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(pt) [Portugal, "A BATALHA", n. 194] A casa anarquista

From Manuel Baptista <NetBapmanuel@netscape.net>
Date Tue, 24 Sep 2002 04:54:21 -0400 (EDT)


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A casa anarquista*

Devo principiar pelos problemas de definição. Não temos problemas com a 
palavra casa. Temos poucos problemas com a palavra lar, que adiciona à 
primeira palavra um significado emocional. Temos uma casa e 
convertêmo-la num lar.

As dificuldades surgem com a palavra anarquista. Perguntaram ao herói do 
romance Pnin, de Vladimir Nabokov: "É anarquista?" e ele, 
imprudentemente, respondeu ao seu interrogador com outra pergunta: "Em 
primeiro lugar, o que entende por anarquismo? O anarquismo prático, 
metafísico, teórico, místico, abstracto, individual, social?" Não 
resultou. Passou duas semanas em Ellis Island antes de ser autorizado a 
entrar nos EUA. Tenho um problema semelhante. Procuro estar aberto a 
todas as definições possíveis de anarquismo, mas tenho de excluir muitas 
interpretações para dizer qualquer coisa útil.

O primeiro lastro que é preciso lançar borda fora é a ideia de que há 
uma estética anarquista, oposta à estética burguesa. Há um século que em 
todas as artes, visuais, literárias ou auditivas, se considera que a 
tarefa dos artistas revolucionários é escandalizar o burguês. Após ter 
sido escandalizado durante décadas, ao longo das quais a vida real se 
mostrou muito mais chocante do que as artes, a burguesia continua a ser 
a clientela mais segura de toda esta arte revolucionária. À parte, é 
claro, o Estado.

Nas artes visuais, por exemplo, os aliados mais evidentes dos 
anarquistas foram os surrealistas, mas, com notáveis excepções, foi com 
o partido comunista que procuraram estabelecer relações políticas mais 
íntimas. Na Grã Bretanha, o artista mais admirado com ligações ao 
movimento anarquista foi um pintor académico de hábitos boémios, cuja 
reputação se não estendeu além fronteiras. Augustus John (1878-1961) é 
recordado, não como anarquista, mas como o último dos grandes 
desenhadores clássicos. E o mais famoso dos artistas anarquistas, 
Camille Pissarro (1831-1903), embora intimamente ligado ao movimento 
anarquista do seu tempo, sempre se recusou a especificar o conteúdo duma 
estética anarquista. As suas cartas ignoram a sintaxe e a gramática e 
são documentos humanos cativantes. Onde mais se aproxima duma definição 
de estética anarquista é no terceiro volume da sua correspondência 
completa, onde diz: "Haverá uma arte anarquista? Decididamente não se 
compreende qual seja. Todas as artes são anarquistas quando são boas e 
belas!"1

Quando se considera o lado artístico da arquitectura a hipótese de uma 
estética especificamente anarquista torna-se ainda mais discutível. 
Muitos de nós ainda recordamos uma curiosidade de recinto de feira ou 
parque de atracções denominada 'Casa Estapafúrdia'. Gastávamos os nossos 
tostões para experimentar uma casa fictícia onde sobrados e tetos não 
eram paralelos e onde as portas e janelas não eram rectilíneas.

Mais recentemente este género de Casa Estapafúrdia foi construído, 
efectivamente, na vida real. Por exemplo, nos anos 70, em Montreal, no 
Canadá, Moshe Safdie concebeu para a Feira Mundial os apartamentos 
Habitat onde cada um deles parecia caído ao acaso como os contentores de 
uma pilha. Evidentemente, na prática, todos os pormenores desta 
disposição acidental haviam sido cuidadosamente calculados por 
engenheiros civis. Do mesmo modo, na área do Velho Porto (Oude Haven) de 
Roterdão, pode visitar-se um grupo de casas inclinadas, desenhadas pelo 
arquitecto Piet Blom, que recordam fortemente a estrutura da Casa 
Estapafúrdia na feira das diversões.

Se vos imaginardes como operário da construção civil, vivendo 
apertadamente num andar e trabalhando na construção duma destas 
fantasias arquitectónicas, rapidamente reconhecereis que esta 
arquitectura fantasista não é uma arquitectura anarquista. Não 
proporciona qualquer libertação às pessoas implicadas na sua construção 
e as pessoas que nela vivem cansar-se-ão rapidamente desta desobediência 
brincalhona aos padrões estéticos comuns. Não se trata tanto duma 
questão de concepção arquitectónica como de uma questão de controlo, 
característica muito mais relevante no leque das opções anarquistas.
Para mim, o primeiro princípio da habitação em qualquer sociedade, 
independentemente do ideal societário anarquista, é o controlo pelos 
moradores. Por felicidade nossa este princípio foi cuidadosamente 
enunciado por um arquitecto anarquista - John Turner. Ele passou muitos 
anos, ao longo das décadas de 1950 e 1960, auxiliando as actividades de 
auto-construção das colectividades de squatters da América Latina. 
Quando se mudou para os Estados Unidos compreendeu que as ideias que 
havia elaborado no terceiro mundo eram igualmente verdadeiras para a 
nação mais rica do mundo. E quando finalmente regressou à Grã-Bretanha 
verificou que o problema do alojamento no seu próprio país se ajustava 
igualmente às ideias que formulara.2

O postulado chave de Turner é o seguinte: "Quando os moradores controlam 
as principais decisões e são livres de dar as suas contribuições para o 
projecto, construção ou administração da sua casa, tanto o processo como 
o ambiente daí resultante incentivam o bem estar individual e social. 

Pelo contrário, quando as pessoas não controlam, nem são responsáveis 
pelas decisões fundamentais no processo habitacional, o ambiente assim 
criado pode tornar-se um obstáculo à realização pessoal e um peso para a 
economia."3

É uma afirmação cuidadosamente formulada, que não diz nem mais nem 
menos do que significa. Note-se que Turner se refere a "projecto, construção 
ou gestão". Não implica que nos tornemos bricoleurs ou construtores de 
casas faça você mesmo, embora seja isso que, na prática, as pessoas 
tenham muitas vezes de ser. Ele afirma como princípio, que devem 
controlar o processo.

Gostaria que prestassem particular atenção à última frase acerca do 
ambiente habitacional, que se torna "um obstáculo à realização pessoal e 
um peso para a economia". Não é esta a experiência dos enormes e 
dispendiosos projectos habitacionais empreendidos pelas administrações 
centrais e locais, tanto nos Estados Unidos como em toda a Europa 
Ocidental? A única solução para os problemas suscitados por estes 
projectos é desenvolver sistemas de controlo pelos moradores através de 
diversos tipos de cooperativas de habitação. Por vezes, nesses vastos 
projectos habitacionais da periferia das cidades europeias e americanas, 
como legado do socialismo burocrático e administrativo, o controlo pelos 
residentes só é adoptado como última e desesperada medida face ao 
abandono e à ruína. Há em Bruxelas um arquitecto bem conhecido, Lucien 
Kroll, do Departamento de Urbanismo e Arquitectura. É muitas vezes 
solicitado pela França, Alemanha e Holanda para dar parecer quando se 
procura reabilitar e tornar habitáveis grandes urbanizações municipais 
negligenciadas.

Os resultados são muitas vezes descritos como arquitectura anarquista. 
Lucien Kroll, por seu lado, insiste em considerá-la arquitectura 
controlada pelos residentes. Disse-me que a primeira tarefa, e não a 
última, é apresentar aos residentes um orçamento para eles poderem 
decidir as prioridades dos gastos. Preferem despender dinheiro a isolar 
as caves ou preferem aumentar a visibilidade pública do edifício ao 
ponto de dissuadir a infiltração dos traficantes de droga?

Uma das prioridades gerais é reduzir o tamanho dos imóveis, suprimindo 
alguns dos andares superiores, e construir mais ao nível do solo, nos 
espaços entre blocos. Outra é a opção de "reduzir o trânsito". Não será 
sensato utilizar os escombros resultantes da demolição dos andares 
superiores para construir numa rotunda uma pequena colina com árvores e 
arbustos, criando má visibilidade e uma situação de risco que afastará o 
tráfico? E porque não cavar o relvado municipal para criar campos de 
jogos e hortas, e construir um complexo de lojas e cafés como extensão 
coberta na base das torres? Os resultados podem não ser uma arquitectura 
anarquista mas são certamente uma arquitectura pós-autoritária.

Embora a Grã Bretanha seja considerada o país de origem do movimento 
cooperativo, as suas cooperativas de habitação são bastante mais 
recentes do que em muitos outros países. Nos anos 70 só havia duas ou 
três. Hoje há cerca de mil. Número ridiculamente pequeno, que indica 
quão longe estamos de separar o controlo da propriedade, já que a 
modalidade preferida é a da ocupação pelo proprietário (66%). No entanto 
a sua constituição é interessante. Algumas cooperativas começaram por 
legitimar a ocupação de prédios vagos por squatters. Outras tiveram 
origem na "residência a curto prazo" (em edifícios destinados à 
demolição). Quando os residentes controlavam estes edifícios, a curta 
vida que se lhes prognosticara tornou-se mais longa, muito simplesmente 
porque os ocupantes tinham boas razões para os melhorar. Em Liverpool e 
Londres, há casas recém construídas, onde o arquitecto trabalhou segundo 
as directivas de pessoas pobres que, pela primeira vez nas suas vidas, 
puderam recorrer aos serviços dum perito.4

Mas mais interessante é o que se passa no sector construído pelos 
moradores. Através da história e em todo o mundo, sempre as pessoas 
pobres construíram as suas próprias habitações, que eram melhoradas e 
ampliadas ao longo de décadas e/ou séculos, à medida que as famílias 
convertiam trabalho em capital. As casas tradicionais de camponeses que 
se encontram na maior parte dos países europeus é disso a prova. No 
século XX esta maneira simples e natural de construir tornou-se 
progressivamente mais difícil por diversas razões.

A primeira é a questão crucial do acesso aos terrenos. Na Grã Bretanha o 
processo conhecido como "encerramento" atribuiu títulos de propriedade a 
terras que eram outrora comunais ou baldios. A segunda está na natureza 
dos materiais de construção. Dantes o auto-construtor utilizava 
automaticamente pedra, barro, madeira e palha locais, de tal modo que a 
casa, como disse um poeta inglês, "se levantará dos regos da charrua 
como uma cotovia". As casas do século XX são construídas com materiais 
que, sejam naturais ou sintéticos, têm de ser comprados no mercado. A 
terceira razão é, evidentemente, porque cercámos o processo de 
construção por uma pilha de legislação e regulamentos que, sem auxílio 
profissional, é incompreensível para o cidadão.

Um arquitecto inglês de origem alemã, Walter Segal (1907-1935), superou 
estes obstáculos. Por acaso foi criado numa comuna anarquista do Ticcino 
na Suiça.5 Já em fase tardia da sua vida elaborou um método de 
construção baseado num esqueleto leve de madeira, utilizando elementos 
de construção padronizados das dimensões usuais e com eliminação dos 
processos "húmidos" do cimento, assentamento de tijolos, reboco e 
estuque. Método particularmente adequado para amadores. Ele desejava 
vivamente que fosse disponibilizado a pessoas em busca de alojamento, e 
um município de Londres proporcionou-lhe essa oportunidade em talhões 
demasiado pequenos ou inclinados para serem utilizados pelo próprio 
município.6

O resultado foi excelente em termos de satisfação para os residentes. 
Membros do grupo descreveram a experiência como o acontecimento que 
mudou as suas vidas, dando-lhes o sentimento de controlarem a situação. 
E foi também o acontecimento mais feliz na vida daquele veterano 
arquitecto. Segal recordou que: "A ajuda era prestada mútua e 
voluntariamente - sem coacções de qualquer espécie, o que significava 
dar livre curso à boa vontade das pessoas. Quanto menos se tentasse 
controlá-las mais se intensificava o elemento de boa vontade - isto era 
extraordinariamente claro. Era não só permitido, como esperado, que as 
crianças brincassem no local. E as mais velhas podiam também ajudar, 
caso desejassem. Deste modo todo e qualquer tipo de atrito. Cada família 
construía ao seu próprio ritmo e conforme as suas próprias capacidades. 
Tivemos bastantes jovens, mas igualmente pessoas de sessenta e mais 
anos, que conseguiram construir as suas próprias casas... Disseram-lhes 
que eu não interferiria nos seus arranjos interiores. Deixei-as tomar as 
suas próprias decisões; por conseguinte não encontrámos dificuldades."7
Notou com prazer, e não com irritação, as "pequenas mas incontáveis 
variações, inovações e acrescentos" que os construtores amadores haviam 
introduzido. Concluiu que "era admirável a riqueza de talento existente 
nos habitantes deste país". Desde a morte deste arquitecto a Associação 
de Auto-Construção Walter Segal tem promovido com êxito esta abordagem 
com uma larga série de grupos de fracos recursos económicos no gélido 
clima político dos anos 90.8 É sempre necessário mais tempo para superar 
as dificuldades suscitadas pela legislação ao financiamento, autorização 
e planeamento, do que o necessário aos construtores amadores para a 
edificação dos seus lares.

Descrevi a casa anarquista em termos de experiências concretas, com 
cidadãos normais no mundo actual. Mas tendo em conta a variedade de 
definições da palavra anarquismo, explorarei alguns outros aspectos. 
Alguns de nós tentam passar da teoria anarquista à prática em problemas 
da vida quotidiana como o da habitação. Entre os teóricos mais 
conhecidos, Kropotkin é particularmente interessante. O seu capítulo 
sobre a habitação no seu livro A Conquista do Pão (1892), é 
essencialmente um manual sobre o que deveria acontecer numa sociedade 
revolucionária: partilha equitativa, segundo as necessidades, das 
habitações existentes.

Vivemos, pela maior parte, em situações não revolucionárias sem por isso 
deixarmos de necessitar de alojamento para as nossas famílias e de 
encontrar saídas a curto prazo na sociedade em que vivemos qualquer que 
ela seja. Nesta área outro anarquista clássico é, creio, um guia melhor. 
Trata-se evidentemente de Proudhon, que, num livro famoso mas ilegível, 
O que é a Propriedade? (1840) inventou o slogan "A propriedade é o roubo".
Sou como toda a gente. Alegrei-me naquele dia de Setembro de 1979 quando 
os squatters da antiga residência real no 144 de Picadilly, em Londres, 
suspenderam uma bandeira em que o slogan de Proudhon estava escrito em 
letras de um metro de altura. Ironicamente, como notaram alguns críticos 
de Proudhon, foi também ele quem cunhou o slogan "A propriedade é a 
liberdade".

Não devia ser necessário explicar que o primeiro slogan se dirigia ao 
proprietário de terras absentista, definido por George Woodcock como "o 
homem que a usa para explorar o trabalho alheio sem esforço da sua 
parte, propriedade caracterizada pelo lucro e pela renda, pelas 
imposições do não produtor sobre aquele que produz". O outro tipo de 
propriedade, explica ele, era o do proprietário residente ou do camponês 
cultivador; e a "posse", ou direito ao controlo da habitação, da terra e 
dos instrumentos necessários à vida eram vistos por Proudhon como "a 
pedra de toque da liberdade", ao mesmo tempo que "a sua principal 
crítica aos comunistas era a de que eles a desejavam destruir".9

Os setenta anos de história da União das Repúblicas Socialistas 
Soviéticas e a vida mais curta dos regimes que ela impôs na Europa 
Oriental fornecem uma base para examinar, à luz da experiência as 
opiniões de Kropotkin e de Proudhon. Havia de certo partilha das 
habitações existentes de acordo com as necessidades. A maior parte dos 
observadores notou, porém, que as necessidades de hierarquia do Partido 
eram mais urgentes que as dos cidadãos comuns, bem como a sua 
necessidade de datchas (vivendas) no campo. A colectivização da 
agricultura imposta por Estalin liquidou literalmente o campesinato, 
provocando a fome e milhões de mortos. Entretanto, política de habitação 
adoptada nas cidades era uma versão extrema da dos planeadores dos 
blocos de torres, já experimentada no Ocidente.

Lenta e subversivamente as atitudes populares proudhonianas começaram a 
reafirmar-se. Como Proudhon profetizara, os lotes individuais dos 
camponeses em torno das suas casas foram a salvação do abastecimento 
alimentar do russo comum muitos anos antes da perestroika: "Em 1963, os 
lotes privados constituiam 44.000 quilómetros quadrados, ou seja, 4 por 
cento de toda a terra arável das herdades colectivas. Desta terra 
"privada", contudo, provieram cerca de metade de todos os vegetais 
produzidos na URSS, e nela se encontram 40 por cento das vacas e 30 por 
cento dos porcos do país".10

Do mesmo modo, na década de 1970, o economista Hugh Stretton relatava: 
"É patético ver como os habitantes russos das cidades saiem e passam a 
pente fino os campos circundantes com vista a encontrar pedaços de terra 
abandonados onde possam plantar, divertir-se, passear, enfim 'torná-lo 
seu', ainda que a título precário"11

Evidentemente, os dirigentes marxistas tinham as suas datchas, mas 
através da Checoslováquia, da Hungria, da Roménia e da Jugoslávia os 
habitantes das cidades construiam a sua verdadeira vida em torno das 
denominadas "instalações selvagens" fora da cidade. Assim, em 1979, um 
geógrafo explicava que: "A existência de terras pertencentes a 
camponeses na periferia das cidades oferece oportunidades para uma 
evolução gradual - na realidade a proliferação de "instalações 
selvagens" que surgem da noite para o dia como cogumelos, como em Nowy 
Dwòr e noutras localidades fora de Varsóvia, ou em Kozarski Bok e Trnje 
à periferia de Zagreb. Tais comunidades não são encorajadas, mas são 
toleradas e até providas de serviços públicos e sociais uma vez que 
diminuem a pressão sobre a habitação e os orçamentos da urbe".12 
Observações como esta, dos tempos em que ainda se julgava que os regimes 
comunistas da Europa de Leste tinham futuro, são uma advertência aos 
revolucionários das diversas escolas sobre a importância da cuidadosa 
distinção de Proudhon entre propriedade como exploração e propriedade 
como posse.

O comunismo, imposto pelo terror, despertou uma inevitável reacção 
individualista e denegriu todo e qualquer tipo de aspiração socialista. 
Mas houve sempre uma proposta mais tranquila, mais pacífica e libertária 
em prol da vida comunitária. Tal como outros ideólogos, laicos e 
religiosos, muitos anarquistas têm questionado a família nuclear e a 
habitação unifamiliar que é universalmente considerada o seu suporte. 
Como outros críticos, têm encarado a casa individual como uma prisão 
para os seus habitantes e procurado uma unidade social mais ampla. E 
assim Kropotkin declarou: "Vivemos hoje muito isolados. A propriedade 
privada conduziu-nos a um individualismo egotista em todas as nossas 
relações mútuas. Só nos conhecemos uns aos outros superficialmente; os 
nossos contactos são demasiado raros. Mas conhecemos exemplos históricos 
duma vida comunitária em que o relacionamento inter pessoal é mais 
estreito - a "família composta" e as comunas agrárias da China por 
exemplo. Nestes casos os indivíduos conhecem-se realmente entre si. Pela 
força das circunstâncias têm de ajudar-se mutuamente tanto material como 
moralmente.

A vida familiar, baseada na comunidade original, desapareceu. Uma nova 
família, baseada em aspirações comuns, tomará o seu lugar. Nesta família 
as pessoas serão obrigadas a conhecer-se reciprocamente e a prestar-se 
apoio moral em toda e qualquer ocasião..."13

Kropotkin, como Tolstoi, inspiraram uma longa série de empreendimentos 
comunitários visando combinar a vida com uma horticultura intensiva. A 
duração geralmente curta destes empreendimentos foi bem estudada 
retrospectivamente.14 Pouco nos esclarecem quanto à natureza da casa 
anarquista, dado que os seus iniciadores eram pobres e tinham de 
aproveitar quaisquer edificações disponíveis. Mas um desses 
empreendimentos falhados na Grã Bretanha motivou um comentário muito 
significativo de Kropotkin foi a colónia cooperativa e comunista livre 
de Clousdon Hill, estabelecida numa quinta oito hectares perto de 
Newcastle-upon-Tyne, em 1895. Os fundadores escreveram-lhe a pedir 
conselho, e o seu conselho foi interessante. Aconselhou os colonos a não 
se isolarem da comunidade circundante, insistindo em que "se devia 
evitar um estilo de vida semelhante ao das casernas optando-se, em vez 
disso pelos esforços conjugados de famílias independentes" e referiu-se 
à situação das mulheres em termos de grande sensatez. É importante, 
escreveu: "... fazer o possível para reduzir o trabalho doméstico ao 
mínimo indispensável ... Na maior parte das comunidades esta questão tem 
sido terrivelmente negligenciada. Mulheres e raparigas permanecem na 
nova sociedade como estavam na velha - escravas da comunidade. Têm de 
encontrar-se meios para reduzir tanto quanto possível a incrivel 
quantidade de trabalho inutilmente dispendido pelas mulheres na criação 
dos filhos e nas tarefas domésticas pois isto é, na minha opinião, tão 
essencial para o êxito da comunidade como o adequado tratamento dos 
campos, das estufas e da maquinaria agrícola. Ou mesmo mais. Mas 
enquanto cada comunidade sonha ter o mais perfeito equipamento agrícola 
e industrial, raramente presta atenção ao malbaratar de forças da 
escrava doméstica, a mulher".15

Em minha opinião, esta é uma das afirmações de Kropotkin menos 
conhecidas mas mais significativas duma abordagem anarquista. E tem 
enorme relevância para qualquer tentativa de definir a casa anarquista. 
Considerem-se os planos clássicos de casa: as villas palladianas, os 
palazzi italianos, a casa citadina inglesa georgiana. Ao contrário da 
maior parte da arquitectura moderna, eram e são infinitamente adaptáveis 
a múltiplos usos, porque não dependiam duma infindável variedade de 
serviços técnicos - água, gás, electricidade, sistemas de aquecimento e 
telecomunicações - que damos como adquiridos. (Como fez notar Le 
Corbusier: "Felizmente para Ledoux: nenhum tubo"). Na verdade, todas 
estas comodidades eram asseguradas por meios humanos: escravos, servos, 
criadas, lavadeiras, moços de recados. Basta ver as Bodas de Figaro para 
recordar de que maneira os servos eram parte da arquitectura: a 
argamassa que realmente a sustentava.

À medida que o pessoal de serviço se foi reduzindo, os projectistas de 
imóveis continuaram a dar prioridade ao que se denominava 'sala de 
visitas' e ao 'quarto do dono da casa' (designação muito significativa) 
e diminuiram as áreas chave de serviço - cozinha, casa de banho, 
lavandaria - para áreas cada vez menores.

Este facto é bem analizado pelo experimentador americano Stewart Brand. 
Os leitores recordá-lo-ão talvez como instigador, nos anos de 1960 e 
1970, do Catálogo do Mundo Inteiro, que muitos países imitaram. Este 
homem reapareceu recentemente como autor do livro Como os Edifícios 
Ensinam: o que acontece após serem construidos, que sob muitos aspectos 
pode ser visto como um manual sobre a casa anarquista. Nele se abraça a 
filosofia de uma arquitectura de "Longa vida, estruturas leves, baixa 
energia", exigindo que cada construção tenha, desde o começo, a 
capacidade de se adaptar incessantemente às necessidades dos seus 
utilizadores. Há muitos anos o arquitecto anarquista Gian Carlo De Carlo 
declarou que os moradores devem atacar uma construção para a fazerem 
sua, e a frase que Brand adopta para definir este tipo de anarquia é o 
de "caos salutar".

Numa importante observação quanto ao modo como esta atitude altera a 
nossa abordagem das casas, Brand explica que: "Uma maneira de 
institucionalizar o caos salutar é repartir significativamente o poder 
de deliberar entre os moradores dum edifício enquanto o estão a 
utilizar. Note a diferença entre cozinhas delineadas para criada sem 
poder - habitualmente buracos escuros e apertados - e as cozinhas usadas 
pelos donos da casa - claras, espaçosas, centrais, cheias de 
comodidades. Uma construção 'ensina' muito mais depressa do que 
organizações inteiras. Isto sugere uma abordagem 'de baixo para cima' e 
não 'de cima para baixo' na hierarquisação humana duma construção... Com 
que é que se pareceria e como funcionaria um edifício delineado para o 
serviço fácil dos seus próprios utilizadores? Se as pessoas estão à 
vontade para efectuar a manutenção e reparações, o reordenamento surge 
naturalmente porque têm uma relação íntima com o seu espaço e sabem como 
melhorá-lo..."16

Há várias razões para prever que, embora as casas anarquistas sejam 
marginais relativamente à economia da habitação no mundo rico do século 
XX, venham a ser mais importantes no século XXI. E tenho várias razões 
para justificar esta previsão. A primeira é o dispendioso fracasso da 
política oficial de habitação nos países ocidentais, baseada na noção 
política de habitações para famílias nucleares. Mas na Grã Bretanha, 
Estados Unidos e França a maior parte dos lares não segue a norma 
estatistica. O sistema não foi delineado para as suas necessidades; 
terão pois de surgir casas comunitárias alternativas.

A segunda razão é a lição do mundo pobre e das populações pobres do 
mundo rico. A população oficiosa das cidades do mundo pobre é maior que 
a oficial. Onde quer que as pessoas pobres possam aceder a terrenos e 
materiais, construirão casas por si controladas, que crescem e se 
adaptam conforme as necessidades e as oportunidades.17

A terceira razão é o impacto do feminismo na elaboração dos projectos. 
Como Kropotkin indicou, metade da população esteve sempre excluída das 
decisões em matéria de alojamento mas, como Dolores Heyden mostrou, 
houve sempre uma abordagem alternativa, excluída da história.18

A minha última razão é o impacto do Movimento Verde e das condições de 
sustentabilidade ecológica. Actualmente, cada casa familiar faz um 
enorme investimento em serviços dissipadores de energia e em 
equipamentos de duração deliberadamente curta. A utilização racional de 
energia exige equipamentos duradouros, de baixo consumo energético e de 
utilização partilhada.19

O critério técnico de uma casa anarquista é "Vida longa, estruturas 
ligeiras, baixo consumo energético", o seu critério político é o 
princípio do Controlo pelos Moradores.

Colin Ward


Referências:
1  -  Janine Bailly-Herzberg (Editor), Correspondance de Camille 
Pissarro, 5 volumes, (Paris: Presses Universitaires de France, et 
Pontoioe: Éditions du Valhermeil, 1980-91).
2  -  Colin Ward, 'Preface' a John F. C. Turner, Housing by people: 
Towards Autonomy in Building Environments (Londres: Marion Boyars, 1976).
3  - John Turner em John F. C. Turner e Robert Fichter (Editores), 
Freedom to Build: Dweller Control of the Housing Process (Nova Iorque: 
Macmillan, 1972).
4  - Colin Ward, Welcome, Thinner City (Londres: Bedford Square Press, 
1989).
5  - John McKean, Learning from Segal (Basileia: Birkhäuser Verlag, 1989).
6  - John Broome and Brian Richardson, The Self-Build Book (Devon: Green 
Books, 1991).
7  - Colin Ward, Talking Houses (Londres: Freedom Press, 1990).
8  - Walter Segal Self Build Trust, 57 Shalton Street, London NW1 1HU.
9  - George Woodcock, Pierre-Joseph Proudhon, a Biography (Londres: 
Routledge & Kegan Paul, 1956).
10 - J. P. Cole, A Geogrphy of the USSR (Harmond Sworth: Penguin Books, 
1967).
11 - Hugh Stretton, Capitalism, Socialism and the environement 
(Cambridge University Press, 1976).
12 - Ian Hamilton, "Spatial Structure in East Europeen Cities" em F. E. 
French e I. Hamilton (Editores) The Socialist City (Chichester: John 
Wiley, 1979).
13 - Peter Kroptkin, Prisons and their Moral Influence on Prisoners 
(1877), reimpressa em Baldwin (Editor) Kropotkin's Revolutionary 
Paphflets (Nova Iorque: Vanguard Press, 1927; Dover Press, 1971).
14 - Para a experiência britânica ver Dennis Hardy, Alternative 
Communities in Nineteenth Century England (Londres: Longman, 1979).
15 - Peter Kropotkin, Carta publicada, com a sua permissão, em Newcastle 
Daily Chronicle de 20 de Fevereiro de 1895, citado em Colin Ward 
'Colonizando a Terra: Empreendimentos Utópicos' em The Raven, trimestral 
anarquista, nº 17, (vol. 5, nº1) Janeiro-Março 1992.
16 - Stewart Brand, How Buildings Learn (Nova Iorque e Londres: 
Penguin/Viking, 1994).
17 - Vejam- se, por exemplo, os livros de John Turner atrás citados. No 
contexto britânico veja-se de Dennis Hardy e Colin Ward, Arcadia for 
All: The Legacy of a Makeshift Landscape (Londres: Mansell, 1984).
18 - Dolores Hayden, The Grand Domestic Revolution: A History of 
Feminist Designs for American Homes, Neighbrhoods and Citias (Cambridge, 
Massachusetts: MIT Press, 1981).
19 - Em todas as línguas europeias há uma literatura sobre este tema.

(*)- Palestra proferida na conferência sobre Cultura Libertária, 
Grenoble, Março de 1996.
        Publicada em Colin Ward, Talking to Architects (Londres: Freedom 
Press, 1996).
  Existe igualmente uma tradução francesa mas sem bibliografia, publicada em
http://melior.univ-montp3fr/ra forum/fr/wardcolin/maisonanarchiste.html




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