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(pt) País basco - Ekintza Zuzena: contrainformação de qualidade

From "Moésio_Rebouças" <mr.ana@terra.com.br>
Date Sat, 26 Oct 2002 03:57:01 -0400 (EDT)


   ______________________________________________________
      A - I N F O S  S e r v i ç o  de  N o t í c i a s
                  http://www.ainfos.ca/
              http://ainfos.ca/index24.html
     ________________________________________________



É comum começar cada entrevista fazendo uma breve apresentação do 
entrevistado, desta vez vou começar de outra forma. Na verdade queria 
fazer uma declaração de amor para essa “niña-revista” chamada Ekintza 
Zuzena (Ação Direta em basco). Mas como não estou inspirado, vou 
apenas dizer que essa revista, editada em Vizcaia, Bilbao (Espanha), 
me marcou bastante, fez e faz parte do meu aprendizado libertário, 
acredito que de muita gente. Desde que recebi o primeiro número, essa 
publicação me impressionou sobremaneira. Seja pelas capas, o 
conteúdo, a qualidade gráfica, o bom-humor, as resenhas dos livros e 
discos, encartes... Enfim, viva EZ! Longa vida! Que venham mais 
EZs... Com vocês Ekintza Zuzena!

ANA > Desde a primeira edição, até hoje, qual foi o salto qualitativo 
da revista?  Quais as principais transformações?

Ekintza Zuzena < Poderíamos dizer que a revista sofreu vários saltos 
qualitativos ao longo de sua história. O primeiro foi o que se 
produziu em 1990, quando, depois de dois anos de existência, se 
decidiu dissolver o grupo anarquista "Iraun" que editava a revista. 
Este grupo surgiu numa época marcada por muitas lutas radicais nas 
ruas: ocupação, anti-repressão, feminismo, ecologia... Num princípio, 
igual que outros coletivos, participávamos de todas elas com nossas 
próprias siglas e com um proselitismo (que coloca a organização acima 
da luta) derivado de algumas inércias políticas e militantes 
herdadas. Esta forma de intervenção social pouco fundamentada 
politicamente, levou ao cansaço e frustração, e se revelou estéril e 
ineficaz, e inclusive eticamente questionável. As conclusões que 
sacamos deste período se podem resumir da seguinte maneira:

“A debilidade organizativa do anarquismo e os contínuos fracassos dos 
grupos anarquistas na sua tentativa de incidir socialmente, 
levam “Ekintza Zuzena” a projetar um  debate acerca das causas desta 
situação como uma das bases para o estabelecimento de sua linha 
informativa e de sua personalidade como revista. O fato inicial a 
considerar é que ao redor de uma mesma palavra se dão diferentes 
concepções que não convivem bem entre si. Em primeiro lugar, se 
constata que o anarquismo constitui em muitas ocasiões uma referência 
meramente organizativa, com vocação de agrupar as massas (ainda que 
isto não se consiga nunca), de caráter auto-centrados e definida de 
forma excludente pela ideologia, o que o conduz por outro lado ao 
sectarismo e ao isolamento. Uma ideologia que por um lado se 
apresenta como um produto a mais no mercado, de que se toma a imagem 
mas não o conteúdo, sem traçar modos de vida alternativos e novas 
formas e espaços de enfrentamento com a realidade, enquanto espera a 
chegada do “dia do juízo final revolucionário”. Ante esta situação, a 
revista busca novos debates sobre a forma de intervenção social 
efetivas (o movimento real), os grupos de afinidade, os movimentos 
sociais ou a contra-informação. Em segundo lugar, trata de indagar na 
essência e complexidade das diferentes formas de organização 
assembleárias, analisando seus vícios de funcionamento e as 
contradições que apresentam, e tornando perceptível a necessidade de 
se aprofundar nessas questões.” (Carlos Egia e Javier Bayón. 
Contrainformação, Alternativas de comunicação escrita em Euskal 
Herria, Felix Likiniano, Bilbao, 1997, pág. 118.)

A necessidade de conseguir esta formação política (que não se havia 
alcançado satisfatoriamente através das formas de ativismo 
anteriores), e de desenvolver uma capacidade de análise e crítica da 
complexa realidade em que havíamos nos inseridos, se traduz em 
apostar na revista “Ekintza Zuzena” como um meio de comunicação 
independente, que rechaça a subordinação hierárquica ou ideológica 
frente a qualquer tipo de organização, mas que, sem dúvida, afirma 
sua influência libertária, tanto que concebe esta referência como 
instrumento filosófico adequado para encher as margens da ética e do 
pensamento social. 

Um segundo câmbio qualitativo se produziu quando a revista apostou 
decididamente por converter-se num meio de qualidade, tanto no que se 
refere a seu conteúdo como a sua apresentação, no qual se traduz em 
que os ritmos de elaboração da publicação não venham determinados 
pela sujeição a datas concretas, mas sim, pela necessidade de reunir 
uma série de materiais, tanto escritos como gráficos, que em seu 
conjunto ofereçam singularidades e atrativos. Este mudança, supõe a 
consolidação da publicação dentro da categoria estética de “revista”, 
ainda que seu processo de edição não assalariado, assembleário e 
autogestionário a defina essencialmente como um fanzine. Neste 
sentido se outorga tanta importância aos conteúdos como a forma em 
que se organiza o grupo editor para elaborar tais conteúdos. 

ANA > Há 14 anos atrás, 15 pessoas faziam parte da revista. Hoje, 
esse número é o mesmo?

EZ < A quantidade de pessoas que levam adiante um projeto 
comunicativo não é um dado muito significativo, já que não 
necessariamente a presença de um maior número de pessoas no grupo 
editor assegura um melhor funcionamento. Diferentemente de um 
movimento social que pretenda realizar transformações em situações 
concretas, um projeto de comunicação pode se desenvolver 
dinamicamente com relativamente pouca gente. Em todo caso é preciso 
que haja um mínimo de pessoas cujos níveis de entendimento e 
compromisso façam factíveis o funcionamento assembleário e a 
existência não subordinada de uma rede de apoio e distribuição, que 
permitam uma eficaz difusão de conteúdos elaborados na publicação.

ANA > Como funciona o processo de edição da revista? Vocês têm uma 
redação, um local de reunião?

EZ < O trabalho concreto do grupo editor da revista não é só o de 
elaborar conteúdos, mas também de buscar, avaliar, selecionar e 
veicular os conteúdos que considera mais adequado em uma determinada 
conjuntura político-social. Os membros da redação se limitam, no 
geral, a contribuírem criativamente em determinadas seções da 
revista, como as de resenhas literárias ou musicais, ou as páginas 
centrais, onde se inclui um suplemento de humor. Os textos, histórias 
em quadrinhos etc. que chegam ou são solicitados, são divididos entre 
todos os integrantes da revista, para que sejam lidos e avalizados. 
Não realizamos assembléias fixas, e sim em função das necessidades, 
mantendo um mínimo de funcionamento, e permitindo que a dinâmica da 
publicação não crie obstáculo ou limite a participação em outras 
lutas sociais. Nas assembléias, se avaliam os materiais disponíveis e 
outras questões que sejam estabelecidas. A seleção dos textos é 
realizada por consenso, tratando por um lado de potencializar o 
debate, e por outro de evitar o funcionamento democrático 
maiorias/minorias. Não dispomos de uma redação fixa nem de meios 
técnicos próprios.

ANA > Um aspecto que chama muito a atenção na revista, são as 
fotografias, que não são um simples acessório dos textos, mas imagens 
que trazem muita emoção. Como vocês conseguem essas fotos?

EZ < O aspecto gráfico é muito importante para nós, mas salvo 
ilustrações concretas que resultam de contribuições originais, e dada 
a precariedade de meios econômicos na qual nos encontramos, a maioria 
do material gráfico surge de uma busca constante e minuciosa de 
imagens em jornais, livros, revistas etc., que vão sendo arquivados. 
Dessa maneira, quando é necessário, se dispõe de um material adequado 
para cada texto, com força própria e que, no geral, não se repete em 
sucessivos números.

ANA > Como é o esquema de distribuição e divulgação da revista? Um 
tempo atrás vocês faziam uns cartazes super bonitos para divulgá-la. 
Continuam fazendo isso?

EZ < A revista é distribuída unicamente por canais alternativos, 
através de distribuidoras alternativas, assinaturas, trocas e apoios 
pessoais. Os lugares de distribuição são basicamente locais dos 
movimentos sociais ou sindicais, livrarias e bares. O circuito de 
distribuição é Euskal Herria e o Estado espanhol, mantendo também 
contatos na Europa e América Latina. Quanto à publicidade, são 
enviados exemplares da revista a meios de difusão alternativos, 
imprensa de esquerda e alguns jornais bascos que se mostram 
receptivos. Também são editados cartazes de divulgação, sempre 
tratando de que, ainda que modestos, sejam provocantes ou chamativos. 
Em algumas ocasiões se fazem apresentações da publicação, tomando 
como eixo condutor um dos temas incluídos no número correspondente. 
Igualmente, em alguns momentos significativos, como aniversários da 
revista, foram realizadas jornadas com palestras, vídeos, música e 
teatro.

ANA > O “movimento” libertário espanhol tem consciência de se manter 
uma revista desta viva? Vocês se sentem isolados financeiramente? 
Parece-me que é uma aventura lançar cada número da revista, não?

EZ < Tal como é possível perceber na pergunta, não se pode falar de 
um “movimento” propriamente dito no Estado espanhol. Existem 
diferentes tendências e experiências com desigual nível de 
conhecimento e coordenação. Entre muitos dos diferentes grupos ou 
indivíduos que se dizem libertários (e em outros que não o fazem, mas 
compartilham certas simpatias ou interesses) existe um reconhecimento 
da trajetória da revista, que é, sem dúvida, uma referência, apesar 
de ser modesta. Deve-se ter em conta que “Ekintza Zuzena” leva quase 
15 anos saindo às ruas, sem perder sua beleza e sua qualidade, o que, 
dado o caráter voluntário do projeto, é um fato bastante 
significativo. Com relação ao tema econômico, não buscamos 
rentabilidade, e sim oferecer o máximo de conteúdo aos leitores. 
Apesar da publicação vender grande parte da tiragem, não é capaz de 
autofinanciar-se completamente, o que se agrava porque quase sempre 
há problemas para se cobrar parte dos exemplares distribuídos. Para 
tratar de atenuar este problema, se realizam concertos ou se editam 
materiais complementares.

ANA > Qual a relação que vocês têm com outras publicações espanholas?

EZ < Nossa forma principal de relação com outras publicações, tanto 
do Estado espanhol quanto de outros lugares, é através do 
intercâmbio. Algumas vezes foram realizados encontros de contra-
informação, mas não houve continuidade dos mesmos. No geral, não 
temos visto a necessidade real de estabelecer canais de comunicação e 
debate mais estáveis que o do mero intercâmbio, ou se houve essa 
necessidade, por exemplo, no caso de certos boletins de notícias, não 
houve capacidade para levar adiante uma coordenação duradoura. Em 
conclusão, e salvo exceções, cada projeto segue solitário ou já 
desapareceu.

ANA > Fale um pouco do panorama das publicações libertárias ou 
alternativas na Espanha. Algum destaque, críticas...

EZ < Atualmente existem muitas publicações libertárias ou 
alternativas no Estado espanhol, com diferentes estruturas e difusão. 
Geralmente as publicações libertárias, salvo aqueles editadas por 
organizações com um certo peso, são muito modestas e irregulares. São 
elaboradas fundamentalmente por sindicatos que se dizem anarco- 
sindicalistas, como a CNT, CGT ou Solidaridad Obrera, grupos 
políticos e culturais, ateneus, fundações libertárias e 
individualidades. Existem tanto em papel como em formato eletrônico. 
A existência dessa pluralidade de publicações define o anarquismo 
como um movimento historicamente muito preocupado pela educação e a 
formação como elementos de mudança social e - diferentemente de 
outras linhas políticas mais pragmáticas ou “científicas” - não foi 
desprezado o voluntarismo e a iniciativa individual ou de grupos de 
afinidade na hora de desenvolver qualquer iniciativa. Nesse sentido, 
e se comparamos com outras ideologias políticas podemos dizer que o 
movimento libertário é o que edita um maior número de publicações. 
Pode-se citar, entre outras, publicações como Polémica, Amor y Rabia, 
Al Margen, Etcétera, CNT, Maldeojo, Salamandra, La Campana, 
Solidaridad Obrera, La Lletra A, Rojo y Negro, Libre Pensamiento ou 
Tierra y Libertad. 

Com relação às publicações alternativas (incidindo na dificuldade de 
definir este termo) ou de esquerda, existem também muitas 
experiências, desde as ligadas a partidos ou movimentos, a outras de 
caráter mais comercial. Poderia-se destacar, entre outras, a 
revista “Kalegorria”, que distribui via assinaturas vários milhares 
de exemplares em todo o Estado, e em cuja origem estão o jornal Egin 
e a revista Ardibeltza, que foram fechados pelo juiz Baltasar Garzón 
dentro da política de repressão contra a independência Basca  em 1998 
e 2000, respectivamente. Esta é a publicação política de esquerda não-
diária mais importante do Estado espanhol, e conta com uma estrutura 
profissional. Também podem destacar-se o jornal mensal “Molotov”, 
editado em Madrid, com uma mínima estrutura de trabalho assalariado, 
cobertura estatal e uma tiragem de vários milhares de exemplares. 
Outras publicações resenháveis são El Viejo Topo, El Otro País, Hika, 
Contrapoder, Resumen Latinoamericano, Archipiélago, Nación Árabe, 
Panóptico etc.

ANA > Ano passado o "Le Monde Libertaire", semanário da Federação 
Anarquista Francesa, divulgou uma charge brincando com o Le Pen, e 
por isso esse fascista tentou fechar o jornal com um processo 
judicial, mas não conseguiu. Vocês já passaram por algo parecido, por 
alguma censura? Já que vocês, através do encarte de humor da revista, 
escracham todo mundo, diversos políticos espanhóis...

EZ < Até o momento não tivemos tido problemas judiciais nem 
tentativas de censura governamental, apesar de que já saímos 
indicados em algum meio de comunicação - dentro da paranóia 
antiterrorista e antivasca que se vive no Estado espanhol - 
como "publicação pró-ETA". No fundo esta acusação faz parte da 
estratégia de acosso e criminalização contra qualquer tipo de grupo 
dissidente. Em qualquer caso, deve-se ter em conta que, dentro do 
atual conflito político que vive o País Basco, expressões como a 
nossa, ainda que possam ter um indubitável valor qualitativo, jogam 
um papel marginal e, normalmente, salvo em momentos repressivos 
concretos ou por pura casualidade, não se convertem em alvo da 
repressão. A sistemática política repressiva midiática, policial e 
judicial do Estado espanhol (que levou à existência de mais de 600 
presos políticos bascos e milhares de refugiados e deportados) se 
dirige na atualidade basicamente contra o movimento de esquerda 
independentista, sob a desculpa de terrorismo e a denúncia da "falta 
de liberdades" e a suposta defesa da "democracia, da constituição e 
do estatuto de autonomia Basco", obtendo neste sentido um alto grau 
de consenso social, especialmente fora do País Basco.

ANA > Percebe-se que na Espanha existem "muitas" publicações 
libertárias, anti-autoritárias. Vocês nunca pensaram em formar uma 
rede de contra-informação, para editar um jornal, ou revista com 
capacidade de intervenção, grande tiragem, periodicidade regular 
mesmo?

EZ < - Houve diversas iniciativas para criar meios de comunicação 
libertários com uma projeção mais ampla, mas até o momento nenhum 
deles prosperou, sendo neste sentido um mero reflexo da realidade 
atual da divisão e fragmentação do movimento libertário.

No nosso caso, em algum momento de nossa história tivemos contatos 
com outras pessoas, houve planos de funcionarmos-nos com a revista 
vasca "Resiste" (desaparecida em 1997). A iniciativa não chegou a 
prosperar e dessa época tiramos várias conclusões: 1) 1 + 1 não são 
necessariamente 2. Às vezes trabalhar com projetos com a intenção de 
fazer um maior pode levar ao desaparecimento dos projetos iniciais, e 
que o novo tampouco funcione por diversas causas. 2) Uma publicação 
que se baseia no esforço militante, funciona muitas vezes na base do 
que é capaz de adaptar-se às possibilidades e ritmos das pessoas que 
o compõem. O conhecimento mútuo e o bom entendimento entre os 
integrantes do projeto ajuda também a que dito funcionamento seja 
melhor. Quando se inicia um trabalho com pessoas com as quais não se 
teve uma experiência prolongada de trabalho comum, é inevitável que 
surjam discrepâncias e maus entendidos e que se necessite um 
determinado tempo a fim de conhecer-se e entrar em consenso sobre 
determinadas coisas e isso pode ser problemático, já que nesses casos 
quase sempre se opera com certa pressa e com um certo 
afã "produtivista". Isso não quer dizer que não se possa chegar a 
acordos e a desenvolver projetos amplos com outras pessoas, mas 
sempre tendo contra que às pressas (salvo em situações extremas) são 
más conselheiras e que às vezes existe uma fascinação pela construção 
de coisas gigantes que sejam capazes de opor-se a nossos poderosos 
inimigos, jogando com muitas de suas regras e caindo, em certas 
ocasiões, em grandes contradições. Seria interessante, quiçá, incidir 
a potencialidade dos pequenos projetos e em sua capacidade de inter-
relacionar-se não só entre eles, e sim com o meio no qual se 
desenvolvem.

ANA > Na época da revolução espanhola, o "Solidariedad Obrera" chegou 
a ter uma tiragem de 200 mil exemplares. Vocês acreditam que essa é 
uma utopia distante para os dias atuais?

 

EZ < No momento atual não parece muito provável que possa existir uma 
publicação anarquista, anarcosindicalista ou até mesmo alternativa 
que possa alcançar tiragens semelhantes, porque 
evidentemente “Solidaridad Obrera” respondia a um contexto histórico 
que agora não se dá, e querer provocá-lo artificialmente, quer dizer, 
criando o meio antes que a base social seria cair no mesmo espetáculo 
do poder. Qualquer projeto, seja grande ou pequeno, que pretenda ser 
transformador deve ser fruto de um trabalho continuo e de uma inter-
relação viva com seu entorno. A partir daí, e dependendo de diversos 
fatores, se desenvolverá em maior ou menor medida.

ANA > Que publicação internacional que vocês gostam?

EZ < É impossível destacar somente uma publicação, até poucas, já que 
em diversos países encontramos com muitas pequenas ou grandes jóias.

ANA > Não sei se vocês concordam comigo, mas muitas publicações 
libertárias, de todo o mundo, são muito repetitivas na abordagem de 
assuntos, de ilustrações... falta uma certa criatividade. Vocês acham 
que falta poder de análise da sociedade, das problemáticas atuais 
para as novas gerações de anarquistas? Que não sabemos escrever? Não 
sei se estou sendo muito radical.  Enfim…

EZ > Isso também é um reflexo da realidade do movimento libertário, 
em que não se dá um debate em profundidade e sem complexos, e existe 
um ademais aniquilador das estruturas militantes, o que lhes impede 
analisar adequadamente os problemas e inserir-se nas lutas sociais. 
Às vezes, quiçá, somos repetitivos porque temos necessidades de 
incidir no que está acontecendo de alguma maneira, e ao não saber 
muito bem recorremos a certos “lugares comuns” e ao fácil recurso de 
querer amoldar a realidade a nossos esquemas ideológicos. Este 
esquematismo ou “ideologização” da realidade em muitos casos acaba 
negando ou cobrindo com um manto de prejuízos que a faz 
incompreensível. A capacidade para pensar e criticar existe, só há 
que tratar de fazer um esforço para ser honesto e admitir as próprias 
deficiências e desorientações, assim como a necessidade de confrontar 
com humildade e imaginação nossas idéias e práticas com as dos 
outros. Desse “desnudar-se” podem surgir experiências, que nos 
permitam reviver, não tanto como “ideologia”, mas como pratica social 
viva.

ANA > Uma coisa que me chama a atenção na revista, e que eu gosto 
bastante, é que é muito raro vocês editarem alguma matéria falando 
dos "grandes" anarquistas, tipo Bakunin, Malatesta, Proudhon... Por 
outro lado, outras publicações libertárias estão sempre editando 
alguma coisa destes anarquistas. Não sei, mas parece que algumas 
publicações libertárias pararam no tempo. 

EZ < Preferimos oferecer textos sobre questões atuais ou revisões de 
fatos históricos vistos desde o presente, que resgatar escritos de 
autores clássicos. Nos parece que isso possa ser mais adequado ao 
tempo em que vivemos, que tem particularidades que evidentemente não 
puderam conhecer as pessoas que viveram e escreveram há um século. 
Isto não implica em renunciar a oferecer testemunhos ou referências 
diretas desse passado que possam ser perfeitamente válidas em nossa 
realidade.

ANA > Uma curiosidade. Jabi, você presenciou durante o "Encontro 
Internacional de Cultura Libertária", de Florianópolis, em 2000, 
uma "assembléia", que se discutia a criação de uma Federação 
Anarquista Brasileira. Bem, o que você achou daquilo tudo? Daquela 
confusão? Já tinha visto algo igual? 

Jabi < Não é raro encontrar em qualquer lugar com este tipo de 
acalorados debates e a dificuldade de organizar-se e entender-se. Aí 
influem muitos aspectos, tanto de índole pessoal como grupal. Às 
vezes essas brigas partem, tanto da intolerância e do medo de 
confrontar-se com a realidade como da desorientação. Ainda assim, é 
melhor assistir a este pequeno caos em que somos, pelo menos, os 
protagonistas e tratarmos, ainda que seja indecisamente, de buscar 
nosso caminho, ao invés de deixar que nos organizem burocratas e 
profissionais da política.

ANA > Bem, acho que é isso. Querem acrescentar algo?

EZ < Somente dar ânimo às pessoas que em cada lugar do mundo estão 
tratando de lutar um pouco contra os "inimigos objetivos", e outro 
pouco contra si mesmo, para construir essa utopia de liberdade e 
dignidade que é cada vez mais necessária.

 

www.nodo50.org/ekintza

 

Colaborou Karina Lima, Belo Horizonte (MG)

 

 

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