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(pt) Robert Kurz: A MÃE DE TODAS AS BATALHAS

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Date Sun, 13 Apr 2003 17:08:33 +0200 (CEST)


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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
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Ensombrados pelos acontecimentos da guerra, os complexos das causas
rapidamente se perdem de vista. Nas sociedades modernas, a economia
capitalista é a mãe de todas as coisas e, nessa mesma medida, também é a
verdadeira mãe de todas as batalhas. As motivações pessoais e os motivos
ideológicos não podem ser explicados sem se ter em mente a objectividade
do desenvolvimento do capitalismo mundial. A guerra do Iraque distingue-se
das guerras de ordenamento mundial dos anos 90 sobretudo pelo facto de já
não ocorrer sob o signo da grande prosperidade aparente das bolhas
financeiras. A baixa das bolsas não só aniquilou um capital monetário de
proporções astronómicas, despoletando assim um abrandamento conjuntural à
escala planetária, como igualmente, em consequência disso, provocou uma
profunda crise dos sistemas bancários e dos seguros.
O derretimento dos valores contabilísticos das carteiras de acções abre
crateras gigantescas nos balanços e nos capitais próprios, ao passo que a
enxurrada de falências deixa atrás de si um rasto de crédito malparado de
dimensões semelhantes às que já se verificaram no Japão e no Sudeste
asiático, mas desta feita também no seio da UE e nos EUA. Ao mesmo tempo o
fluxo de impostos, taxas e prémios de seguros ameaça secar ainda mais. Os
sistemas de segurança social vacilam tanto como a arquitectura das
finanças comerciais. Já em Fevereiro ocorreu um "encontro secreto" do
chanceler federal alemão, Gerhard Schröder, com representantes das
direcções dos bancos, onde foi proposta, seguindo o exemplo japonês, a
fundação de uma sociedade estatal de acolhimento do crédito malparado
("Bad Bank") a fim de se evitar um agravamento dramático da crise dos
bancos na RFA. E como a crise alimenta a crise, a segunda e principal
repercussão sobre a economia real já não vem longe. Nessa altura,
possivelmente o abrandamento conjuntural planetário não dará lugar à
próxima retoma, mas a uma grande depressão mundial.
A esta problemática geral sobrepõe-se o cenário de crise específico da
última potência mundial, ou seja, dos EUA, que há muito tempo tem vindo a
ganhar forma e momento e que, de resto, é do conhecimento geral. O
aparelho militar de alta tecnologia, sem qualquer concorrência no mundo,
não só não consegue pacificar a barbárie e a violência nas regiões globais
em derrocada como, ele próprio, tem pés de barro em termos económicos. O
endividamento interno e externo dos EUA, sem qualquer precedente
histórico, há muito que ultrapassou tudo o que pudesse passar por
razoável. Apenas o constante afluxo de capital monetário mantém viva uma
economia aparente que, em contrapartida, devora a riqueza deste mundo por
intermédio de um excedente das importações igualmente sem precedentes. Já
se disse muitas vezes: Por esta altura, é este o balão de oxigénio que
resta à conjuntura mundial. Por enquanto a bolha financeira dos EUA ainda
não encolheu tanto como a asiática e a europeia, mas o colapso perfila-se
no horizonte.
Perante este pano de fundo pode ser explicada uma política de emergência
global que emana do centro, ou seja, dos EUA, e em cujo seio se articulam
momentos aparentemente desconexos. Desse lote também faz parte a guerra no
Iraque que tudo leva a crer não passar de um pontapé de saída. O emprego
indiscriminado do aparelho de violência de alta tecnologia é suposto
reafirmar a pretensão de controlo à escala global e forçar um afluxo
continuado de capital monetário. Na medida em que o petróleo desempenha um
papel de relevo, trata-se menos de um esforço para assegurar as
respectivas reservas, o que também seria possível sem o recurso a uma
guerra, do que da "opção", destinada a estabilizar os mercados
financeiros, por uma redução drástica do seu preço, o que poderá levar à
ruína tanto dos países da OPEP como da Rússia. Simultaneamente esta
"solução" da crise deverá ser flanqueada por uma globalização ainda maior
do capital sob a égide dos EUA, imposta com todo o rigor, e pela
destruição consciente de todos os sistemas de segurança social e ecológica
em todo o mundo que a ela se encontra associado. Se for necessário que
alguns dos grandes bancos ocidentais se desmoronem, com consequências a
condizer no seio da economia real, tal deve acontecer fora dos EUA. Uma
política de crise deste modo brutalizada implica necessariamente também a
destruição do sistema de legitimação existente até à data (ONU, direito
internacional).
O desentendimento de Chirac, Schröder e Putin com a administração dos EUA
não se enquadra minimamente num esquema tradicional de concorrência
nacional e imperial por mão-de-obra (isso então nem um bocadinho!),
mercados, matérias-primas e "esferas de influência". Antes, o que está em
causa é o "como" do regime global de crise. O acordo é geral quanto à
liquidação de todos e quaisquer direitos sociais. No entanto, e
contrariamente à política dos EUA, uma parte dos governos da UE tanto tem
escrúpulos perante a eventualidade do estabelecimento de uma ditadura
militar directa dos EUA no próximo Oriente e nas regiões globais em
derrocada, como face à ruína intencional da OPEP e, sobretudo, da Rússia.
Além disso, e a fim de, perante resistências institucionais, mais
facilmente poderem levar a cabo a liquidação dos sistemas sociais, eles
querem também salvar resquícios do sistema de legitimação, tanto dos
estados nacionais como a nível internacional, e da coerência em termos de
economia política (veja-se o exemplo da "Bad Bank").
Ao mesmo tempo, porém, sabem exactamente que, em todos os aspectos,
dependem para a sua sobrevivência dos EUA que, por intermédio do seu
endividamento extremo absorvem os fluxos tanto do capital monetário como
das mercadorias, mantendo assim a aparência de processos de valorização
bem sucedidos. Um colapso da economia dos EUA e um maior enfraquecimento
do dólar, longe de fortalecer o poder da UE, arrastava-a atrás de si por
intermédio do colapso das estruturas de exportação; acresce que os
europeus, por algumas décadas, seriam incapazes de estabelecer um controlo
militar independente dos processos de crise globais. É por isso que a
parte menos escrupulosa e mais reaccionária dos "global players"
[jogadores globais], do capital financeiro e da classe política aposta em
pleno nos "falcões" da administração Bush. Um capitalismo transnacional de
crise e minoria deve exercer, com o punho blindado do aparelho militar
nacional da última potência mundial, o seu regime do terror global que vai
dando lugar à irracionalidade pura e simples.
Isto não significa outra coisa senão a eclosão da contradição irremediável
entre a globalização da economia capitalista e a constituição
essencialmente vinculada ao quadro do estado nacional da política
capitalista. O "eixo" Paris-Berlim-Moscovo, já de si quebradiço, não
constitui uma alternativa real nem em termos externos, nem em termos
internos. Qualquer política que já até à data tem conseguido uma mera
limitação de prejuízos dentro dos limites imutáveis da ordem mundial
vigente ao preço de uma crescente exclusão e repressão social encontra-se
votada ao fracasso. Enquanto as pessoas não se emanciparem, no seio de
movimentos sociais absolutamente independentes, da sua domesticação
capitalista, continuarão a não ser mais que massas manipuláveis de
diversas variantes do regime global de crise.
Original alemão Die Mutter aller Schlachten, in Neues Deutschland, Berlin,
4 de Abril 2003
Disponível em www.krisis.org

http://www.giga.or.at/others/krisis/r-kurz_mutter-aller-schlachten-nd-kol74.html
Tradução de Lumir Nahodil

http://planeta.clix.pt/obeco/





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