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(pt) Quem Foi Jaime Cubero

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Date Fri, 8 Aug 2003 17:52:47 +0200 (CEST)


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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
http://ainfos.ca/ http://ainfos.ca/index24.html
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Ativo militante, jornalista, intelectual e pedagogo, Jaime dedicou sua
vida à difusão das idéias anarquistas; militou desde cedo no Centro de
Cultura Social, no bairro operário do Brás em São Paulo, fundado em 1933.
Nascido em Jundiaí, cidade operária próxima a São Paulo, descendente de
imigrantes espanhóis, perdeu o pai aos 2 anos de idade. Aos 7, vem para
SP, onde passa a morar com irmãos e avós no bairro da Móoca. Fez o curso
primário na rede oficial de ensino , mas aos 10 anos teve de abandonar os
estudos para trabalhar. Autodidata, conheceu o sr. Liberto, seu vizinho
anarquista, que lhe passa alguns livros anti-clericais e com o qual
organiza um grupo de estudos libertários. Passados alguns anos, organizam
o Centro Juvenil de Estudos Sociais. Esteve envolvido nas lutas de
resistência contra a Ditadura do Estado Novo, entre 1937-45. Em fins de
45, o grupo entra em contato como o Centro de Cultura Social, que reabria
no Brás. Passa a freqüentá-lo e é convidado a ingressar no mesmo por outro
conhecido anarquista, Edgard Leuenroth.
Logo mais, convidado a ser secretário do Centro, onde trabalha nos jornais
e no Grupo de Teatro. Em 54, deixa SP e vai trabalhar na redação do jornal
O Globo do Rio de Janeiro, onde fica até 64. Nesta cidade, encontra José
Oiticica, cuja casa passa a freqüentar e participa do jornal Ação Direta,
que aquele dirigia.
Demitido do jornal O Globo, pela ditadura militar, em 1964, por liderar
uma greve dos gráficos, volta a São Paulo. Viveu ao lado da companheira
Maria, denunciando as injustiças sociais, defendendo a liberdade, pregando
os ideais anarquistas. Teve importante contribuição nos meios acadêmicos e
estudantis, orientando inúmeras teses sobre a história das lutas sociais
no país, além da pedagogia libertária.
Ajudou a formar vários intelectuais e militantes anti-autoritários. No
CCS, organizou inúmeras atividades, ciclos de palestras ,debates e
participou de congressos nacionais e internacionais como "Outros 500.
Pensamento Libertário Internacional", na PUC/SP, 1992 e no Congresso
Internacional de Barcelona, em 1993. Recentemente, participa da elaboração
da revista Libertárias, que vem sendo publicada pela Editora Imaginário,
sob direção de Plínio Coelho e Edson Passetti.
Morre aos 71 anos de idade, no dia 21 de maio de 1998, vítima de problemas
de saúde.
Margareth Rago
A SEMENTE E A ESTRELA (adeus a Jaime Cubero )

[LIBERA...,Ano 8 -Jun/98, Rio de Janeiro, Brasil]

"No ultimo dia 20 de maio, as 6h, depois de longa e insidiosa doença,
falecia na UTI do Hospital Voluntários de São Paulo o companheiro Jaime
Cubero. Contava com 71 anos completados em 5 de abril ultimo; não deixou
filhos nem posses, mas uma farta herança política, intelectual e ética
para seus muitos herdeiros espalhados pelo Brasil.
Nascido em Jundiai de uma família de pobres imigrantes operários, e ele
mesmo sapateiro por muitos anos, ate ser conduzido ao jornalismo por
Edgard Leuenroth, teve desde cedo uma aguda, concreta e por vezes dolorosa
experiência da questão social. Assumidamente anarquista desde os 13 anos
de idade, dotado de uma inteligência rara e de bons dotes oratórios,
persuasivo, solidário e possuidor de uma rara e fina ironia que era o seu
_granun salis_. Jaime, juntamente com seu irmão Francisco, foi um dos
grandes responsáveis pela manutenção e ampliação das atividades
libertarias em São Paulo, por quase cinco décadas.
É muito difícil para mim - que o conheci recém-saído da adolescência em
1972 - Traçar um quadro objetivo de suas atividades e de seus pensamentos,
meu envolvimento pessoal com ele foi muito grande para tanto. Jaime, como
tantos anarquistas desde Bakunin, cativava mais pelo gesto, pelo ato e
pelo exemplo, do que convencia pela argumentação. Para ser totalmente
honesto, um quadro de sua personalidade deveria estar recheado de detalhes
concretos de episódios biográficos, e não de encômios descritivos, pois
para ele - como para os antigos gregos os Mistérios de Eleusis - o
Anarquismo tinha que ser primordialmente vivido e não explicado. Como nos
mistérios, o discurso era importante, mas sem a pratica poderia
degenerar-se em um galimatias, ou em mero protocolo de boas intenções
servindo mais a uma conspiração de belas-almas, que a uma Revolução Social
efetiva.
Não quero com isso dizer que seu discurso fosse trôpego ou mal costurado,
ao contrario, era um dos melhores oradores que já conheci, hábil tanto nas
conferencias que preparava formalmente e com esmero, quanto nas situações
mais polemicas em entrevistas (que são muitíssimas), debates e mesas
redondas ou na veemência militante dos discursos em manifestações,
intervenções em assembléias e congressos, discussões com autoridades ou
antagonistas, etc.. Embora o discurso fosse forte, o que cativava era a
sua atitude, era o detalhe de seu cotidiano, aparentemente banal, mas
conscientemente construido sobre os axiomas libertarios, que para ele eram
os solidos fundamentos de seus imperativos eticos.
Lembro-me que, de inicio, não compreendi corretamente esta vinculacao de
Ética, cotidiano e politica. Em meio a ditadura de Medici, circundado pela
patriotada oportunista e de mau-carater dos militares e seus áulicos de um
lado, e pelos delírios da esquerda autoritária com seu jargão falido, por
outro, não estava habituado a pensar a conexão do agir político com a
Ética, confundindo muitas vezes tal conceito com as moralidades de ocasião
com que nos brindam aos borbotões as ideologias de todos os matizes. Foi
duro aprender a lição mas esta foi uma das coisas mais importantes que
aprendi na vida: que o socialismo e indissociável de uma Ética social, que
a própria Ética, ao invés de um código arbitrário, um devaneio de poeta ou
uma simples mascara ideológica e, ao contrario, como queriam bem antes de
Lukaks um Proudhon e um Kropotkin, uma ontologia do ser social. Aprendi
que, portanto, não existem fatalismos ou determinismos na Historia, que a
luta pelo socialismo pouco tem que ver com uma obra de engenharia social
capitaneada por tecnocratas revolucionários de qualquer matiz.
Este aspecto da Ética permeava toda a atividade do Jaime, e neste ponto
refletia a influencia de um de seus grandes mestres, o pensador libertário
Mário Ferreira dos Santos. O Anarquismo como a luta concreta pela justiça
social, a inseparabilidade dos ideais e das atitudes na vida, esta
vivência do Anarquismo, são a segunda lição importante que ele nos deixou.
Não era um asceta, mas totalmente desapegado dos bens materiais, pois a
acumulação não se coaduna bem com a abolição da propriedade; deste modo,
salvo as quantias que reservava para a sua modesta manutenção e da sua
companheira, seus "luxos" de livros e alguns jantares com amigos, e um
pequeno pecúlio para a velhice, ele investiu tudo o que possuía nas
atividades do movimento, como um dia uma sua biografia ira demonstrar.
Durante os tempos duros da década de 70, a sua sapataria servia de ponto
de encontro para os militantes paulistas, brasileiros e, ate mesmo,
internacionais. Grande parte do ressurgir do interesse pelas idéias
libertarias, a partir de 1975, deveu-se a este seu desprendimento, que era
também o de sua família próxima (sua companheira, seu irmão Francisco e
sua cunhada). Não conheço muitos exemplos entre os "heróis da resistência"
tupiniquins de tal coragem simples, modesta, mas tremendamente efetiva.
Não conheço muitas pessoas que naqueles tempos soturnos arriscassem com
tanta simplicidade seu ganha-pão e bem-estar de seus familiares em prol de
um ideal político. Tal coragem manifestava-se sem os ouropéis da empáfia,
sem buscar fama ou reconhecimento -- fazia-se o que deveria ser feito e
ponto final: simples, modesta, monolítica e tal grandeza anônima de
anarquistas, que jamais se tornarão nomes de ruas ou terão estatuas em
praça publica, que me fez persistir no movimento, que me fez acreditar que
a anarquia e possível e viável, desde que as pessoas realmente se empenhem
para construi-la.
Que me seja permitido citar um pequeno episódio ocorrido durante a
"Revolução dos Cravos", em 1974; os companheiros portugueses necessitavam
desesperadamente de literatura anarquista, dado o seu vertiginoso
crescimento. Nos, por outro lado, possuíamos muito material remanescente
do Centro de Cultura Social (CCS) que lhes poderia ser útil (brochuras em
portugues de Faure, Malatesta, etc.), mas o problema era a férrea censura
dos Correios. Jaime conseguiu a informação de que algumas agencias
possuíam autonomia para "fechar" pacotes, isto e, poderiam elas mesmas
verificar e selar a correspondência que desta forma não seria aberta pela
Censura no Correio Central, a então desenvolveu o seguinte estratagema:
ele tinha muita amizade com a chefe de uma destas agencias: enchia caixas
de sapato vazias com os panfletos, recobria-os com material comum
(revistas, panfletos religiosos, etc.) e despachava-os como sendo
"intercâmbio cultural" para um endereço relativamente discreto no Porto.
As caixas de sapato, seladas na agencia nunca despertaram suspeitas e todo
o material chegou seguramente as mãos dos companheiros portugueses...
Um ultimo aspecto que gostaria de ressaltar de sua personalidade e mais
difícil de definir; alguns denominavam tolerância, outros, como o
companheiro Evaldo em seu velório, humanidade, eu prefiro simplesmente
chamar de amplitude, elasticidade mental. De fato, ele tinha uma
capacidade imensa de conviver e dialogar com a diversidade que o fazia um
arauto e um embaixador natos. Seu aspecto franzino, seus olhinhos
castanhos e míopes transmitiam a quase todos que o conheceram uma sensação
de compreensão e camaradagem, sua voz atenorada raramente se exaltava.
Sabia discutir maieuticamente, compreendendo o outro, mas jamais abrindo
mão de suas posições fundamentais, estes dons pessoais o tornavam
naturalmente persuasivo e empático -- um Kropotkin sem barbas... Deste
modo era benquisto e conseguia dialogar com todos: punks e religiosos;
operários e intelectuais. Considerava a amplidão da mente como essencial
ao anarquista, que não concebia como um ser dogmático; uma de suas
definições preferidas de Anarquismo era a de "um conjunto de postulados
gerais e convergentes, derivados de algumas ideias-forca fundamentais como
a liberdade, a responsabilidade e o anti-autoritarismo". Consequentemente,
sujeitava as deduções destes axiomas básicos a uma continua e constante
revisão. Já em 1969, por exemplo, era um leitor atento de Georges
Friedmann, que previa em seus livros o esfacelamento do trabalho humano
devido a automação e, consequentemente, inquietava-se com o futuro do
anarco-sindicalismo, que, ao seu ver, necessitava levar em conta as
transformações concretas do mundo do trabalho.
Esta sua amplidão de espirito reflete-se, talvez melhor que em qualquer
outra parte, em sua biblioteca pessoal, rica em quase 3.000 volumes
distribuídos por quase todas as áreas de conhecimento; em seus últimos
dias, por exemplo, dedicava-se a reler Herodoto, alternado-o com Joyce...
Quando fui admitido pela primeira vez em sua casa, espantei-me ao ver
organizados, em lugar de destaque, obras de Nietzche e vinte volumes de
uma coleção sobre o liberalismo americano, com textos de Jefferson,
Franklin, Stuart Mill, entre outros, recebendo dele a explicação, chocante
para mim na época, de que era preciso conhecer bem uma corrente de
pensamento que tinha influenciado uma Revolução que tinha formado a
mentalidade de uma parcela ponderável da população do planeta, e
imediatamente argumentou que Rudolf Rocker também tinha dedicado um livro
importante ao pensamento liberal nos EUA. O papel reacionário do estado
americano deveria ser contestado, mas as idéias políticas não poderiam ser
censuradas, mas sim debatidas...
Outro exemplo interessante e o volume de obras sobre religião que ela
abriga (120 volumes); ateu convicto e anticlerical militante, nem por isso
desdenhava a importância da religião na historia da humanidade;
preocupava-se principalmente com a fuga para o misticismo característica
das épocas de crise e, ao estudar o fenômeno religioso, pretendia elucidar
tais mecanismos e, deste modo, vemos ao lado de Bakunin e Fourier,
bíblias, tratados islâmicos e livros espiritas. Ao lado de clássicos do
Anarquismo, vemos Lenin, Stalin, Plinio Salgado, alem de obras de
Historia, Sociologia, Antropologia e Psicanálise, isto sem mencionar as
centenas de volumes de literatura desde clássicos como Dostoievski, Hugo,
Balzac ou Tolstoi ate os autores mais modernos.
O conhecimento para ele tinha uma função revolucionaria, não se tratava de
esgrimir argumentos em justas acadêmicas, mas sim de utilizar as
informações disponíveis para resolver problemas concretos, para avançar a
luta social.
Mesmo sem o saber, o mundo fica mais pobre sem o Jaime, com tanto
desgraçado para morrer e a natureza nos prega essa peca... Mas vai
companheiro, vai para longe pois assim talvez te transformes na estrela
incorruptível no céu de nossos corações, vai que te dedicaremos uma arvore
para que a semente de teu trabalho não demore a dar os ansiados frutos.
Adeus Jaime Cubero."
PELA ANARQUIA ATÉ A ALFORRIA FINAL!

Jose Carlos Orsi Morel

"A liberdade de um ser humano não e limitada pela liberdade alheia. A
liberdade não tem limites, não e' algo que se limita. Um ato de liberdade
não deve ser confundido com um ato livre. Nem a liberdade de exercicios
deve ser confundido com a liberdade de juizo, a liberdade de arbitrio, a
liberdade de escolha. O que comumente se chama livre arbitrio. Esta não
tem limites na de outrem, mas a de exercicio sim, pois esta ate' os
animais tem. Não e' essa porem que constitue o ato humano, mas a segunda.
Um animal pode estar solto de peias, como o passaro da gaiola humana. O
escravo livre de algemas ainda não conhece ainda não conhece a liberdade
de que falamos. A liberdade de exercicio ate' os opressores dao. Todos tem
a liberdade de andar, comer, trabalhar e apoiar os dominadores e fazer
tudo o que não os ponha em risco. Essa liberdade e' limitada pelos
interesses sagrados do Estado (que e' a posse dos dominadores, detentores
do Kratos social) e por todos os limites que lhe são naturais. Deveriamos
chamar liberdade a que constitui verdadeiramente o ato humano. Esta não se
limita na de ninguem, e' ilimitada, porque sua acao e' Ética e não promove
restricoes a quem quer que seja. Essa liberdade e' inimiga dos poderosos.
E eles sabem disso, por isso a negam. O caminho da liberdade e' o da
pratica da própria liberdade. E' com a pratica da liberdade que formamos
homens livres. Liberdade não e' a ausencia de restricoes: e'
responsabilidade, opcao e livre aceitacao de obrigacoes sociais"
Jaime Cubero

As palavras de Cubero foram registradas no Seminario sobre Educação
Libertária, organizado pelo NET/Movimento, realizado em Florianópolis,
Santa Catarina. Publicado em: "Educação Libertaria: Textos de um Seminário
; Raquel Stela de Sá Siebert...[et al.]. Rio de Janeiro, Achiame/Movimento
- 1996Jaime Cubero foi Jornalista, Autodidata, Secretario Geral do CCS - Centro
de Cultura Social - SPFalecido em 20/05/98, em São Paulo

de http://www.nodo50.org/insurgentes/cubero.htm



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