicos, e serem baseadas na democracia direta. Essas novas
formas de organização autônoma deverão emergir de e se enraizar
em comunidades locais, enquanto ao mesmo tempo praticam a
solidariedade internacional, construindo pontes para conectar
diferentes setores sociais, povos e organizações que já estão
lutando contra a globalização em todo o mundo"(7).
Essas conexões autônomas, descentralizadas e globais e formas de
ação já provocaram uma mudança de consciência e entendimento em
muitas pessoas, as quais em virtude desses sucessos decidiram
participar ativamente delas. Dentro de um período muito curto, a
idéia de resistir ao capitalismo se tornou uma realidade para
muitas pessoas que até recentemente estavam dominadas pela
aparente impraticabilidade de um empreendimento tão grande, ou
que nem pensavam sobre isso até verem que era possível (e muito
satisfatório). Mesmo para alguns que, focalizados como estavam
em campanhas muito específicas e limitadas, consideravam que se
expressar publicamente contra o capitalismo na Europa Ocidental
seria contraprodutivo por causa de suas conotações históricas.

Essa esplêndida transformação na paisagem política da Europa
Ocidental (e América do Norte, Austrália e Aoteoroa(8), e em
menor medida também do Sul, onde a consciência e ação
anticapitalista sempre foi mesmo muito maior) está obviamente
relacionada aos visíveis e apavorantes efeitos que o capitalismo
globalizado está produzindo em todo o mundo, no entanto esses
feitos já se manifestavam há muito tempo sem que catalisasse a
reação social que temos testemunhado nos últimos recentes anos.
Essa reação foi em grande medida induzida pelo enorme apelo da
articulação livre num nível global, de identidades e formas de
ação diversas, igualitárias, autônomas e autodeterminadas em
espaços de apoio mútuo. O potencial de mobilização dessas redes
possui muito de suas raízes na rejeição consciente das
estruturas de poder e de lutas pela liderança dentro do
‘movimento’, a qual impossibilita a ‘capitalização’ política dos
nossos esforços coletivos por qualquer programa ou ideologia.
Essas formas de articulação já foram anteriormente identificadas
como sendo particularmente efetivas por pensadoras feministas
como Biddy Martin(9):


"O que a esquerda tem criticado no movimento feminista como
sendo fragmentação, falta de organização, ausência de uma teoria
coerente e acabada e a incapacidade de preparar um ataque
frontal, pode muito bem representar reações fundamentalmente
mais radicais e efetivas ao exercício do poder na nossa
sociedade do que a centralização e a abstração que continuam a
impregnar o pensamento e a estratégia da esquerda".
Espaços para a revolução

As recentes ações coordenadas internacionalmente contra o
capitalismo permitiram que os coletivos e ativistas
anti-autoritários e anti-hierárquicos parcialmente superassem o
recuo provocado pela história dos regimes comunistas.
Consequentemente, nos últimos três anos temos saído de uma longa
temporada no closet da autolimitação política. Porém, até agora
temos usado o potencial das redes internacionais autônomas e
descentralizadas principalmente para tomar as ruas com protestos
e bloqueios, e para uma limitada (embora muito interessante)
troca de idéias e práticas.

Ainda não examinamos até onde esses instrumentos podem nos
ajudar a construir espaços auto-sustentados e não-hierárquicos
para criarmos meios de vida não-capitalistas, tomar de volta o
controle de nossas vidas e concretizarmos nossas concepções de
relações sociais igualitárias e livres com sensibilidade
ambiental, isenta de exploração econômica e de ‘todas as formas
e sistemas de dominação e discriminação incluindo, mas não
somente, o patriarcado, o racismo e o fundamentalismo religioso
de todos os credos’.(10) Espaços inclusivos articulados em redes
internacionais de apoio mútuo e troca, e com lugar para a
participação ativa de várias pessoas, motivadas por suas idéias,
pelas terríveis condições de vida que a sociedade oferece a
elas, ou apenas por curiosidade.

Existem espaços autônomos anticapitalistas na Europa há um bom
tempo: experiências maravilhosas de modos de vida coletivos,
ecológicos e livres de coerção e exploração, centros sociais com
espaço para a participação política autônoma, redes locais de
trocas econômicas alternativas etc. Mas a maioria desses espaços
estão bastante desconectados dos processos mais amplos de
transformação social (sendo esta principalmente a situação da
maioria da comunidades rurais alternativas), ou possuem
possibilidades muito limitadas para resolverem os problemas
cotidianos das pessoas excluídas, uma vez que baseiam sua
auto-suficiência em interações econômicas totalmente normais
(como os centros sociais que se sustentam com bares e festas).
E, embora existam brilhantes exceções, em geral eles também são
espaços um tanto fechados, se constituindo em áreas de refúgio
contracultural onde as pessoas que não compartilham certo ponto
de vista político, e às vezes até mesmo certas preferências
estéticas, geralmente se sentem um tanto indesejáveis,
resultando em uma homogeneidade e às vezes até mesmo em
sectarismo.

Isso é compreensível no contexto social que ainda predomina na
Europa Ocidental (exceto em regiões e setores sociais
específicos como o dos imigrantes sem documentação), onde as
necessidades básicas da maioria das pessoas são satisfeitas, e
consequentemente a razão principal para participar nesses
espaços tem sido uma predileção política ou estética. Contudo,
os terríveis efeitos do capitalismo globalizado estão
transformando radicalmente a paisagem política da Europa
Ocidental.

A idéia de construir modos de vida autônomos e auto-suficientes
poderia muito bem se tornar uma opção real para as pessoas que
sofrem mais o aumento da competição e a diminuição da
redistribuição, que são excluídas da produção ou do consumo por
esse processo ou que estão profundamente infelizes com os
precários e inseguros lugares na sociedade reservados para elas.
Ao mesmo tempo, as regiões excluídas das redes econômicas
dominantes, incapazes de competir em uma economia aberta de
mercado de outra forma que não seja como depósitos de lixo, não
terão de fato que pensar muito para optar sair da lógica
capitalista, uma vez que elas já estão sendo retiradas do jogo,
assistindo suas economias decomporem-se e os subsídios
encolherem.

Consequentemente, daqui a alguns anos a construção de espaços
auto-suficientes com relações econômicas e sociais igualitárias
e não-excludentes poderia se tornar uma alternativa real para
muitos europeus ocidentais e regiões sem ‘uso’ para o sistema.
Mas isso não ocorrerá espontaneamente, principalmente não em um
continente no qual a maioria das pessoas espera que o Estado
resolva problemas estruturais, ‘crie empregos’ e assegure que as
necessidades básicas de todos os ‘cidadãos’ sejam satisfeitas.

As pessoas que acham essa expectativa ingênua e irreal em tempos
de capitalismo globalizado irreversível, terão que trabalhar
duro para a transformação da cultura política dominante antes
que as pessoas e regiões excluídas comecem a pensar seriamente
na idéia de espaços livres, autônomos e auto-suficientes como
alternativas reais e relevantes a elas. Isso só irá acontecer se
as pessoas perceberem que podem ampliar suas possibilidades,
melhorar sua qualidade de vida e aumentar o controle sobre seus
destinos através da mudança das estruturas e princípios que
moldam sua compreensão das relações sociais, econômicas e
políticas. Isso implica em tornar visível que grupos de pessoas
autônomos e autodefinidos podem substituir os Estados-Nação como
espaços de tomada de decisão e na resolução de conflitos, que
relações de cooperação, solidariedade e eqüidade entre grupos em
boa medida auto-suficientes podem substituir as trocas
monetárias e o dinheiro, e que a superação das relações sociais
opressivas que estão profundamente incorporadas na cultura
dominante (incluindo o sexismo, racismo e o fundamentalismo
religioso de todos os credos, mas também formas mais sutis de
dominação como o consumismo) pode ser libertadora para todos,
não apenas para aqueles que são visivelmente oprimidos por elas.
Isso pode parecer uma tarefa hérculea, mas pode ser mais fácil
do que parece, por várias razões.

A primeira é que a democracia representativa está rapidamente
perdendo legitimidade na Europa Ocidental devido à patente
contribuição de todos os governos, a despeito de suas
composições ideológicas, e devido à crise social e ambiental que
está começando a se manifestar em nosso continente. O mesmo
processo também é capaz de minar a legitimidade do Estado como
instituição, devido ao aumento da repressão que provavelmente
este aplicará de modo a proteger a concentração de riqueza,
dificilmente com alguma função positiva ou legitimidade
democrática para ajudar a equilibrar sua imagem.

Como mencionado acima, a reação de muitas pessoas em relação a
esse processo é o anseio por um regime autoritário (fascista ou
comunista) para re-nacionalizar a economia, mas felizmente a
maioria dos europeus ainda possuem uma forte lembrança histórica
e recusam tais ‘soluções’ para seus problemas. Isso pode
impulsionar a receptividade social e simpatia em relação a
outras possíveis saídas para a crise que reflitam valores éticos
positivos (tais como a liberdade, igualdade, consciência
ambiental etc.).

Consequentemente, dependendo de como reagimos coletivamente à
globalização do capital, podemos construir um futuro com mais
liberdade e controle sobre nossas vidas, ou encararmos sombrias
perspectivas de autoritarismo, controle e (muito possivelmente)
guerra e devastação. Muito provavelmente, teremos que lidar com
uma mistura de ambos, mas o balanço dependerá, em grande medida,
de nossas próprias decisões.

Segundo, já construímos redes internacionais autônomas e
descentralizadas que dentro de muito pouco tempo executaram a
aparentemente impossível tarefa de tornar o capitalismo global
um tema controverso e aberto à discussão social. O efeito
combinado dessas vozes diversas articulando uma mensagem
coletiva (embora não necessariamente idêntica) de uma forma
descentralizada e horizontal tem sido uma agradável surpresa.
Antes dessas redes ganharem existência, essas mesmas vozes,
agindo em relativo isolamento, não poderiam esperar ter tal
impacto em um período de tempo tão curto. Como dito acima, seu
sucesso está profundamente relacionado à sua consciente recusa
de estruturas de poder e representação desnecessárias e
divisionistas, de modo a evitar a burocratização e promover a
participação autônoma. Os mesmos princípios e conexões globais
poderiam ter igualmente extraordinários resultados se fossem
usados para construir coletivamente espaços livres, autônomos e
auto-suficientes, e torná-los visíveis e (pelo menos
parcialmente) acessíveis a todas as pessoas que não estejam
felizes com seus lugares na sociedade.

Por fim, a construção desses espaços, em contraste com outras
reações ao capitalismo global, somente dependem da determinação,
otimismo e criatividade das pessoas que querem construí-los.
Está em nossas mãos fazê-los acontecer, já que não requerem
nenhuma intervenção estatal (ao invés, o oposto) ou mudança de
governo. E a construção desses espaços pode ser feita sem muito
dinheiro (principalmente em regiões excluídas), procurando meios
de reduzir a necessidade de dinheiro o máximo possível. Além
disso, as redes globais têm demonstrado que temos, dentro de um
curto período, atingido coletivamente níveis surpreendentes de
capacidade organizacional, tecnológica, e comunicacional. Embora
possam não ser suficientes, e suficientemente compartilhadas,
para tornar economias não-monetarizadas baseadas na
solidariedade uma alternativa viável, o modo como estão
crescendo é um bom motivo para acreditar que logo poderemos não
apenas sobreviver em tais espaços, mas viver uma vida
interessante e autodeterminada.

Uma vez que hajam espaços desse tipo funcionando com sucesso,
eles certamente inspirarão a criação de muitos outros. Essas
revoluções imediatas nas relações econômicas, políticas e
sociais podem levar a uma verdadeira mudança de uma maneira
muito mais rápida, efetiva e autodeterminada do que qualquer
grandioso projeto de tomada do poder. Todavia, muitos obstáculos
precisam ser transpostos antes que essas nobres finalidades se
tornem uma realidade dinâmica e vibrante.

Identidade, diversidade e participação

Como dito acima, muitos espaços desse tipo já existem, mas a
maioria deles são um tanto introspectivos. Muitos possuem apenas
limitadas conexões com processos mais amplos de transformação
social, principalmente a nível internacional (embora muitos
deles sejam bastante ativos a nível local), e a maioria deles
não faz muito esforço consciente para chegar a pessoas que não
compartilhem suas perspectivas contraculturais e/ou políticas,
talvez porque aqueles que se esforçam freqüentemente não obtêm
muito sucesso. Por exemplo, vários centros sociais que gostariam
de ser um espaço aberto para as pessoas do seu bairro acabam
atraindo somente pessoas que se vêem refletidas na aparência
estética do espaço. Esse limitado alcance se deriva do fato
desses espaços serem normalmente construídos por grupos de
pessoas relativamente homogêneos, que muitas vezes definem sua
identidade coletiva em termos defensivos ou escapistas,
refletindo uma mentalidade de resistência que os distancia do
resto da sociedade.

Se queremos sair do gueto, teremos que assumir o desafio de pôr
em prática as idéias que a maioria de nós defende sobre a
importância da diversidade, sacrificando a segurança, a
previsibilidade e a trivialidade que resultam de identidades
coletivas homogêneas e relativamente fechadas. Isso não somente
reduziria a tendência daqueles que se acham ‘politicamente
conscientes’ de se acharem ‘bons demais para se misturar’, mas
também é um passo positivo em si mesmo, uma vez que lutar pela
autonomia sem diversidade e respeito pela diferença é uma
combinação muito perigosa, com um grande potencial autoritário e
reacionário. Além disso, identidades coletivas homogêneas são
baseadas em convenções que determinam os comportamentos, idéias
e valores apropriados. Consequentemente, elas debilitam a
liberdade e a autonomia dos membros do coletivo (mesmo quando
eles aceitam as convenções voluntariamente), em parte negam as
próprias identidades particulares das pessoas, e introduzem
arriscadas dinâmicas de poder e liderança, e em alguns caso até
mesmo de opressão. A capacidade de auto-abnegação inerente a
essas dinâmicas é realçada em uma brochura crítica sobre o
movimento dos ‘direitos dos animais’, escrita por alguém que era
ativamente engajado nele:


"Os guetos que brotam em torno de temas singulares, grupos
políticos, religiões, etc. surgem sim do desejo comum de
pertencer, de ser parte do mundo, de estar envolvido em uma
verdadeira comunidade. Mas isso sempre e mais uma vez se reduz a
representar um papel no mundo e a corresponder a uma dada
fórmula de pretensas identidades sociais... Para ‘se encaixar’,
é conveniente se adotar as mesmas opiniões, posturas, atitudes e
até mesmo vocabulários. Todas as modas são um exemplo de pessoas
que se recusam a pensar explicitamente por si mesmas, [sobre] a
natureza da sua vida e sua relação com a sociedade como um
todo"(11).
Trata-se de um assunto complexo, já que existem obviamente
comportamentos, valores e idéias que não podem ser aceitos, não
importa o quanto enriqueçam a diversidade. Mas os limites são
subjetivos e discutíveis. Por exemplo, algumas pessoas
consideram comer carne algo quase equivalente ao fascismo,
enquanto para outros é a coisa mais natural do mundo. Do mesmo
modo, existem diferentes abordagens sobre o comportamento
sexista ou racista, dependendo de como sua importância e grau
sejam concebidos, e a lista poderia continuar ao infinito.
Consequentemente, espaços caracterizados pela diversidade estão
destinados a fomentar discordâncias, o que é na verdade
positivo, uma vez que a discordância nutre a criatividade e a
mudança. Novamente é bom salientar que isso não significa que
devamos abraçar uma perspetiva relativista, ou que valores
coletivos sejam necessariamente uma má idéia. Pelo contrário,
eles são indispensáveis, mas se tornam um problema quando são
conduzidos de uma maneira moralista, levando à homogeneidade,
sectarismo e isolamento, e muitas vezes a repulsivas relações de
poder.

Uma bom modo de criar espaços políticos e sócio-econômicos
alternativos, com lugar para a diferença, seria conscientemente
evitando a criação de comunidades políticas com fronteiras e
identidades precisas (tais como partidos, associações, corpos
legislativos etc.) enquanto estruturas para tomada de decisão e
ação baseadas no fato das pessoas ‘serem membros’ delas ou
‘pertencendo’ a elas. Esse tem sido o modo padrão de articulação
da vida política, social e econômica desde tempos imemoriais, e
que explica por que a maioria das pessoas parece necessitar de
tal sentimento de ‘pertencimento’ para se envolver coletivamente
com outros. Mas de fato é perfeitamente possível ir além de
comunidades políticas isoladas, basta pensar e agir dentro de
diferentes níveis de afinidade e de interação livre, combinando
vários espaços de comunicação e cooperação fluidos e
interligados, de pequenos grupos locais a grandes redes globais,
sem ‘pertencer’ a nenhum deles. De fato, tudo que precisamos de
modo a agir e cooperar em um contexto de discordância parcial,
sobre a base da nossa identidade própria, é alguma flexibilidade
e imaginação para se mover entre diferentes espaços, dependendo
das finalidades da cooperação em questão e do grau de afinidade
que ela requer.

Na verdade isso não é novidade, a maioria das pessoas se
relacionam entre si dessa forma nas suas vida cotidianas. Mas a
maioria, mesmo as que acreditam na autonomia e na
descentralização, adotam em sua atividade ‘política’ uma única
identidade coletiva com um único espaço para tomada de decisão,
o qual quase sempre se torna o cenário de abomináveis lutas de
poder. Isso não é apenas totalmente contraditório com a própria
idéia de autonomia, é também uma esplêndida maneira de
desestimular a participação de muitas pessoas que têm coisas
melhores para fazer do que testemunhar jogos de poder mal
disfarçados em intermináveis reuniões sem sentido.

O processo organizacional da ação contra o Banco Mundial e o FMI
no dia 26 de setembro em Praga exemplifica muito bem os
problemas associados a espaços únicos para tomada de decisão. Na
assembléia preparatória de agosto, a última antes da ação,
perdemos uma dia inteiro (além de muito cansativo) discutindo
devido à teimosa insistência dos representantes do Socialist
Workers’ Party, que queriam que o protesto fosse constituído por
uma única passeata. Finalmente chegamos a um consenso ‘por
cansaço’ que terminou sendo totalmente sem importância de
qualquer maneira, já que a maioria das pessoas que foram à Praga
participar na ação tinham suas próprias idéias sobre o que
queriam fazer no dia, e se coordenaram no espaço bastante fluido
e participativo do centro de convergência, onde vários
diferentes níveis de identidade, conexão e coordenação se
juntaram em um processo bastante caótico (no melhor sentido da
palavra) e criativo. Todos nós sabíamos de antemão que um centro
de convergência seria concebido precisamente para esses tipos de
interações, mas isso não impediu que muitas pessoas (não somente
o Socialist Workers, também algumas pessoas de grupos autônomos)
vissem as assembléias preparatórias como o ‘organismo de tomada
de decisão’ para todas as pessoas que quisessem se juntar à
ação, embora muitos de nós as considerassem simplesmente como um
espaço de comunicação entre os diferentes grupos que se
mobilizavam para Praga, com o papel principal de assegurar que
as pessoas que fossem à Praga para as ações tivessem as
condições para interagirem e decidirem livremente. Os mesmos
problemas de concepção foram manifestados claramente através das
diferenças de entendimento (ou mais asperamente, a total
confusão) sobre o papel da INPEG, a coordenação que foi formada
para preparar a logística do dia de ação.

Os problemas enfrentados em Praga são provavelmente o mais
recente e completo exemplo na Europa Ocidental dos tipos de
quebra-cabeças organizacionais e de conflitos que tendem a
emergir se quisermos atuar no sentido de uma transformação
social de larga escala, de uma forma autônoma mas coordenada, na
Europa. Esse processo provavelmente não será possível se não nos
esforçarmos conscientemente para superar, a nível local,
regional e internacional, as clássicas e monolíticas concepções
sobre ‘unidade’, organização e identidade política, trabalhando
na direção da construção de conjuntos de espaços autônomos de
coordenação complexos, multiculturais e dinâmicos. Embora essa
mudança de concepção seja relativamente fácil e não enfrente
muitos obstáculos no que diz respeito ao nível internacional ou
regional de coordenação (como foi o caso em Praga), seguramente
ela não ocorrerá espontaneamente dentro de espaços locais de
articulação e organização, onde o vício de homogeneização
através de identidades políticas fechadas é mais intenso e
alienante. Se ocorrerá ou não, dependerá dos nossos esforços.

Os becos sem saída nacionais

Um problema parecido, também relacionado a temas de identidade e
a concepções clássicas de ‘unidade’ e ‘resistência’, é a forte
inclinação para reagir contra a ‘globalização’ com nacionalismo
(às vezes combinado com fundamentalismo religioso). Essas
‘soluções’, feitas sob medida para grupos de pessoas seletos e
específicos às custas de outros, esquecem a contribuição
positiva mais importante que a ‘globalização’ tem a oferecer a
um genuíno processo de transformação social positiva: o fato de
que hoje, mais do que nunca, os sonhos com uma solidariedade
internacional e com o apoio mútuo estão dentro de nosso alcance.
Tais reações já engendraram aberrações e tragédias na Europa,
como por exemplo a ascensão de um partido fascista ao governo
austríaco e a guerra na ex-Iugoslávia (que foi maquinada com a
ativa participação dos países do Ocidente). Mas isso é só o
começo do que poderia se tornar ma evolução política ameaçadora
para a Europa, e possivelmente para o resto do mundo, se
deixarmos o potencial destrutivo das reações nacionalistas se
desdobrarem sem desafio. E uma das principais formas de desafiar
essas reações é mostrando às pessoas que olham o futuro com
ansiedade, que existem outras saídas, outras alternativas
baseadas em valores positivos.

O que torna esse problema particularmente sério e relevante para
nós é o modo pelo qual a grande mídia está fortalecendo essas
reações através do modo que ela representa nossas mobilizações.
Ela geralmente passa a impressão de que aquilo com que todos nós
estamos insatisfeitos é a globalização, o neoliberalismo e as
corporações transnacionais, e que não temos nada a objetar ao
capitalismo se nós enquanto ‘cidadãos’ convencêssemos os
políticos a ‘controlar’ sua expansão, seja assegurando que ele
permaneça dentro das fronteiras nacionais ou graças à
redistribuição global e mecanismos de controle como a taxa
Tobin. Essa é infelizmente a posição de várias ONGs reformistas
e chamados ‘intelectuais’ que não possuem ligação com nenhum
processo de mobilização popular na Europa (excetuando na França,
onde as coisas são um pouco diferentes em relação à maioria dos
outros países da Europa Ocidental), mas estão sempre procurando
oportunidades para se retratarem na mídia como ‘líderes
intelectuais’ ou ‘porta-vozes’ do ‘movimento’.

Contudo, a instrumentalização das nossas mobilizações para fins
reformistas é também responsabilidade dos grupos populares
anticapitalistas que têm realizado a maior parte do trabalho
nessas ações, por não termos tornado nossas perspectivas mais
amplamente conhecidas como deveríamos. Nossa cuidadosa e céptica
aproximação da mídia é de fato algo positivo em si mesmo, tendo
em conta o papel bastante destrutivo que a mídia pode
desempenhar em relação a movimentos populares, mas podemos
procurar formas de tornar nossa mensagem clara e alta para todas
as pessoas que não tenham uma interação direta conosco ou que
não acessem nossa mídia independente e autônoma.

Do mesmo modo, organizações nacionalistas, que estavam quase
ausentes nos estágios iniciais desse processo de resistência
autônoma anticapitalista, estão ficando cada vez mais
interessadas nas nossas ações. O último exemplo são os planos
dos nacionalistas catalãos para organizar um encontro de ‘nações
sem Estado’ em Barcelona, para protestar contra a Conferência de
Desenvolvimento do Banco Mundial na cidade, em junho de 2001. A
principal razão para seu súbito interesse pelas instituições
globais (quando o seu tradicional campo de ação era a
resistência contra os Estados onde estão localizados) é a
simpatia pública gozada pelo chamado ‘movimento
antiglobalização’ e o potencial que eles vêem para conquistar
espaço político projetando o nacionalismo como uma solução à
‘globalização’. Aqueles de nós que não gostariam de ver nosso
esforço se tornar munição política para o nacionalismo deveriam
fazer algo a respeito bem depressa, porque de outra forma pode
ser tarde demais quando reagirmos.

Um infeliz ponto de convergência entre reformistas reacionários
e progressistas e nacionalistas é sua obsessão comum pelos
‘direitos dos cidadãos’. Alguns dos grupos progressistas que
utilizam esse conceito insistem que a cidadania não deveria
depender da nacionalidade, e que esses direitos deveriam ser
estendidos a qualquer um que vivesse no país em questão. Mas a
mensagem dominante das suas campanhas (que cobrem um largo
espectro, das rendas mínimas cidadãs a medidas para proteger a
produção nacional da competição das multinacionais) é de que a
estrutura legítima de formulação de políticas é o Estado-Nação.
Isso implica que os direitos (e deveres) deveriam continuar a
ser definidos pelo governo nacional do país que por acaso se
habita, um critério parcial e injusto (como cinco séculos de
colonização demonstram) que levaria a extremas desigualdades. Já
que a única forma de melhorar a sorte dos cidadãos europeus cuja
situação piora devido à ‘globalização’, mantendo a máquina da
acumulação capitalista viva e cheia de energia, seria isolando
completamente os países europeus da dinâmica de competição do
mercado internacional e ao mesmo tempo levando a exploração das
regiões e continentes desprivilegiados a um tal extremo que as
margens de lucro globais concentradas nos países europeus não
seriam afetadas pelas políticas de redistribuição. Isso não é
possível a menos que fosse imposto pela força sobre outras
regiões, e certamente não é desejável, embora partidos fascistas
em toda a Europa seguramente ficariam satisfeitos em fazê-lo do
mesmo modo que o governo dos EUA está fazendo, com a colaboração
de vários países aliados da Europa Ocidental, em países como
Iraque e Colômbia. Pedir o restabelecimento dos privilégios
nacionais em seus países ou regiões dentro de uma estrutura
econômica global levemente reformada é a mensagem subliminar
enviada por todos aqueles que gritam contra a ‘globalização’ mas
se mantêm em silêncio em relação ao capitalismo.

Um passo que contribuiria muito para clarificar nossos pontos de
vista seria expressar ativamente e vigorosamente que não somos
contra a globalização, da forma como a mídia repete o tempo
todo, mas sim contra o capitalismo. Podemos comemorar a
globalização, como Antonio Negri e Michael Hardt fazem em seu
livro Império(12), onde eles usam essa palavra para identificar
‘o regime de relações globais’ que muitos outros chamam
‘globalização’:


"Insistimos na afirmação de que a construção do Império é um
passo adiante de modo a afastar qualquer nostalgia por
estruturas de poder que o precederam e a recusar qualquer
estratégia política que envolva um retorno ao antigo modelo,
como por exemplo tentar ressuscitar o Estado-Nação para se
proteger do capital global. Alegamos que o Império é melhor, do
mesmo modo que Marx insiste que o capitalismo é melhor do que as
formações sociais e modos de produção anteriores a ele. O ponto
de vista de Marx está baseado em um saudável e lúcido desgosto
pelas hierarquias rígidas e paroquiais que precederam a
sociedade capitalista, assim como no reconhecimento de que o
potencial de libertação é ampliado no novo contexto. Do mesmo
modo, hoje podemos ver que o Império afasta os regimes cruéis do
poder moderno e também amplia o potencial de libertação".
Negri e Hardt fazem uma boa observação sobre o espaço de
libertação que é ampliado pela globalização. Mas o que eles não
levam em conta, seguindo uma longa tradição de pensadores
marxistas, é o fato de que nem todas as sociedades
pré-capitalistas e modos de produção eram paroquiais e
hierárquicos como o feudalismo europeu, uma questão que será
abordada mais profundamente na próxima seção.

Outro anacrônico legado do marxismo mais tradicional é a
permanente obsessão de muitas organizações e ativistas
anticapitalistas (incluindo boa quantidade que faz parte do
movimento autonomista) em conceber a classe operária como o
principal ator da transformação social a nível nacional (e por
último global). Embora a importância dos trabalhadores não seja
questionada, as esperanças entusiásticas e fervorosas de uma
revolução proletária, proclamada a toda hora por muitas
organizações marxistas tradicionais, são totalmente sem sentido.
Essas organizações e seus ideólogos parecem não ter percebido as
implicações da reestruturação econômica global que tem ocorrido
desde os anos 70. Não deveremos ver os trabalhadores tomando o
poder em nenhum lugar durante muito tempo, se é que um dia
veremos, devido a uma complexa combinação de fatores.

A maciça introdução de tecnologias que dispensam trabalho na
maioria dos setores da economia, as profundas mudanças na
organização da produção efetuadas pelo pós-fordismo (através das
quais grandes e ‘sólidas’ companhias passaram responsabilidades
e riscos a pequenas e ‘fracas’ companhias subcontratadas), a
divisão de trabalho internacional (que concentra a produção de
trabalho intensivo em regiões com boas condições de exploração
dos trabalhadores), e o deslocamento de milhões de pessoas a
cada ano devido à destruição de seus meios de vida (por guerras,
tecnologias agrícolas modernas, megaprojetos, catástrofes
ambientais etc.) que têm que procurar novos meios de
sobrevivência dentro ou fora de seus países, são algumas das
razões que têm feito a maioria dos trabalhadores se sentir
bastante feliz sendo explorada, desde que mantenham seus
empregos. A máquina de produção global nunca funcionou melhor
para os donos do capital, que são agora recebidos com tapetes
vermelhos mesmo em países supostamente revolucionários como Cuba
e China. Enquanto isso, os sindicatos de todos os tipos e as
ideologias estão perdendo sua força e credibilidade.

O único desafio sério a esse processo de acumulação vem de
pessoas no Sul que em grande medida dependem da natureza para
sua sobrevivência, e que estão resistindo ao seu deslocamento
(como o exército indígena Zapatista faz em Chiapas, defendendo o
direito das comunidades indígenas controlarem seus recursos e
preservar sua cultura), forçado pelo assim chamado
‘desenvolvimento’, ou reivindicando de volta um espaço para
sobrevivência (como o movimento dos trabalhadores sem terra
estão fazendo em toda a América Latina, e principalmente no
Brasil, com suas ocupações de terra). Esses processos de
resistência em crescimento estão se tornando um problema real
para a expansão futura e acelerada do capitalismo, uma vez que
bloqueiam o acesso a recursos naturais. Mas não se tratam das
revoluções proletárias que a maior parte dos marxistas tem
anunciado por mais de um século e meio. São processos de
resistência de pessoas que estão tentando evitar sua
proletarização, manter um nível mínimo de auto-suficiência e
ficar longe das misérias da dependência. Ao invés de visar a
tomada do poder a nível nacional, elas estão defendendo ou
reconstruindo espaços de poder autônomo a nível local. Portanto,
mesmo em países onde a maior parte da população (não apenas os
excluídos, mas também aqueles com trabalho) vivem em horríveis
condições, uma revolução proletária está totalmente fora de
vista.

Mas mesmo se os trabalhadores estivessem em posição de derrubar
o governo e tomar o poder em algum lugar do mundo, e mesmo
assumindo (contra todas as evidências históricas disponíveis)
que isso não conduziria à criação de um regime autoritário e
despótico, essa não é a melhor época para romantizar revoluções
nacionais. Os Estados Unidos e seus aliados da Europa Ocidental
(principalmente o Reino Unido) estão mais do que prontos para
utilizar sua máquina de poder militar contra qualquer governo
que eles achem ser uma séria ameaça aos seus interesses, como já
demonstraram por inúmeras e suficientes vezes, e isso é
extremamente improvável que mude em um futuro próximo. Portanto,
revoluções nacionais nesses tempos estão predestinadas à mesma
lenta derrota ocorrida na Nicarágua, com todo o sofrimento
humano e desmoralização que isso implica.

Localismo, tecnologia e progresso

O papel repressivo que os Estados-Nação desempenham na Europa
desde de sua formação(13), juntamente com os problemas inerentes
às estruturas nacionais com vistas à transformação social (seja
qual for sua ideologia), têm levado muita gente a reagir através
da mistificação do âmbito local. Muitos críticos da
‘globalização’ defendem que relações sustentáveis e igualitárias
somente são possíveis através da interação a nível local, e
consequentemente restringem a maior parte do seu trabalho
político a esse nível, mantendo ligações nacionais e
internacionais apenas circunstancialmente.

De mesmo modo, considerações sobre o uso destrutivo da maioria
das tecnologias têm provocado uma forte aversão à tecnologia
entre muitas pessoas (principalmente aqueles com consciência
ambiental), que reagem a isso idealizando o trabalho manual e
odiando máquinas. Porém, o primitivismo é bastante alienante à
maioria das pessoas neste mundo, que sentem o desejo totalmente
legítimo de viver em condições confortáveis e possuir o máximo
de tempo livre de modo a poderem determinar como gastá-lo. Não
resta dúvida que algumas tecnologias, como a biotecnologia e a
indústria nuclear, são destrutivas independente do uso que
possamos dar a elas, e que algumas tecnologias aumentam a
dependência e portanto restringem a liberdade, embora isso seja
normalmente conseqüência da forma que são disponibilizadas e
usadas, e não da tecnologia em si mesma. Mas existe também uma
grande quantidade de tecnologias que podem ajudar a se atingir
maiores graus de liberdade, e que possuem conseqüências
ambientais desprezíveis (como geradores de pequena escala que
utilizam energia eólica feitos de material reciclado) e meios
para reduzir a dependência provocada pelo uso de certas
tecnologias (como as redes anticomerciais que trabalham
coletivamente para produzir programas de computador sem
copyright). Mesmo algumas tecnologias que produzem um certo grau
de dependência podem ter um efeito global positivo, como por
exemplo muitos métodos contraceptivos. Computadores têm sido,
por exemplo, indispensáveis para a criação de redes globais de
ação autônoma e descentralizada. Sem eles, teríamos
possibilidades muito mais limitadas para associar nossa
resistência globalmente.

Como era de se esperar, o localismo é freqüentemente ligado ao
primitivismo, e nesses casos, os grupos em questão muitas vezes
possuem identidades coletivas bastante fechadas: muitos deles se
distanciam contundentemente do resto da sociedade. A escolha é
deles, e na maioria dos casos não há problema, desde que não
tragam nenhuma implicação negativa para outras pessoas. Mas tais
posturas possuem um potencial bastante perigoso quando sua base
ideológica é unicamente a suposta destruição do planeta pela
‘humanidade’, desconsiderando que os problemas ambientais estão
enraizados em um sistema de produção mantido por relações de
poder opressivas. A difusão desse modo de pensar oferece um
grande potencial para pregadores fascistas, como foi
acuradamente identificado pelos ecologistas sociais Janet Biehl
e Peter Staudenmaier:


"Durante o Terceiro Reich... ‘Ecologistas’ nazistas até mesmo
tornaram a agricultura orgânica, o vegetarianismo, a veneração
da natureza e temas relacionados, em elementos fundamentais não
somente da sua ideologia, mas também da sua política
governamental. Além disso, a ideologia ‘ecológica’ nazista era
usada para justificar a destruição dos judeus europeus. Também
alguns dos temas que os ideólogos nazistas articulavam, trazem
uma semelhança forte e perturbadora com temas familiares às
pessoas ecologicamente preocupadas de hoje em dia... Atualizando
sua ideologia e falando na nova linguagem ecológica, esses
movimentos estão novamente invocando temas ecológicos para
servir à reação social... enfatizam a supremacia da ‘Terra’
sobre as pessoas, evocam os ‘sentimentos’ e a intuição às custas
da razão, e sustentam um grosseiro sociobiologismo e até mesmo
um biologismo malthusiano... Como ecologistas sociais, nós...
sustentamos a importância da razão, da ciência e da tecnologia
na criação de um movimento ecológico progressista e de uma
sociedade ecológica"(14).
Não se trata de um problema do passado. O grupo antifascista
holandês "De Fabel van de illegaal" escreveu uma série de
artigos quando decidiram parar todas as suas atividades
antiglobalização, que mostram como os movimentos ambientalistas
e o chamado ‘movimento antiglobalização’ têm se tornado o
‘terreno de atuação’ favorito dos fascistas europeus. Segundo
eles, "uma das estratégias da Nova Direita é procurar tendências
nacionalistas e conservadoras nas ideologias supostamente de
esquerda e adotar essas idéias para o seu próprio
crescimento"(15). Um dos exemplos mais chocantes que eles
expuseram foram as ligações de Edward Goldsmith, editor da The
Ecologist, a mais importante revista ambientalista do Reino
Unido, com a Nova Direita(16):


"Goldsmith faz um apelo por uma política verde que restabeleça
uma "ordem social natural" e "as tradicionais relações entre as
pessoas". "Os verdadeiros problemas são causados pelo rompimento
de sistemas naturais como a família, a sociedade e o sistema
ecológico", ele escreveu recentemente na The Ecologist. Somente
quando as relações humanas forem novamente organizadas pelas
"leis de Gaia" uma sociedade estável será possível segundo ele.
Goldsmith descreve alguns conflitos políticos como problemas
"naturais" ou "étnicos". Ele acredita que "grupos étnicos
diferentes" não podem viver juntos em um país... Goldsmith vê os
católicos e protestantes da Irlanda do Norte "como dois grupos
étnicos diferentes", que deveriam ser separados. Ele também é um
fã de Ataturk(17), que de acordo com Goldsmith, "separou gregos
e turcos com absoluto sucesso, embora tenha havido uma terrível
gritaria na época e tenha sem dúvida causado uma inconveniência
considerável a pessoas que eram forçadas a migrar. Mas não
deveríamos desejar aceitar medidas incômodas de modo a
estabelecer uma sociedade estável?"... Comparando sociedades
humanas com organismos biológicos, Edward Goldsmith até mesmo
argumentou: "O que hoje é considerado preconceito contra pessoas
de grupos étnicos diferentes é uma característica normal e
necessária do comportamento cultural humano, e é ausente somente
entre membros de um sistema cultural já em estado avançado de
desintegração". Muita gente na Nova Direita vê Edward Goldsmith
como um dos seus mais importantes ideólogos... Ele é o
presidente da Ecoropa(18) e membro do quadro de diretores do
Fórum Internacional sobre Globalização (IFG)"(19).
Trata-se, no entanto, de um assunto complexo, uma vez que existe
certamente uma sobreposição entre a mensagem de grupos fascistas
e as idéias que a maior parte dos progressistas da Europa
Ocidental defendem quando falam dos povos indígenas. Fabel
reproduziu as reflexões sobre essa sobreposição de Veldman, um
dos mais importantes ideólogos da Nova Direita na Holanda:


" "Não faz sentido que a identidade política explícita de
minorias quase extintas e destruídas, e mini-povos ‘fora de
risco’, obtenham tanto apoio, enquanto o mesmo conjunto de
valores é imediatamente posto sob suspeita quando sustenta o
nacionalismo vigoroso de um povo relativamente maior", Veldman
diz, desconsiderando simplesmente todos os livros de história
cheios de "minorias" sendo mortas por "povos relativamente
maiores" que propagavam esse tal "nacionalismo vigoroso"...
"Vendo tantas pessoas bem intencionadas valorizarem a cultura e
visão de mundo dos povos indígenas, é surpreendente que os
europeus que também possuem aversão ao progresso e também tentam
recuperar suas raízes culturais e identidade, sejam confrontados
com tamanha desconfiança e resistência por pessoas que dizem
compartilhar os mesmos valores""(20).
É claro, a solidariedade da maioria dos europeus de esquerda que
apóiam as lutas dos povos indígenas e outros setores rurais que
lutam pelo autogoverno (afro-americanos que vivem em comunidades
rurais livres, certas comunidades de agricultores etc.) não tem
nada a ver com a etnicidade ou com essencialismo cultural. Pelo
contrário, é motivado pelo caráter anticapitalista e autonomista
dessas lutas, pela percepção de que muitas dessas sociedades
rurais carregam muitos valores ambientais e sociais positivos, e
pela violenta opressão que elas têm sofrido há séculos
(principalmente sob domínio colonial europeu). Consequentemente,
há uma clara análise entre os defensores da autonomia indígena,
dos camponeses e dos afro-americanos que os imuniza contra as
tentativas de cooptação da Nova Direita. Mas Veldman levanta uma
questão extremamente importante e que realmente precisa ser
discutida pelo movimento ambientalista radical: a concepção de
progresso.

Uma grande parte dos grupos ambientalistas radicais da Europa
Ocidental (principalmente aqueles com idéias próximas à chamada
‘ecologia profunda’) se consideram parte de um vago movimento
‘antidesenvolvimento’. A rejeição do conceito de
‘desenvolvimento’ é totalmente justificado se se observa a
história de abuso, destruição, destituição e exploração que tem
sido gerada em nome desse conceito cosmético, inventado pela
administração dos EUA no período pós-guerra para vestir a
exploração neocolonial do Sul com uma retórica humanitária e
compassiva. Mas essa crítica não deveria terminar em uma
idealização do passado e numa visão romântica das sociedades
estáticas (que de qualquer forma nunca existirão). Novamente,
nas palavras do Fabel:


"Os ativistas de esquerda deveriam ao invés lutar por uma
sociedade que possa mudar, e na qual todos os recém-chegados
possam igualmente participar. A esquerda deveria lutar para
desenvolver culturas de luta internacionalistas e autônomas...
Os ativistas de esquerda não deveriam protestar contra uma
globalização da solidariedade ou um intercâmbio global de
culturas e idéias. E contra o progresso menos ainda. A
verdadeira luta é sobre a direção na qual iremos progredir, e
mais importante: quem irá decidir sobre isso"(22).
As novas redes de grupos de ação autônomos podem desempenhar um
papel importante na promoção desse importante debate dentro do
movimento ambientalista radical. Esse é um bom exemplo da
importância dessas redes e conexões para facilitar o intercâmbio
de idéias (incluindo a provocação mútua quando necessário, mas
de forma cordial, como se espera) entre grupos que estavam
anteriormente bastante afastados uns dos outros. Tais
intercâmbios pode ser tremendamente úteis para fazer avançar
nossas análises e compreensões individuais e coletivas do mundo,
da transformação social e do nosso papel nela.

Desafios pela frente

Além desses e outros debates, muitos outros desafios terão que
ser superados antes que os processos de criação de espaços
livres, autônomos e auto-sustentados na Europa Ocidental possa
se tornar revolucionário.

Primeiramente, precisamos trabalhar duro com nossas práticas de
comunicação, de modo a alcançar entendimentos coletivos, em
diferentes níveis, sobre o que queremos e como queremos chegar
lá. Não se trata de um pequeno desafio, como os últimos três
anos amplamente demonstraram. Deveríamos também experimentar e
aperfeiçoar maneiras de eliminar todas as formas e sistemas de
opressão, dominação e discriminação dentro dos nossos círculos
(ao mesmo tempo mantendo o direito à diferença e tomando
precauções contra a formação de identidades coletivas
dominadoras) e lidar com o conflito e a dissensão
construtivamente (de modo que enriqueçam o que fazemos, ao invés
de nos dividir), já que somos deficientes em ambas questões.
Além disso, será necessário um compartilhamento muito maior das
capacidades e conhecimentos ao longo do processo, tanto no plano
da análise (através de seminários, intercâmbio com pessoas de
outras partes do mundo etc.), quanto no intercâmbio de
instrumentos para auto-suficiência organizacional e econômica
(tecnologias de comunicação, energia renovável, agricultura
ecológica, línguas etc.), evitando o estabelecimento de
lideranças e hierarquias conseqüentes de uma especialização. Por
fim, deveríamos continuar os magníficos esforços de
desenvolvimento de formas mais eficientes e criativas de
transmissão da nossa mensagem para o resto da sociedade sem
depender da grande mídia.

Outro desafio será a repressão estatal, que poderá se tornar um
verdadeiro pesadelo se esse processo se enraizar e se
fortalecer, principalmente se esses espaços bloquearem o acesso
a recursos exploráveis (e ainda mais se houverem conflitos por
causa de recursos básicos, como a água). Esse é mais um motivo
para permanecer o máximo possível em contato com o resto da
sociedade, uma vez que um Estado deslegitimizado terá
dificuldade de reprimir espaços que são vistos com bons olhos
pela maioria da população.

Ligado a isso, existe um par de questões espinhosas que não
poderemos evitar, já que elas têm sido o objeto de discussões
bastante longas e difíceis em espaços autônomos, mas ainda não
foram resolvidas: formas de ação violentas (incluindo aquelas
que não colocam qualquer ameaça à vida ou à saúde) e o
autodestrutivo uso de drogas. Ambas têm sido usadas amplamente
pelo Estado para reprimir com sucesso e destruir movimentos
sociais. As redes de ação autônomas de hoje são pequenas e
frágeis comparadas a movimentos que já foram esmagados por
medidas inconstitucionais (mas infelizmente muito populares)
contra ‘pessoas violentas’, ou por LSD e outras drogas
introduzidas pelo aparato estatal de modo a destruir vidas
humanas e criminalizar os dissidentes. É importante discutir
essas experiências históricas coletivamente, principalmente no
contexto do aumento da (bastante positiva) interdependência
efetuada pelas redes de grupos de ação autônomos. Uma vez que,
como o ex-ativista dos direitos dos animais colocou: "Construir
comunidades, eliminar os fossos e cicatrizar as feridas entre
nós, lidar com a nossa própria alienação e condicionamento é uma
tarefa muito difícil e nem um pouco romântica, e que não cria
heróis e mártires... Arremessar uma pedra em uma vidraça ou
construir um dispositivo incendiário é ridiculamente fácil em
comparação"(22).

O bom de todos esses desafios é que, como mencionado acima, só
depende de nós superá-los. Um grupo de pessoas já está
discutindo a idéia de lançar um espaço constituído globalmente
em forma de rede para a experimentação e compartilhamento de
conhecimentos/capacidades, de modo a promover esses tipos de
processos revolucionários. Se você quer participar desse
processo de discussão, ou tem alguma observação ou críticas para
compartilhar, por favor escreva para,
<autonomousrevolutions@gmx.net>.



Notas:

(1) Este texto é o último capítulo do livro Restructuring and
Resistance in Western Europe, Diverse Voices of Struggle
(Resresrev, 2001).

(2) Este texto não está assinado porque ele é resultado de
longas discussões entre uma diversidade de pessoas. Embora
muitas questões discutidas neste texto sejam certamente
relevantes para outros continentes também, a ênfase se focou na
Europa Ocidental já que é a região do mundo que as pessoas que
participaram das discussões conhecem relativamente bem. ‘Nós’,
dentro deste texto, portanto significa as pessoas ativamente
engajadas na resistência autônoma anticapitalista na Europa
Ocidental.

(3) Trata-se do livro Restructuring and Resistance in Western
Europe, Diverse Voices of Struggle (NT).

(4) Isso significa que os países do Sul têm que fornecer
crescentes quantidade do que produzem (matéria-prima,
principalmente) em troca do que adquirem dos países do Norte
(principalmente produtos industriais e serviços). Essa
deterioração das relações comerciais não está acontecendo
espontaneamente: ela foi violentamente iniciada pelos poderes
coloniais e mantida no período pós-guerra pelo Banco Mundial e o
Fundo Monetário Internacional, principalmente desde a década de
80, devido ao imenso poder que a crise da dívida deu a essas
instituições.

(5) Muitas regiões ‘não-competitivas’ na Europa Ocidental já
aceitam os incômodos ambientais que as regiões mais ricas não
querem e que podem ser transferidos, como por exemplo o lixo
tóxico (que já provocou um desastre ambiental no sul da
Espanha), o estrume de porco (produtores de carne do norte da
Europa pagam agricultores no sul da Europa para cuidarem de seus
porcos, devido às conseqüências da produção excessiva de porcos,
de modo a manter o lucro mas deixar os outros lidarem com a
merda), os incineradores de lixo etc. Essas ‘exportações’ se
juntam aos generalizados e cada vez piores problemas ecológicos,
da mudança climática (que se manifestará principalmente através
de uma maior instabilidade e desastres, os quais os governos
terão cada vez menos meios para aliviar) aos ainda desconhecidos
efeitos a longo prazo da engenharia genética, além de muitos
outros.

(6) As agências de avaliação de crédito calculam e avaliam os
riscos associados aos títulos da dívida pública emitidos pelos
governos de todo o mundo. Os governos emitem títulos da dívida
pública como fonte de renda: é como se o governo pegasse um
empréstimo (com juros) de mãos privadas, se comprometendo a
pagar de volta após um certo período. Para muitos países do Sul
é vital vender a dívida pública em mercados financeiros
internacionais (onde ela é negociada como uma das várias
mercadorias internacionais) para manter sua balança
macroeconômica, principalmente como uma fonte de moeda forte. Os
juros que eles têm que pagar dependem da avaliação dos riscos
feito por essas agências: quanto maiores os riscos, maiores são
os juros que eles têm que oferecer. Quatro agências de avaliação
de crédito (é claro, todas são privadas, três sediadas em Nova
York e uma em Londres) fazem um ranking de países para os olhos
dos mercados financeiros, baseando suas decisões principalmente
na avaliação da política desses países. Elas podem portanto
fazer os países se ajoelharem diante delas e forçá-los,
indiretamente, a tomarem importantes decisões políticas, como
foi o caso quando elas rebaixaram a avaliação do Equador. A
crise provocada por essa decisão desempenhou um papel crucial na
dolarização da economia do Equador. Fato que foi severamente
contestado pelos movimentos sociais do país, que chegaram ao
ponto de ocupar o parlamento e destituir o presidente em janeiro
de 2000 para impedir a dolarização. Porém, a dolarização foi
feita pela governo seguinte. Mas isso é uma outra história...

(7) Citado do manifesto da AGP na forma que foi aprovado na
primeira conferência da AGP. Essa também é a atual versão do
manifesto no momento em que este texto foi escrito, mas ele pode
ser mudado em futuras conferências da AGP. O texto completo do
primeiro manifesto da AGP de junho de 1998 está disponível em
http://www.agp.org.

(8) Mais conhecido como Nova Zelândia (NT).

(9) Martin, Biddy (1988) Feminism, Criticism and Foucault, in I.
Diamond and L. Quinby (eds.) (1998) Feminism and Foucault:
Reflections on Resistance, Boston: Northeastern University
Press.

(10) Retirado do segundo princípio da AGP, introduzido na
segunda conferência da AGP. Veja o boletim da AGP número quatro
em www.agp.org.

(11) Do anônimo e sem data, Animal liberation - devastate to
liberate? or devastatingly liberal?.

(12) Negri, A. & Hardt, Michael (2001) Império, Record: Rio de
Janeiro.

(13) Os Estados-Nação ainda possuem uma boa reputação em outras
partes do mundo uma vez que eles efetivamente libertaram as
pessoas do jugo colonial. Porém, em grande parte da Europa
Ocidental eles nunca preencheram essa função.

(14) Biehl, Janet & Staudenmaier, Peter (1995) Ecofascism:
Lessons from the German Experience, Edinburgh: AK Press.

(15) Krebbers, Eric & Schoenmaker, Merijn (1999) De Fabel van de
illegaal quits Dutch anti-MAI campaign, Leiden: De Fabel van de
illegaal.

(16) Por essa razão, exatamente as melhores pessoas da equipe
editorial da The Ecologist deixaram a revista e formaram seu
próprio coletivo de pesquisa e editorial, chamado The
Cornerhouse.

(17) Mustafa Kemal Ataturk (1881-1938), fundador da República da
Turquia. Se tornou o líder carismático da luta de libertação
nacional turca em 1919. Foi presidente da Turquia durante quinze
anos (NT).

(18) Ecoropa, ou Grupo Europeu para Ação Ecológica, é uma ONG
(NT).

(19) Ibid.

(20) Krebbers, Eric (1998) Together with the New Right against
globalisation? Leiden: De Fabel van de illegaal.

(21) Ibid

(22) Do anônimo e sem data, "animal liberation - devastate to
liberate? or devastatingly liberal?".



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