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(pt) Historiador Anarquista Lança Livro

From "Emilia Cerqueira" <emiliacerqueira@hotmail.com>
Date Wed, 9 Apr 2003 22:52:28 +0200 (CEST)


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ArTesão
Porque na natureza o tesão é o quinto elemento.
Veiculo jornalistico de expressão cultural libertária
Editor responsavel: Reginaldo Soares Fernandes
Resenha enviada pelo próprio autor ao ArTesão em momento de sua
publicação no Jornal do Brasil.

De volta à Clevelândia

Pesquisa recupera história do núcleo para onde eram deportados os
anarquistas nos anos 20
Daniel Aarão Reis Filho
Professor de História Contemporânea da UFF

CLEVELÂNDIA: ANARQUISMO, SINDICALISMO E REPRESSÃO POLÍTICA NO BRASIL
Alexandre Samis

Imaginário/Achiamé, 344 páginas

Em 1955, morria Artur Bernardes, político e deputado federal por
Minas Gerais. Ex-presidente do Brasil, entre 1922 e 1926, opositor do
processo civil-militar de 1930 e dos sucessivos governos comandados por
Vargas até 1945, participante do movimento constitucionalista de 1932,
derrotado, conheceu o exílio, do qual retornaria após a queda do ditador.
Reemergiu pouco a pouco para se tornar um líder destacado das lutas
nacionalistas que então mobilizavam o país. Morreu cercado de carinho e
de respeito. A família reunida. Incorporados os amigos e
correligionários. O respeito até mesmo dos adversários. Venerado, exemplo
de dignidade e honestidade. Um ilustre filho das Minas Gerais.

Quem teria, então, o mau gosto de se lembrar que aquele verdadeiro
varão de Plutarco, um gigante da nacionalidade, tinha governado o país
com mão de ferro, sob permanente estado de sítio, quatro anos de
arbitrariedades sem fim? Quem recordaria o estado de exceção, a
implacável censura, as prisões injustas, os espancamentos, as torturas,
as deportações sem processo?

Pois houve energúmenos para tanto. E entre as numerosas coroas que
celebravam os feitos e os méritos do falecido, adossaram uma outra,
destoante, que dizia: ''Os sobreviventes da Clevelândia pedem perdão por
terem se insurgido contra um governo tão honesto e um presidente tão
digno.''

Clevelândia...

Das brumas do tempo e do esquecimento ressurgia aquele maldito nome.
Quem poderia ainda recordar?
Os fantasmas de Clevelândia... Não haviam já desaparecido? E a
própria lembrança deles não se desvanecera de todo no tempo? Voltavam
agora a incomodar uma cerimônia fúnebre tão digna e bela?
A memória, aguilhoada, saberia recuperar histórias e trajetórias
esquecidas?
Alexandre Samis, profissional da História, tenta reconstituir e
recompor os fragmentos de um passado incômodo.
Nas origens, no início dos anos 20, a Clevelândia fora pensada como
um núcleo colonial, na perspectiva da ocupação do território, ao Norte do
atual Estado do Amapá, então integrado do ponto de vista
político-administrativo ao Estado do Pará, fronteira com a Guiana
Francesa. Foi inaugurada oficialmente em 5 de maio de 1922. O nome, uma
homenagem ao presidente do Estados Unidos, Grover Cleveland.
Em meados de 1924, debelada a insurreição de julho do mesmo ano em
São Paulo, amontoavam-se sob custódia do governo federal centenas e
centenas de presos, em enxovias, em navios, em ilhas próximas do litoral
do Rio de Janeiro: cárceres provisórios. A maioria era constituída por
pessoas envolvidas nos processos de revolta contra a Ordem constituída, e
provindas da base da sociedade: soldados, marinheiros, trabalhadores. O
que fazer desta gente intratável, sem eira nem beira, ''sem lenço, nem
documento'', como diria um poeta muitos anos mais tarde?
Deportá-las para bem longe, no espaço, imaginaram os representantes
do governo, numa tradição que vinha também de longe, no tempo. Os poucos
estrangeiros, para seus países de origem. Os brasileiros, para um lugar
bem distante, para os confins da Amazônia, de onde, de preferência, nunca
mais voltariam... para Clevelândia.
Foram em levas sucessivas entre fins de 1924 e meados de 1925. Cerca
de mil pessoas, sem defesa, sem processo, todas ''perigosas pelos seus
péssimos antecedentes''. Em Clevelândia, padeceriam por quase dois anos:
alimentação deficiente, castigos físicos, trabalho compulsório.
Alcançados por uma epidemia de disenteria bacilar, mais da metade deles
foi dizimada.
Em 1927, dos que restaram, diria um insuspeito funcionário superior
do próprio governo: ''Tristes, acabrunhados... pensativos e vagarosos...
andam tal qual os condenados à morte, que seguem para o patíbulo
retardando os passos... derreados, raquíticos, tristonhos... sem afetos,
sem crenças, sem esperanças e exaustos de tanta desgraça e abatidos pelo
longo sofrimento... e dizem que a esperança para eles é tal qual a luz
que vai desaparecendo ao longe numa grande e calada treva.''
Uma história abominável de pessoas trucidadas por um poder insensível
e arbitrário. Mas também uma história de coragem e resistência, traduzida
na saga dos que se evadiram (262 fugas registradas, quase 28% dos
presos), dos que faziam chegar denúncias, publicadas às vezes em outros
países, driblando a censura, dos obstinados que teimavam em se organizar,
como o núcleo de anarquistas, comemorando o 1º de maio, organizando
cursos e palestras, ensinando e aprendendo o esperanto, e cantando seus
hinos libertários no cenário da densa mata e dos imensos rios.
Numa paciente garimpagem de relatórios oficiais, discursos
parlamentares, imprensa de época, correspondências, prontuários
policiais, Alexandre Samis vai montando o quebra-cabeças do campo de
concentração de Clevelândia, inserindo-o no contexto mais amplo das
políticas repressivas da Primeira República contra aqueles que não
aceitavam a ordem constituída, sobretudo quando não eram pessoas de bem e
de bens.
Emergem então, ainda um tanto difusamente, mas já com lugar
assegurado na História, cidadãos que, certamente, não ganharam coroas de
flores quando morreram. Ainda não têm uma biografia que confira
singularidade e dignidade a seus sofrimentos, mas suas vidas, agora
recordadas no início do século 21, atestam tão bem a república que este
país soube construir (ainda atual?) quanto o enterro do ilustre Bernardes
em 1955.
22/MAR/2003




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